Laudas Críticas

Sarney minimizou devastação da Amazônia em seu governo

(Publicado na Folha de S. Paulo, quarta-feira, 10/mai/1989, pág. C-1)

MAURÍCIO TUFFANI

Enviado especial a São José dos Campos (SP)

O presidente José Sarney fez uma afirmação falsa em seu discurso de apresentação do programa “Nossa Natureza” no dia 6 de abril. Na ocasião, Sarney declarou que ao período de seu governo “correspondente a uma taxa mínima de 251,4 mil km2 apontados pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) como total área desmatada na Amazônia até 1988. No entanto, de acordo com o próprio Inpe, só em 1987 (o presidente tomou posse em 1985) foi desmatado quase um terço desse total”.

Dos 204,6 mil km2 de área atingida por queimadas de abril a outubro de 1987, cerca de 40% (80 mil km2) referem-se a floresta “recém-derrubada”, segundo o relatório referente ao período do programa SEQE – Sensoriamento de Queimadas por Satélites. “Esses desmatamentos ocorreram em 1987”, afirmou ontem à Folha o responsável pelo documento, o meteorologista Alberto Waingort Setzer, do Inpe. Os 60% restantes correspondem principalmente a áreas utilizadas na agropecuária, desmatadas anteriormente.

De acordo com projeções feitas pelo extinto Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), cerca de 125 mil km2 de vegetação seriam queimados em toda a Amazônia em 1987. Segundo Setzer, o aumento da área queimada e, particularmente, da área, da área florestal devastada deveu-se à ação de grandes proprietários de terra na região, preocupados com a possibilidade de aprovação de medidas preservacionistas pelo Congresso constituinte. Desmatando suas propriedades, diz Setzer, os proprietários anteciparam-se a possíveis restrições do uso da terra em áreas florestais.

Nos meses de agosto e setembro de 1987, os aeroportos de Porto Velho (Rondônia), Cuiabá (Mato Grosso) e Rio Branco (Acre) permaneceram vários dias fechados por causa da fumaça das queimadas. Segundo o relatório do projeto SEQE, a quantidade de material particulado lançado na atmosfera pela queima de vegetação nos 204,6 mil km2 da Amazônia foi “altamente significativa em termos de aumento da poluição do planeta”. Além disso, a população da área foi afetada por problemas respiratórios causados pela fuligem no ar.

O documento do SEQE foi revisado por João Roberto dos Santos, um dos cientistas que elaboraram o relatório da “Operação Desmatamento” ― como foi denominada a mobilização de técnicos do Inpe para fazer o levantamento das áreas desmatadas na Amazônia até 1988. O trabalho de monitoramento de queimadas em 1987 foi realizado pelo Inpe e pelo IBDF. As imagens analisadas foram obtidas através do satélite NOAA-9, apontado no relatório da “Operação Desmatamento” como “uma ferramenta extremamente útil para a vigilância de queimadas no território nacional”. Além dos dados de sensoriamento remoto, a equipe do projeto SEQE contou também com fotografias de vôos de reconhecimento e de informações de pesquisa de campo.

O diretor-geral do Inpe, Marcio Nogueira Barbosa, 37, afirmou em abril que o relatório do SEQE referente às queimadas de 1988 estava atrasado por causa da administração anterior, que não teria destinado os recursos financeiros necessários para o trabalho da equipe de Setzer. Marco Antonio Raupp, seu antecessor no cargo, disse que durante sua gestão a responsabilidade pelo programa cabia a Barbosa, que era, então, diretor de sensoriamento remoto.

Sobre os dados do projeto SEQE referentes às queimadas de 1988, Alberto Setzer limitou-se a dizer que eles estão prontos e são “bem menores do que os de 1987”. O pesquisador afirmou que as conclusões do trabalho só serão apresentadas após a finalização do relatório técnico, o que deverá ocorrer ainda neste mês.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 22/07/2008 às 12:24

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