Laudas Críticas

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Lombroso, espiritismo e ceticismo

Cesare Lombroso (1835-1909)A edição de hoje (sábado, 03/01) de O Estado de S. Paulo sinaliza a possibilidade de o espiritismo virar objeto de polêmica em 2009. Em 19 de outubro se completarão cem anos desde a morte do médico italiano Cesare Lombroso (1835-1909), um dos expoentes da criminologia como disciplina científica. A efeméride é lembrada no Estadão por Miguel Reale Júnior. Em seu artigo “Razão e religião”, o jurista destaca a ligação do pesquisador italiano com a doutrina espírita.

Adepto do positivismo de Auguste Comte (1798-1857), Lombroso foi um dos principais nomes da escola positiva do direito penal (ver Lélio Braga Calhau, “Criminologia e a Escola Positiva do Direito Penal”, Jus Navigandi, julho de 2003). Suas incursões no espiritismo aconteceram a partir de 1891 ao aceitar o desafio público do divulgador e propagandista espírita Ercole Chiaia para acompanhar, com outros pesquisadores, sessões da médium Eusapia Paladino (1854-1918).

Lombroso acabou convertendo-se ao espiritismo se retratou das contestações em tom de deboche feitas por ele a essa doutrina aos chamados fatos espíritas em seu livro Studi sull’Ipnotismo, de 1892 (ver Patricia Fazio, “Ricerca personale su Cesare Lombroso”, Il Foro Universitario, 18/03/2007). Por mais que se desacredite dessa atividade das duas últimas décadas de vida do criminologista italiano — e desde já deixo claro meu “pé-atrás” com o assunto —, é inaceitável que ela muitas vezes tenha sido simplesmente varrida para baixo do tapete.

Se a efeméride da morte de Lombroso trouxer novas discussões sobre o assunto, só espero que sejam menos surdos os antagonismos sempre surgem com questões desse tipo. A esse respeito, temos ainda muito a aprender com o bom e velho ceticismo de Pirro de Élis (c. 360-275 a.C.), imortalizado por Sexto Empírico (c. 160-210 d.C.) em sua obra Hipotiposes Pirrônicas. Para não alongar demais no assunto, mostro do que se trata com as sintéticas considerações de Plínio Junqueira Smith a seguir.

A terapia pirrônica, tal como no-la descreve Sexto, faz-se por meio da oposição de discursos e razões e supõe que os dogmáticos sofrem de precipitação e arrogância, que se manifestariam na adesão apressada a um discurso argumentativo e a uma tese em detrimento da tese e discurso argumentativo opostos. O problema do dogmático não consiste na adoção desta ou daquela tese filosófica, mas numa atitude que se caracteriza pela precipitação e pela arrogância. É essa atitude, segundo Sexto, que deve ser tratada. Além disso, a idéia pirrônica é que essa atitude dogmática é fonte de perturbação e de uma vida pior.
(Plínio Junqueira Smith, “Ceticismo dogmático e ceticismo sem dogmas”. Integração. nº 45, abr./mai./jun. 2006, pp. 181-182.)

Claro que isso não tem nada a ver com o que se convencionou chamar de ceticismo nos últimos tempos.

PS das 11h46 — As correções do terceiro parágrafo acima foram feitas em função do comentário de Luiz Roberto Turatti, a quem agradeço pelos esclarecimentos (ver abaixo).

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 03/01/2009 at 11:02

Publicado em Ciência, Filosofia, Religião

‘Físico da alma’ quer unir darwinismo e criacionismo

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Já pensei em colocar na coluna de links deste blog um item chamado Antibibliografia. Nele certamente entrariam todos os livros do midiático físico indiano Amit Goswami. Por dever de ofício, tive de ler quase todas as suas obras. Na mais recente, Deus Não Está Morto: Evidências científicas da existência divina (Tradução de Marcello Borges. São Paulo: Editora Aleph, 2008, 304 pp., R$ 46), a estratégia retórica é a mesma dos livros anteriores: dizer a leitores ávidos por uma prova de existência divina exatamente aquilo que eles esperam, fugir da confrontação com aspectos polêmicos e dar um ar de erudição às suas considerações com o apelo a superficialidades e até a equívocos típicos da cultura de almanaque.

O aparato de divulgação de Goswami costuma apresentá-lo ora como “um dos principais físicos da atualidade”, ora como um “revolucionário em um corpo crescente de cientistas renegados” (ver seu site oficial). Ele é, de fato, um dos físicos mais conhecidos da atualidade, não por causa de sua atuação na física, mas devido ao sucesso com vendas de seus livros, com suas palestras organizadas em vários países pelos editores de seus livros e também por sua participação nos filmes Quem Somos Nós?, em 2004, e O Segredo, em 2006. Em outras palavras, seu sucesso se deve somente à mídia.

Uma coisa é tentar promover a discussão entre partidários de teses contrárias. Certamente isso não levará nunca a um consenso. Nem deve se esperar por esse resultado, mas o processo é sempre enriquecedor para aqueles que se esforçam para compreender argumentos contrários. Porém, outra coisa é a pretensão de Goswami de ter formulado um novo paradigma científico no qual coexistiriam os princípios do evolucionismo e do criacionismo. Essa formulação, que dependeria de muita pesquisa e reflexão científica e filosófica, cresce à vontade em muitos nichos midiáticos.

Conclusões forçadas

Nesse livro, o físico indiano repete, sem dar novos argumentos, a mesma tese, apresentada em publicações anteriores, de que o universo é matematicamente inconsistente sem a hipótese da existência de Deus.

O primeiro tipo de evidência científica para a existência de Deus é o que chamo “as assinaturas quânticas do divino”. A física quântica nos oferece novos aspectos da realidade — as assinaturas quânticas — e, para compreendê-las, explicá-las e apreciá-las, somos obrigados a introduzir a hipótese de Deus. Um exemplo é a não-localidade quântica, a comunicação sem sinal. A comunicação normal é uma comunicação local, realizada por meio de sinais que transportam energia. Mas, em 1982, Alain Aspect e seus colaboradores confirmaram em laboratório a existência de comunicações que não exigem esses sinais. [pág. 5]

Goswami se refere nesse trecho a um dos mais importantes experimentos da física do século XX. Seus resultados foram publicados em 20/12/1982 no mais conceituado periódico especializado em física, o Physical Review Letters. O estudo, apresentado no artigo “Experimental Test of Bell’s Inequalities Using Time-Varying Analyzers” pelo francês Alan Aspect e seus colaboradores do Instituto de Óptica, de Paris, contrariou a previsão da Teoria da Relatividade para velocidades maiores que a da luz e provocou muitas questões não só na física, mas também na filosofia [ver Sílvio Seno Chibeni, “Implicações filosóficas da microfísica”, Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Série 3, 2 (2): 141-164, 1992].

No entanto, todas as implicações do trabalho de Aspect, assim como as de outros, trazem muito mais interrogações do que conclusões forçadas como a de Goswami. Por mais que dela se discorde, seria perfeitamente compreensível a atitude daqueles que crêem na existência divina de responder a essas questões com base em sua crença. No entanto, para aqueles que não são crentes — como o físico indiano até antes de refletir sobre esses problemas, segundo ele afirma — não faz sentido se apegar a essa hipótese.

Argumento da ignorância

Feita por parte de alguém que se diz ter sido ateu e que se defrontou com essas questões da microfísica, a opção de Goswami incorre naquilo que em lógica é chamado de falácia do argumento da ignorância, como mostram os trechos a seguir.

(…) recentemente, tem surgido muita controvérsia sobre teorias criacionistas/desígnio inteligente versus evolucionismo. Por que toda essa polêmica? Porque, mesmo depois de 150 anos de darwinismo, os evolucionistas ainda não têm uma teoria à prova de falhas. Não podem sequer explicar os dados fósseis, especialmente as lacunas fósseis, e também não podem dar explicações satisfatórias sobre como e porque a vida parece ter sido projetada de forma tão inteligente. [p. 5]

E, pouco mais adiante, ele acrescenta:

A chave, neste sentido, seria perguntar: “Haverá uma alternativa para ambas essas abordagens que concorde com todos os dados?” Minha resposta é sim, e vou demonstrá-la nesta obra. Porém, a resposta exige a existência de um Deus com poderes causais e de um corpo sutil que atua como gabarito da forma biológica; o materialismo não permite nenhuma dessas duas entidades. E, assim, problemas impossíveis requerem soluções impossíveis! [p. 6]

Em outras palavras, em face do desconhecimento de explicações no âmbito das teorias que são alvos de suas críticas, ele conclui que não há explicações possíveis, uma vez que postula a existência divina como única alternativa.

Precariedade filosófica

Não bastassem essas e outras saídas forçadas, o físico indiano mostrou nessa obra com mais clareza sua precariedade no plano filosófico. Sua forma de lidar com a idéia de um princípio finalista revela sua confusão entre essa noção e a de criação, que até para alguns pensadores medievais teve de ser objeto de demonstração.  Muitos séculos antes deles, o  próprio Aristóteles, que formulou a causa final (télos) exterior aos processos por ela guiados, em seu livro Sobre o Céu (Livro B, Capítulo 1, 283b26-29) afirmou que

(…) o mundo certamente não foi gerado nem pode ser destruído, como alguns alegam, é único e eterno, não tem começo nem fim em sua extensão e contém o tempo infinito.
[On the Heavens. Texto grego estabelecido por Immanuel Bekker. Introdução, tradução para o inglês e notas de William Guthrie. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library, Aristotle, vol. VI), 1934, pp. 130-131.]

Outra interpretação precária de Goswami é a do pensamento de Friedrich Nietzsche (1844-1900), apontado simploriamente por ele como o niilista que proclamou “Deus está morto” (págs. 53 e 60). O pensador alemão, foi, no entanto, um crítico do niilismo, este entendido como a incapacidade de o Ocidente construir valores para nortear a civilização, que se encontra cada vez mais, desde o início da modernidade, diante da falência de todos os valores supremos:

Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e o mais sagrado que o mundo até então  possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais — quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos teremos de inventar?
[A Gaia Ciência, § 125. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 148]

Longe de discussões

Apesar de ter sido lançado pouco antes das recentes discussões no Brasil sobre o evolucionismo e o criacionismo (ver neste blog “A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo”, de 15/12), Deus Não Está Morto escapou desse confronto. É bem possível que o subtítulo dado ao livro pelos editores brasileiros tenha ajudado a não evidenciar seu conteúdo relativo a esse antagonismo. A versão original é God is Dead: What quantum physics tells us about our origins and how we should live (Deus Não Está Morto: O que a física quântica nos diz sobre nossas origens e como deveríamos viver).

Na verdade, não existe a tal polêmica na ciência em torno das obras de Goswami, como pregam os divulgadores de seus livros. Eu mesmo afirmei isso pessoalmente a ele durante sua entrevista ao programa Roda Viva exibido em 11/02/2008 pela TV Cultura, de São Paulo.

Durante a gravação desse programa, que se realizou 27/08/2007, eu apresentei  os registros dele na base de dados Web of Science, que mostravam, naquela data, nove trabalhos publicados por ele após janeiro de 1986, quando deixou a “ciência materialista”. Esses nove artigos tiveram, até aquela ocasião, apenas 46 citações em pesquisas indexadas nessa base de dados em todo o mundo, quase todas feitas por ele próprio ou por pesquisadores ligados a ele. Em outras palavras, não havia, como até hoje não há, nenhuma repercussão significativa da atuação dele na ciência, muito menos uma polêmica científica em torno de suas idéias.

Eu disse a ele também que seus livros não discutem verdadeiramente as idéias científicas que aborda, pois ele apenas as cita em seus aspectos que lhe interessam, diferentemente do que costuma ser feito por cientistas, por mais parciais que eles sejam. Goswami, que tanto alega se basear na mecânica quântica, fez em seus livros várias considerações en passant sobre Albert Einstein (1879-1955) sem deixar claro que esse cientista durante as três últimas décadas de sua vida se posicionou contrariamente a essa teoria. À minha pergunta sobre esse procedimento que nada tem a ver com a forma de se resolver dúvidas na ciência, ele respondeu:

Infelizmente, o confronto não é o estilo recomendado pela visão de mundo que tenho… e a visão de mundo que explica a física quântica e que agora parece explicar muitos fenômenos inexplicáveis e que nem mesmo podem ser abordados pela visão de mundo materialista. Essa é uma abordagem muito amigável, inclusiva. Eu não acho que bater de frente em debates com cientistas específicos fará alguma coisa a favor da nossa causa de mudança de paradigma. O paradigma será mudado a partir do peso de evidências em favor dele. Atualmente, o que nos ajuda muito é que temos aplicações práticas na área da medicina, da psicologia… Infelizmente, eu acho que você não consultou quantas vezes a minha obra é citada em trabalhos de psicólogos, de profissionais da saúde e de outros, ainda, não-pertencentes às ciências puras. Sim, é verdade que aqueles das ciências puras, os físicos, os químicos e até mesmo os biólogos, preferem oferecer a chamada “negligência benigna”. Eles não se envolvem com essa questão, pois fazendo isso acabarão dando maior publicidade para mim, algo considerado por eles prejudicial à sua causa. Então, deixá-los viver do modo deles e nós do nosso é agora a melhor abordagem.

Em outras palavras, a explicação de Goswami é que não existe discussão na comunidade científica em torno das idéias dele porque existe uma conspiração para evitar de lhe dar maior publicidade. Por mais que ele mereça ter seus livros incluídos em antibibliografias, como eu disse acima em tom de brincadeira, o melhor mesmo é forçá-lo ao confronto de idéias. No entanto, até mesmo para isso teremos dificuldade, dada a crescente apatia da comunidade científica em geral para tratar de temas polêmicos. Enquanto isso, os espaços midiáticos vão sendo ocupados.

Em meio à sua decadência e à ascensão da burguesia mercantil, a Igreja Católica foi duramente abalada com a revolução gutenberguiana. Não sei se o capitalismo está em decadência, mas um de seus principais suportes ideológicos, o pensamento laico, vem sendo desprestigiado há algum tempo. Nesse contexto, em que algumas questões científicas já chegaram aos tribunais sem serem discutidas em outras instâncias, há bons motivos para pensar na possibilidade de a revolução da internet trazer surpresas. Já pensaram em mudanças científicas baseadas na preferência popular?

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 27/12/2008 at 16:28

A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo

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Caricatura de Charles Darwin na capa de "La Petite Lune", revista satirica parisiense dos anos 1880.O recente confronto entre criacionistas e o evolucionistas no Brasil está rendendo nos meios de comunicação muitas manifestações que pouco colaboram para um debate de idéias. Mas também têm acontecido algumas interessantes e pedagógicas contraposições de argumentos. Na praticamente absoluta falta de iniciativas acadêmicas para um embate entre os dois lados dessa polêmica, a imprensa, os blogs e outros espaços na internet se tornaram o meio viabilizador para ele.

Ninguém espera que essas discussões cheguem a um consenso. Mas, independentemente da posição de cada um nessa polêmica, para aqueles que se esforçam em manter um mínimo de honestidade intelectual, essa é uma oportunidade para aprender o que é e o que não é válido em questões que envolvem ciência e religião. Além disso, e muito mais importante, é o caso de se considerar o risco de que o persistente afastamento da comunidade científica desse debate público possa levar a reveses maiores do evolucionismo em um período de ascensão de muitas crenças religiosas.

Esse confronto teve início na primeira metade do século XX nos Estados Unidos e teve vários episódios posteriores. Foi reacendido em 30/11 pelo jornalista Marcelo Leite em seu blog Ciência em Dia e sua coluna homônima da Folha de S. Paulo, com a notícia de que o Colégio Presbiteriano Mackenzie, com sedes em São Paulo, Barueri e Brasília, passou a ensinar criacionismo em suas aulas de ciências. O debate ferveu no espaço de comentários daquele blog e também na seção de cartas do jornal, que na seção “Tendências/Debates” apresentou dois artigos de posições contrárias em 06/11, que comentei em “O debate sabotado entre criacionistas e evolucionistas” (07/12).

No dia 08/11, O Estado de S. Paulo agitou mais essa polêmica com a reportagem “Escolas adotam criacionismo em aulas de ciências”, de Simone Iwasso e Giovana Girardi, mostrando que o ensino dessa concepção sobre a vida não se limita ao Mackenzie. No sábado (13/12), o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. publicou em seu blog o artigo “Deus e o Diabo disputam o ensino Brasileiro?”.

Ainda no sábado, foi a vez do Ministério da Educação, com sua posição de que o criacionismo “pode e deve ser discutido nas aulas de religião, como visão teológica, nunca nas aulas de ciências”. A declaração foi feita pela secretária da Educação Básica do MEC, Maria do Pilar, à reportagem de Fábio Takahashi e Talita Bedinelli, na Folha (“MEC diz que criacionismo não é tema para aula de ciências”, 13/12) [Acréscimo das 10h35]. E, após duas semanas de manifestações sobre o assunto, o “Estadão” de ontem (domingo, 14/12) trouxe as opiniões sobre esse assunto de Roseli Fischmann, professora de filosofia da educação da USP (“Deus não freqüenta laboratório”).

Construção humana

A professora da USP é contra o ensino do criacionismo em aulas de ciências. De todas as afirmações atribuídas a ela na matéria de hoje, a que me pareceu mais importante foi a de que os professores podem ensinar aos alunos que a ciência é fruto da construção humana, e que eles podem participar dessa construção:

Assim se desenvolve nos alunos a possibilidade de questionar, e uma boa dúvida é a pérola do mundo científico. Se, do ponto de vista religioso, existe alguém infalível, isso é para as pessoas que acreditam. Quem acreditar será respeitado por isso, mas não se pode querer que todo o mundo esteja dentro dessa lógica. Ninguém, enfim, ganha misturando as duas frentes porque os cientistas podem pensar que são deuses, e quem fala de Deus pode pensar que é cientista.

Teria sido interessante a professora explicar melhor — e a reportagem a ela perguntar — o que entende por “misturar as duas frentes”, uma vez que outro defensor do evolucionismo, o biólogo e educador Charbel Niño El-Hani, professor da Universidade Federal da Bahia, manifestou-se antes, na Folha, também contra ensinar o criacionismo nas aulas de ciências, mas a favor de discuti-lo com os alunos.

Roseli, que é também coordenadora de projetos de pesquisa da Fundação MacArthur, colaboradora da Unesco e do Ministério das Relações Exteriores, cometeu um engano ao tentar explicar a polêmica em pauta ao recorrer ao pensamento do filósofo da ciência norte-americano Thomas Kuhn (1922-1976), autor do clássico A Estrutura das Revoluções Científicas, de 1962. Nas palavras atribuídas pela reportagem à professora, esse autor teria proposto que

(…) a ciência se constrói historicamente por paradigmas. Com o tempo surgem novas idéias, novas propostas, que vão corroendo essa estrutura até que surja um novo modelo. Aquele vigente nem sempre é tolerante para com as visões mais recentes. O que Kuhn diz é que a classe científica, que justamente por precisar da transformação deveria ser a mais aberta a mudanças, se manifesta muitas vezes resistente. Há egos, interesses financeiros pesados, falta de ética… Mas são as novidades que, em geral, promovem o avanço científico.

Tiros pela culatra

Muitos criacionistas já devem estar festejando essa declaração. A conseqüência da aceitação dessa interpretação seria a de que são válidas quaisquer novas propostas para o evolucionismo, pois elas, em princípio, poderiam promover o avanço científico. Se fosse assim, não haveria razão na própria recusa, defendida por ela, de ensinar o criacionismo como teoria alternativa.

Na verdade, o que Kuhn afirmou é que um “paradigma” (conjunto de compromissos conceituais, metodológicos e instrumentais compartilhados pelos membros de uma especialidade científica durante um determinado período) entra em crise a partir de sucessivas dificuldades e contradições apresentadas por observações e experimentos. Por meio de diversas revisões críticas, são feitas adequações no paradigma, inclusive por meio da redução do campo seu campo de validade. Desse modo, crescem as “anomalias” nos modelos, e, para isso, não são necessárias novas propostas. Nas palavras de Kuhn, as revoluções científicas consistem em “episódios extraordinários” desencadeados por essas dificuldades:

Desse e de outros modos também, a ciência normal freqüentemente se desnorteia. E, quando isso acontece — quando já não se pode mais livrar-se das anomalias que subvertem a prática vigente da prática científica —, começam então as investigações extraordinárias que finalmente levam a profissão a um novo conjunto de compromissos, a uma nova base para a prática da ciência.
(The Structure of the Scientific Revolutions, Chicago University Press, 3ª edição, 1996, p. 6. Não indico a página da edição brasileira, que também uso, porque no momento não a tenho em mãos.)

Tomando como exemplo a astronomia medieval, baseada na tese geocêntrica de  Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), tantas eram as suas anomalias que no prefácio de sua obra de 1543, Sobre a Revolução dos Corpos Celestes, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) disse que a tradição astronômica havia herdado um “monstro”.

Involuntariamente, a declaração da professora é, na verdade, muito mais próxima da posição do pensador austríaco Paul Feyerabend (1924-1994) para o qual a transgressão dos métodos da ciência é necessária para o progresso. “O único princípio que não inibe o progresso é tudo vale [anything goes]”, diz Feyerabend na terceira e última edição de Contra o Método, de 1993 (Tradução de Cezar Augusto Mortari. São Paulo: Editora Unesp, 2007, p. 37). Não é por menos que alguns criacionistas já fizeram uso dessa obra. Na verdade, um uso ingênuo, pois o anarquismo epistemológico desse autor se voltaria também contra a religião, em especial contra o cristianismo, por ele chamada de “sanguinária religião do amor fraternal” na primeira edição desse mesmo livro, de 1975 (Tradução de Octany S. da Mota e Leônidas Hegenberg. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977, p. 433).

Outras oportunidades que têm sido oferecidas “de bandeja” para os argumentos criacionistas vieram de muitas manifestações cientificistas. A maior parte delas consiste em simplórias afirmações de que a seleção natural é “comprovada”, e o texto anterior deste blog (“O debate sabotado…”) já tratou desse assunto. Só faltou dizer que, como nenhuma teoria científica é comprovada, essas afirmações acabam permitindo pesadas e bem-fundamentadas contestações de criacionistas mais sofisticados.

Falseabilidade

Mesmo que pudéssemos considerar o evolucionismo como um paradigma em crise, o criacionismo não é uma formulação teórica passível de refutação, como deve ser toda teoria das ciências empíricas. Aproveitando um comentário meu feito no blog de Marcelo Leite:

A premissa de que uma instância externa conduz o desenvolvimento da vida não é falseável: ela é compatível com o fato de a girafa ter pescoço comprido e, se essa espécie tivesse pescoço curto, seria compatível também. Isso não é ciência da natureza. O evolucionismo pode e deve ser esmiuçado e ter expostos todos os casos de observações e experimentos que o contradizem. Mas enquanto não houver uma proposta de paradigma não evolucionista baseada em premissas falseáveis, não vale a pena abandoná-lo.

Esse é um exemplo de aplicação do critério de falseabilidade do filósofo da ciência austríaco Karl Popper (1902-1994) que apontei na semana passada. Esse é o ponto que me parece estar sendo deixado de lado pelos defensores do criacionismo. Eu o considero o mais frágil dessa concepção, inclusive em sua formulação mais sofisticada, que é o Design Inteligente (DI).

Em meio aos que se manifestaram, fram poucos os que se mostraram atentos para a importância da falseabilidade nesse assunto, entre eles o jornalista Cláudio Weber Abramo, presidente diretor-executivo da Transparência Brasil. Porém, muitos como ele acreditam que esse confronto não passa de um pseudodebate. Mestre em filosofia da ciência, ele afirmou em carta ao “Painel do Leitor” da Folha (08/12) que é um equívoco participar de uma discussão sobre esse tema porque

(…) com isso confere-se respeitabilidade ao misticismo religioso que alimenta o criacionismo quando deveria ser óbvio que é impossível discutir seja o que for com quem acredita em seres incorpóreos e influências etéreas. Da mesma forma que crêem em divindades, anjos, almas e no além, crerão em astrologia, leitura de mão, homeopatia e qualquer outra bobagem que apareça.

Do ponto de vista estritamente epistemológico, o comentário de Abramo pode ser considerado correto. O próprio Kuhn formulou a tese da incomensurabilidade de paradigmas, ou seja, não é possível um efetivo diálogo entre partidários de paradigmas diferentes, uma vez que eles envolvem compromissos distintos e diferentes compartilhamentos de valores.

No entanto, o crescimento de muitas religiões em todo o mundo é apenas uma entre várias razões para crer que, cada vez mais, as decisões sobre a ciência podem escapar do controle dos cientistas, da mesma forma como ela escapou do controle da Igreja bem antes da derrocada do mundo medieval. Em outras palavras, o encastelamento na torre de marfim, com a recusa em participar do debate público nos meios de comunicação, pode ser a maior armadilha que muitos evolucionistas estejam a armar para o próprio evolucionismo.

* * * * * * *

PS — Ao ser reproduzida no Observatório da Imprensa, minha postagem anterior sobre este tema recebeu muitos comentários, entre eles do jornalista Michelson Borges, editor do site Criacionismo.com.br e da Casa Publicadora Brasileira, uma das 56 editoras pertencentes à Igreja Adventista do Sétimo Dia. No primeiro desses comentários, Borges me atribuiu uma “posição equilibrada e não beligerante”. Agradeço pelo elogio, que recebo como um reconhecimento de minha determinação em tentar a todo custo compreender diversos pontos de vista, mas não creio ter uma posição equilibrada. Prefiro a idéia da harmonia por meio do confronto entre os contrários, da forma expressada por Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.), segundo o registro de Aristóteles:

Heráclito diz “a contraposição unifica”, “a mais bela harmonia vem da diferença” e “todas as coisas se originam da discórdia” [éris].
(Ethica Nicomachea, 1155b4-7)*

* Nicomachean Ethics. Texto grego estabelecido por Immanuel Bekker. Introdução, tradução para o inglês e notas de H. Rackham. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library, Aristotle, v. XIX), 2003, págs. 454-455.

PS 2 — Borges contestou em seu blog a posição do MEC contrária ao ensino do criacionismo nas aulas de ciências.

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 15/12/2008 at 7:12

O debate sabotado entre criacionistas e evolucionistas

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Uma das principais queixas dos contestadores da teoria da evolução de Charles Darwin (1809-1892) é a falta de espaço para eles nos meios de comunicação. De fato, a mídia tem sido geralmente muito pouco receptiva à divulgação dos conceitos criacionistas e de sua vertente mais sofisticada, o Design Inteligente (DI). Reacendido há poucos dias pelo jornalista Marcelo Leite em seu blog Ciência em Dia e sua coluna homônima da Folha de S. Paulo, o confronto entre eles e evolucionistas esteve ontem (sábado, 06/12) muito próximo de se tornar um interessante debate. A seção “Tendências/Debates”, da Folha, apresentou dois artigos de posições contrárias em resposta à pergunta “O criacionismo pode ser ensinado nas escolas em aulas de ciências?”. Lamentavelmente, a resposta por parte do representante criacionista foi um insulto à inteligência dos leitores.

O espírito de abertura para o confronto de idéias foi explícito por parte do biólogo e educador Charbel Niño El-Hani, professor da Universidade Federal da Bahia, com seu artigo “Educação e discurso científico’. Apesar de contrário ao ensino do criacionismo nas escolas, ele se pronunciou em favor da discussão em sala de aula sobre essa concepção acerca do universo e dos seres vivos. Por outro lado, Christiano P. da Silva Neto, presidente da Associação Brasileira de Pesquisa da Criação (ABPC), gastou um terço da extensão de seu texto “A teoria da evolução e os contos de fadas”* para tentar invalidar a tese evolucionista por meio do procedimento que em lógica é conhecido como falácia do argumento pela ignorância.

O outro fato é o desconhecimento das bases da teoria das probabilidades. Tivessem [os evolucionistas] algum conhecimento dessa parte da matemática, saberiam que não basta imaginar acontecimentos para que eles se tornem reais.
Para citar um único exemplo, as aves constroem seus ninhos e chocam seus ovos. Não os cucos, porém. Suas fêmeas não são acometidas daquele estado febril que lhes permitiria chocar seus ovos. Ela então leva um de seus ovos no bico até o ninho de uma chiadeira e, para não dar na vista, o substitui por um dos ovos que lá encontra, jogando o da chiadeira fora.
Esta, que de nada desconfia, se põe a chocar os ovos. Quando o pequeno cuco nasce, sendo um pássaro de porte maior, irá precisar de todo o alimento que seus pais postiços puderem obter. O filhote, então, logo em seus primeiros momentos de vida, inicia um movimento circular com o qual lança para fora ovos ou filhotes ali presentes, ficando só.
Agora, crer que essa estratégia de sobrevivência, tanto do cuco adulto quanto do cuco recém-nascido, pode ser produto das casualidades de um contexto naturalista é uma indicação de pouco conhecimento de matemática, em particular da teoria das probabilidades, de um mundo que é mesmo o dos contos de fadas, em que sapos viram príncipes e a teoria da evolução ganha contornos de realidade.

Em primeiro lugar, há um acintoso e ostensivo contra-senso logo nessa argumentação. Do primeiro e do último dos parágrafos acima transcritos se infere logicamente que todos os conhecedores do estudo de probabilidade são contrários ao evolucionismo, o que é falso. Além dessa estabanada forma de chamar os oponentes de ignorantes em matemática, há também a pressuposição de um cálculo probabilístico que apontaria para a quase impossibilidade de uma espécie ter evoluído no que é chamado de “contexto naturalista”. Esse cálculo, por sua vez, pressupõe o equacionamento de sabe-se lá quantas variáveis filogenéticas e ambientais e quantos eventos adaptativos, mas o articulista parece alegar possuir conhecimento de tudo isso.

Argumento pela ignorância

No final das contas, esses 1.300 caracteres com espaços em um texto com o total de 3.919 nada mais são que uma tentativa de se atribuir falsidade a uma teoria, no caso o evolucionismo, porque não haveria explicação baseada nela para o comportamento de uma espécie. Em outras palavras, trata-se do apelo ao Argumentum ad ignorantiam, o qual

é cometido sempre que uma proposição é considerada verdadeira na base, simplesmente, de que não foi provada sua falsidade, ou como falsa porque não demonstrou ser verdadeira. Mas nossa ignorância para provar ou refutar uma proposição não basta, evidentemente para estabelecer a verdade ou falsidade dessa proposição. (…) É curioso que haja um tão grande número de pessoas cultas propensas a cair nessa falácia, como o testemunham numerosos estudiosos da ciência que afirmam a falsidade das pretensões espíritas e telepáticas, simplesmente na base de que a verdade delas ainda não foi estabelecida.
(Irving Copi. Introdução à Lógica. Trad. de Álvaro Cabral. São Paulo: Mestre Jou, 1974, pág. 77)

Independentemente dessa argumentação desastrada, praticamente todas as afirmações de Silva Neto desconsideram aspectos epistemológicos fundamentais nesse tipo de discussão. Segundo ele

Do ponto de vista científico, o criacionismo resulta das seguintes perguntas: “O que nos dizem os fatos da natureza e os resultados das pesquisas realizadas pelos cientistas (não importando suas ideologias) acerca das origens do universo e da vida? Falam eles de uma origem naturalista ou sobrenaturalista?”.

Fatos, por si sós, não dizem absolutamente coisa alguma. Toda observação é sempre observação à luz um referencial teórico. Em diferentes épocas, astrônomos observaram as trajetórias dos corpos celestes, mas desenharam suas trajetórias de um modo quando o faziam com base o sistema de Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), que considerava a Terra como centro do universo, e, de outro modo, após ser consagrado o sistema de Nicolau Copérnico (1473-1543), cujo referencial é heliocêntrico. Trocando em miúdos, essas perguntas feitas “para os fatos” já contêm em si as respostas — o que leva a outro tipo de falácia, que é a petição de princípio, popularmente chamada de círculo vicioso —, e elas não se encontram no corpo da ciência construída a partir da Idade Moderna.

A esse respeito, a argumentação de El-Hani tem o mérito de discernir os diferentes planos de conhecimento envolvidos e de relacioná-los à sua proposta de convivência civilizada entre opiniões divergentes:

Antes pelo contrário, o professor de ciências deve explorar essas vozes discordantes para discutir as variadas maneiras como os seres humanos compreendem e explicam o mundo e, mais, a importância de distinguir entre diversos discursos humanos, fundados em pressupostos distintos sobre o que constitui o mundo (pressupostos ontológicos) e sobre o que constitui conhecimento válido (pressupostos epistemológicos).

Erro de evolucionistas

Na minha opinião, muitas vezes muitos defensores do evolucionismo incorrem em graves erros do ponto de vista epistemológico. Um dos principais é a afirmar que a seleção natural é uma teoria que tem sido comprovada por observações. Isso não é correto, pois nenhuma teoria tem sua verdade provada por observações e experimentações, como bem explicou o filósofo da ciência austríaco Karl Popper (1902-1994) em seu livro mais famoso, A Lógica da Pesquisa Científica, de 1934.

Muitos estudiosos não concordam com várias das teses de Popper, principalmente a da demarcação entre ciência e não ciência, mas reconhecem um de seus grandes méritos, que foi mostrar que as ciências empíricas nunca são comprovadas: elas são corroboradas ou refutadas à medida que se expande o conhecimento dos objetos e fenômenos estudados, ou que se aperfeiçoam os instrumentos de observação e de medição. Justamente por não poderem ser provadas como verdadeiras é que, com o passar do tempo, elas podem ser refutadas. Se não fosse assim, os fundamentos da ciência seriam imutáveis.

Mas há também muitas alegações inválidas por parte de criacionistas no plano filosófico. Uma delas é a afirmação de que o pensamento de Platão (427-347 a.C.) foi precursor do Design Inteligente, que tem entre seus principais formuladores o bioquímico Michael Behe, da Universidade Lehigh, e o matemático e filósofo William Dembski, professor do Southwestern Baptist Theological Seminary. No pensamento platônico, o Demiurgo, entidade formulada no livro Timeu, seria, segundo alguns adeptos do DI, o planejador criador do mundo em que vivemos. Na verdade, para Platão, o Demiurgo apenas organizou o mundo sensível, que é eterno (Timeu, 53b); não o criou ex nihilo, isto é, do nada, como o Deus judaico-cristão.

Pressupostos filosóficos

Por trás de muitos argumentos contrários ao evolucionismo estão antigos pressupostos filosóficos tidos como ultrapassados, mas que continuam a guiar nosso pensamento. Um deles é o ideal de uma finalidade externa que guia os processos do mundo. Segundo Platão (Timeu, 30b6-c1), por meio de sua alma (psyché), que lhe dá vida, cada homem se relaciona com a Alma do Mundo, que é a origem de todo o conhecimento. Desse modo, a psyché permite ao homem se relacionar com o plano das Idéias, o que o faz aspirar ao — ou seja, ter como finalidade o — conhecimento e também à idéia do Bem. Seu discípulo Aristóteles (384-322 a.C.), na Metafísica (Livro Δ, 1013a-1014a) e na Física (Livro B, 194b-195a), reconstrói esse universo conceitual com sua teoria da causalidade, na qual a causa final (télos) conduz a causa eficiente (kínous) a dar causa formal (eídos) à causa material (hylé).

Predominante em grande parte do pensamento medieval, a télos aristotélica tornou-se Deus, a causa finalis governadora de tudo no mundo fechado, finito e bem-ordenado, como descreveu o filósofo e historiador da ciência Alexandre Koyré (1892-1964) em seu livro Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, de 1958. Com a revolução copernicana e a construção da ciência moderna, a causa finalis é banida do universo infinito, homogêneo e geometrizado, cujos fenômenos passam a ser explicados por relações de causa e efeito. Mas ela permanece na religião, na metafísica e em diversas manifestações do senso comum, inclusive no senso comum da ciência. Na minha opinião, o Design Inteligente é uma proposta que mal se dá conta do peso sobre si de toda essa tradição filosófica.

Omissão da imprensa

Nascida junto com essas transformações do pensamento ocidental, a imprensa se identifica com elas e assume o papel de defensora dos cânones da cientificidade. E muitas vezes o faz de modo a desrespeitar o preceito jornalístico fundamental de promover o debate de idéias, como, por exemplo, ao não dar espaço para contestadores como Behe e Dembski. Uma coisa é a academia decidir o que pretende pesquisar e divulgar — e, nesse ponto, grande parte das contestações ao evolucionismo não têm condições ser aceitas como contestações científicas. Outra coisa é a imprensa negar a existência de controvérsia dentro da própria comunidade acadêmica (ver “A scientific dissent from darwinism”).

As poucas exceções a essa atitude predominante na imprensa freqüentemente são incompreendidas por membros da comunidade científica. Em 2001, por exemplo, Maurício Vieira Martins, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense, em um interessante estudo sobre o livro A Caixa-Preta de Darwin, de Behe, afirmou que eu fiz uma “resenha elogiosa” a essa obra (“De Darwin, de caixas-pretas e do surpreendente retorno do ‘criacionismo'”. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 8, n. 3, dezembro de 2001).

Na verdade, minha reportagem “Darwinismo radical” (Folha, Mais!, 13/12/1998) se referiu a outro livro, A Perigosa Idéia de Darwin, de Daniel Dennett, professor de filosofia da mente e ciências cognitivas da Universidade Tufts, um dos mais ferrenhos opositores ao Design Inteligente, que foi criticado por Behe em sua obra acima citada, apesar de ter sido lançado no Brasil depois dela. Como meu propósito foi fazer uma reportagem — e não uma resenha, como compreendeu indevidamente Martins — apresentei argumentos das duas obras e entrevistei os dois autores dando-lhes as devidas aspas. E, diferentemente do que afirmou o professor da UFF, eu contestei Behe e outros aspectos do DI ao dizer:

Sem postular a existência de Deus, como os criacionistas, eles propõem que deve ter havido uma intervenção externa ao processo de formação das moléculas que deram origem à vida. Eles chamam essa intervenção de planejamento inteligente. Mas falham ao tentar mostrar argumentos que fundamentem a necessidade dessa hipótese.

Enviei esclarecimentos sobre esse equívoco de Martins em carta via para ele e para os editores da revista História, Ciências, Saúde — Manguinhos, da Fiocruz. O professor da UFF jamais se pronunciou publicamente sobre isso, e a revista publicou minha carta em uma seção da versão impressa que não é disponível na internet.

No Brasil, entre os defensores do Design Inteligente, o mais veemente crítico da atuação da imprensa é, certamente, Enézio Eugênio de Almeida Filho, mestre em história da ciência. Devido ao seu estilo provocativo — vide o nome de seu blog Desafiando a Nomenklatura Científica —, em discussões na internet muitas vezes ele perdeu o foco nos pontos essenciais, da mesma forma que alguns opositores seus, o que geralmente leva a ataques e desgastes desnecessários. Mas já tive a oportunidade de conversar longamente com ele em um almoço aqui em São Paulo, e conseguimos contrapor nossas divergências “numa boa”, mesmo segurando facas e garfos. Brincadeiras à parte, foi uma conversa agradável e, pelo menos para mim, muito interessante.

Não há razão em transformar esse confronto de idéias em uma guerra, e isso vale também para a educação, que poderia se pautar, por exemplo, pela proposta de El-Hani. E uma forma de evitar o acirramento dos ânimos que sempre prejudicam um debate é não insultar a inteligência dos interlocutores, como aconteceu nesse último sábado, desperdiçando parte do espaço proporcionado pela Folha.

* Há uma versão expandida desse artigo no site da ABPC: http://abpc.impacto.org/folha.htm.

* * * * * * *

Mais informações sobre o assunto:

Criacionismo X evolucionismo (várias reportagens e artigos, Comciência, Labjor/Unicamp, Campinas, n. 56, julho de 2004)

Marília Coutinho, “Criacionismo: A religião contra-ataca” (Galileu, edição 121, agosto de 2001)

Pablo Nogueira, “A ciência da criação” (Galileu, edição 186, janeiro de 2007)

Pew Forum on Religion & Public Life (The Pew Charitable Trusts)

Evolution and biology (página do site oficial de Richard Dawkins)

Discovery Institute

Sociedade Criacionista Brasileira

Charbel Niño El-Hani & Eduardo Fleury Mortimer, Multicultural education, pragmatism, and the goals of science teaching (Cultural Studies of Science Education, v. 2, n. 3, julho de 2007)

The Talk Origins Archive — Exploring the Creation/Evolution Controversy [acrescentado em 08/12/2008]

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 07/12/2008 at 12:45

O aniversário do “inventor” do cristianismo

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Está aí um assunto do qual parece que os meios de comunicação não se deram conta, ironicamente nem os paulistanos e paulistas em geral: a datação aproximada de 2008 como aniversário de dois milênios do apóstolo Paulo. Esse é o gancho do interessante artigo de Dom Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo, publicado hoje no Estadão (“São Paulo, 2 mil anos”, pág. A2), que trata do Ano Jubilar Especial aberto pelo Papa Bento XVI a partir de 28 de junho.

No quinto parágrafo desse texto, o primaz da Igreja Católica paulistana trata de um tema espinhoso, que é o tema da exata localização do limite entre o judaísmo e o início do cristianismo, ao mencionar o teólogo luterano alemão William Wrede (1859-1906):

Mesmo sem endossar a afirmação de Wrede, um estudioso do início do século 20, segundo o qual é Paulo o verdadeiro fundador do cristianismo, é inegável a importância do grande apóstolo para a Igreja. Mais que os outros apóstolos e discípulos de Jesus Cristo, ele difundiu o Evangelho entre os povos e fez uma primeira aproximação da mensagem cristã com as culturas da época, dando um cunho universalista ao “caminho” vivido pelos cristãos. Isso foi fundamental para que, ao longo dos séculos, os povos – sem deixarem de lado a sua identidade cultural – pudessem conviver na mesma grande comunidade de fé.

Autor de duas obras de referência sobre as origens do cristianismo — Das Messiasgeheimniss in den Evangelien (O Mistério do Messias nos Evangelhos), de 1901, e Paulus, de 1904 —, Wrede foi um dos primeiros estudiosos a analisar com profundidade a atuação de Paulo na construção, a partir do ideário da cultura grega, de um mito da redenção que não teria existido na pregação original de Jesus e de seus seguidores imediatos.

No final das contas, revirar a pregação e a história de Paulo implica cutucar no tema do Jesus histórico. E é impressionante o enorme abismo que existe em relação a esse tema entre a visão oficial das igrejas cristãs e os resultados de pesquisas científicas, inclusive realizadas por sacerdotes. Embora eu já tivesse uma noção disso, só percebi o tamanho do vespeiro com as reclamações à reportagem que escrevi em 2001, quando era redator-chefe da revista Galileu, a reportagem “A invenção do Cristianismo”. Irônicas, raivosas ou virulentas, essas contestações, inclusive por parte de alguns professores universitários, tinham todas uma característica comum: nenhuma delas entrou no mérito das pesquisas citadas.

Voltando às palavras acima destacadas do artigo, é importante observar como elas, cuidadosamente, não comprometem o currículo do seu autor — ex-professor de filosofia e teologia e mestre e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma — em relação ao conhecimento atual da história do pensamento cristão: o cardeal não diz discordar de Wrede; apenas afirma não endossá-lo. Se discordasse, ou seja, se rejeitasse a idéia da relação entre as concepções gregas e a pregação paulina, passaria por ingênuo ante reiterados estudos que mostram a importância das palavras não só de Paulo, mas também do evangelista João, para o arcabouço conceitual que serviu de base para os malabarismos teóricos dos Doutores da Igreja nos primeiros séculos do cristianismo.

Um desses primeiros Doutores, Justino de Cesaréia (100-165 d.C.), venerado como santo não só no catolicismo e por ortodoxos gregos e orientais, mas também por anglicanos e luteranos, se consagrou como apologista justamente por compatibilizar a fé cristã, da forma pregada por Paulo, com o platonismo. Sobre isso, vale ressaltar as palavras de Étienne Gilson (1884-1978):

Para ele [Justino], Heráclito e os estóicos não são estranhos ao pensamento cristão; Sócrates conheceu “parcialmente” Cristo: de fato, ele descobriu certas verdades pelo esforço da razão, que ela própria é uma participação no Verbo, e o Verbo é Cristo; Sócrates pertence, pois, aos discípulos de Cristo. Em resumo, pode-se dizer a mesma coisa de todos os filósofos pagãos que, tendo pensado o verdadeiro, tiveram os germes dessa verdade plena que a revelação cristã nos oferece no estado perfeito.1

Para São Justino e os outros apologistas do cristianismo, como Taciano (c. 120-180 d.C.), Atenágoras (133-190 d.C.), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) e Orígenes de Alexandria (185-253 d.C.), tratava-se, sobretudo, de justificar a fé cristã diante da filosofia grega, estratégia já delineada pelo apóstolo cerca de cem anos antes deles. “Paulo enxergava a direção que tomava o mundo e agiu para fazer o cristianismo crescer no futuro”, disse o padre católico e teólogo Hermínio Andrés Torices, da PUC de Campinas e do Instituto Teológico de São Paulo, em minha reportagem de 2001 acima citada.

Vale lembrar que, antes de Wrede, Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Para Além do Bem e do Mal (1885) qualificou o cristianismo como uma vulgarização da metafísica platônica,2 e, em Aurora: Pensamentos sobre os preconceitos morais (1881), afirmou: “Este [Paulo] é o primeiro cristão, o inventor do cristianismo! Até então havia apenas alguns sectários judeus.”3

Enfim, dado o gancho trazido por Dom Odilo, bem que a imprensa poderia produzir matérias frias interessantes sobre o apóstolo Paulo, que foi certamente um dos mais geniais personagens de toda a História.

Em tempo — Para os interessados na vida e obra de Paulo, vale a pena ler Paulo: Uma biografia crítica, do padre e teólogo irlandês Jerome-Murphy O’Connor, lançado no Brasil em 2000 pela Edições Loyola.

Referências

  1. Étienne Gilson. A Filosofia na Idade Média. Tradução de Eduardo Brandão. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 6.

  2. “(…) pois o cristianismo é o platonismo para o povo”. Friedrich Nietzsche. Mas allá del Bien y del Mal: Preludio de una filosofía del futuro. Tradução de Andrés Sánchez Pascual. Madrid: Alianza Editorial, 1977, p. 18.

  3. Friedrich Nietzsche. Obras Incompletas. Seleção de textos de Gérard Lebrun. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1974 [coleção Os Pensadores], vol. XXXII, p. 174.

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 12/07/2008 at 11:02

Publicado em Filosofia, Religião

Fontes: debate sobre Intelligent Design

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Para aqueles que querem mais informações sobre o debate acerca do Intelligent Design, vale a pena a consulta ao banco de dados da entidade The Pew Forum on Religion & Public Life, sediada em Washington, DC.

Para acesso direto, Intelligent Design Debate.

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 26/12/2005 at 2:48

Publicado em Ciência, Religião

Intelligent Design: nenhuma pergunta a Rosinha?

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O jornalismo declaratório e oficialista mais uma vez triunfa na área de ciência com a cobertura da decisão judicial contrária ao ensino do Intelligent Design na cidade de Dover, na Pensilvânia (EUA). Em vez de promover um amplo questionamento das teses criacionistas — ou melhor — em vez de encostar na parede os proponentes dessa teologia travestida de ciência, a grande imprensa se limita a ouvir burocraticamente os dois lados envolvidos.

Já posso antever as mesmas desculpas de sempre, do tipo “não cabe à imprensa decidir quem está com a razão”. Não se trata disso, mas sim de aproveitar uma oportunidade ímpar de confrontar com os defensores do “Intelligent Design” diversos questionamentos formulados a essa proposta nos últimos anos. Que fique bem claro: não estou propondo que jornalistas se manifestem opinativamente, mas que levantem questões de fundo.

Não fugiram a esse padrão nem mesmo jornalistas como Laurie Goodstein, do The New York Times, que entraram em contato com os pesos-pesados do ID, como Michael Behe e William Dembski, ambos da entidade criacionista Discovery Institute. [“Judge Rejects Teaching Intelligent Design” (Laurie Goodstein, The New York Times, 21/dez/2005)].

Episódios como este geralmente mostram como falta ao chamado jornalismo científico o espírito investigativo. Alguém poderia imaginar, na cobertura do “mensalão”, que os repórteres se limitariam a registrar burocraticamente as acusações e justificações entre parlamentares, publicitários e dirigentes de partido? Certamente, não. E por quê isso tem de acontecer na cobertura de temas científicos?

Longe de mim bancar o defensor da cientificidade. Há muito tempo que tenho me tornado cético inclusive com a própria ciência. Mas não dá para entender a passividade de profissionais especializados na cobertura de ciência diante da fragilidade dos argumentos criacionistas. E, apesar da lavada que tomaram na Justiça, parece que certos defensores do Intelligent Design se mostram seguros de ter alternativas de luta, como Dembski, em entrevista a Goodstein, no NYT:

I think the big lesson is, let’s go to work and really develop this theory and not try to win this in the court of public opinion. The burden is on us to produce.

Não sou o único a reclamar dessa omissão dos jornalistas da área de ciência, e estou bem acompanhado. Outro blogueiro, mas muito mais habilitado do que eu para falar de ciência, pega nesse mesmo ponto. É Carl Zimmer, em seu blog The Loom, em seu post “The Big Fact-Check: Thoughts On the Day After Dover”. Recomendo a leitura para todos.

No Brasil, o primeiro destaque para o assunto veio da BBC Brasil [“Juiz dos EUA proíbe ‘desenho inteligente’ em escola pública”]. Em sua edição de hoje, o Estadão mencionou que “… escolas estaduais do Rio incluíram lições criacionistas no ano passado. A governadora Rosinha Garotinho, evangélica, já disse não acreditar na teoria de Darwin”. [“Evolução vence criacionismo em processo nos EUA”, O Estado de S. Paulo, 21/12/2005, pág. A-18)]. Isso nem sequer foi comentado no carioca O Globo na matéria “Juiz bane criacionismo de escolas americanas” (O Globo, 21/12/2005).

E, já que é só para ouvir nem que seja burocraticamente os dois lados, por que, até agora, nenhum jornalista brasileiro da chamada grande imprensa se dignou a perguntar à governadora do Rio de Janeiro ou a alguém de sua equipe o que acha da decisão do juiz federal John E. Jones III?

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Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 21/12/2005 at 15:51

Publicado em Ciência, Política, Religião