Laudas Críticas

Inpe tenta explicar dados maquiados da Amazônia

(Publicado na Folha de S. Paulo, sexta-feira, 12 de maio de 1989, pág. A-9)

MAURÍCIO TUFFANI

da Redação

O Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou ontem uma nova nota com a posição oficial do órgão sobre a maquiagem de dados do desmatamento do Amazônia. Uma outra nota, menor do que a publicada ontem, tinha sido divulgada segunda-feira. A nova nota pretende esclarecer “de forma definitiva” a controvérsia. Segundo o texto, o instituto não alterou os resultados sobre desmatamento da área na segunda edição do relatório que fez a pedido do presidente José Sarney.

A afirmação oficial do Inpe é falsa. No segundo relatório, divulgado pela Folha no domingo, há dados que não foram apresentados no primeiro, referentes ao desmatamento realizado anteriormente à década de 60.

De acordo com a primeira versão, que serviu de base ao pronunciamento de Sarney no anúncio do programa “Nossa natureza”, em 6 de abril, as “áreas alteradas de floresta (desmatamento) dentro dos limites da Amazônia Legal até o ano de 1988” correspondem a 251.429,55 km2. Em nenhuma página do documento é dito que este número exclui desmatamentos antigos. Além desse cálculo, na segunda versão do documento consta um outro: 343.975,98 km2 são dados como total de florestas devastadas até o ano passado. Incluem-se aí as áreas de desmatamentos antigos omitidas na primeira versão. A diferença (92.545,73 km2) é quase igual ao dobro da área do Estado do Rio de Janeiro.

Apesar da correção no segundo relatório, o Inpe ainda tenta justificar a não inclusão dos dados anteriores a 1960. Na nota, diz que “não faz sentido considerar as áreas de desmatamento antigo como elemento de preocupação para a avaliação de impacto de políticas governamentais de ocupação da Amazônia”. Mas essa justificativa não é apresentada na primeira edição do relatório da “Operação Desmatamento” como foi denominada a mobilização de técnicos do Inpe para o levantamento. A nota diz que no levantamento do órgão em 1980 adotou-se o mesmo procedimento.

O comunicado oficial do Inpe menciona o cientista Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, como uma das fontes dos dados de desmatamentos antigos. Apesar disso, a nota omite a posição do pesquisador, que defende a inclusão desses desmatamentos no total de áreas de floresta devastadas.

Em 1984, Fearnside afirmou que esse procedimento fez o Inpe subestimar os números da devastação até 1980. “Os dados mais importantes quanto à totalidade da Amazônia Legal Brasileira provêm de imagens do satélite Landsat. As informações que essas imagens fornecem (…) são geralmente apresentadas de um modo que dá ênfase ao aspecto mais tranqüilizador dos resultados indicando que apenas uma pequena fração da região foi desmatada são altamente enganadores”, disse o cientista em seu artigo na revista Ciência Hoje (nº 10, janeiro/fevereiro de 1984, págs. 42-53).

Não bastassem as omissões no primeiro relatório, o Inpe — embora não o reconheça ― alterou outros dados na segunda versão, sem qualquer justificativa. A devastação no Maranhão ― terra natal do presidente Sarney ―, de acordo com o primeiro levantamento, atingiu 60.724,43 km2. Na segunda versão, esse número subiu 39,14%, aumentando para 84.495,43 km2. Os 23.771 km2 de diferença correspondem a uma área pouco maior que Sergipe.

A nota oficial do Inpe não responde à questão levantada pela Folha no dia 14 de abril a respeito dos dados de desmatamentos no Acre. O relatório do Instituto aponta um total de 5.509,64 km2 de área devastada nesse Estado até 1988. No entanto, dados do extinto Instituto de Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) indicam que até 1987 já haviam sido desmatados 8.132,5 km2. Este número consta do relatório do programa de Monitoramento da Cobertura Vegetal Brasileira do IBDF, que também usou imagens do satélite Landsat, o mesmo da “Operação Desmatamento”. Se os dois documentos estiverem corretos, o Acre “ganhou” uma floresta de tamanho equivalente ao município de Araçatuba (cerca de 2,6 mil km2).

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 22/07/2008 às 12:28

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