Laudas Críticas

Archive for the ‘Filosofia’ Category

A pesquisa sobre cartas de Chico Xavier

A imprensa divulgou recentemente a publicação de uma pesquisa de brasileiros que concluiu que são verídicas as informações de 13 cartas redigidas de 1974 a 1979 pelo médium Chico Xavier (1910-2002) e por ele atribuídas ao estudante Jair Presente, morto por afogamento na cidade paulista de Americana aos 24 anos de idade em 1974. Financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o estudo* foi publicado em setembro pela revista norte-americana “Explore”.

Mais informações em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

sexta-feira, 23/01/2015 at 12:06

Como os gregos viviam com seus mitos

Esculturas do antigo Templo de Zeus, em Olímpia, que hoje integram o acervo do Museu Arqueológico na mesma localidade, na Grécia. Imagem: Angela Monika Arnold/Creative Commons 3.0

Esculturas do antigo Templo de Zeus, em Olímpia, que hoje integram o acervo do Museu Arqueológico na mesma localidade, na Grécia. Imagem: Angela Monika Arnold/Creative Commons 3.0

Neste início de século em que ainda muitos acreditam em interpretações literais bíblicas, segundo as quais a Terra teria menos de 6 mil anos e Deus proibiria transfusões de sangue, é um alento saber do relançamento de obras cuja lucidez ajuda a desfazer o aviltamento de importantes e antigas narrativas de nossa civilização.

Em seu livro “Os Gregos Acreditavam em seus Mitos?”,  publicado originalmente em 1983 e lançado há poucos meses pela Editora Unesp, o historiador e arqueólogo  francês Paul Veyne mostra que é necessário virar a pergunta do título pelo avesso para respondê-la.

A resenha completa está em meu blog na Folha de S. Paulo.

Bom 2015 para todos!

Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 31/12/2014 at 6:35

Newton da Costa e a lógica da liberdade

O matemático brasileiro Newton da Costa, em foto de 1973, em Berkeley, nos Estados Unidos. Imagem: George M. Bergman/Berkeley

O matemático brasileiro Newton da Costa, em foto de 1973, em Berkeley, nos Estados Unidos. Imagem: George M. Bergman/Berkeley

Nesta terça-feira, 16 de setembro, completa 85 anos de idade um dos matemáticos brasileiros de maior projeção internacional, o curitibano Newton Carneiro Affonso da Costa. Desenvolvidos no início dos anos 1950, seus primeiros trabalhos resultaram na elaboração de um novo capítulo na história da lógica, trazendo desdobramentos não só para a matemática, mas também para outras ciência, como a física, a economia, a computação, além da própria filosofia.

O Brasil mal o conhece, mas ele nunca desperdiçou seu tempo pensando nisso.

Mais informações em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 16/09/2014 at 14:46

As elites e a moral do ressentimento

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O recorrente apelo às elites pode implicar projetos para o futuro da sociedade contaminados pela moral do ressentimento. E na filosofia e nas ciências humanas ele muitas vezes tem se mostrado mais como sintoma disso do que como esforço de análise.

Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 19/06/2014 at 12:23

Publicado em Filosofia, Política

Os livros adaptados e o esvaziamento da linguagem

Aristóteles, Platão e Sócrates em mosaicos no Santuário San Paolo, em Reggio de Calabria, na Itália (Imagem: Saverio Autellitano/Licença Creative Commons Attribution 2.5 Generic)

Aristóteles, Platão e Sócrates em mosaicos no Santuário San Paolo, em Reggio de Calabria, na Itália (Imagem: Saverio Autellitano/Licença Creative Commons Attribution 2.5 Generic)

Ainda está rendendo discussões a simplificação de textos clássicos da literatura, cuja tematização na imprensa e nas redes sociais teve como ponto de partida o artigo “Escritora muda obra de Machado de Assis para facilitar a leitura”, publicado na Folha no dia 4 pelo colunista Chico Felitti. Embora eu também não concorde com essa iniciativa editorial, discordo de muitas das críticas feitas a ela. E, para ficar nessa discussão de modo equilibrado, prefiro começar por apontar rapidamente um aspecto destacado hoje no mesmo jornal por meu amigo e também colunista Hélio Schwartsman em seu artigo “Traições literárias”.

Leiam o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 14/05/2014 at 18:58

Publicado em Filologia, Filosofia, Literatura

Eleições 2010: não aprendemos nada com a peste

with 2 comments

Qualquer que seja o resultado da eleição presidencial de hoje, e qualquer que seja a preferência de cada um, mais uma vez não teremos aprendido nada sobre nós mesmos. Em meio à guerra de desinformação travada na arena pública nas disputas polarizadas, ao antagonismo cego e histérico dos mais ativos e assertivos, à disposição para seguir a manada dos mais passivos e mudos, continua sendo assustadora nossa incapacidade de olharmos para nós mesmos em meio aos acontecimentos.

(…) o que essa multidão eufórica ignorava, e que se pode ler nos livros, é que o bacilo da peste não morre nem jamais desaparece, que ele pode permanecer durante dezenas de anos adormecido nos móveis e nas roupas, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e nos papéis, e que, talvez, viria o dia em que para a desgraça e o ensinamento dos homens, a peste despertaria seus ratos e os enviaria para morrer em uma cidade feliz.*
(Albert Camus, A peste, 1947)

Sim, eu sei, Camus confirmou que o conteúdo evidente de seu livro era a ocupação nazista, mas ele deixou claro que desejou que sua leitura fosse feita também sob outras perspectivas.

* (..) ce que cette foule en joie ignorait, et qu’on peut lire dans les livres, que le bacile de la peste ne meurt ni ne dispairait jamais, qu’il peut rester pendant dizaines d’années endormi dans les meubles et le linge, qu’il attend patiemment dans les chambres, les caves, les malles, les mouchoirs et les paperasses, et que, peut-être, le jour viendrait oú, pour le malheur et l’einseignement des hommes, la peste réveillerait ses rats et les enverrait murir dans une cité heureuse.
(La peste, Éditions Gallimard, Paris, 1996, p. 335).

Written by Mauricio Tuffani

domingo, 03/10/2010 at 9:42

Publicado em Filosofia, Literatura, Política

O relativismo, o dogma e a banalização

with 51 comments

“As ideias muito possuídas não são mais
ideias, eu nada penso quando as falo.”

(Maurice Merleau-Ponty, O Visível e o Invisível )*

(Este texto, de 17 de junho, é meu último post na inútil tentativa de discussão com Antonio Cicero. Encerrei o assunto com meu comentário de 30 de junho, que está ao final desta página.)

Apesar de parecer para o senso comum um mero exercício de diletantismo, a discussão que iniciei em 26 de maio no jornal Folha de S. Paulo a partir de uma crítica minha ao colunista Antonio Cicero tem implicações diretas sobre temas de fundo da atualidade. Infelizmente, apesar de ter optado por responder ao meu artigo mais recente (“Uma ameaça maior que o dogma”) em seu blog Acontecimentos, ele deixou de aproveitar a vantagem de espaço do formato online em relação ao impresso, limitando suas considerações ao plano do antagonismo entre os argumentos dele e os meus. E, o que é pior, deixando completamente de lado minha provocação para levar a discussão para um plano mais elevado.

A provocação a que me refiro pode ser resumida na afirmação, nesse meu artigo anterior, de que a banalização é uma ameaça maior que o dogma, e pode fazer da própria defesa da liberdade de pensamento um clichê vazio e inócuo. Minha menção à liberdade de pensamento se deveu ao fato de ela ter sido evocada pelo próprio colunista em sua réplica “Heidegger, Descartes e a razão” à minha primeira crítica “O tabu em torno da razão”.

 

O contexto da discussão

Um desses temas de fundo que afirmo serem diretamente relacionados à discussão em pauta é o chamado multiculturalismo. Sob uma perspectiva relativista, pode-se chegar a concluir, por exemplo, que a ausência dos direitos de cidadania em determinadas sociedades deve ser tolerada e compreendida como uma questão interna delas. Antonio Cicero nega a validade dessa perspectiva, e nisso estou, em princípio, de acordo com ele, que exemplificou esse tema com o caso particular da clitoridectomia imposta por preceitos religiosos, considerada em certos meios intelectuais como uma prática que deve ser tolerada por ser cultural (“A sedução relativa” in: Adauto Novaes [organizador], O Silêncio dos Intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 195).

Algumas interpretações da obra do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) apontam, grosso modo, o pensamento dele como fundamento do relativismo, alegando que ele nega a validade do próprio conceito de razão. Interpretações como essa são feitas tanto por teóricos que concordam com o pensamento heideggeriano como por outros que o contestam.

Discordo da ideia, que não é compartilhada só por Antonio Cicero, de que esse filósofo tenha fundamentado o relativismo e, portanto, a tolerância levada às suas últimas consequências no plano do multiculturalismo. Entendo que essa interpretação é fruto do cenário de banalização de ideias que passou a ser intensificada nas últimas décadas e que afeta os meios culturais, inclusive os acadêmicos.

Apesar de eu concordar com o colunista no que tange ao “silêncio dos intelectuais” sobre temas essenciais — e de discordar de Heidegger em alguns pontos —, entendo que há motivos relevantes para questionar os pressupostos desse autor brasileiro sobre o filósofo alemão. Por exemplo, entendo que o pensamento heideggeriano se contrapõe à razão, às ciências e às técnicas, não para negá-las ou desqualificá-las, mas apenas na medida em que elas se sobrepõem até mesmo ao espaço de uma reflexão que nos distancie dos objetos técnicos, aos quais estamos cada vez mais apegados e submetidos.

Em outras palavras, apesar dos seus desastres de percurso, das críticas procedentes que tem recebido e deverá ainda receber, bem como das equivocadas acusações de paternidade filosófica, entendo o pensamento heideggeriano como um esforço para preservar a reflexão das consequências da incapacidade de as ciências e as técnicas avaliarem o sentido das ações humanas. As implicações dessa incapacidade tiveram uma de suas melhores expressões nas seguintes palavras de Hannah Arendt.

O problema das modernas teorias do behaviorismo não é que elas estejam erradas, mas sim que podem vir a tornar-se verdadeiras, que realmente constituam as melhores conceituações possíveis de certas tendências óbvias da sociedade moderna. É perfeitamente concebível que a era moderna — que teve início com um surto tão promissor e tão sem precedentes de atividade humana — venha a terminar na passividade mais mortal e estéril que a história jamais conheceu.
(Hannah Arendt, A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004, pp. 335-336.)

Assim como tem acontecido com as obras de outros pensadores, a banalização do pensamento de Heidegger tem provocado não só a distorção de suas conclusões, mas a ocultação de suas interrogações, que é muito mais prejudicial para o pensamento crítico. Antonio Cicero tem razão ao afirmar, com outras palavras, que grande parte do irracionalismo presente na perspectiva relativista de muitos intelectuais está relacionada ao pensamento de Heidegger. Mas entendo que ele se equivoca ao não se dar conta de que isso é fruto da banalização do pensamento desse filósofo.

Em outras palavras, a crítica heideggeriana ao pensamento de Descartes não tem como consequência a validade de qualquer pensamento divergente do cartesianismo. A discussão filosófica do relativismo como visão de mundo, com suas implicações atuais e futuras, passa pela depuração desse equívoco. Mais que uma contraposição à resposta de Antonio Cicero a meu artigo “Uma ameaça maior que o dogma”, o presente artigo pretende oferecer elementos para ao menos manter aberta a questão sobre a relação entre a obra de um dos maiores pensadores do século 20 e o relativismo.

 

A sequência do debate

A cronologia de minha discussão com Antonio Cicero é a seguinte.

1. Antonio Cicero publicou em 15 de maio, em sua coluna quinzenal no caderno “Ilustrada”, da Folha, o artigo “Irracionalismo”, e o reproduziu em seu blog. (Os links aplicados aos títulos dos artigos dele e meus neste post são sempre os dos respectivos blogs, e não do jornal, cujo acesso é limitado a assinantes).

2. Critiquei esse artigo do colunista no mesmo jornal, mas na seção “Tendências/Debates”, que fica na terceira página do primeiro caderno, com o artigo “O tabu em torno da razão”.

3. Antonio Cicero replicou em sua coluna na “Ilustrada” no dia 29 de maio com o artigo “Heidegger, Descartes e a razão”.

4. Minha tréplica “Uma ameaça maior que o dogma” foi publicada na seção “Tendências/Debates” no dia 8 de junho.

5. Na edição de 12 de junho da Folha, Antonio Cicero informa no pé de sua coluna que responde à minha tréplica por meio de seu blog, o que o faz com o post “Resposta a Maurício Tuffani”.

Apesar da elogiável disposição da Folha de S. Paulo não só para uma discussão filosófica — que, infelizmente, é incomum na grande imprensa brasileira —, mas também para uma contestação a um de seus colunistas, estou de acordo com a opção de Antonio Cicero por dar continuidade ao debate na internet. Isso evita a limitação de espaço do do formato impresso, que no meu caso era mais restrita: os cerca de 4.400 caracteres da coluna dele são aproximadamente 45% maiores que os dos meus artigos, que têm por volta de 3.000.

É certo que essa opção deixará este debate mais exposto à falação, aos ruídos e à confusão que tomaram conta da rede mundial de computadores. Acontece até mesmo entre leitores de boa formação cultural o entendimento de um confronto de ideias como um pugilato filosófico, um embate que tende a ser percebido em seus atributos externos, mais superficiais, e não no plano de seus pressupostos e de suas condições de possibilidade. Mas, na medida em que eu e ele usamos a política de moderação dos comentários encaminhados aos nossos blogs, certamente temos condições de fazer um uso proveitoso desse recurso tecnológico.

Nos posts dos dois artigos do colunista e no do meu primeiro, respondi a comentários de internautas feitos em meu blog e no dele. Como ele, por sua vez, só se manifestou em seus próprios posts, passei também a fazê-lo somente em meu blog, e assim continuarei e proceder. Eventuais correções a este texto serão explicitadas por meio de supressões em cinza tachado e de acréscimos em verde sublinhado, com o registro da data e horário da alteração [domingo, 20 de junho, 10h00].

 

Negação da desqualificação

Para contestar ponto a ponto e dentro de seu próprio contexto a resposta mais recente de Antonio Cicero, eu a reproduzo a seguir em itálico e vermelho, com a margem recuada, e nela intercalo meus comentários na sequência dos trechos copiados. O texto foi copiado de seu blog na data de sua publicação (12 de junho). Na medida em que ele foi reproduzido em diversos outros domínios na internet, e de essa ser uma prática comum com os textos de seu blog, entendo não haver restrição a esse tipo de reprodução, principalmente em vista do objetivo de crítica.

Resposta a Maurício Tuffani

Antonio Cicero

Lembro aos leitores que, em 15/05, escrevi um artigo, na Folha de São Paulo, intitulado “Irracionalismo” em que, entre outras coisas, especulo que, paradoxalmente, uma das razões para a popularidade de Heidegger entre os intelectuais franceses pós-modernistas tem a ver com o seu feroz anticartesianismo.

De fato, foi isso o que o colunista disse no quarto parágrafo do citado artigo. Mas não foi somente a isso que eu me contrapus. Em “O tabu em torno da razão”, logo na abertura, eu deixei muito explícito que meu motivo era contestar dois pontos desse primeiro texto dele, e o fiz afirmando que o colunista atribuíra “indevidamente a Martin Heidegger um ‘feroz anticartesianismo’ e também a ‘desqualificação’ da tradição filosófica e da razão”.

A partir disso, Maurício Tuffani escreveu, no mesmo jormal, um artigo afirmando, sem nenhum fundamento, que Heidegger não era sequer anticartesiano.

O colunista pode não concordar com o que apresentei como fundamento, mas ele não diz a verdade ao afirmar que não apresentei nenhum. Devido à minha restrição de espaço, eu apontei nessa minha crítica a ele somente uma consideração de Heidegger sobre o seu próprio pensamento, expressa em Sobre o Humanismo:

No âmbito do pensamento essencial, toda oposição é insensata. [Alles Wiederlegen im Felde des wesentliches Denkens ist töricht.]
(Martin Heidegger, Über den Humanismus. 10ª edição. Frankfurt: Vittorio Klostermann, 2000, p. 28.)

Vale a pena ressaltar que nessa resposta Antonio Cicero pelo menos não insiste mais em defender a aplicação do adjetivo “feroz” ao substantivo “anticartesianismo”.

Em resposta, mostrei – creio que de modo claro, apesar de sucinto – que o anticartesianismo não é episódico, mas estrutural ao pensamento de Heidegger, de modo que este ficaria sem dúvida horrorizado com essa malograda tentativa de “salvá-lo” do anticartesianismo. (…)

Comentarei mais adiante essa afirmação, cuja implicação é a de que Heidegger aceitaria ser considerado anticartesiano. Continuemos com o mesmo parágrafo.

(…) Ademais, chamei atenção para o fato de que praticamente todos os grandes comentadores da obra de Heidegger o consideram anticartesiano. Caberia, portanto, a meu adversário refutar meus argumentos e citar vários e importantes comentadores de Heidegger que pensam o contrário (não valeriam textos em que Heidegger parece RESPEITAR Descartes, pois, como observo no mesmo artigo, “naturalmente, reconhecer alguém como seu inimigo fundamental é antes respeitá-lo do que desprezá-lo”).

O que segundo ele “caberia” eu ter feito jamais caberia em três mil caracteres, neles incluídos os espaços entre palavras. Em uma crítica devidamente fundamentada, caberia a mim, antes de qualquer coisa, apresentar também interpretações contrárias à minha. Agora, aproveitando que aqui há espaço suficiente, e tendo em vista que nem ele mesmo fez isso, eu o faço. Cito, por exemplo, o norte-americano Richard Rorty (1931-2007), que relacionou Heidegger entre os três filósofos mais importantes do século 20, ao lado de Wittgenstein e Dewey em seu livro Philosophy and the Mirror of the Nature (Princeton: Princeton University Press, 1980, p. 6). Na página seguinte àquela em que faz essa distinção ao alemão, o pensador norte-americano interpreta o ideário elaborado a partir das obras dos três filósofos citados como uma “revolução anticartesiana e antikantiana”.

Mas se o próprio Rorty, que tanto elogiou Heidegger, o apontou como um dos protagonistas de uma tal revolução anticartesiana, por que me dei ao trabalho de atormentar os leitores da Folha, para contestar a caracterização de anticartesianismo feita por Antonio Cicero? E por que o faço novamente neste espaço virtual?

Não foi por haver em outros textos de Heidegger ressalvas de teor idêntico ao daquela que apontei acima. Antonio Cicero, aliás, afirma que essas ressalvas não bastam para contestar sua afirmação de que o pensador alemão é anticartesiano, uma vez que há autores que assim o consideram. E acrescenta que, para eu refutá-lo, eu deveria ter apontado estudiosos de opinião divergente. No entanto, essa exigência é estranha, pois mesmo que eu tivesse feito isso, não teria conseguido refutar a concepção dele. Seria apenas uma mera contraposição entre teses diferentes, seguida do inevitável “e daí?”.

Na verdade, não me incomodei com o uso da expressão “feroz anticartesianismo” por Antonio Cicero já há algum tempo, quando a encontrei em seu artigo “A sedução relativa” (p. 202). Mais que isso, não me incomodei com esse uso e com outros pontos desse seu ensaio até por eu concordar plenamente com a tese dele de que o relativismo é um dos fatores que levam ao injustificável silêncio dos intelectuais diante de acontecimentos inaceitáveis.

O que desta vez me fez contestá-lo foi a conjunção de três fatores. O primeiro deles é que eu realmente penso que o uso do prefixo “anti” em relação à obra de qualquer pensador tem implicações que extrapolam o que se pretendia caracterizar ao usá-lo. Por exemplo, o termo “antiliberal” pode ser aplicado a comunistas, fascistas e até a anarquistas, mas não iguala estas três categorias nem mesmo naquilo em que cada uma delas se opõe à dos liberais.

O segundo fator foi a associação do termo “anticartesianismo” com outro, “irracionalismo”, usado como título desse citado primeiro artigo de Antonio Cicero. E, sem querer usar como prova do que afirmo, mas para refutar a caracterização indevida do colunista de que estou só em minha interpretação de Heidegger, segue uma consideração de Ernildo Stein.

Esta aula inaugural pública, que teve lugar no dia 24 de julho de 1929, trazia o título “Que é metafísica?” Publicado no mesmo ano, o texto integral da preleção obteve profunda repercussão. Provocou também muitos malentendidos. Parecia vir reforçar suspeitas despertadas já por “Ser e Tempo”. Heidegger era o promotor do niilismo, da filosofia do sentimento da angústia e da covardia, do irracionalismo que combatia a validez da lógica. Em resposta às objeções que se multiplicavam o filósofo acrescentou à quarta edição de 1943 um posfácio que respondia às objeções e elucidava aspectos da preleção que suscitavam dúvidas e mal-entendidos. Em 1949 o autor publicou, com a quinta edição do texto, uma introdução com título “O Retorno ao Fundamento da Metafísica”.
(“Nota do tradutor” in: Martin Heidegger, Que É Metafísica? Tradução, introdução e notas de Ernildo Stein; revisão de José Geraldo Nogueira Moutinho. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1969, p. 9.)

Porém, apesar dessa ponderação, faz sentido o uso, uma vez que foi tomado em seus respectivos contextos, que Rorty e pensadores como Peirce, Ricoeur e outros fizeran do prefixo “anti” em relação ao cartesianismo. Mas esse não é o caso do artigo de Antonio Cicero ao qual eu fiz objeção, e isso leva ao terceiro fator da motivação de meu primeiro artigo, no qual, como lembrei acima, a menção ao anticartesianismo foi acompanhada da afirmação da “desqualificação” da tradição filosófica e da razão. Retomarei este ponto mais adiante. Voltemos ao novo texto do colunista.

Em vez disso, Tuffani escreveu um artigo intitulado “Uma ameaça maior que o dogma”. E qual seria a ameaça maior que o dogma? Segundo ele, trata-se da banalização da filosofia. Já isso está errado, é claro. O dogma é pior do que a banalização, pois, além de ser banalizado, é também esclerosado, intolerante e surdo a críticas.

Guardo esse assunto para abordá-lo mais adiante neste texto, no tópico final, “A banalização e o dogma”.

Mas onde está a banalização da filosofia? “Está”, segundo Tuffani, “no apelo exagerado aos ‘ismos’ – o humanismo, o niilismo e outros – e em chavões manipuláveis ao gosto de cada intérprete”. É disso que ele me acusa. Há dois problemas nessa acusação. O primeiro é que ele não cita nenhum exemplo concreto do meu suposto afã banalizador; (…)

Eu não me referi ao mero uso dos “ismos”, mas, ao apelo exagerado a eles, e isso é o que afirmam minhas palavras que próprio o colunista transcreveu. Vamos adiante.

(…) o segundo é que ele se esquece de que o próprio Heidegger, o filósofo que ele pretensamente que[r] salvar da minha banalização, escreveu uma obra chamada “Sobre o HUMANISMO” e outra chamada “O NIILISMO europeu”…

Antonio Cicero cometeu um erro de grandes proporções ao citar justamente a obra Sobre o Humanismo, de Heidegger, para “provar” que este não se preocupava com o uso dos nomes obtidos a partir do sufixo “ismo”. Vejamos o que o próprio pensador alemão disse nesse texto, que foi escrito em resposta a perguntas do filósofo francês Jean Beaufret.

Você pergunta: Comment redonner un sens au mot Humanisme? [Como voltar a dar sentido à palavra “Humanismo”?] Essa pergunta nasce do propósito de conservar a palavra “humanismo”. Eu me pergunto se isso é necessário. Ou será que ainda não basta a evidência do desastre que causam expressões desse tipo? Não há dúvida que há tempo se desconfia dos “-ismos”. Mas o mercado da opinião pública sempre quer novos “ismos”. E sempre há disposição para atender a essa demanda. [Sie fragen: Comment redonner un sens au mot “Humanisme”? Diese Frage kommt aus der Absicht, das Wort »Humanismus« festzuhalten. Ich frage mich, ob das nötig ist. Oder ist das Unheil, das alle Titel dieser Art anrichten, noch nicht offenkundig genug? Man mißtraut zwar schon lange den »-ismen«. Aber der Markt des öffentlichen Meinens verlangt stets neue. Man ist immer wieder bereit, diesen Bedarf zu decken.]
(Über den Humanismus, p. 7)

Essa obra de Heidegger é muito conhecida, seu texto é muito curto, esse trecho consta logo na abertura e Antonio Cicero a cita em seu livro O Mundo desde o Fim e também em seu ensaio “A sedução relativa”, de 2006. Espero que Antonio Cicero perceba que estou renunciando completamente à oportunidade de tecer considerações das mais desfavoráveis sobre sua interpretação acerca do título dessa obra.

Eu não disse as palavras acima para carcterizar um favor, nem para parecer um “bom sujeito”, “um cara de alto nível” ou coisa que o valha. Não só porque não estou aqui para tratar meus leitores como platéia de um circo romano, mas também porque seremos ambos derrotados, de antemão, se nos restringirmos ao nível do mero confronto entre nós dois, renunciando ao cuidadoso e paciente confronto de nossos pressupostos mais básicos em sua relação essencial com o tema mais amplo do relativismo.

Deixando para trás esse lapso, o que importa aqui sobre esse trecho de Heidegger, é que a inevitável extrapolação decorrente do uso do prefixo “anti”, à qual eu acima me referi, atinge proporções muito maiores quando envolve os “ismos”.

Ademais, se considerarmos essa afirmação de Heidegger com sua outra dele Sobre o Humanismo, transcrita mais acima, em que ele considera insensata toda oposição no plano do pensamento essencial, faz pleno sentido concluir que esse filósofo alemão — que, aliás, rejeitou para seu pensamento o rótulo “existencialismo” — no mínimo não reclamaria de minha objeção a “anticartesianismo”.

Ou será que, para Tuffani, estou banalizando Heidegger ao chamá-lo de “anticartesiano”? Creio que se eu tivesse escrito um artigo para provar que Heidegger era “anticartesiano”, isso seria, para os filósofos – embora não para os leigos – banal, uma vez que uma verdade muito repetida é banal. (…)

Por serem expressas em um texto de filosofia, as palavras após “anticartesiano” nessa transcrição causam estranhamento, pois se mostram prestes a negar o que Aristóteles, em uma consagrada passagem da Metafísica (Livro Alfa, II, 982b12-17), apontou como origem do filosofar: a admiração (thaumázein) diante das dificuldades ou perplexidades mais simples (tá prókheira tôn apóron)**. O adjetivo prókheiros também se traduz como fácil, comum, vulgar, banal.*** Vale lembrar que o pensador paulista Paulo Ghiraldelli Jr., define a filosofia justamente como a desbanalização do banal.

(…) Contudo, o tema do meu primeiro artigo não foi esse. Só toquei nesse assunto porque minha intenção era mostrar a curiosa relação entre o anticartesianismo de Heidegger e sua popularidade entre intelectuais franceses; e, no segundo artigo, só falei do anticartesianismo exatamente porque Tuffani questionara – e, para ser sincero, penso que ele simplesmente ignorava – o fato de que Heidegger era anticartesiano.

Com muita sinceridade, eu afirmo que, se não fosse estranho deixar de lado uma forte adjetivação, eu poderia ter escrito meu primeiro artigo sem ter mencionado o anticartesianismo. Já expliquei acima que, apesar de eu discordar do uso desse termo, não o considero banalizador ou prejudicial ao entendimento desde que devidamente contextualizado, como o fazem vários comentadores, independentemente de serem favoráveis ou contrários ao pensamento de Heidegger. Mas essa contextualização não acontece no artigo “Irracionalismo”. Nesse texto, em que 10 de seus 14 parágrafos se referem a Heidegger, Antonio Cicero teceu seus argumentos sob a perspectiva de imputa ao filósofo alemão a “desqualificação” da razão. E esse foi o ponto essencial de minha objeção a ele.

No mais, como digo que Heidegger tentou relativizar a razão, Tuffani afirma que não notei que ele “contestara essa rotulação” (sic) no parágrafo 6 de “Ser e tempo”. (…)

Vamos por os pingos nos is. Contrariamente a toda a tradição que sempre mostrou as concepções cartesianas como sendo fundamentadas somente pelo próprio pensamento de Descartes, isto é, como sendo o verdadeiro fundamento autônomo da filosofia moderna, Heidegger apontou em Ser e Tempo (§ 6, § 18, e § 19) que essas noções são derivadas da escolástica medieval. Na medida em que a análise heideggeriana aponta essa dependência, eu me contrapus à afirmação de Antonio Cicero de que o pensamento desse filósofo alemão é uma “desqualificação” da razão. Desse modo, após ressaltar a conclusão de Heidegger de que as concepções cartesianas são derivadas do pensamento medieval, afirmei em meu primeiro artigo:

Em outras palavras, Heidegger problematiza as próprias noções de verdade e de razão. Ou seja, ele as recusa como absolutas. Mas isso — que o colunista não aceita — não é desqualificar a razão nem a ciência, a técnica e a modernidade.
(Maurício Tuffani, “O tabu em torno da razão”, Folha de S. Paulo, 26 de maio)

A réplica dele em sua coluna na Folha desconsiderou a análise heideggeriana da proveniência das concepções cartesianas como argumento de minha contraposição à ideia de desqualificação. E levou o assunto para o âmbito de um de seu grandes focos, que é o relativismo. É só conferir:

Tentando rebater-me, o sr. Tuffani diz que “Heidegger problematiza as próprias noções de verdade e de razão. Ou seja, ele as recusa como absolutas”. Ora, o que é recusar uma coisa como absoluta senão relativizá-la?.
(Antonio Cicero, “Heidegger, Descartes e a razão”, Folha de S. Paulo, 29 de maio)

Prisioneira da oposição gramatical entre antônimos, essa pergunta pressupõe uma inferência que incorre em uma enganosa aplicação do tertium non datur, o princípio lógico do terceiro excluído, pois o foco na relativização obriga a enquadrar todo tipo de negação de absolutos como uma atitude relativizadora no sentido do relativismo como visão de mundo. Para evidenciar essa desconsideração do colunista em sua réplica, precisei explicar novamente em meu segundo artigo que

Heidegger questionou as noções básicas do pensamento de Descartes, tradicionalmente concebidas como absolutas, e concluiu que elas são filhas da escolástica medieval. Essa investigação da “certidão de nascimento” do cartesianismo não é imune a críticas. Mas Antonio Cicero simplesmente chamou-a de “relativização”, sem notar que, há 73 anos, Ser e Tempo já previra e contestara essa rotulação (§ 6).
(Maurício Tuffani, “Uma ameaça maior que o dogma”, Folha de S. Paulo, 8 de junho)

Em outras palavras, Heidegger fez uma análise mostrando essa dependência cartesiana do passado escolástico, e Antonio Cicero simplesmente a chamou de relativização, sem criticá-la ainda que de passagem no jornal, ou pelo menos dizer se ele a criticara antes ou se alguém já o teria feito. Como eu já havia lido seu artigo “A sedução relativa”, de 2006, lembrava que esse outro texto também não apresentara uma crítica dessa análise do pensador alemão. E, eu, acreditando no rigor expositivo do colunista nesse ensaio de 2006, pressupus e afirmei que ele não notara que Heidegger previra e contestara a ideia de que essa busca da “certidão de nascimento” filosófico seria uma simples relativização do pensamento de Descartes. Com isso, Antonio Cicero me contestou:

(…) Engano dele: já em “O mundo desde o fim”, de 1995 (p.96-7 da edição brasileira ou p.89 da edição portuguesa), eu ironizava a pretensão de Heidegger no § 6, dizendo:

“Negando que tenha a pretensão de efetuar uma “má relativização” (schlechte Relativierung) de pontos de vista ontológicos, Heidegger explica que tenciona levar a cabo uma “comprovação da procedência dos conceitos ontológicos fundamentais como exposição investigadora das suas ‘certidões de nascimento'”, tendo em vista “delimitar [a tradição ontológica] em suas possibilidades positivas”; e complementa: “e isso sempre quer dizer em seus limites”. Em suma, ele pretende realizar uma boa relativização dos conceitos ontológicos — para nós, noético-ontológicos – fundamentais”.

Salta aos olhos o equívoco de Antonio Cicero nessa negação de que Heidegger negou que teve “a pretensão de efetuar uma ‘má relativização’ (schlechte Relativierung)”. O que se deduz logicamente dessa improcedente dupla negação é que Heidegger pretendia fazer uma má relativização. Isso não está escrito em Ser e Tempo e, se o tivesse sido, o filósofo alemão teria cometido um erro. O que houve foi, das duas, uma: ou uma expressão confusa do colunista, ou uma interpretação errônea sua de um trecho do § 6 de Ser e Tempo, reproduzido a seguir e que eu mesmo havia citado em meu artigo de 26 de maio.

Esta comprovação da filiação dos conceitos ontológicos fundamentais por meio de uma explanação investigadora de suas “certidões de nascimento” não tem nada a ver com uma má relativização de pontos de vista ontológicos. [Dieser Nachweis der Herkunft der ontologischen Grundbegriffe, als untersuchende Ausstellung ihres »Geburtsbriefes« für sie, hat nichts zu tun mit einer schlechten Relativierung ontologischer Standpunkte.] (Grifos meus.)
(Martin Heidegger, Sein und Zeit. 18ª edição. Tübingen: Max Niemeyer Verlag, 2001, § 6, p. 22)

Na verdade, no segundo dia após a publicação de meu segundo artigo (quinta-feira, 10 de junho), o colunista transcreveu esse trecho de seu livro no espaço de comentários de seu blog. Ao me deparar com isso, pensei, num primeiro momento, que Antonio Cicero tivesse cometido um erro de transcrição de seu próprio texto. Com base nesse benefício da dúvida em prol de meu oponente, ou seja, contando com a possibilidade de ele apenas ter mencionado de forma adequada a ressalva de Heidegger, afirmei em meu blog:

Essa reflexão heideggeriana pode certamente ser questionada e até mesmo refutada. Eu não li O Mundo desde o Fim, de Antonio Cicero. Se nesse livro ele fez a crítica dessa problematização, estou desde já interessado e faço meus protestos por ele não ter pelo menos dito, em seus dois artigos, que cumpriu esse percurso filosófico, ainda por cima com todo o espaço que ele tem – mais de 45% maior que o meu (4.360 caracteres contra 3.000). Mas o que ele apresentou hoje em seu próprio blog em resposta à sua pergunta é apenas uma recusa, e não uma análise que possa ter a pretensão de refutação. Em outras palavras, ele não pode estabelecer a coisa por decreto, nem fazer a pregação “No Princípio era o Cogito”.
(Resposta ao comentário de Aetano de 10/06, em “Uma ameaça maior que o dogma”, neste blog)

No dia seguinte (sexta-feira, 11 de junho), uma leitora de meu blog informou que essa confusão também constava no ensaio “A sedução relativa”. Com isso, percebi que eu não notara essa passagem quando li o ensaio por tê-lo feito superficialmente e há algum tempo. Mas como não gosto de ganhar discussão “no grito” ou “na marra”, eu estava prestes a reconhecer que deveria ter notado, no ensaio de Antonio Cicero, sua menção, ainda que equivocada, à ressalva do pensador alemão. Mas a internauta apontou um fato muito curioso: apesar de essa observação do colunista no ensaio de 2006, ele não explicou nesse texto aquilo que estava em questão, que era justamente a dependência cartesiana da escolástica, e não a uma mera contraposição de Heidegger aos conceitos cartesianos, que tornaria válida qualquer pensamento divergente do cartesianismo.

Não contive minha curiosidade de descobrir como esse ponto foi tratado no livro O Mundo desde o Fim, de Antonio Cicero. Após localizar pela internet um sebo perto de meu trabalho que tinha um exemplar dessa obra, eu o comprei. Ao verificar os trechos em que esse livro trata de Heidegger, constatei que nessa obra o colunista também havia desconsiderado a interpretação de Heidegger de que o pensamento de Descartes depende dos escolásticos medievais.

Em outras palavras, explico esse imbróglio agora por partes, “cartesianamente”:

a) tanto em seu livro O Mundo desde o Fim, de 1995 (p. 101), como em seu ensaio “A sedução relativa”, da coletânea O Silêncio dos Intelectuais, de 2006 (p. 195), Antonio Cicero reconhece que Heidegger procede a uma genealogia das concepções cartesianas;

b) nesses dois textos, porém, assim como em seus dois artigos consecutivos em sua coluna na Folha (15 de maio e 22 de maio) e na resposta em seu blog ora em questão (12 de junho), o colunista não mencionou a conclusão dessa abordagem heideggeriana: as concepções cartesianas são derivadas da escolástica medieval, o que contraria toda a tradição que aponta o pensamento do filósofo francês como autônomo e fundamentado em si mesmo;

c) em Ser e Tempo (§6), Heidegger afirmou que essa sua análise “não tem nada a ver com uma ‘má relativização’ de pontos de vista ontológicos”; e

Além de ter mencionado equivocadamente essa ressalva de Heidegger do § 6 de Ser e Tempo, no seu livro de 1995, no seu ensaio de 2006 e em sua resposta ora em questão, Antonio Cicero

– também não disse em nenhum desses três textos que a ressalva de Heidegger se referiu especificamente à sua análise apontada acima no tópico 3), da proveniência das concepções cartesianas; e

– induziu em erro seus leitores, como também reforçou indevidamente sua tese de que a análise heideggeriana é uma mera relativização do cartesianismo, que ele também chama de “desqualificação”.

Antonio Cicero comparou em seu livro de 1995 os conceitos da escolástica, especialmente de Santo Agostinho, aos de Descartes. Mas não resolveu o ponto ressaltado pelo pensador alemão em Ser e Tempo e em outras obras, que é a dependência dos segundos em relação aos primeiros. E, digo mais uma vez, isso contraria toda a tradição que aponta o pensamento cartesiano fundamentado exclusivamente em si mesmo.

Prossigo com a resposta do colunista.

Quanto à atitude de Heidegger em relação a Descartes, em “A questão fundamental da filosofia”, não é verdade que, como Tuffani afirma, o “alvo” dele fosse apenas a tradição acadêmica dogmática e louvadora do cartesianismo. Heidegger diz, efetivamente, que a importância atribuída a Descartes é sinal de falta de pensamento e irresponsabilidade das universidades alemãs (…)

Antonio Cicero incorre em outra descontextualização, omitindo que, pouco antes desse trecho, nessa mesma obra citada por ele, Heidegger também lembrou a dependência cartesiana em relação à escolástica. Ou seja, mais uma vez o colunista deixou de lado do que se tratava. Vejamos o que na verdade disse o pensador alemão.

Descartes aparece como o modelo do pensador radical que, em última instância, põe tudo em jogo e, ao mesmo tempo, dá indicação para uma edificação totalmente nova de toda a ciência. Nele se incorpora a Idade Moderna e seu despertar (“libertação”), em contraste com as trevas da Idade Média.
Decerto observou-se ultimamente que este Descartes não é independente de todo de seus antecessores, justamente os escolásticos medievais. (…)
Visto assim em sua dúvida universal e com a “acentuação”, ao mesmo tempo do eu, este Descartes é o objeto mais querido e usado nas chamadas provas e trabalhos para aprovação nas universidades alemãs. Este costume existente há decênios é apenas um sinal, mas inequívoco, da falta de pensamento e responsabilidade que se espalhou por lá. Não se teria chegado a tal desmoralização dos estudantes e do sistema de aprovação, se os próprios docentes não a tivessem patrocinado e permitido.
(Martin Heidegger, Ser e Verdade: 1. A questão fundamental da filosofia; 2. Da essência da verdade. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão; revisão da tradução de Renato Kirchner. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007, pp. 52-53.).

Ou seja, visto da perspectiva acadêmica laudatória e acrítica em relação à sua origem e à sua dependência do pensamento medieval, “este Descartes é o objeto mais querido e usado nas chamadas provas e trabalhos para aprovação nas universidades alemãs”.

(…) e, logo depois, explica:

“COM O PROPÓSITO DE DETERMINAR A POSIÇÃO REAL DE DESCARTES NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL, NO TOCANTE ÀS QUESTÕES FUNDAMENTAIS, e ao fazê-lo, realçar o predomínio decisivo da ideia matemática do método, AFIRMO O SEGUINTE:

“1. A RADICALIDADE DA DÚVIDA DE DESCARTES E O VIGOR DA NOVA FUNDAMENTAÇÃO DA FILOSFIA E DO SABER EM GERAL É UMA APARÊNCIA E, ASSIM, FONTE DE ILUSÕES FATAIS, HOJE MUITO DIFÍCEIS DE SEREM ELIMINADAS.

Curiosamente, a radicalidade da dúvida de Descartes é justamente um dos pressupostos fundamentais da proposta filosófica expressa em seu livro O Mundo desde o Fim, que o colunista chama de “cogito ultracartesiano”, como mostra o trecho a seguir.

O cogito ultracartesiano a que chegamos é, evidentemente, muio diferente do cogito cartesiano. Trata-se, ao contrário deste, que, como vimos, pretende ser um fundamento positivo para o conhecimento, de um cogito negativo. Não chegando a conceituar a apócrise, o pensamento cartesiano clássico não pode compreender nem que a busca da certeza absoluta é homóloga à busca da essência do eu nem que esta é idêntica à essência do agora e à essência do ser. Só a radicalização do pensamento cartesiano alcança essa essência necessária, universal, absoluta e pura que chamamos de negação negante, que constitui o fundamento negativo de todo o conhecimento.
(Antonio Cicero, O Mundo desde o Fim. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, § 9, p. 46.)

“2. ESSE PRETENSO NOVO PRINCÍPIO DA FILOSOFIA MODERNA, COM DESCARTES, NÃO APENAS NÃO CONSISTE, COMO É, SOBRETUDO, O INÍCIO DE MAIS UMA DECADÊNCIA DA FILOSOFIA. DESCARTES NÃO LEVA A FILOSOFIA DE VOLTA PARA SI MESMA, PARA SEU FUNDO E SEU CHÃO, MAS A DISTANCIA MAIS AINDA DO QUESTIONAMENTO DA QUESTÃO FUNDAMENTAL” (Ser e verdade. Trad. de Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis, Ed. Vozes, 1007.

O uso do termo “decadência” nesse trecho é conceitual. Nele Heidegger não apontou a filosofia de Descartes como um pensamento que corrompe, distorce ou degrada a filosofia, mas que fundamenta e promove a partir dele a autonomização crescente das ciências em relação a ela, principalmente guiada pelas necessidades da tecnologia. Sendo o que se seguiu a todo o ápice de vigor filosófico em Descartes, esse declínio é um aspecto dessa “decadência”. E essa autonomização não pode ser vista de modo maniqueísta ou satanizador como afimou o próprio Heidegger:

Seria insensato investir às cegas contra o mundo técnico. Seria ter vistas curtas querer condenar o mundo técnico como uma obra do diabo. Estamos dependentes dos objectos técnicos que até nos desafiam a um sempre crescente aperfeiçoamento. Contudo, sem nos darmos conta, estamos de tal modo apegados aos objectos técnicos que nos tornamos seus escravos.
(Martin Heidegger, Serenidade. Tradução de Maria Madalena Andrade e Olga Santos. Lisboa: Instituto Piaget, s./d., p 23.)

Ainda com relação a “decadência”, e a fim de mostrar, sem nenhuma pretensão de comprovação de tese, vale lembrar duas interpretações em língua portuguesa de outros estudiosos sobre esse conceito.

Apesar do sentido de deterioração, Heidegger insiste que Verfallen não é um termo de desaprovação moral, nada tendo em comum com a acepção cristã de queda da graça. (…) Heidegger dá três exemplos daquilo em que Dasein caiu e, implicitamente, de onde Dasein se afastou (ST, 175):
1. Verfallen significa: “Dasein está antes de tudo e na maioria das vezes junto ao [bei] ‘mundo’ de sua ocupaçãp” (cf. ST, 250).
2. “Esta absorção em… [Aufgehen bei…] geralmente possui o caráter de estar perdido na publicidade do impessoal”.
3. “Decair no ‘mundo’ significa ser absorvido no ser-um-com-o-outro, à medida que isto é guiado pelo falatório, pela curiosidade e pela ambiguidade”.
(Michael Inwood, Dicionário Heidegger. Tradução de Luísa Buarque de Holanda; revisão técnica de Márcia Sá Cavalcante Schuback. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002, p. 31.)

A tradutora brasileira de Ser e Tempo, Márcia Sá Cavalcante Schuback, em suas”Notas Explicativas” à segunda edição, incluiu a seguinte:

(N60) DECADÊNCIA = VERFALLEN
O termo decadência corresponde à expressão alemã Verfallen, inclusive nas conotações morais e desabonadoras que Ser e tempo exclui. Trata-se de um termo que remete à estrutura ontológico-existencial que é a presença e não a uma qualidade ou modalidade. Em português, o étimoda cadência, do tatino cadere, exprime literalmente o que Heidegger expressamente insiste de que decadência significa movimentação de ser.
(cf. Notas Explicativas in Martin Heidegger, Ser e Tempo. 2ª edição. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback; posfácio de Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007, p. 576.)

Voltemos à resposta do colunista.

Segundo Tuffani, “Verfall[en]” (“decadência”) não exprime, para Heidegger, qualquer avaliação negativa. Novamente, ele confunde as coisas. Segundo Heidegger, o termo “Verfall” não exprime qualquer avaliação negativa quando aplicado ao “Dasein”, isto é, ao ser humano situado no mundo. Observo, en passant, que, na verdade, é altamente questionável que palavras como “decadência”, e “inautenticidade” possam ser usadas sem carga valorativa. Como diz Adorno em Die Jargon der Eigentlichkeit (Frankfurt: Suhrkamp, 1964, p.81): “As expressões terminologicamente escolhidas não se esgotam nos seus usos que são escolhidos com liberdade subjetiva, mas – e Heidgger, o filósofo da linguagem, devia ser o primeiro a concordar – conservam como seu conteúdo objetivo as normas das quais Heidegger as separa”. (…)

Não conheço a obra de Adorno citada, mas, a julgar apenas em função de seu trecho acima transcrito, nem mesmo os advogados poderiam usar o termo “decadência” em seu significado jurídico, que é a “perda do direito de ação, por não havê-lo exercido o ofendido durante o prazo legal” (definição atribuída a Magalhães Noronha no verbete “Decadência (direito civil)”, na Wikipédia). Independentemente disso, não tenho dúvida de que uma expressão estabelecida para uma terminologia especializada não se esgota nesse uso. E também não me parece que Heidegger tenha se apropriado do uso desse e de outros termos.

(…) De todo modo, é verdade que separá-las das suas cargas valorativas é, de fato, o que Heidegger diz PRETENDER, no livro Ser e tempo, de 1927.

Depois disso, porém, e fora desse contexto, Heidegger continuou a empregar a palavra “Verfall” – “decadência” – pejorativamente, como todo o mundo. O texto sobre Descartes como decadente é de 1933-34. Pela mesma época, em Introdução à metafísica, de 1935, por exemplo, Heidegger declara que “a decadência espiritual da terra já foi tão longe que os povos estão ameaçados de perderem a última força espiritual que lhes permite ver e avaliar enquanto tal a decadência”.

É claro que Heidegger também usava termos homônimos de seus conceitos em suas acepções coloquiais, e o caso pontado pelo colunista é um deles. Mas ele não abandonou o uso conceitual após escrever Ser e Tempo. Vejamos, por exemplo, como ele se referiu a esse conceito em Sobre o Humanismo, em 1947:

O termo [decadência] não significa uma queda do homem, entendida sob uma perspectiva filosófico-moral e ao mesmo tempo secularizada, pois designa uma relação essencial do homem com o ser, no interior da referência deste à essência do homem. [Das wort meint nicht einen » moralphilosophisch « verstandenen und zugleich säkularisierten Sündfall des Menschen, sondern nennt ein wesenhaftes Verhältnis des Menschen zum Sein innerhalb des Bezugs des Seins zum Menschwesen.]
(Über den Humanismus, p. 24.)

Se Tuffani não percebe a carga pejorativa do vocábulo “decadência” nesse texto, então receio que, se não no que diz respeito à terra como um todo, ao menos no que diz respeito a ele essas palavras de Heidegger foram proféticas.

Em suma, nenhuma das acusações de Tuffani contra mim tem procedência.

É desnecessário dizer qualquer coisa sobre essas palavras finais. A elas, para finalizar, acrescento apenas as do próprio Heidegger em mais uma passagem de Sobre o Humanismo em que ele se refere ao seu próprio pensamento:

Está longe dele a pretensão de querer começar tudo do início e declarar falsa toda a filosofia anterior. [Ihm liegt die Anmaβung fern, von vorne anfangen zu wollen un alle vorausgegangene Philosophie für falsch zu erklären.]
(Über den Humanismus, p. 29)

A banalização e o dogma

Retomo a objeção de Antonio Cicero que deixei para comentar em separado e transcrevo a seguir.

Em vez disso, Tuffani escreveu um artigo intitulado “Uma ameaça maior que o dogma”. E qual seria a ameaça maior que o dogma? Segundo ele, trata-se da banalização da filosofia. Já isso está errado, é claro. O dogma é pior do que a banalização, pois, além de ser banalizado, é também esclerosado, intolerante e surdo a críticas.

O tema da banalização não foi tratado explicitamente em meu primeiro artigo, mas está implícito nele. No que diz respeito especificamente a essa objeção de Antonio Cicero — a de que o dogma é pior que a banalização —, eu já a esperava, e o convido a refletir um pouco mais sobre o assunto. Entendido como pressuposto básico, como axioma, como preceito fundamental, um dogma pode fazer — e ressalto que eu não disse “faz” — parte de um pensamento filosófico em seu nível mais essencial, geralmente sem prejuízo da clareza de ser um dogma por parte daquele que pensa.

Com a banalização é diferente. Ela não é proposital no pensamento filosófico, a não ser nos casos de má-fé, e, quando acontece, ela se dá principalmente na interpretação das obras de outros pensadores. Ela pode não só distorcer conclusões, mas também ocultar interrogações e até dogmas.

A banalização é pior do que o dogma, pois pior que assumir um dogma é não ser capaz de constatá-lo como tal. Tomando como exemplo infelizmente ainda atual, esse é o caso de um pressuposto não tematizado do conceito de civilização presente em grande parte do ideário marxista: o do rumo inexorável para o comunismo, com a abolição definitiva da divisão social do trabalho e o surgimento do “homem total”, que escolhe onde e quando quer ser trabalhador, poeta, pintor, filósofo etc. É o que aponta a contundente análise “Super-homem e homem total”, de Gérard Lebrun, publicada em 1978 e traduzida recentemente para o português, da qual transcrevo o trecho a seguir.

(…) contentar-se com invocar a “passagem inelutável” [do capitalismo para o socialismo] é o mesmo que dar ocasião para que se suspeite que a continuidade de uma forma a outra poderia ser mais profunda do que faz crer o relato fanfarrão das proezas do “homem total” de amanhã.
Como encontrar os a priori de civilização que o socialismo arriscaria a substituir? A questão não será posta, o marxismo a evita e se satisfaz com essa imensa preterição. (…) notem que se trata sempre de abolir as limitações, de derrubar as barreiras, de fazer os bloqueios ir pelos ares, para devolver o livre curso ao crescimento ou ao destino da humanidade que as relações de produção, que estaríamos tentados a chamar de “representativas”, ocultavam e entravavam.
(Gérard Lébrun, “Super-homem e homem total”. Tradução de Maria Lúcia M. Cacciola. in: A Filosofia e sua História. São Paulo: Cosac Naify, 2006, pp. 176-177.)

Não adianta a disposição para questionar se não se enxerga o que há para ser questionado. Se a dogmatização faz com que um tema não seja questionado, a banalização pode inviabilizar até mesmo que algo seja tematizado.

O digno-de-ser-questionado é o que se põe, antes de tudo, para o pensar como aquilo que ele deve pensar, mas de forma alguma o que é tragado pela voracidade de uma vazia compulsão de duvidar. [Die Frag-würdige ist allerst dem Denken als sein zu Denkendes anheimgegeben, keineswegs aber in den Verzehr einer leeren Zweifelsucht verstoβen.]
(Über den Humanismus, p. 14)

No que diz respeito à interpretação de Heidegger por Antonio Cicero, não tenho a menor pretensão de que os equívocos nela apontados por mim ponham em xeque a proposta filosófica exposta em O Mundo desde o Fim. Mas sua descaracterização da interrogação heideggeriana certamente impossibilitará sua dúvida ultracartesiana se exercer plenamente em face dos desafios relacionados ao relativismo.

Notas

* Maurice Merleau-Ponty, Le Visible et l’Invisible. Paris: Galimmard, 2002, p. 247.

** Aristotle, Metaphysics. Texto bilíngue (grego-inglês). Tradução de Hugh Tredennik. Cambridge: Harvard University Press, 1933 (Loeb Classical Library, Aristotle, v. XVII), p. 14.

*** Anatole Bailly, Le Grand Bailly: Dictionnaire Grec-Français. 26ª edição. Paris: Hachette, 2000, p. 1689.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 17/06/2010 at 7:30

Publicado em Filosofia, Política

Uma ameaça maior que o dogma

with 31 comments

O artigo abaixo foi publicado na Folha de S. Paulo hoje (8 de junho), à pág. A3 (Tendências/Debates).

Os temas filosóficos são muitas vezes identificados pelo senso comum por seus aspectos extravagantes. Estes, longe de transmitir as ideias originais, na verdade ofuscam o que há de essencial nelas.

Mas há também entre os próprios pensadores uma espécie de senso comum filosófico. Ele está no apelo exagerado aos “ismos” – o humanismo, o niilismo e outros –, e em chavões manipuláveis ao gosto de cada intérprete.

Devido à vastidão da filosofia, nenhum pensador é imune a essa banalização. Não há, portanto, desrespeito ao apontar isso nos dois textos mais recentes do colunista Antonio Cicero na Ilustrada, “Irracionalismo” (15/5) e “Heidegger, Descartes e a razão” (29/5).

O segundo artigo dele é uma réplica a “O tabu em torno da razão” (Tendências/Debates, 26/5), no qual contestei o primeiro por ele ter atribuído a Martin Heidegger um “feroz anticartesianismo” e também a “desqualificação” da tradição filosófica e da razão.

Peço desculpas por um erro em meu artigo anterior. Apontei como fonte o § 24 em vez do § 6 do livro Ser e Tempo, de Heidegger. E poupo os leitores do revide às suposições feitas pelo colunista sobre mim por não ter ele notado que esse foi um erro de referência.

Meu foco não é defender o pensador alemão. Como já ressaltei e exemplifiquei, existem críticas pertinentes a ele. Mas esse não é o caso dos argumentos do colunista, já previstos e contestados desde 1927 em Ser e Tempo.

Heidegger questionou as noções básicas do pensamento de Descartes, tradicionalmente concebidas como absolutas, e concluiu que elas são filhas da escolástica medieval. Essa investigação da “certidão de nascimento” do cartesianismo não é imune a críticas. Mas Antonio Cicero simplesmente chamou-a de “relativização”, sem notar que, há 73 anos, Ser e Tempo já previra e contestara essa rotulação (§ 6).

Para reforçar sua ideia do “ataque” a Descartes, o colunista alegou que em A Questão Fundamental da Filosofia Heidegger se queixou da importância do pensador francês nas universidades ao apontá-lo como o início de uma ampla decadência da filosofia. Mas o alvo da queixa do alemão foi outro: a tradição acadêmica dogmática e louvadora do cartesianismo.

Além disso, o conceito Verfallen (decadência em alemão) “não exprime qualquer avaliação negativa”, esclarece Ser e Tempo (§ 38). Trata-se do “empenho na convivência, na medida em que esta é conduzida pela falação, curiosidade e ambiguidade”.

Esse ponto nos conduz ao que importa nesta discussão, que pode soar “bizantina” para o senso comum: o pior ao se banalizar um pensamento não é distorcer suas conclusões, mas ocultar suas interrogações.

Antonio Cicero encerrou seu artigo dizendo defender a razão e a liberdade de pensamento contra o dogma. Mas a banalização é capaz de mascarar até mesmo o dogma. Ela está presente em cada um de nós e pode fazer da própria liberdade do pensamento um clichê vazio e inócuo.

MAURÍCIO TUFFANI é jornalista, editor do blog Laudas Críticas e assessor de comunicação e imprensa da Unesp.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 08/06/2010 at 7:00

Publicado em Filosofia

O tabu em torno da razão

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Publicado na Folha de S. Paulo, 26 de maio, pág. A3 (Tendências/Debates)

Em seu artigo “Irracionalismo” (Folha de S. Paulo, Ilustrada, 15/5), o colunista Antonio Cícero contestou os que acusam Descartes de ser autor de um pensamento conservador e repressivo. Mas o fez atribuindo indevidamente a Martin Heidegger um “feroz anticartesianismo” e também a “desqualificação” da tradição filosófica e da razão. Com o devido respeito ao colunista, suas imputações ao pensador alemão do século 20 são simplificações falseadoras, assim como as próprias acusações ao filósofo francês do século 17.

Descartes é uma das melhores provas da fragilidade da famosa 11ª das Teses sobre Feuerbach, de Marx: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo. Cabe transformá-lo”. É inegável o papel revolucionário do cartesianismo na consolidação do ideário que dessacralizou o mundo e possibilitou submetê-lo aos rumos da burguesia em ascensão

Heidegger não deixou de reconhecer o valor do pensamento moderno. Não faria sentido o rótulo “anticartesianismo”, mesmo sem o adjetivo “feroz”. Leitura cuidadosa de suas obras desautoriza a mostrá-las com uso do prefixo “anti”. Aliás, como disse ele em Sobre o Humanismo, de 1947, “no âmbito do pensamento essencial, toda oposição é supérflua”.

Em relação especificamente a Descartes, a obra principal de Heidegger, Ser e Tempo (§ 24 página 24 [correção de 29/5 às 7h55*]), ressalta não ser contestação à validade da concepção de certeza do pensador francês. Trata-se, isso sim, de mostrar a noção cartesiana não como essência da certeza, mas como derivação dessa essência.

Em outras palavras, Heidegger problematiza as próprias noções de verdade e de razão. Ou seja, ele as recusa como absolutas. Mas isso — que o colunista não aceita — não é desqualificar a razão nem a ciência, a técnica e a modernidade.

“Seria insensato investir às cegas contra o mundo técnico. Seria ter vistas curtas querer condenar o mundo técnico como uma obra do diabo”, disse o pensador alemão em 1949, numa palestra para uma plateia não especializada, publicada com o título “Serenidade”. Sua objeção é outra: “Contudo, sem nos darmos conta, estamos de tal modo apegados aos objetos técnicos que nos tornamos seus escravos”.

Há muitas críticas contundentes a Heidegger. Aqui mesmo, no Brasil, um de seus ex-alunos, o gaúcho Ernildo Stein, destacou que seu pensamento se torna vulnerável quando é preciso fazer juízos históricos sobre o aqui e agora. E acrescentou: “A tentação de se apresentar como profeta, enquanto se é filósofo, além de absurda, é ridícula. E Heidegger nem sempre consegue fugir a essa tentação”.

Por sua vez, Carlos Alberto Ribeiro de Moura, da USP, apontou na leitura heideggeriana de outros filósofos, especialmente de Nietzsche, a “tortura dos textos para extorquir-lhes ‘confissões’ ao gosto do intérprete”. Por falar em Nietzsche, vale lembrar que, em Além do Bem e do Mal (§ 6), ele destacou que toda filosofia esconde intenções morais. Sejam quais forem as de Antonio Cícero, elas parecem fazer do questionamento da razão um tabu.

MAURÍCIO TUFFANI é jornalista, editor do blog Laudas Críticas e assessor de comunicação e imprensa da Unesp.

* Correção de 29/5 às 8h55 — Em sua resposta hoje na Folha ao texto acima (“Heidegger, Descartes e a razão”), Antonio Cicero observou corretamente que Descartes nem sequer é citado no § 24 de Ser e Tempo. Não foi a primeira vez que fiz essa mesmíssima confusão, baseada em um erro de anotação minha, na qual usei “§ 24” em vez de “p. 24” . A versão que uso dessa obra é a 18ª edição alemã [Martin Heidegger, Sein und Zeit (18. Aufl.). Tübingen: Max Niemeyer Verlag, 2001]. Na segunda edição brasileira, o trecho a que me refiro no texto acima corresponde às páginas 62 e 63 (tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback, Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2006).

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Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 26/05/2010 at 6:20

Publicado em Filosofia

Ceticismo com aspas e sem aspas

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Gostei das aspas aplicadas pelo jornalista Marcelo Leite à palavra “céticos”, hoje, em sua coluna no caderno dominical “Mais!”, na Folha de S. Paulo (“Climagate“, pág. C-5), ao se referir aos opositores da tese da origem antropogênica do aquecimento global, ou seja, de que as ações humanas estão intensificando o efeito estufa, pondo em risco o equilíbrio climático do planeta. Ele abre seu texto com o seguinte parágrafo:

A uma semana da conferência sobre mudança do clima em Copenhague, os “céticos” do aquecimento global marcaram um tento. Conseguiram meter uma cunha na credibilidade dos que defendem que ele é uma realidade e que a ação do homem (“antropogênica”) é decisiva para agravar o efeito estufa.

O colunista se refere ao chamado “climagate”, o caso dos hackers que puseram na internet milhares de mensagens e outros documentos de um servidor da Unidade de Pesquisa do Clima, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido.

Segundo o jornalista, esse material não comprova nenhuma conspiração dos adeptos do aquecimento global para distorcer dados, mas mostra alguns golpes baixos, como dificultar o caminho de seus opositores — que são os tais “céticos” — para publicar estudos em revistas científicas de prestígio. O assunto rendeu ainda ontem (sábado, 28/11), uma interessante reportagem no New York Times, “Hacked E-Mail Data Prompts Calls for Changes in Climate Research“.

Deixemos para outro momento o assunto do aquecimento global. Meu foco nesta postagem está no uso do termo “cético” não só nessa questão, mas também em outros temas no âmbito da divulgação científica, como o confronto entre evolucionistas e criacionistas.

Na imprensa nacional e internacional, a palavra “cético” tem sido usada com muita freqüência com o significado de descrente em relação a uma idéia ou tese específica. Por exemplo, têm sido chamados de “céticos do darwinismo” aqueles que são partidários do criacionismo, da mesma forma como os evolucionistas são chamados de “céticos do criacionismo”. A expressão ainda não adquiriu o significado de opositor, mas não está longe disso.

Nos dicionários

Antes de mais nada, vejamos o que consta em alguns dicionários. No Aurélio, por exemplo, o verbete “cético” remete a “céptico”, que, por sua vez, dispõe o seguinte:

[Do gr. skeptikós, pelo lat. scepticu.] Adj. 1. Que duvida de tudo; descrente. 2.Filos. Pertencente ou relativo ao cepticismo. 3. Filos. Diz-se do partidário do cepticismo. • S.m. 4. Indivíduo céptico. 5. Filos. Partidário do cepticismo.

Em outro léxico, o Houaiss, temos para “cético”:

adj.s.m. (1702 cf. Num Voc) 1. diz-se de ou o partidário do ceticismo. 2. p.ext. que ou aquele que não confia, duvida; descrente. 3. pertencente ou relativo ao ceticismo <argumento, comportamento c.> • ETIM gr. skeptikós,ê,ón ‘que observa, que reflete’, do v.gr. sképtomai ‘olhar atentamente, observar, examinar, meditar, refletir’, prov. por infl. do fr. sceptique (1546), subst. pl. ‘partidários da doutrina de Pirro’, (1746) aquele que duvida do que não é comprovado de maneira incontestável’; Quintiliano (35-96 d.C.) usa em lat. a palavra sceptìci,órum (‘os cépticos’), como seita de filósofos ditos em gr. hoi skeptikoi, isto é, ‘os que fazem profissão de observar, de nada afirmar’; f.hist. 1702 scepticos, 1720 scêptico • SIN/VAR céptico; ver tb. sinonímia de herege • ANT crente; ver antonímia de herege • HOM séptico(adj.)

Com base no segundo sentido apontado pelo Houaiss, por extensão não está errado esse uso que aponto para o termo “cético”. No entanto, entendo que a cobertura jornalística de ciência deveria ser mais rigorosa com o uso do vocabulário no que diz respeito à possibilidade de ambigüidades no plano do conhecimento científico.

Não se trata de exigir que seja empregada essa qualificação somente para os adeptos das diferentes correntes do ceticismo filosófico, que está esboçado no verbete do Houaiss. Seria um despropósito estabelecer que o esse termo deve ser usado estritamente em relação à filosofia (assunto que também merece outra conversa). Mas seria muito adequado usá-lo somente para aqueles que, mesmo sem nenhuma abordagem de ordem filosófica, se mostram empenhados efetivamente a fazer o papel de “advogados do diabo”.

Uso indiscriminado

Por exemplo, a discussão entre criacionistas e evolucionistas. Exceto pelo sentido específico de não crer em uma idéia ou doutrina — no caso, o darwinismo —, os primeiros não têm nada de céticos, uma vez que se aferram dogmaticamente ao postulado da existência de uma potência exterior divina criadora de tudo o que existe.

Por outro lado, não existe nada de ceticismo na atitude de grande parte dos defensores do evolucionismo que afirmam que essa é uma teoria comprovada cientificamente como verdadeira. Ora, não é preciso ser adepto do pensamento do filósofo da ciência austríaco Karl Popper (1902-1994) para entender que uma teoria científica nunca é provada verdadeira: se ela nunca foi refutada, o que se pode dizer é que ela foi corroborada por sucessivos experimentos. [Na prática, como mostrou posteriormente o norte-americano Thomas Kuhn (1922-1996), às vezes se alegam “boas razões” para deixar de lado algumas refutações. Mas já discutimos isso neste blog (ver “A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo“, de 15/12/2008, e “O dedo na ferida da razão“, de 12/08/2006), e certamente voltaremos a fazê-lo.]

Não vejo problema, por exemplo, quando são qualificados como céticos aqueles que, mesmo sem abordagens filosóficas, submetem a prova, por princípio, alegações feitas com pretensões de conhecimento. Há alguns anos, escrevi uma reportagem sobre esse tipo de militância cética (“Os inquisidores da razão“, Galileu, nº 116, março de 2001). Por outro lado, não têm nada a ver com ceticismo aqueles, inclusive cientistas, que defendem posições dogmáticas dentro da ciência, ainda que para contestar misticismos e charlatanismos.

Independentemente de tudo isso, há também o aspecto de que o uso indiscriminado do termo “cético” nesses contextos demonstra que a imprensa tem ainda muito a aprender com o ceticismo de Pirro de Élis (c. 360-275 a.C.), imortalizado por Sexto Empírico (c. 160-210 d.C.) em sua obra Hipotiposes Pirrônicas. Para não alongar demais no assunto, mostro do que se trata retomando mais uma vez neste blog as sintéticas considerações de Plínio Junqueira Smith a seguir.

A terapia pirrônica, tal como no-la descreve Sexto, faz-se por meio da oposição de discursos e razões e supõe que os dogmáticos sofrem de precipitação e arrogância, que se manifestariam na adesão apressada a um discurso argumentativo e a uma tese em detrimento da tese e discurso argumentativo opostos. O problema do dogmático não consiste na adoção desta ou daquela tese filosófica, mas numa atitude que se caracteriza pela precipitação e pela arrogância. É essa atitude, segundo Sexto, que deve ser tratada. Além disso, a idéia pirrônica é que essa atitude dogmática é fonte de perturbação e de uma vida pior.
(Plínio Junqueira Smith, “Ceticismo dogmático e dogmatismo sem dogmas”. Integração. nº 45, abr./mai./jun. 2006, pp. 181-182.)

Seja como for, com aspas ou sem apas, melhor mesmo é qualificar aqueles que se dizem descrentes de uma determinada tese, idéia ou doutrina como discordantes ou opositores.

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 29/11/2009 at 18:38

Lombroso, espiritismo e ceticismo

Cesare Lombroso (1835-1909)A edição de hoje (sábado, 03/01) de O Estado de S. Paulo sinaliza a possibilidade de o espiritismo virar objeto de polêmica em 2009. Em 19 de outubro se completarão cem anos desde a morte do médico italiano Cesare Lombroso (1835-1909), um dos expoentes da criminologia como disciplina científica. A efeméride é lembrada no Estadão por Miguel Reale Júnior. Em seu artigo “Razão e religião”, o jurista destaca a ligação do pesquisador italiano com a doutrina espírita.

Adepto do positivismo de Auguste Comte (1798-1857), Lombroso foi um dos principais nomes da escola positiva do direito penal (ver Lélio Braga Calhau, “Criminologia e a Escola Positiva do Direito Penal”, Jus Navigandi, julho de 2003). Suas incursões no espiritismo aconteceram a partir de 1891 ao aceitar o desafio público do divulgador e propagandista espírita Ercole Chiaia para acompanhar, com outros pesquisadores, sessões da médium Eusapia Paladino (1854-1918).

Lombroso acabou convertendo-se ao espiritismo se retratou das contestações em tom de deboche feitas por ele a essa doutrina aos chamados fatos espíritas em seu livro Studi sull’Ipnotismo, de 1892 (ver Patricia Fazio, “Ricerca personale su Cesare Lombroso”, Il Foro Universitario, 18/03/2007). Por mais que se desacredite dessa atividade das duas últimas décadas de vida do criminologista italiano — e desde já deixo claro meu “pé-atrás” com o assunto —, é inaceitável que ela muitas vezes tenha sido simplesmente varrida para baixo do tapete.

Se a efeméride da morte de Lombroso trouxer novas discussões sobre o assunto, só espero que sejam menos surdos os antagonismos sempre surgem com questões desse tipo. A esse respeito, temos ainda muito a aprender com o bom e velho ceticismo de Pirro de Élis (c. 360-275 a.C.), imortalizado por Sexto Empírico (c. 160-210 d.C.) em sua obra Hipotiposes Pirrônicas. Para não alongar demais no assunto, mostro do que se trata com as sintéticas considerações de Plínio Junqueira Smith a seguir.

A terapia pirrônica, tal como no-la descreve Sexto, faz-se por meio da oposição de discursos e razões e supõe que os dogmáticos sofrem de precipitação e arrogância, que se manifestariam na adesão apressada a um discurso argumentativo e a uma tese em detrimento da tese e discurso argumentativo opostos. O problema do dogmático não consiste na adoção desta ou daquela tese filosófica, mas numa atitude que se caracteriza pela precipitação e pela arrogância. É essa atitude, segundo Sexto, que deve ser tratada. Além disso, a idéia pirrônica é que essa atitude dogmática é fonte de perturbação e de uma vida pior.
(Plínio Junqueira Smith, “Ceticismo dogmático e ceticismo sem dogmas”. Integração. nº 45, abr./mai./jun. 2006, pp. 181-182.)

Claro que isso não tem nada a ver com o que se convencionou chamar de ceticismo nos últimos tempos.

PS das 11h46 — As correções do terceiro parágrafo acima foram feitas em função do comentário de Luiz Roberto Turatti, a quem agradeço pelos esclarecimentos (ver abaixo).

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 03/01/2009 at 11:02

Publicado em Ciência, Filosofia, Religião

‘Físico da alma’ quer unir darwinismo e criacionismo

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Já pensei em colocar na coluna de links deste blog um item chamado Antibibliografia. Nele certamente entrariam todos os livros do midiático físico indiano Amit Goswami. Por dever de ofício, tive de ler quase todas as suas obras. Na mais recente, Deus Não Está Morto: Evidências científicas da existência divina (Tradução de Marcello Borges. São Paulo: Editora Aleph, 2008, 304 pp., R$ 46), a estratégia retórica é a mesma dos livros anteriores: dizer a leitores ávidos por uma prova de existência divina exatamente aquilo que eles esperam, fugir da confrontação com aspectos polêmicos e dar um ar de erudição às suas considerações com o apelo a superficialidades e até a equívocos típicos da cultura de almanaque.

O aparato de divulgação de Goswami costuma apresentá-lo ora como “um dos principais físicos da atualidade”, ora como um “revolucionário em um corpo crescente de cientistas renegados” (ver seu site oficial). Ele é, de fato, um dos físicos mais conhecidos da atualidade, não por causa de sua atuação na física, mas devido ao sucesso com vendas de seus livros, com suas palestras organizadas em vários países pelos editores de seus livros e também por sua participação nos filmes Quem Somos Nós?, em 2004, e O Segredo, em 2006. Em outras palavras, seu sucesso se deve somente à mídia.

Uma coisa é tentar promover a discussão entre partidários de teses contrárias. Certamente isso não levará nunca a um consenso. Nem deve se esperar por esse resultado, mas o processo é sempre enriquecedor para aqueles que se esforçam para compreender argumentos contrários. Porém, outra coisa é a pretensão de Goswami de ter formulado um novo paradigma científico no qual coexistiriam os princípios do evolucionismo e do criacionismo. Essa formulação, que dependeria de muita pesquisa e reflexão científica e filosófica, cresce à vontade em muitos nichos midiáticos.

Conclusões forçadas

Nesse livro, o físico indiano repete, sem dar novos argumentos, a mesma tese, apresentada em publicações anteriores, de que o universo é matematicamente inconsistente sem a hipótese da existência de Deus.

O primeiro tipo de evidência científica para a existência de Deus é o que chamo “as assinaturas quânticas do divino”. A física quântica nos oferece novos aspectos da realidade — as assinaturas quânticas — e, para compreendê-las, explicá-las e apreciá-las, somos obrigados a introduzir a hipótese de Deus. Um exemplo é a não-localidade quântica, a comunicação sem sinal. A comunicação normal é uma comunicação local, realizada por meio de sinais que transportam energia. Mas, em 1982, Alain Aspect e seus colaboradores confirmaram em laboratório a existência de comunicações que não exigem esses sinais. [pág. 5]

Goswami se refere nesse trecho a um dos mais importantes experimentos da física do século XX. Seus resultados foram publicados em 20/12/1982 no mais conceituado periódico especializado em física, o Physical Review Letters. O estudo, apresentado no artigo “Experimental Test of Bell’s Inequalities Using Time-Varying Analyzers” pelo francês Alan Aspect e seus colaboradores do Instituto de Óptica, de Paris, contrariou a previsão da Teoria da Relatividade para velocidades maiores que a da luz e provocou muitas questões não só na física, mas também na filosofia [ver Sílvio Seno Chibeni, “Implicações filosóficas da microfísica”, Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Série 3, 2 (2): 141-164, 1992].

No entanto, todas as implicações do trabalho de Aspect, assim como as de outros, trazem muito mais interrogações do que conclusões forçadas como a de Goswami. Por mais que dela se discorde, seria perfeitamente compreensível a atitude daqueles que crêem na existência divina de responder a essas questões com base em sua crença. No entanto, para aqueles que não são crentes — como o físico indiano até antes de refletir sobre esses problemas, segundo ele afirma — não faz sentido se apegar a essa hipótese.

Argumento da ignorância

Feita por parte de alguém que se diz ter sido ateu e que se defrontou com essas questões da microfísica, a opção de Goswami incorre naquilo que em lógica é chamado de falácia do argumento da ignorância, como mostram os trechos a seguir.

(…) recentemente, tem surgido muita controvérsia sobre teorias criacionistas/desígnio inteligente versus evolucionismo. Por que toda essa polêmica? Porque, mesmo depois de 150 anos de darwinismo, os evolucionistas ainda não têm uma teoria à prova de falhas. Não podem sequer explicar os dados fósseis, especialmente as lacunas fósseis, e também não podem dar explicações satisfatórias sobre como e porque a vida parece ter sido projetada de forma tão inteligente. [p. 5]

E, pouco mais adiante, ele acrescenta:

A chave, neste sentido, seria perguntar: “Haverá uma alternativa para ambas essas abordagens que concorde com todos os dados?” Minha resposta é sim, e vou demonstrá-la nesta obra. Porém, a resposta exige a existência de um Deus com poderes causais e de um corpo sutil que atua como gabarito da forma biológica; o materialismo não permite nenhuma dessas duas entidades. E, assim, problemas impossíveis requerem soluções impossíveis! [p. 6]

Em outras palavras, em face do desconhecimento de explicações no âmbito das teorias que são alvos de suas críticas, ele conclui que não há explicações possíveis, uma vez que postula a existência divina como única alternativa.

Precariedade filosófica

Não bastassem essas e outras saídas forçadas, o físico indiano mostrou nessa obra com mais clareza sua precariedade no plano filosófico. Sua forma de lidar com a idéia de um princípio finalista revela sua confusão entre essa noção e a de criação, que até para alguns pensadores medievais teve de ser objeto de demonstração.  Muitos séculos antes deles, o  próprio Aristóteles, que formulou a causa final (télos) exterior aos processos por ela guiados, em seu livro Sobre o Céu (Livro B, Capítulo 1, 283b26-29) afirmou que

(…) o mundo certamente não foi gerado nem pode ser destruído, como alguns alegam, é único e eterno, não tem começo nem fim em sua extensão e contém o tempo infinito.
[On the Heavens. Texto grego estabelecido por Immanuel Bekker. Introdução, tradução para o inglês e notas de William Guthrie. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library, Aristotle, vol. VI), 1934, pp. 130-131.]

Outra interpretação precária de Goswami é a do pensamento de Friedrich Nietzsche (1844-1900), apontado simploriamente por ele como o niilista que proclamou “Deus está morto” (págs. 53 e 60). O pensador alemão, foi, no entanto, um crítico do niilismo, este entendido como a incapacidade de o Ocidente construir valores para nortear a civilização, que se encontra cada vez mais, desde o início da modernidade, diante da falência de todos os valores supremos:

Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e o mais sagrado que o mundo até então  possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais — quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos teremos de inventar?
[A Gaia Ciência, § 125. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 148]

Longe de discussões

Apesar de ter sido lançado pouco antes das recentes discussões no Brasil sobre o evolucionismo e o criacionismo (ver neste blog “A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo”, de 15/12), Deus Não Está Morto escapou desse confronto. É bem possível que o subtítulo dado ao livro pelos editores brasileiros tenha ajudado a não evidenciar seu conteúdo relativo a esse antagonismo. A versão original é God is Dead: What quantum physics tells us about our origins and how we should live (Deus Não Está Morto: O que a física quântica nos diz sobre nossas origens e como deveríamos viver).

Na verdade, não existe a tal polêmica na ciência em torno das obras de Goswami, como pregam os divulgadores de seus livros. Eu mesmo afirmei isso pessoalmente a ele durante sua entrevista ao programa Roda Viva exibido em 11/02/2008 pela TV Cultura, de São Paulo.

Durante a gravação desse programa, que se realizou 27/08/2007, eu apresentei  os registros dele na base de dados Web of Science, que mostravam, naquela data, nove trabalhos publicados por ele após janeiro de 1986, quando deixou a “ciência materialista”. Esses nove artigos tiveram, até aquela ocasião, apenas 46 citações em pesquisas indexadas nessa base de dados em todo o mundo, quase todas feitas por ele próprio ou por pesquisadores ligados a ele. Em outras palavras, não havia, como até hoje não há, nenhuma repercussão significativa da atuação dele na ciência, muito menos uma polêmica científica em torno de suas idéias.

Eu disse a ele também que seus livros não discutem verdadeiramente as idéias científicas que aborda, pois ele apenas as cita em seus aspectos que lhe interessam, diferentemente do que costuma ser feito por cientistas, por mais parciais que eles sejam. Goswami, que tanto alega se basear na mecânica quântica, fez em seus livros várias considerações en passant sobre Albert Einstein (1879-1955) sem deixar claro que esse cientista durante as três últimas décadas de sua vida se posicionou contrariamente a essa teoria. À minha pergunta sobre esse procedimento que nada tem a ver com a forma de se resolver dúvidas na ciência, ele respondeu:

Infelizmente, o confronto não é o estilo recomendado pela visão de mundo que tenho… e a visão de mundo que explica a física quântica e que agora parece explicar muitos fenômenos inexplicáveis e que nem mesmo podem ser abordados pela visão de mundo materialista. Essa é uma abordagem muito amigável, inclusiva. Eu não acho que bater de frente em debates com cientistas específicos fará alguma coisa a favor da nossa causa de mudança de paradigma. O paradigma será mudado a partir do peso de evidências em favor dele. Atualmente, o que nos ajuda muito é que temos aplicações práticas na área da medicina, da psicologia… Infelizmente, eu acho que você não consultou quantas vezes a minha obra é citada em trabalhos de psicólogos, de profissionais da saúde e de outros, ainda, não-pertencentes às ciências puras. Sim, é verdade que aqueles das ciências puras, os físicos, os químicos e até mesmo os biólogos, preferem oferecer a chamada “negligência benigna”. Eles não se envolvem com essa questão, pois fazendo isso acabarão dando maior publicidade para mim, algo considerado por eles prejudicial à sua causa. Então, deixá-los viver do modo deles e nós do nosso é agora a melhor abordagem.

Em outras palavras, a explicação de Goswami é que não existe discussão na comunidade científica em torno das idéias dele porque existe uma conspiração para evitar de lhe dar maior publicidade. Por mais que ele mereça ter seus livros incluídos em antibibliografias, como eu disse acima em tom de brincadeira, o melhor mesmo é forçá-lo ao confronto de idéias. No entanto, até mesmo para isso teremos dificuldade, dada a crescente apatia da comunidade científica em geral para tratar de temas polêmicos. Enquanto isso, os espaços midiáticos vão sendo ocupados.

Em meio à sua decadência e à ascensão da burguesia mercantil, a Igreja Católica foi duramente abalada com a revolução gutenberguiana. Não sei se o capitalismo está em decadência, mas um de seus principais suportes ideológicos, o pensamento laico, vem sendo desprestigiado há algum tempo. Nesse contexto, em que algumas questões científicas já chegaram aos tribunais sem serem discutidas em outras instâncias, há bons motivos para pensar na possibilidade de a revolução da internet trazer surpresas. Já pensaram em mudanças científicas baseadas na preferência popular?

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 27/12/2008 at 16:28

A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo

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Caricatura de Charles Darwin na capa de "La Petite Lune", revista satirica parisiense dos anos 1880.O recente confronto entre criacionistas e o evolucionistas no Brasil está rendendo nos meios de comunicação muitas manifestações que pouco colaboram para um debate de idéias. Mas também têm acontecido algumas interessantes e pedagógicas contraposições de argumentos. Na praticamente absoluta falta de iniciativas acadêmicas para um embate entre os dois lados dessa polêmica, a imprensa, os blogs e outros espaços na internet se tornaram o meio viabilizador para ele.

Ninguém espera que essas discussões cheguem a um consenso. Mas, independentemente da posição de cada um nessa polêmica, para aqueles que se esforçam em manter um mínimo de honestidade intelectual, essa é uma oportunidade para aprender o que é e o que não é válido em questões que envolvem ciência e religião. Além disso, e muito mais importante, é o caso de se considerar o risco de que o persistente afastamento da comunidade científica desse debate público possa levar a reveses maiores do evolucionismo em um período de ascensão de muitas crenças religiosas.

Esse confronto teve início na primeira metade do século XX nos Estados Unidos e teve vários episódios posteriores. Foi reacendido em 30/11 pelo jornalista Marcelo Leite em seu blog Ciência em Dia e sua coluna homônima da Folha de S. Paulo, com a notícia de que o Colégio Presbiteriano Mackenzie, com sedes em São Paulo, Barueri e Brasília, passou a ensinar criacionismo em suas aulas de ciências. O debate ferveu no espaço de comentários daquele blog e também na seção de cartas do jornal, que na seção “Tendências/Debates” apresentou dois artigos de posições contrárias em 06/11, que comentei em “O debate sabotado entre criacionistas e evolucionistas” (07/12).

No dia 08/11, O Estado de S. Paulo agitou mais essa polêmica com a reportagem “Escolas adotam criacionismo em aulas de ciências”, de Simone Iwasso e Giovana Girardi, mostrando que o ensino dessa concepção sobre a vida não se limita ao Mackenzie. No sábado (13/12), o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. publicou em seu blog o artigo “Deus e o Diabo disputam o ensino Brasileiro?”.

Ainda no sábado, foi a vez do Ministério da Educação, com sua posição de que o criacionismo “pode e deve ser discutido nas aulas de religião, como visão teológica, nunca nas aulas de ciências”. A declaração foi feita pela secretária da Educação Básica do MEC, Maria do Pilar, à reportagem de Fábio Takahashi e Talita Bedinelli, na Folha (“MEC diz que criacionismo não é tema para aula de ciências”, 13/12) [Acréscimo das 10h35]. E, após duas semanas de manifestações sobre o assunto, o “Estadão” de ontem (domingo, 14/12) trouxe as opiniões sobre esse assunto de Roseli Fischmann, professora de filosofia da educação da USP (“Deus não freqüenta laboratório”).

Construção humana

A professora da USP é contra o ensino do criacionismo em aulas de ciências. De todas as afirmações atribuídas a ela na matéria de hoje, a que me pareceu mais importante foi a de que os professores podem ensinar aos alunos que a ciência é fruto da construção humana, e que eles podem participar dessa construção:

Assim se desenvolve nos alunos a possibilidade de questionar, e uma boa dúvida é a pérola do mundo científico. Se, do ponto de vista religioso, existe alguém infalível, isso é para as pessoas que acreditam. Quem acreditar será respeitado por isso, mas não se pode querer que todo o mundo esteja dentro dessa lógica. Ninguém, enfim, ganha misturando as duas frentes porque os cientistas podem pensar que são deuses, e quem fala de Deus pode pensar que é cientista.

Teria sido interessante a professora explicar melhor — e a reportagem a ela perguntar — o que entende por “misturar as duas frentes”, uma vez que outro defensor do evolucionismo, o biólogo e educador Charbel Niño El-Hani, professor da Universidade Federal da Bahia, manifestou-se antes, na Folha, também contra ensinar o criacionismo nas aulas de ciências, mas a favor de discuti-lo com os alunos.

Roseli, que é também coordenadora de projetos de pesquisa da Fundação MacArthur, colaboradora da Unesco e do Ministério das Relações Exteriores, cometeu um engano ao tentar explicar a polêmica em pauta ao recorrer ao pensamento do filósofo da ciência norte-americano Thomas Kuhn (1922-1976), autor do clássico A Estrutura das Revoluções Científicas, de 1962. Nas palavras atribuídas pela reportagem à professora, esse autor teria proposto que

(…) a ciência se constrói historicamente por paradigmas. Com o tempo surgem novas idéias, novas propostas, que vão corroendo essa estrutura até que surja um novo modelo. Aquele vigente nem sempre é tolerante para com as visões mais recentes. O que Kuhn diz é que a classe científica, que justamente por precisar da transformação deveria ser a mais aberta a mudanças, se manifesta muitas vezes resistente. Há egos, interesses financeiros pesados, falta de ética… Mas são as novidades que, em geral, promovem o avanço científico.

Tiros pela culatra

Muitos criacionistas já devem estar festejando essa declaração. A conseqüência da aceitação dessa interpretação seria a de que são válidas quaisquer novas propostas para o evolucionismo, pois elas, em princípio, poderiam promover o avanço científico. Se fosse assim, não haveria razão na própria recusa, defendida por ela, de ensinar o criacionismo como teoria alternativa.

Na verdade, o que Kuhn afirmou é que um “paradigma” (conjunto de compromissos conceituais, metodológicos e instrumentais compartilhados pelos membros de uma especialidade científica durante um determinado período) entra em crise a partir de sucessivas dificuldades e contradições apresentadas por observações e experimentos. Por meio de diversas revisões críticas, são feitas adequações no paradigma, inclusive por meio da redução do campo seu campo de validade. Desse modo, crescem as “anomalias” nos modelos, e, para isso, não são necessárias novas propostas. Nas palavras de Kuhn, as revoluções científicas consistem em “episódios extraordinários” desencadeados por essas dificuldades:

Desse e de outros modos também, a ciência normal freqüentemente se desnorteia. E, quando isso acontece — quando já não se pode mais livrar-se das anomalias que subvertem a prática vigente da prática científica —, começam então as investigações extraordinárias que finalmente levam a profissão a um novo conjunto de compromissos, a uma nova base para a prática da ciência.
(The Structure of the Scientific Revolutions, Chicago University Press, 3ª edição, 1996, p. 6. Não indico a página da edição brasileira, que também uso, porque no momento não a tenho em mãos.)

Tomando como exemplo a astronomia medieval, baseada na tese geocêntrica de  Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), tantas eram as suas anomalias que no prefácio de sua obra de 1543, Sobre a Revolução dos Corpos Celestes, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) disse que a tradição astronômica havia herdado um “monstro”.

Involuntariamente, a declaração da professora é, na verdade, muito mais próxima da posição do pensador austríaco Paul Feyerabend (1924-1994) para o qual a transgressão dos métodos da ciência é necessária para o progresso. “O único princípio que não inibe o progresso é tudo vale [anything goes]”, diz Feyerabend na terceira e última edição de Contra o Método, de 1993 (Tradução de Cezar Augusto Mortari. São Paulo: Editora Unesp, 2007, p. 37). Não é por menos que alguns criacionistas já fizeram uso dessa obra. Na verdade, um uso ingênuo, pois o anarquismo epistemológico desse autor se voltaria também contra a religião, em especial contra o cristianismo, por ele chamada de “sanguinária religião do amor fraternal” na primeira edição desse mesmo livro, de 1975 (Tradução de Octany S. da Mota e Leônidas Hegenberg. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977, p. 433).

Outras oportunidades que têm sido oferecidas “de bandeja” para os argumentos criacionistas vieram de muitas manifestações cientificistas. A maior parte delas consiste em simplórias afirmações de que a seleção natural é “comprovada”, e o texto anterior deste blog (“O debate sabotado…”) já tratou desse assunto. Só faltou dizer que, como nenhuma teoria científica é comprovada, essas afirmações acabam permitindo pesadas e bem-fundamentadas contestações de criacionistas mais sofisticados.

Falseabilidade

Mesmo que pudéssemos considerar o evolucionismo como um paradigma em crise, o criacionismo não é uma formulação teórica passível de refutação, como deve ser toda teoria das ciências empíricas. Aproveitando um comentário meu feito no blog de Marcelo Leite:

A premissa de que uma instância externa conduz o desenvolvimento da vida não é falseável: ela é compatível com o fato de a girafa ter pescoço comprido e, se essa espécie tivesse pescoço curto, seria compatível também. Isso não é ciência da natureza. O evolucionismo pode e deve ser esmiuçado e ter expostos todos os casos de observações e experimentos que o contradizem. Mas enquanto não houver uma proposta de paradigma não evolucionista baseada em premissas falseáveis, não vale a pena abandoná-lo.

Esse é um exemplo de aplicação do critério de falseabilidade do filósofo da ciência austríaco Karl Popper (1902-1994) que apontei na semana passada. Esse é o ponto que me parece estar sendo deixado de lado pelos defensores do criacionismo. Eu o considero o mais frágil dessa concepção, inclusive em sua formulação mais sofisticada, que é o Design Inteligente (DI).

Em meio aos que se manifestaram, fram poucos os que se mostraram atentos para a importância da falseabilidade nesse assunto, entre eles o jornalista Cláudio Weber Abramo, presidente diretor-executivo da Transparência Brasil. Porém, muitos como ele acreditam que esse confronto não passa de um pseudodebate. Mestre em filosofia da ciência, ele afirmou em carta ao “Painel do Leitor” da Folha (08/12) que é um equívoco participar de uma discussão sobre esse tema porque

(…) com isso confere-se respeitabilidade ao misticismo religioso que alimenta o criacionismo quando deveria ser óbvio que é impossível discutir seja o que for com quem acredita em seres incorpóreos e influências etéreas. Da mesma forma que crêem em divindades, anjos, almas e no além, crerão em astrologia, leitura de mão, homeopatia e qualquer outra bobagem que apareça.

Do ponto de vista estritamente epistemológico, o comentário de Abramo pode ser considerado correto. O próprio Kuhn formulou a tese da incomensurabilidade de paradigmas, ou seja, não é possível um efetivo diálogo entre partidários de paradigmas diferentes, uma vez que eles envolvem compromissos distintos e diferentes compartilhamentos de valores.

No entanto, o crescimento de muitas religiões em todo o mundo é apenas uma entre várias razões para crer que, cada vez mais, as decisões sobre a ciência podem escapar do controle dos cientistas, da mesma forma como ela escapou do controle da Igreja bem antes da derrocada do mundo medieval. Em outras palavras, o encastelamento na torre de marfim, com a recusa em participar do debate público nos meios de comunicação, pode ser a maior armadilha que muitos evolucionistas estejam a armar para o próprio evolucionismo.

* * * * * * *

PS — Ao ser reproduzida no Observatório da Imprensa, minha postagem anterior sobre este tema recebeu muitos comentários, entre eles do jornalista Michelson Borges, editor do site Criacionismo.com.br e da Casa Publicadora Brasileira, uma das 56 editoras pertencentes à Igreja Adventista do Sétimo Dia. No primeiro desses comentários, Borges me atribuiu uma “posição equilibrada e não beligerante”. Agradeço pelo elogio, que recebo como um reconhecimento de minha determinação em tentar a todo custo compreender diversos pontos de vista, mas não creio ter uma posição equilibrada. Prefiro a idéia da harmonia por meio do confronto entre os contrários, da forma expressada por Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.), segundo o registro de Aristóteles:

Heráclito diz “a contraposição unifica”, “a mais bela harmonia vem da diferença” e “todas as coisas se originam da discórdia” [éris].
(Ethica Nicomachea, 1155b4-7)*

* Nicomachean Ethics. Texto grego estabelecido por Immanuel Bekker. Introdução, tradução para o inglês e notas de H. Rackham. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library, Aristotle, v. XIX), 2003, págs. 454-455.

PS 2 — Borges contestou em seu blog a posição do MEC contrária ao ensino do criacionismo nas aulas de ciências.

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 15/12/2008 at 7:12

O debate sabotado entre criacionistas e evolucionistas

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Uma das principais queixas dos contestadores da teoria da evolução de Charles Darwin (1809-1892) é a falta de espaço para eles nos meios de comunicação. De fato, a mídia tem sido geralmente muito pouco receptiva à divulgação dos conceitos criacionistas e de sua vertente mais sofisticada, o Design Inteligente (DI). Reacendido há poucos dias pelo jornalista Marcelo Leite em seu blog Ciência em Dia e sua coluna homônima da Folha de S. Paulo, o confronto entre eles e evolucionistas esteve ontem (sábado, 06/12) muito próximo de se tornar um interessante debate. A seção “Tendências/Debates”, da Folha, apresentou dois artigos de posições contrárias em resposta à pergunta “O criacionismo pode ser ensinado nas escolas em aulas de ciências?”. Lamentavelmente, a resposta por parte do representante criacionista foi um insulto à inteligência dos leitores.

O espírito de abertura para o confronto de idéias foi explícito por parte do biólogo e educador Charbel Niño El-Hani, professor da Universidade Federal da Bahia, com seu artigo “Educação e discurso científico’. Apesar de contrário ao ensino do criacionismo nas escolas, ele se pronunciou em favor da discussão em sala de aula sobre essa concepção acerca do universo e dos seres vivos. Por outro lado, Christiano P. da Silva Neto, presidente da Associação Brasileira de Pesquisa da Criação (ABPC), gastou um terço da extensão de seu texto “A teoria da evolução e os contos de fadas”* para tentar invalidar a tese evolucionista por meio do procedimento que em lógica é conhecido como falácia do argumento pela ignorância.

O outro fato é o desconhecimento das bases da teoria das probabilidades. Tivessem [os evolucionistas] algum conhecimento dessa parte da matemática, saberiam que não basta imaginar acontecimentos para que eles se tornem reais.
Para citar um único exemplo, as aves constroem seus ninhos e chocam seus ovos. Não os cucos, porém. Suas fêmeas não são acometidas daquele estado febril que lhes permitiria chocar seus ovos. Ela então leva um de seus ovos no bico até o ninho de uma chiadeira e, para não dar na vista, o substitui por um dos ovos que lá encontra, jogando o da chiadeira fora.
Esta, que de nada desconfia, se põe a chocar os ovos. Quando o pequeno cuco nasce, sendo um pássaro de porte maior, irá precisar de todo o alimento que seus pais postiços puderem obter. O filhote, então, logo em seus primeiros momentos de vida, inicia um movimento circular com o qual lança para fora ovos ou filhotes ali presentes, ficando só.
Agora, crer que essa estratégia de sobrevivência, tanto do cuco adulto quanto do cuco recém-nascido, pode ser produto das casualidades de um contexto naturalista é uma indicação de pouco conhecimento de matemática, em particular da teoria das probabilidades, de um mundo que é mesmo o dos contos de fadas, em que sapos viram príncipes e a teoria da evolução ganha contornos de realidade.

Em primeiro lugar, há um acintoso e ostensivo contra-senso logo nessa argumentação. Do primeiro e do último dos parágrafos acima transcritos se infere logicamente que todos os conhecedores do estudo de probabilidade são contrários ao evolucionismo, o que é falso. Além dessa estabanada forma de chamar os oponentes de ignorantes em matemática, há também a pressuposição de um cálculo probabilístico que apontaria para a quase impossibilidade de uma espécie ter evoluído no que é chamado de “contexto naturalista”. Esse cálculo, por sua vez, pressupõe o equacionamento de sabe-se lá quantas variáveis filogenéticas e ambientais e quantos eventos adaptativos, mas o articulista parece alegar possuir conhecimento de tudo isso.

Argumento pela ignorância

No final das contas, esses 1.300 caracteres com espaços em um texto com o total de 3.919 nada mais são que uma tentativa de se atribuir falsidade a uma teoria, no caso o evolucionismo, porque não haveria explicação baseada nela para o comportamento de uma espécie. Em outras palavras, trata-se do apelo ao Argumentum ad ignorantiam, o qual

é cometido sempre que uma proposição é considerada verdadeira na base, simplesmente, de que não foi provada sua falsidade, ou como falsa porque não demonstrou ser verdadeira. Mas nossa ignorância para provar ou refutar uma proposição não basta, evidentemente para estabelecer a verdade ou falsidade dessa proposição. (…) É curioso que haja um tão grande número de pessoas cultas propensas a cair nessa falácia, como o testemunham numerosos estudiosos da ciência que afirmam a falsidade das pretensões espíritas e telepáticas, simplesmente na base de que a verdade delas ainda não foi estabelecida.
(Irving Copi. Introdução à Lógica. Trad. de Álvaro Cabral. São Paulo: Mestre Jou, 1974, pág. 77)

Independentemente dessa argumentação desastrada, praticamente todas as afirmações de Silva Neto desconsideram aspectos epistemológicos fundamentais nesse tipo de discussão. Segundo ele

Do ponto de vista científico, o criacionismo resulta das seguintes perguntas: “O que nos dizem os fatos da natureza e os resultados das pesquisas realizadas pelos cientistas (não importando suas ideologias) acerca das origens do universo e da vida? Falam eles de uma origem naturalista ou sobrenaturalista?”.

Fatos, por si sós, não dizem absolutamente coisa alguma. Toda observação é sempre observação à luz um referencial teórico. Em diferentes épocas, astrônomos observaram as trajetórias dos corpos celestes, mas desenharam suas trajetórias de um modo quando o faziam com base o sistema de Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), que considerava a Terra como centro do universo, e, de outro modo, após ser consagrado o sistema de Nicolau Copérnico (1473-1543), cujo referencial é heliocêntrico. Trocando em miúdos, essas perguntas feitas “para os fatos” já contêm em si as respostas — o que leva a outro tipo de falácia, que é a petição de princípio, popularmente chamada de círculo vicioso —, e elas não se encontram no corpo da ciência construída a partir da Idade Moderna.

A esse respeito, a argumentação de El-Hani tem o mérito de discernir os diferentes planos de conhecimento envolvidos e de relacioná-los à sua proposta de convivência civilizada entre opiniões divergentes:

Antes pelo contrário, o professor de ciências deve explorar essas vozes discordantes para discutir as variadas maneiras como os seres humanos compreendem e explicam o mundo e, mais, a importância de distinguir entre diversos discursos humanos, fundados em pressupostos distintos sobre o que constitui o mundo (pressupostos ontológicos) e sobre o que constitui conhecimento válido (pressupostos epistemológicos).

Erro de evolucionistas

Na minha opinião, muitas vezes muitos defensores do evolucionismo incorrem em graves erros do ponto de vista epistemológico. Um dos principais é a afirmar que a seleção natural é uma teoria que tem sido comprovada por observações. Isso não é correto, pois nenhuma teoria tem sua verdade provada por observações e experimentações, como bem explicou o filósofo da ciência austríaco Karl Popper (1902-1994) em seu livro mais famoso, A Lógica da Pesquisa Científica, de 1934.

Muitos estudiosos não concordam com várias das teses de Popper, principalmente a da demarcação entre ciência e não ciência, mas reconhecem um de seus grandes méritos, que foi mostrar que as ciências empíricas nunca são comprovadas: elas são corroboradas ou refutadas à medida que se expande o conhecimento dos objetos e fenômenos estudados, ou que se aperfeiçoam os instrumentos de observação e de medição. Justamente por não poderem ser provadas como verdadeiras é que, com o passar do tempo, elas podem ser refutadas. Se não fosse assim, os fundamentos da ciência seriam imutáveis.

Mas há também muitas alegações inválidas por parte de criacionistas no plano filosófico. Uma delas é a afirmação de que o pensamento de Platão (427-347 a.C.) foi precursor do Design Inteligente, que tem entre seus principais formuladores o bioquímico Michael Behe, da Universidade Lehigh, e o matemático e filósofo William Dembski, professor do Southwestern Baptist Theological Seminary. No pensamento platônico, o Demiurgo, entidade formulada no livro Timeu, seria, segundo alguns adeptos do DI, o planejador criador do mundo em que vivemos. Na verdade, para Platão, o Demiurgo apenas organizou o mundo sensível, que é eterno (Timeu, 53b); não o criou ex nihilo, isto é, do nada, como o Deus judaico-cristão.

Pressupostos filosóficos

Por trás de muitos argumentos contrários ao evolucionismo estão antigos pressupostos filosóficos tidos como ultrapassados, mas que continuam a guiar nosso pensamento. Um deles é o ideal de uma finalidade externa que guia os processos do mundo. Segundo Platão (Timeu, 30b6-c1), por meio de sua alma (psyché), que lhe dá vida, cada homem se relaciona com a Alma do Mundo, que é a origem de todo o conhecimento. Desse modo, a psyché permite ao homem se relacionar com o plano das Idéias, o que o faz aspirar ao — ou seja, ter como finalidade o — conhecimento e também à idéia do Bem. Seu discípulo Aristóteles (384-322 a.C.), na Metafísica (Livro Δ, 1013a-1014a) e na Física (Livro B, 194b-195a), reconstrói esse universo conceitual com sua teoria da causalidade, na qual a causa final (télos) conduz a causa eficiente (kínous) a dar causa formal (eídos) à causa material (hylé).

Predominante em grande parte do pensamento medieval, a télos aristotélica tornou-se Deus, a causa finalis governadora de tudo no mundo fechado, finito e bem-ordenado, como descreveu o filósofo e historiador da ciência Alexandre Koyré (1892-1964) em seu livro Do Mundo Fechado ao Universo Infinito, de 1958. Com a revolução copernicana e a construção da ciência moderna, a causa finalis é banida do universo infinito, homogêneo e geometrizado, cujos fenômenos passam a ser explicados por relações de causa e efeito. Mas ela permanece na religião, na metafísica e em diversas manifestações do senso comum, inclusive no senso comum da ciência. Na minha opinião, o Design Inteligente é uma proposta que mal se dá conta do peso sobre si de toda essa tradição filosófica.

Omissão da imprensa

Nascida junto com essas transformações do pensamento ocidental, a imprensa se identifica com elas e assume o papel de defensora dos cânones da cientificidade. E muitas vezes o faz de modo a desrespeitar o preceito jornalístico fundamental de promover o debate de idéias, como, por exemplo, ao não dar espaço para contestadores como Behe e Dembski. Uma coisa é a academia decidir o que pretende pesquisar e divulgar — e, nesse ponto, grande parte das contestações ao evolucionismo não têm condições ser aceitas como contestações científicas. Outra coisa é a imprensa negar a existência de controvérsia dentro da própria comunidade acadêmica (ver “A scientific dissent from darwinism”).

As poucas exceções a essa atitude predominante na imprensa freqüentemente são incompreendidas por membros da comunidade científica. Em 2001, por exemplo, Maurício Vieira Martins, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense, em um interessante estudo sobre o livro A Caixa-Preta de Darwin, de Behe, afirmou que eu fiz uma “resenha elogiosa” a essa obra (“De Darwin, de caixas-pretas e do surpreendente retorno do ‘criacionismo'”. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 8, n. 3, dezembro de 2001).

Na verdade, minha reportagem “Darwinismo radical” (Folha, Mais!, 13/12/1998) se referiu a outro livro, A Perigosa Idéia de Darwin, de Daniel Dennett, professor de filosofia da mente e ciências cognitivas da Universidade Tufts, um dos mais ferrenhos opositores ao Design Inteligente, que foi criticado por Behe em sua obra acima citada, apesar de ter sido lançado no Brasil depois dela. Como meu propósito foi fazer uma reportagem — e não uma resenha, como compreendeu indevidamente Martins — apresentei argumentos das duas obras e entrevistei os dois autores dando-lhes as devidas aspas. E, diferentemente do que afirmou o professor da UFF, eu contestei Behe e outros aspectos do DI ao dizer:

Sem postular a existência de Deus, como os criacionistas, eles propõem que deve ter havido uma intervenção externa ao processo de formação das moléculas que deram origem à vida. Eles chamam essa intervenção de planejamento inteligente. Mas falham ao tentar mostrar argumentos que fundamentem a necessidade dessa hipótese.

Enviei esclarecimentos sobre esse equívoco de Martins em carta via para ele e para os editores da revista História, Ciências, Saúde — Manguinhos, da Fiocruz. O professor da UFF jamais se pronunciou publicamente sobre isso, e a revista publicou minha carta em uma seção da versão impressa que não é disponível na internet.

No Brasil, entre os defensores do Design Inteligente, o mais veemente crítico da atuação da imprensa é, certamente, Enézio Eugênio de Almeida Filho, mestre em história da ciência. Devido ao seu estilo provocativo — vide o nome de seu blog Desafiando a Nomenklatura Científica —, em discussões na internet muitas vezes ele perdeu o foco nos pontos essenciais, da mesma forma que alguns opositores seus, o que geralmente leva a ataques e desgastes desnecessários. Mas já tive a oportunidade de conversar longamente com ele em um almoço aqui em São Paulo, e conseguimos contrapor nossas divergências “numa boa”, mesmo segurando facas e garfos. Brincadeiras à parte, foi uma conversa agradável e, pelo menos para mim, muito interessante.

Não há razão em transformar esse confronto de idéias em uma guerra, e isso vale também para a educação, que poderia se pautar, por exemplo, pela proposta de El-Hani. E uma forma de evitar o acirramento dos ânimos que sempre prejudicam um debate é não insultar a inteligência dos interlocutores, como aconteceu nesse último sábado, desperdiçando parte do espaço proporcionado pela Folha.

* Há uma versão expandida desse artigo no site da ABPC: http://abpc.impacto.org/folha.htm.

* * * * * * *

Mais informações sobre o assunto:

Criacionismo X evolucionismo (várias reportagens e artigos, Comciência, Labjor/Unicamp, Campinas, n. 56, julho de 2004)

Marília Coutinho, “Criacionismo: A religião contra-ataca” (Galileu, edição 121, agosto de 2001)

Pablo Nogueira, “A ciência da criação” (Galileu, edição 186, janeiro de 2007)

Pew Forum on Religion & Public Life (The Pew Charitable Trusts)

Evolution and biology (página do site oficial de Richard Dawkins)

Discovery Institute

Sociedade Criacionista Brasileira

Charbel Niño El-Hani & Eduardo Fleury Mortimer, Multicultural education, pragmatism, and the goals of science teaching (Cultural Studies of Science Education, v. 2, n. 3, julho de 2007)

The Talk Origins Archive — Exploring the Creation/Evolution Controversy [acrescentado em 08/12/2008]

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 07/12/2008 at 12:45

Por quem a curva do sino dobra

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Está demorando muito para a imprensa no Brasil usar como gancho para pautas de educação o recente lançamento nos Estados Unidos do livro Real Education: Four simple truths for bringing America’s schools back to reality (Educação Real: Quatro verdades simples para trazer as escolas da América de volta à realidade). Seu autor, que esteve no Brasil recentemente, é o cientista político Charles Murray, co-autor com Richard Herrnstein (1930-1994), psicólogo de Harvard, do polêmico livro The Bell Curve: Intelligence and class structure in american life, publicado em 1994. Infelizmente, a maior parte das matérias que mencionaram o novo lançamento explorou muito pouco ou deixaram de lado os seus desdobramentos para a educação, pois se prenderam às mesmas antigas discussões sobre a obra anterior.

Um enfoque diferenciado em meio a essa mesmice midiática apareceu ontem, sexta feira (28/11), com a reportagem “Abaixo o romantismo educacional”, de Martha San Juan França, publicada no caderno “Eu & Fim de Semana”, do jornal Valor Econômico. A matéria vai direto ao resumo da ópera do novo livro de Murray ao mostrar sua tese de que  “não há necessidade — e se trata até de desperdício — de obrigar todos os estudantes a cursar uma faculdade”. Segundo o pesquisador, avaliações educacionais nos EUA mostram que 80% dos jovens estão abaixo da média de “competência cognitiva” necessária para refletir sobre questões intelectualmente complexas. Para entender a explicação dele sobre isso, segue a transcrição de uma de suas declarações à reportagem.

Vamos ser realistas. O diploma normalmente comprova que a pessoa teve uma educação liberal clássica. Significa que tem condições de ler e entender textos difíceis. Mas centenas de jovens nunca conseguirão ler e entender, por exemplo, a Ética de Aristóteles. O resultado é que temos faculdades que oferecem cursos fracos, aumentam as notas e fingem que os seus alunos estão fazendo atividades de nível universitário quando, de fato, não estão. De todas as contribuições que meu livro pode trazer, a que mais me agradaria ver seria o reconhecimento da fraude que o diploma representa.

Embora essa tese seja altamente questionável, não há razão para deixar de aproveitá-la para retomar com outro ângulo questões sobre a situação da educação superior no Brasil, onde um diploma de faculdade se tornou sinônimo de melhor qualificação para o mercado de trabalho. Além disso, tivemos recentemente as avaliações do Ministério da Educação sobre o mau desempenho de muitos cursos superiores, especialmente nas áreas de direito e de pedagogia. E, por incrível que pareça, tivemos até manifestações contrárias a essa iniciativa do MEC, como a do artigo “Pelo direito à ruindade” (13/02/2008), de Gustavo Ioschpe, que qualificou esse esforço como “mais um caso do viés ideológico antiliberal contaminando uma área estratégica para o país”.

Tese polêmica

Hermstein, que foi o autor principal de The Bell Curve, morreu pouco tempo após o lançamento do livro. Com isso, sobraram para Murray a fama, os aplausos e também as bordoadas pela tese central da obra, segundo a qual o QI (coeficiente de inteligência), como descreve a reportagem de Martha, “é um fator preditivo três vezes melhor do que as condições sociais ou a educação para indicar o desempenho no trabalho, a renda e até as chances de gravidez fora do casamento de determinados grupos”.

Uma das mais consistentes objeções a teses desse tipo foi a do paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-2002) em seu livro A Falsa Medida do Homem, publicado em 1994, três anos antes de The Bell Curve e revisado dois anos depois. (Aliás, já que alguns veículos se propuseram a repisar esse assunto, poderiam tê-lo puxado por meio de Gould ou de outros estudiosos, como fez o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, na revista Ciência Hoje Online em sua coluna “A banalidade do mal” , de 14/11/2008).

Não sou especialista no assunto nem li esses dois livros de Murray. Mas tenho lido desde seu lançamento muitas entrevistas dele e até alguns estudos sobre sua obra, inclusive a famosa crítica a Gould feita pelo psicólogo J. Philippe Rushton, da Universidade de Western Ontario, “Race, intelligence, and the brain: The errors and omissions of the ‘revised’ edition of S. J. Gould’s the mismeasure of man (1996)“, publicada na revista Personality and Individual Differences (v. 23, nº 1, julho de 1997, pp. 169-180 ).

Mesmo sendo leigo, tenho restrições à tese central de The Bell Curve em função da complexidade dos fatores por ela correlacionados. Além disso, há muitos questionamentos sobre a própria concepção de inteligência adotada como pressuposto nesse livro e em grande parte dos estudos sobre o assunto. No entanto, o que não deveria de modo algum acontecer com esse tema é a reação que chega muitas vezes a ser raivosa, tornando impossível um mínimo de reflexão, e que quase sempre não passa de exagero fomentado pela praga do “politicamente correto”.

Pauta desprezada

Independentemente de ter como pressuposto a polêmica tese da curva do sino ou curva normal, e de concordarmos ou não com ela, o novo livro de Murray tem o mérito de chamar atenção para o problema da fetichização da formação superior. É válida a concepção por ele empregada de “competência cognitiva para a educação superior”? Se for, é verdadeira sua conclusão de que a maioria das pessoas não a tem? Essas questões têm tudo a ver com a convicção, que parece ser cada vez mais aceita, de que a maioria das faculdades, em vez de manter seus padrões de exigência, tende a baixá-los para adequá-los à média de seus alunos, evitando a evasão e a conseqüente queda da receita de mensalidades.

Além disso tudo, mesmo que a nova tese de Murray não seja válida ou que não sejam corretos os índices que ele aponta, seu livro estimula a perguntar: é necessário que todo mundo tenha formação superior? Isso não tem nada a ver com as polêmicas sobre se determinadas profissões, como a de jornalista, devem ou não exigir graduação específica. O que está em questão aqui — mesmo assumindo que Murray esteja completamente errado — não é apenas o ideário da formação superior como etapa necessária na educação de cada pessoa, mas também se é minimamente vantajosa a relação entre tempo e custo dispendidos e o conhecimento adquirido.

Além disso, mesmo para os casos em que é indiscutivelmente necessária a formação específica, há que se questionar a proliferação do ensino superior por meio de universidades. Grande parte das necessidades do mercado de trabalho poderia ser suprida por faculdades, institutos e outras instituições isoladas voltadas especificamente ao ensino de graduação. Mas o que tivemos foi o crescimento do modelo universitário, que pressupõe um forte vínculo entre a graduação, a pós-graduação e a pesquisa. Segundo dados do Censo da Educação Superior, do total de 4.676.646 de estudantes universitários matriculados no Brasil em 2006, 3.238.305, ou seja, 69,24% estavam nas 178 universidades ou nos 119 centros universitários.

Enfim, há muito a ser explorado pela imprensa em relação a esses aspectos da educação superior. Inclusive sob a perspectiva da necessidade de efetiva valorização da educação básica e de políticas públicas de assistência social, que podem ter efeito no desenvolvimento cognitivo e, portanto, na inteligência. Esse, aliás, é um dos aspectos que me parece mais terem sido desconsiderados por muitos dos adeptos da curva do sino, que muitas vezes advogam propostas para a sociedade que talvez não seriam endossadas nem mesmo por Murray. Estatísticas podem ser verdadeiras, mas não há nada de científico em compreendê-las como expressão da natureza humana. Graus de curvatura sempre haverá, mas para nos alertar sobre eles, vale a pena retomar as palavras da filósofa Hannah Arendt (1906-1975), pois é por nós todos que dobra a curva do sino.

O problema das modernas teorias do behaviorismo não é que elas estejam erradas, mas sim que podem vir a tornar-se verdadeiras, que realmente constituam as melhores conceituações possíveis de certas tendências óbvias da sociedade moderna. É perfeitamente concebível que a era moderna — que teve início com um surto tão promissor e tão sem precedentes de atividade humana — venha a terminar na passividade mais mortal e estéril que a história jamais conheceu.
(Hannah Arendt, A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004, pp. 335-336.)

* * * * * * *

PS das 21h39: Título nada original — O físico e jornalista Igor Zolnerkevic, editor do blog Universo Físico, informou (ver comentários) que Natalie Anger, colunista do New York Times, usou o mesmo título desta postagem para um dos capítulos de seu livro The Canon — A Whirligig Tour of the Beautiful Basics of Science, publicado em março deste ano. Ou seja, não fui nada original ao brincar com o título do livro de Hemingway. Fiz em seguida uma busca, e encontrei vários outros precedentes. Seguem alguns deles (há muitos mais), que ficam como sugestão de leitura.

PS de 30/11 as 08h39: Mas nem tanto — Graças à língua portuguesa, há um aspecto de originalidade da paródia feita por mim com o livro de Hemingway. A tradução do título For whom the bells tolls para o português, que poderia ter sido consagrada como “Por quem os sinos tocam”, é “Por quem os sinos dobram”, pois “dobrar” tem também o sentido de “tocar”. Sem essa peculiaridade de nosso idioma, não teria sido possível, antes de citar Hannah Arendt, associar o termo “dobrar” a outro sentido, o da curvatura do gráfico, afirmando que é por nós que o gráfico do sino sofre suas inflexões.

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 29/11/2008 at 13:25

Publicado em Ciência, Educação, Filosofia

MEC cutuca omissão de escolas de jornalismo

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Roosewelt Pinheiro/Agência Brasil

O ministro Fernando Haddad, da Educação (Foto: Roosewelt Pinheiro/Agência Brasil)

Não foi isso o que disse o ministro Fernando Haddad, da Educação, mas, na prática é o que ele acabará fazendo: provocar as escolas brasileiras de jornalismo a discutir criticamente os pressupostos da obrigatoriedade da formação superior específica para o exercício dessa profissão, estabelecida pelo Decreto-lei nº 972, de 17/10/1969.

Em entrevista a emissoras de rádio no estúdio da Embresa Brasil de Comunicação na quinta-feira (18/09), o ministro anunciou que criará um grupo de estudos “para discutir as diretrizes curriculares dos cursos de comunicação social, em especial o de jornalismo, da mesma forma que o MEC já fez com as graduações de direito e medicina”. “Nós acreditamos que é um bom momento para discutir essas diretrizes e verificar inclusive quais são as competências que precisam ser adquiridas por um profissional de outra área para que ele possa exercer a profissão de jornalista”, declarou o ministro, segundo a reportagem “Haddad defende discussão de novas diretrizes para cursos de jornalismo” (Agência Brasil, 19/09/2008).

Passados quase sete anos desde a Ação Civil Pública do procurador da República André de Carvalho Ramos e da liminar a ela favorável concedida pela juíza Carla Abrantkoski Rister, da 16ª Vara Cível Federal de São Paulo, nenhum esforço sistemático para discutir com profundidade esse assunto foi feito nem mesmo pelas escolas de jornalismo. Ao contrário, o que se viu foram esforços dissimuladores dos pontos centrais desse tema, inclusive por parte de associações de pesquisadores de jornalismo, como já mostrou este blog na postagem “Os defensores do diploma e seus debates imaginários“, de 05/08/2008.

Essa omissão tornou-se ainda mais irresponsável a partir da chegada do processo ao Supremo Tribunal Federal (STF), que concedeu liminar que suspendeu a exigência do diploma em 16/12/2006. Por parte da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e dos sindicatos a ela vinculados, não há nenhum interesse em discutir essa obrigatoriedade, que é tratada por eles como um dogma, mas que deverá ser julgada pelo STF ainda neste semestre. O presidente da Fenaj, jornalista Sérgio Murillo de Andrade, que também é professor de jornalismo, declarou que o momento é inoportuno para o debate, segundo registrou a repórter Amanda Cieglinski na matéria acima citada da Agência Brasil.

Reflexão filosófica

Desse modo, lamentavelmente, temos mais um exemplo na história deste país de uma ação por parte do governo para induzir algo que outros setores da sociedade deveriam ter feito. Embora com alguns equívocos, uma crítica interessante a essa iniciativa do MEC foi feita pelo artigo “O jornalista sem escola de jornalismo“, do professor de filosofia Paulo Ghiraldelli Júnior, em seu Portal Brasileiro de Filosofia. Nesse artigo, Ghiraldelli afirma:

Toda e qualquer atividade que chega a ter um curso correspondente no âmbito do ensino superior, para poder gerar mão se obra em forma de profissão, tem de ter respaldo epistemológico. Quem diria que o jornalismo não tem? Quem vier a afirmar isso terá de afirmar também que a atividade de professor não tem. Pois ser professor é saber algo para ensinar. Ora, posso ser professor de biologia se sou médico, não? Posso ser professor de matemática se sou engenheiro, não? Vejam que o raciocínio é infinito nessa linha. É bom não começar a pensar nisso a partir do governo. É melhor que isso seja uma discussão do âmbito da investigação filosófica sobre o tema.

O professor de filosofia tem razão. Há toda uma reflexão que deve ser feita no plano epistemológico sobre esse assunto. No entanto, talvez por desconhecer a omissão dos acadêmicos brasileiros em proceder a esse questionamento — ou até mesmo, o que é  compreensível, nem imaginar que essa atitude seja possível —, Ghiraldelli se engana ao fazer as seguintes considerações:

Creio que o MEC faria melhor se não formasse comissão alguma e deixasse tais discussões fluírem naturalmente no campo das escolas de comunicações, empresas jornalísticas e programas de pesquisa sobre o assunto. Agora, se o MEC quer participar disso, faria algo útil oferecendo incentivos para que as próprias empresas, em comum acordo com pesquisadores da área, viessem a desenvolver reflexões sobre isso. Nada de uma comissão de doutos para fazer aquilo que é para ser feito no campo sócio-histórico da sociedade.

Para decepção do professor de filosofia, em vez da reflexão crítica que é indissociável do ethos acadêmico, o que predominou nas instituições de ensino e pesquisa de jornalismo brasileiras nestes anos todos foi um insistente e dogmático mantra coletivo em torno de uma obrigatoriedade que tem sido repudiada por estudiosos e profissionais em vários países.

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 21/09/2008 at 15:48

O aniversário do “inventor” do cristianismo

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Está aí um assunto do qual parece que os meios de comunicação não se deram conta, ironicamente nem os paulistanos e paulistas em geral: a datação aproximada de 2008 como aniversário de dois milênios do apóstolo Paulo. Esse é o gancho do interessante artigo de Dom Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo, publicado hoje no Estadão (“São Paulo, 2 mil anos”, pág. A2), que trata do Ano Jubilar Especial aberto pelo Papa Bento XVI a partir de 28 de junho.

No quinto parágrafo desse texto, o primaz da Igreja Católica paulistana trata de um tema espinhoso, que é o tema da exata localização do limite entre o judaísmo e o início do cristianismo, ao mencionar o teólogo luterano alemão William Wrede (1859-1906):

Mesmo sem endossar a afirmação de Wrede, um estudioso do início do século 20, segundo o qual é Paulo o verdadeiro fundador do cristianismo, é inegável a importância do grande apóstolo para a Igreja. Mais que os outros apóstolos e discípulos de Jesus Cristo, ele difundiu o Evangelho entre os povos e fez uma primeira aproximação da mensagem cristã com as culturas da época, dando um cunho universalista ao “caminho” vivido pelos cristãos. Isso foi fundamental para que, ao longo dos séculos, os povos – sem deixarem de lado a sua identidade cultural – pudessem conviver na mesma grande comunidade de fé.

Autor de duas obras de referência sobre as origens do cristianismo — Das Messiasgeheimniss in den Evangelien (O Mistério do Messias nos Evangelhos), de 1901, e Paulus, de 1904 —, Wrede foi um dos primeiros estudiosos a analisar com profundidade a atuação de Paulo na construção, a partir do ideário da cultura grega, de um mito da redenção que não teria existido na pregação original de Jesus e de seus seguidores imediatos.

No final das contas, revirar a pregação e a história de Paulo implica cutucar no tema do Jesus histórico. E é impressionante o enorme abismo que existe em relação a esse tema entre a visão oficial das igrejas cristãs e os resultados de pesquisas científicas, inclusive realizadas por sacerdotes. Embora eu já tivesse uma noção disso, só percebi o tamanho do vespeiro com as reclamações à reportagem que escrevi em 2001, quando era redator-chefe da revista Galileu, a reportagem “A invenção do Cristianismo”. Irônicas, raivosas ou virulentas, essas contestações, inclusive por parte de alguns professores universitários, tinham todas uma característica comum: nenhuma delas entrou no mérito das pesquisas citadas.

Voltando às palavras acima destacadas do artigo, é importante observar como elas, cuidadosamente, não comprometem o currículo do seu autor — ex-professor de filosofia e teologia e mestre e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma — em relação ao conhecimento atual da história do pensamento cristão: o cardeal não diz discordar de Wrede; apenas afirma não endossá-lo. Se discordasse, ou seja, se rejeitasse a idéia da relação entre as concepções gregas e a pregação paulina, passaria por ingênuo ante reiterados estudos que mostram a importância das palavras não só de Paulo, mas também do evangelista João, para o arcabouço conceitual que serviu de base para os malabarismos teóricos dos Doutores da Igreja nos primeiros séculos do cristianismo.

Um desses primeiros Doutores, Justino de Cesaréia (100-165 d.C.), venerado como santo não só no catolicismo e por ortodoxos gregos e orientais, mas também por anglicanos e luteranos, se consagrou como apologista justamente por compatibilizar a fé cristã, da forma pregada por Paulo, com o platonismo. Sobre isso, vale ressaltar as palavras de Étienne Gilson (1884-1978):

Para ele [Justino], Heráclito e os estóicos não são estranhos ao pensamento cristão; Sócrates conheceu “parcialmente” Cristo: de fato, ele descobriu certas verdades pelo esforço da razão, que ela própria é uma participação no Verbo, e o Verbo é Cristo; Sócrates pertence, pois, aos discípulos de Cristo. Em resumo, pode-se dizer a mesma coisa de todos os filósofos pagãos que, tendo pensado o verdadeiro, tiveram os germes dessa verdade plena que a revelação cristã nos oferece no estado perfeito.1

Para São Justino e os outros apologistas do cristianismo, como Taciano (c. 120-180 d.C.), Atenágoras (133-190 d.C.), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) e Orígenes de Alexandria (185-253 d.C.), tratava-se, sobretudo, de justificar a fé cristã diante da filosofia grega, estratégia já delineada pelo apóstolo cerca de cem anos antes deles. “Paulo enxergava a direção que tomava o mundo e agiu para fazer o cristianismo crescer no futuro”, disse o padre católico e teólogo Hermínio Andrés Torices, da PUC de Campinas e do Instituto Teológico de São Paulo, em minha reportagem de 2001 acima citada.

Vale lembrar que, antes de Wrede, Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Para Além do Bem e do Mal (1885) qualificou o cristianismo como uma vulgarização da metafísica platônica,2 e, em Aurora: Pensamentos sobre os preconceitos morais (1881), afirmou: “Este [Paulo] é o primeiro cristão, o inventor do cristianismo! Até então havia apenas alguns sectários judeus.”3

Enfim, dado o gancho trazido por Dom Odilo, bem que a imprensa poderia produzir matérias frias interessantes sobre o apóstolo Paulo, que foi certamente um dos mais geniais personagens de toda a História.

Em tempo — Para os interessados na vida e obra de Paulo, vale a pena ler Paulo: Uma biografia crítica, do padre e teólogo irlandês Jerome-Murphy O’Connor, lançado no Brasil em 2000 pela Edições Loyola.

Referências

  1. Étienne Gilson. A Filosofia na Idade Média. Tradução de Eduardo Brandão. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 6.

  2. “(…) pois o cristianismo é o platonismo para o povo”. Friedrich Nietzsche. Mas allá del Bien y del Mal: Preludio de una filosofía del futuro. Tradução de Andrés Sánchez Pascual. Madrid: Alianza Editorial, 1977, p. 18.

  3. Friedrich Nietzsche. Obras Incompletas. Seleção de textos de Gérard Lebrun. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1974 [coleção Os Pensadores], vol. XXXII, p. 174.

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 12/07/2008 at 11:02

Publicado em Filosofia, Religião

Ghiraldelli bateu duro em Dubitandum

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O lamentável texto “Errar é Humanas”, comentado por mim anteontem (07/07), já havia sido bombardeado na semana passada pelo professor de filosofia Paulo Ghiraldelli Jr. Vale a pena ler a crítica em seu blog (“A direita está tosca”) e assistir ao seu vídeo no YouTube (Filosofia e Paulo Freire: A Direita é Tosca?). O leitor que não gosta de abordagens em função das noções de direita e de esquerda não precisa se preocupar com esses dois títulos.

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quarta-feira, 09/07/2008 at 10:26

Publicado em Ciência, Educação, Filosofia

Dubitandum coisa nenhuma

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Eu estava decidido a manter este blog inativo por mais tempo. Mesmo tendo publicado artigos em jornais, não me dispus a apresentá-los neste espaço, nem mesmo por sugestão de amigos e leitores. Porém, há poucos dias, já em férias, acabei acidentalmente topando com um dos mais colossais amontoados de asneiras dos últimos tempos. E foi cometido por um blogueiro que parece ter um alto índice de visitação. Hoje, ao ler novamente esse texto, constatei que apesar de todas as críticas que lhe foram dirigidas, seu autor não fez nenhum reparo às bobagens que perpetrou. Não vou dizer o nome dele; não me agrada a idéia de citar nominalmente alguém que consegue escrever tanta besteira de uma só vez e permanecer impávido. Mas é preciso, pelo menos, já que me dou ao trabalho de comentar esse lamentável caso, apontar o texto ao qual me refiro: “Errar é humanas”.

Trata-se de um post que se contrapõe à obrigatoriedade das disciplinas de filosofia e de sociologia no ensino médio, conforme estabelece a Lei nº 11.684, de 2 de junho de 2008, sancionada pelo vice-presidente em exercício José de Alencar, que alterou o texto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996. Tenho algumas dúvidas sobre a conveniência, neste momento, de instituir essa obrigatoriedade. É um assunto que vale uma boa discussão, coisa que não acontecerá de modo nenhum se depender de pessoas como o indigitado blogueiro, que absurdamente se intitula especialista em educação e cuja argumentação pode ser resumida ao seu último parágrafo, transcrito a seguir.

No primeiro semestre da faculdade, li um texto muito bom de Paulo Freire, em que ele dizia que era preciso read the word to read the world (ler a palavra para ler o mundo). Não sei se ele o escreveu em inglês ou se a tradução foi especialmente fortuita, mas o enunciado é verdadeiro: é impossível entender a complexidade do mundo se você não sabe ler. É impossível estudar filosofia se você não sabe ler. Essas aulas serão apenas uma maneira mais escancarada de se praticar o doutrinamento do marxismo rastaquera que impera em nossas escolas. Eu particularmente ficaria muito contente se os nossos alunos saíssem do ensino médio ignorantes de filosofia e sociologia, mas conseguindo ler um texto e entendendo-o, para que tomassem suas próprias conclusões filosóficas ao lerem seus próprios livros. E se fosse para incluir uma nova disciplina em nosso currículo, adoraria que fosse estatística. A maioria dos alunos a detestaria e aprenderia muito pouco, mas talvez uma minoria conseguisse extrair daí o ferramental que lhe permitiria julgar, com a sua própria racionalidade, a veracidade das teorias com que são bombardeados na escola, nas ruas, na mídia. O que de melhor pode haver no processo educacional do que a capacidade de não apenas instigar a capacidade de questionamento dos alunos, mas também dar-lhes o instrumental que lhes permitirá solucionar esses próprios questionamentos sozinhos?

Em primeiro lugar, reconheço que o marxismo vulgar no âmbito das humanidades é um fator que não pode ser desconsiderado não só no tema em pauta, mas até mesmo no que se refere às questões do ensino superior. No entanto, se o baixo nível em uma disciplina fosse motivo para ela não ser lecionada nas escolas, esse mesmo argumento poderia ser aplicado às várias outras outras matérias. O próprio blogueiro, aliás, relata no mesmo post o mau desempenho dos estudantes brasileiros em matemática. Como justificar então a inclusão da estatística como disciplina nas escolas? Não haveria outra questão de fundo a ser tratada previamente?

Um dos pressupostos do texto expelido pelo blogueiro está na sua simplória visão das diversas áreas do conhecimento, em que pese sua tentativa de fazer considerações de ordem filosófica e epistemológica. Ele, que afirma que só descobriu no mestrado que “não entendia nada de matemática”, exalta a superioridade dessa disciplina sobre as demais ciências dizendo uma enorme asneira: “Sem uma comprovação empírica, qualquer pensamento é apenas uma tese”. Ora, se isso fosse verdadeiro, a matemática, a estatística, a computação e a própria lógica seriam ciências sem possibilidade nenhuma de comprovação de seus teoremas, pois nenhuma delas tem conteúdo empírico; seus procedimentos são inteiramente dedutivos. Em outras palavras, a julgar pelas próprias palavras do auto-intitulado especialista em educação, ele continua sem entender nada de matemática.

Não bastassem em um único texto essa e outras demonstrações de ignorância, que não valem a pena ser repisadas, dou-me apenas ao trabalho de ressaltar a incapacidade de compreensão textual do soi-disent especialista em educação, registrada no trecho a seguir, que antecede o outro, acima transcrito. Não sou estudioso de Paulo Freire, nem tenho muita paciência com o endeusamento que fazem desse grande educador e seus ensinamentos. (E, pelo que conheço sobre o homem que ele foi, creio que nem ele mesmo toleraria isso.) Mas é revoltante ver tamanha besteira ser afirmada com tanta segurança a respeito dele, que em diversas ocasiões disse justamente o contrário:

A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançado por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado – e até gostosamente – a “reler” momentos fundamentais de minha prática, guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão crítica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo. Ao ir escrevendo este texto, ia “tomando distância” dos diferentes momentos em que o ato de ler se veio dando na minha experiência existencial. Primeiro, a “leitura” do mundo, do pequeno mundo em que me movia; depois, a leitura da palavra que nem sempre, ao longo de minha escolarização, foi a leitura da “palavra mundo”.

(FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. São Paulo: Cortez & Moraes, 1986, p. 113.)

Um aspecto importante é que o indigitado blogueiro tem razão ao mencionar o “marxismo rastaquera que impera em nossas escolas”. No entanto, em vez de contextualizar o tema em pauta, essa menção nada mais faz que cumprir com um objetivo estratégico que já está se tornando um padrão na disputa por atenção de internautas: emitir juízos de valores para nichos específicos. Em outras palavras, trata-se de uma estratégia discursiva amplamente usada por “críticos” à direita e à esquerda, baseada em dizer justamente aquilo que suas platéias querem que seja dito, não só para servir a elas como espelho de suas convicções, mas também para abastecer seus repertórios de argumentos, dando-lhes a impressão de uma atualização constante de conhecimentos, mas que não passa de uma repetição, travestida como novidade, da mesmice a que se condenam.

Não vale a pena prosseguir em considerações sobre asneiras proferidas com tamanha empáfia, o que só pode ser possível quando se chega às raias da ignorância e sem um mínimo de espírito crítico. No final das contas, toda a impermeabilidade às críticas recebidas e sua assertividade desenfreada mostram que o título Dubitandum, desse blog, não passa de um ornamento esvaziado de sentido real.

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segunda-feira, 07/07/2008 at 16:13

Publicado em Ciência, Educação, Filosofia

O jornalismo científico e as duas culturas

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Há mais esqueletos no armário do chamado jornalismo científico do que supõe nossa vã crítica da mídia especializada em ciência. Não há como fugir dessa conclusão hamletiana o profissional de imprensa dessa área que, com um mínimo de senso crítico, tenha lido a matéria da Folha “A hélice dupla e as duas culturas”, publicada em 1º/04 no suplemento dominical “Mais!”.

A reportagem se refere ao debate realizado no auditório da Folha de S. Paulo no dia 27/03, com o lançamento do livro Promessas do genoma, do jornalista e cientista social Marcelo Leite. Além do autor do livro, que também é colunista da Folha, participaram do debate a geneticista Mayana Zatz, da USP, o biólogo molecular Gonçalo Pereira, da Unicamp, e o filósofo da ciência Hugh Lacey, do Swarthmore College (EUA).

Ao registrar o evento, a matéria ressaltou com pertinência aquilo ao qual o escritor britânico Charles Percy Snow (1905-1980) se referiu, em sua famosa conferência de 1959 na Universidade de Cambridge, depois convertida em livro, como o hiato entre “as duas culturas”, ou seja, o abismo existente entre os estudiosos das ciências naturais e da tecnologia e os das artes e das humanidades.

Mas, nos termos em que foi apresentada na reportagem, a retórica dos representantes das ciências naturais nesse debate traz um sinal de alerta para a cultura hegemônica da cobertura jornalística nas áreas de ciência, tecnologia, saúde e meio ambiente. O primeiro desses sinais vem das seguintes palavras da geneticista da USP no debate, transcritas pela matéria da Folha, ao se referir a cientistas envolvidos em projetos de longo prazo que exigem grandes somas de recursos:

Quem coloca a mão na massa sabe quais são as limitações. Às vezes, você realmente tem de vender o peixe quando precisa de financiamento. Não adianta você dizer: “Olha, vou ficar 20 anos seqüenciando para talvez chegar a um resultado”. A gente tenta dourar um pouquinho a pílula. Mas sabemos que as limitações são enormes e temos um longo caminho pela frente.

Ao transcrever essas declarações, a reportagem informa que “o sentido social e até ético da função deles [os pesquisadores das ciências naturais] era levado sempre para o individual”. Em sua tese de doutoramento de 2005 na Unicamp, na área de sociologia da ciência, que tomou forma no livro que foi tema do debate, lançado recentemente pela Editora Unesp, Marcelo Leite caracteriza de forma inequívoca a “mobilização retórica e política, nas interfaces com a esfera pública leiga, de um determinismo genético crescentemente irreconciliável com os resultados empíricos obtidos no curso da própria pesquisa genômica”.

O livro evidencia também o recurso crescente por parte de cientistas em publicações especializadas, com a função de suporte a um programa hegemônico de pesquisa, a justamente aquilo que muitos pesquisadores sempre criticaram em jornalistas: não só as metáforas no trabalho de divulgação, mas até mesmo hipérboles, pondo em prática um sensacionalismo dirigido a resultados. “Reduzir o sensacionalismo é algo para o jornalista fazer”, disse no debate o biólogo molecular Gonçalo Pereira, segundo a matéria da Folha.

Marcelo Leite mostra que ao anunciarem em janeiro de 2001 a reta final para o sequenciamento do genoma humano e solicitarem recursos dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido, os cientistas norte-americanos e britânicos que participaram do projeto levaram o presidente Bill Clinton e o primeiro-ministro Tony Blair a comprarem um empreendimento com base naquilo que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, chamou apropriadamente de “propaganda científico-mediática enganosa”, em sua resenha “A ciência transcendental”, na mesma edição da citada matéria da Folha.

Longe de querer alimentar a controvérsia entre jornalistas e cientistas, não é nosso foco aqui, apesar da extensão do intróito acima, o que pode ser considerado criticável nos pesquisadores — tarefa da qual Marcelo Leite já se encarregou implacavelmente com a dissecação do tema em sua obra. O foco é a parte que cabe à imprensa nesse tema. O que está aqui em questão diz respeito à quase totalidade dos veículos e profissionais de imprensa especializados em ciência.

Para assegurar a credibilidade dos empreendimentos científicos que divulgam, a maioria dos jornalistas que cobrem essa área adotou há algumas décadas a prática de presumir como informações fidedignas aquelas que são prestadas pelas publicações científicas que contam com comitês consultivos independentes.

Já havíamos criticado em outro artigo (“A clonagem das notícias de ciência”, ComCiência, Labjor/Unicamp, fevereiro de 2005) esse procedimento de certificação consagrado pelo jornalismo científico, uma vez que muitas publicações científicas “expandiram seu público-alvo para além dos limites da comunidade acadêmica, abrindo espaço para influenciar comunicadores, formadores de opinião e tomadores de decisão, elas passaram a servir como palco para campanhas institucionais e disputas internas por poder e recursos”.

É nesse sentido que a douração da pílula de olho no cheque acaba pondo em xeque o modelo hegemônico de jornalismo científico, que se caracteriza, acima de tudo, pela renúncia não só à disciplina da verificação por meio da busca do contraditório — que é a essência do jornalismo —, mas também ao trabalho investigativo.

No debate, Gonçalo Pereira afirmou, de acordo com a reportagem, que “a sobrevivência na face da Terra depende totalmente do conhecimento que teremos da biotecnologia”. Diante de uma ciência que tem essa auto-imagem triunfalista, não basta o rigor da ética jornalística para entender que se faz necessária a busca do contraditório e para ver a possibilidade de algum trabalho jornalístico investigativo. É preciso, dentro do próprio jornalismo científico, superar o abismo entre as duas culturas, apontado por Snow.

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segunda-feira, 02/04/2007 at 8:32

O dedo na ferida da razão

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(Publicado no Jornal UNESP, agosto/2006, ano XX, nº 214)

Em obra inédita no país, Thomas Kuhn reafirma sua tese de que a ciência não é uma ‘aproximação cada vez maior da realidade’ e da impossibilidade de diálogo entre grupos de diferentes paradigmas

Em seu pequeno texto Uma Dificuldade da Psicanálise, de 1917, Freud afirmou que a primeira grande ofensa à auto-imagem da civilização humana havia sido a revolução copernicana, por ter substituído a cosmologia geocêntrica pelo heliocentrismo e tirado definitivamente dos homens a idéia de que eles ocupavam um lugar privilegiado no Universo. O segundo grande golpe, disse ele, foi desferido pela teoria da evolução de Darwin, que colocou nossa espécie diante da constatação de que ela não é tão diferente dos outros animais, como até então se imaginava. E, segundo o fundador da psicanálise, a terceira e mais sensível ofensa às ilusões narcisistas da civilização foi sua teoria baseada na existência de processos psíquicos inconscientes, pois o homem, apesar de já exteriormente humilhado, ainda se sentia “soberano em sua própria alma”. Não há nenhum exagero em afirmar que a primeira grande ferida narcísica da ciência foi provocada pelo norte-americano Thomas Kuhn (1922-1996), cuja obra póstuma O Caminho desde A Estrutura a Editora UNESP acaba de publicar.

Editado por James Conant e John Haugeland, ambos teóricos da ciência e professores do Departamento de Filosofia da Universidade de Chicago, o volume foi publicado originalmente em 2000, e seu título remete ao do livro mais famoso de Kuhn, A Estrutura das revoluções científicas, de 1962 (publicado em 1976 no Brasil pela Editora Perspectiva). Após ter concluído sua graduação em física (1943), o mestrado (1946) e o doutorado (1949) em Harvard, assumiu lá também uma cadeira de história e filosofia da ciência até 1956. Depois disso, lecionou nas universidades da Califórnia em Berkeley (1956-1964), Princeton (1964-1979) e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (1979-1991).

O livro póstumo reúne 11 ensaios de Kuhn, dos quais alguns inéditos em português, e a transcrição de um debate dele com professores de história e filosofia da ciência na Universidade de Atenas em outubro de 1995. A seleção dos textos foi realizada de modo a mostrar as reflexões do autor na reavaliação de suas teses polêmicas. Ao contrário do seu colega austríaco Paul Feyerabend (1924-1994), que lançou o “vale-tudo” de seu anarquismo epistemológico em Contra o método, em 1975, mas suavizou suas posições nas duas edições seguintes, Kuhn manteve e expandiu praticamente todas as suas concepções formuladas em A Estrutura das revoluções científicas, respondendo às críticas que lhe foram direcionadas ao longo de mais de três décadas.

O Caminho desde A Estrutura reafirma que o chamado progresso da ciência não consiste em uma “aproximação cada vez maior à realidade”, mas no aperfeiçoamento de uma capacidade técnica de “resolver quebra-cabeças” segundo padrões estritos estabelecidos pela formação científica profissional. Essa tese parte de três importantes conceitos da obra de Kuhn. Um deles é o de “paradigma”, que consiste em um conjunto de compromissos conceituais, metodológicos e instrumentais compartilhados pelos membros de uma especialidade científica durante um determinado período. O segundo é o de “ciência normal”, que compreende a atividade de pesquisa firmemente baseada em realizações científicas anteriores, reconhecidas durante algum tempo por uma comunidade especializada. O terceiro conceito é o de “ciência em crise” – o período de transição entre um paradigma e seu sucessor a partir de sucessivas revisões críticas de uma teoria envolta em diversas dificuldades ou “anomalias”.

Kuhn retoma algumas de suas afirmações mais impactantes da Estrutura e, sem enfraquecê-las, volta suas baterias contra as críticas que lhe foram feitas. É o caso de uma de suas mais conhecidas colocações sobre a ciência normal: “Examinado de perto, seja historicamente, seja no laboratório contemporâneo, esse empreendimento parece ser uma tentativa de forçar a natureza a encaixar-se dentro dos limites do paradigma.” Ao retomar essa afirmação, ele explica: “Dizem que afirmei que os membros de uma comunidade científica podem acreditar em tudo o que quiserem, bastando, para isso, que decidam primeiro sobre o que concordam, para depois impô-lo a seus colegas e à natureza. Os fatores que determinam aquilo em que decidem acreditar são fundamentalmente irracionais, questões de acaso e de gosto pessoal. Nem lógica, nem observação, nem boa razão estão implicadas na escolha da teoria. Seja lá o que for a verdade científica, ela é completamente relativística.”

Justamente em torno da afirmação sobre “forçar a natureza” ao paradigma é que foi dirigida indevidamente a crítica dos físicos Alan Sokal e Jean Bricmont, em 1997, no livro Imposturas intelectuais: o abuso da ciência pelos filósofos pós-modernos (publicado no Brasil em 1999 pela Record). Foi uma dupla falta: em primeiro lugar, Kuhn era um físico por formação e havia iniciado sua atividade de pesquisa na área de física teórica, diferentemente dos intelectuais da área de humanidades que os dois autores acusaram, em muitos casos com razão, de “explorar o prestígio das ciências naturais de modo a transmitir aos seus próprios discursos uma aparência de rigor”; em segundo lugar, o esclarecimento de Kuhn já havia sido publicado em 1970 na coletânea A Crítica e o desenvolvimento do conhecimento, organizada por Imre Lakatos e Alan Musgrave (publicado no Brasil em 1979 pela Cultrix/Edusp).

Já em 1979, o filósofo norte-americano Richard Rorty, em A Filosofia e o espelho da natureza, abordou precisamente outra tese de Kuhn, já esboçada na Estrutura, e mais impactante que a da verdade relativística. Trata-se da tese da incomensurabilidade dos paradigmas, ou seja, não existe, grosso modo, a possibilidade de um diálogo entre grupos de cientistas que têm paradigmas diferentes para uma explicação científica. E é justamente nesse ponto que Rorty bateu na mesma tecla de Kuhn:

“Sugerir que não há tal terreno comum parece colocar em perigo a racionalidade. Questionar a necessidade de comensuração parece ser o primeiro passo para uma guerra de todos contra todos. Assim, por exemplo, uma reação comum a Kuhn e a Feyerabend é a de que eles estão advogando o uso antes da força do que da persuasão”.

Reações à obra de Kuhn como a de Sokal e Bricmont, à primeira vista, por nem sequer considerarem esclarecimentos anteriores, demonstram desonestidade intelectual ou incompetência para tratar da matéria. Mas também dão motivos de sobra para interpretações psicanalíticas em torno da ferida narcísica semelhante à que foi detectada por Freud em 1917 com relação ao descentramento do psiquismo. Não foi à toa que Rorty, na mesma obra acima citada, referindo-se à filosofia analítica, que é mais próxima da tradição científica, comentou o potencial da abordagem de Kuhn “para perturbar os níveis inconscientes mais profundos da mente filosófica treinada”.

O Caminho desde A Estrutura – Thomas Kuhn. Editora UNESP, 402 páginas, R$ 49,00; informações: (11) 3872-2861 ou http://www.editoraunesp.com.br

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 12/08/2006 at 12:44

Publicado em Ciência, Filosofia

Os limites da linguagem, do mundo e da imprensa

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A imprensa não se interessou ou, em alguns casos, nem sequer conseguiu identificar na edição de 10 de janeiro da revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) uma pauta relacionada a um dos temas mais importantes do pensamento do século 20: a nossa linguagem afeta nossa percepção do mundo?

O assunto foi profundamente investigado no âmbito da filosofia da linguagem pelo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) na primeira metade do século 20. Sua abordagem inicial sobre esse tema foi apresentada em seu livro Tractatus Logico-Philosophicus, de 1922, no qual ele apresentou sua instigante proposição 5.6: “Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo”.

No âmbito prático da ciência, mais especificamente na lingüística, em conexão com a psicologia e a etnologia, esse mesmo tema tem sido abordado por meio da chamada hipótese de Whorf, também conhecida como hipótese de Sapir-Whorf. Apresentada inicialmente em 1921 por Edward Sapir (1884-1939) e reformulada por Benjamin Lee Whorf (1897-1941), ela afirma que cada uma das diferentes culturas humanas tem seu próprio universo mental, o qual, por sua vez é expresso e, portanto, condicionado por sua língua. A idéia dessa íntima relação entre, de um lado, os planos da cultura e do pensamento e, de outro lado, o plano da linguagem — para muitos, uma determinação — consiste no chamado relativismo lingüístico.

A novidade sobre esse assunto é um reforço parcial da hipótese de Sapir-Whorf: a conclusão de que ela é válida para o nosso campo visual direito. Essa avaliação é resultado de um estudo que, segundo seus autores, seria o primeiro a verificar a validade da proposição dos dois célebres lingüistas com base na organização das funções das regiões do cérebro.

A pesquisa foi coordenada por Aubrey Gilbert, pós-graduanda do Instituto de Neurociência Hellen Wills, ligado aos departamentos de psicologia e de linguística da Universidade da Califórnia em Berkeley. A caloura, idealizadora do empreendimento, trabalhou com o apoio de pesquisadores sênior: Terry Regier, professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago; Paul Kay, do Instituto Internacional de Ciência da Computação, em Berkeley, um veterano peso-pesado da pesquisa lingüística; e Richard Ivry, professor do Departamento de Psicologia de Berkeley e diretor do Instituto de Ciências Cognitivas e do Cérebro, na mesma universidade.

A idéia-chave de Gilbert foi a existência em muitos idiomas, como o inglês, de palavras palavras distintas para denotar cores diferentes, como o azul e o verde, em comparação com idiomas que têm um único termo relativo a todas as variações de tonalidade dessas duas cores, como a língua indígena mexicana tarahumara. Dispositivos especialmente preparados com variações de cores em imagens foram usados para estabelecer relações entre percepção visual e interferências do idioma nativo (ver imagem acima).

Jornalistas que cobrem ciência não podem reclamar que a divulgação dessa pesquisa tenha sido restrita ou hermética. O press-release “Words help determine what we see“, preparado por William Harms, da Universidade de Chicago, com e-mails e telefone de contato, foi distribuído pela rede Eurekalert!, da American Association for the Advancement of the Science (AAAS). O texto integral do paper, com indicação de e-mails de Gilbert e de Regier, está disponível na web.1

O que com certeza mais prejudicou para emplacar na mídia esse estudo, que diz respeito a uma das questões mais importantes da filosofia no século 20, foi principalmente a falta de algum clichê em que ele pudesse ser enquadrado. Se isso fosse possível, daria para conseguir — ou pelo menos se atrever — vendê-lo como pauta às instâncias de decisão editorial. Afinal, como rezam cada vez mais as balizas decisórias da indústria cultural, o público-alvo precisa fazer um esforço de compreensão homérico. E “homérico” aqui pode se referir tanto ao historiador grego Homero como ao personagem Homer Simpson.

Acrescente-se a isso o efeito da corda na casa de enforcado: trata-se de uma profissão que tem uma auto-imagem de guardiã do interesse público, mas que tem impulsionado a simplificação e o enxugamento crescente da linguagem, construindo uma versão light da Novilíngua (Newspeak) de George Orwell (1903-1950) em seu 1984, inspirado, por sua vez, no livro Nós, do dissidente soviético Yevgeny Zamyatin (1884-1937), que sentiu na pele os rumos de uma versão mais tosca desse empreendimento destinado a reduzir o universo da linguagem, da qual dependem a reflexão e a crítica.

E nada teria a ver com essa auto-imagem uma pauta com base na hipótese de Sapir-Whorf ou na proposição wittggensteiniana “Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo” (“Die Grenzen meiner Sprache bedeuten die Grenzen meiner Welt.”)2

Notas

  1. Gilbert, A.L., Regier, T., Kay, P. & Ivry, R.B. (2006) Whorf hypothesis is supported in the right visual field but not the left, Proceedings of the National Academy of Sciences, USA, 103, 489-494.
  2. Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus (edição bilíngüe traduzida para o espanhol por Enrique Tierno Galván). Alianza Editorial. Madrid. 1985, pág. 162.

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quinta-feira, 02/02/2006 at 8:56

Publicado em Ciência, Filosofia

O que podemos aprender com Homer Simpson

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Discussão sobre declarações do editor-chefe do Jornal Nacional a respeito do perfil do ‘telespectador médio’ do telejornal desperdiça oportunidade para debater critérios usados pela imprensa na escolha de pautas

Foi mais do que previsível a agitação iniciada a partir da publicação da crônica do professor Laurindo Lalo Leal Filho, da da USP, sobre os comentários que teriam sido feitos por William Bonner, editor-chefe do Jornal Nacional, durante visita de um grupo de docentes a uma reunião matinal do telejornal da TV Globo.1 As discussões, no entanto, foram pouco além do senso comum, não inspirando até o momento questões de fundo sobre os parâmetros empregado pelos veículos de comunicação na elaboração de suas pautas jornalísticas.

Publicada numa sexta-feira, dia 2 de dezembro, na revista Carta Capital, a crônica teve ampla repercussão na internet e na mídia no fim-de-semana, e foi respondida por Bonner em diversos sites na terça-feira (06/12).2 O professor da ECA treplicou no dia seguinte (07/12) na Folha e no site Blue Bus.3 E, finalmente, Bonner, ocupou o espaço de Carta Capital para dar sua interpretação.4

Não interessa aqui repisar os detalhes dos desdobramentos dessas duas manifestações, que estão registrados nas matérias acessíveis pelas diversas remissões abaixo. Interessam-nos menos ainda os desgastantes e previsíveis confrontos em chats e sites de jornalistas, polarizados entre os que por princípio satanizam a TV Globo e aqueles que desprezam e rejeitam sistematicamente quaisquer críticas que venham do meio acadêmico.

Na quinta-feira (08/12), eu um artigo no site Direto da Redação, Eliakim Araújo, ex-âncora de telejornais da TV Globo, do SBT e da CBS Brasil, parecia dar um direcionamento para um debate em torno desse tema. “O que deve preocupar o telespectador brasileiro são os critérios como são selecionadas as matérias que vão para o telejornal”, afirmou Araújo. “Bonner, em sua resposta, limita-se a tecer considerações sobre o temperamento de seu Homer e explica que foi por amor à clareza e à objetividade que inventaram na redação o nome do personagem da série Os Simpsons, após a tal pequisa realizada pela emissora. Mas ele não toca na questão editorial. Essa sim, a meu ver, a mais importante”, acrescentou.5

No entanto, longe de chamar a atenção de seus leitores para o que certamente é um problema que não se restringe ao processo de elaboração da pauta do JN, mas que diz respeito a grande parte da imprensa, Araújo centrou sua abordagem na TV Globo e no atual editor-chefe de seu telejornal:

… a discussão sobre a personalidade de Homer Simpson é o que menos importa na polêmica. O que deve preocupar o telespectador brasileiro são os critérios como são selecionadas as matérias que vão para o telejornal. Quem conhece as entranhas do monstro, sabe que o editor-chefe do JN tem autonomia para decidir até a página cinco, como se diz popularmente. Daí em diante, a decisão vai para o Diretor de Jornalismo, que também tem autonomia limitada, até a página dez, digamos. Nos assuntos “delicados” que envolvem interesses econômicos ou políticos da empresa, quem decide mesmo o que vai ao ar é a alta cúpula. Isso sem falar das “rec”, as matérias recomendadas pela direção que têm a sua prioridade assegurada. Pelo menos era assim nos tempos do Dr. Roberto [Marinho] e acredito piamente que nada mudou.

Vejo no artigo do professor Laurindo um alerta àqueles que têm o poder de decisão. Tentar melhorar a qualidade da informação oferecida ao telespectador é um dever social do jornalista. O nivelamento por baixo não interessa à maioria da população brasileira. Só a alguns poucos, aqueles que aumentam diariamente suas fortunas à custa do atraso e da miséria que se alastram pelo país.

A experiência profissional de Eliakim Araújo faz com que sejam importantes seus comentários sobre os bastidores do Jornal Nacional. Porém, ao limitar ao telejornal da TV Globo o escopo de suas considerações e ao encerrar seu artigo com os clichês do parágrafo acima transcrito, ele renunciou a apontar para seus leitores elementos para a formação de uma opinião crítica sobre os critérios da pauta do telejornalismo brasileiro.

A discussão dos critérios de pauta vem sistematicamente sendo prejudicada no Brasil devido a um antagonismo crescente entre os segmentos “do mercado” e o acadêmico do jornalismo. No caso “Homer Simpson”, as discussões pela internet assumiram o caráter de confronto entre duas torcidas organizadas.

Do lado dos profissionais “de mercado”, grande parte deles se mostra como um contingente de homers, como se predominasse no seio da imprensa o “homem de massa”, incapaz de compreender assuntos complexos, profeticamente definido pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), muito tempo antes dos recentes teóricos da comunicação, em seu livro La Rebelión de las Masas, de 1929: “A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. Não se entenda, pois, por massas só, nem principalmente, as massas trabalhadoras. Massa é o homem médio”.6

Em relação ao outro lado desse antagonismo vicioso, em boa hora aparece uma manifestação crítica de Ana Maria Fadul, também professora da ECA-USP e presidente do Conselho Curador da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). Ao final do IV Simpósio Nacional de Ciências da Comunicação, no dia 10 de dezembro, na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista, em Bauru, ela:

… exortou os estudantes e professores dos cursos de comunicação a superar o comportamento de menosprezo acadêmico pelas indústrias midiáticas, muitas vezes agravado pela hostilidade ideológica, o que vem contribuindo para a formação de novos agentes midiáticos que se sentem inapetentes ou desmotivados para atuar no ambiente profissional.7

Felizmente, nem só de antiintelectualismos, sarcasmos e individualizações de problemas genéricos vive o segmento “de mercado” do jornalismo brasileiro, assim como nem só de preconceitos e interpretações equivocadas do pensamento da Escola de Frankfurt vive o ambiente acadêmico. Um exemplo é Ciro Marcondes Filho, também professor da ECA-USP, que em seu simples e lúcido livro Jornalismo: A saga dos cães perdidos, faz uma reflexão contundente e ao mesmo tempo equilibrada sobre temas centrais do jornalismo e sua relação com os trabalhos de diversos estudiosos da área. E um dos temas que ele apresenta é justamente o dos critérios de seleção de pautas. Quem trabalha na redação de muitos dos veículos de comunicação há algum tempo sabe do que ele fala quando se refere à cristalização de visões estereotipadas sobre o perfil do público-alvo:

Os clichês já fazem a pré-seleção. (…) Ao fato, à pessoa, ao grupo antepõem-se os preconceitos, esses pré-julgamentos que, em verdade, acabam por anular totalmente o fato em si, só vendo, em seu lugar, a idéia feita (anteriormente) a seu respeito. É uma negação da realidade, um tipo de cegueira: você não vê o mundo que está à sua frente, você o substitui pela sua fantasia. Uma consciência constituída de clichês só recebe acréscimos “não-dissonantes”.8

Como vimos en passant com Ortega y Gasset, na primeira metade do século 20 já vinham sendo feitas reflexões filosóficas sobre as condições de possibilidade do atual cenário da comunicação. Sem ter exatamente isso como tema, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), em 1946, em uma carta, que mais tarde tomou corpo como o livro Sobre o Humanismo, relacionou os critérios de seleção da mídia com a simplificação e o aviltamento da linguagem:

… a linguagem é posta a serviço dos meios de comunicação, nos quais, desconsiderando qualquer limite, se expande a objetivação de tudo para todos. Desse modo, a linguagem cai sob a ditadura do espaço público. Este decide de antemão tudo o que é compreensível e que deve ser rejeitado como incompreensível.9

É importante destacar que tais considerações não se referem exclusivamente ao mundo da mídia, mas à toda a sociedade. Em outras palavras, não há como responsabilizar unicamente a mídia por esse processo. Mas também não há como negar a sua parcela de responsabilidade no processo que Heidegger descreve como um esvaziamento rápido e onipresente da linguagem, que “não é apenas uma corrosão da responsabilidade estética e moral em todo uso que dela se faz, mas algo que vem de uma ameaça à essência do homem”.10 Mas isso é assunto para outra conversa.

Referências

  1. De Bonner para Hommer (Laurindo Lalo Leal Filho, Carta Capital, 02/12/2005, nº 371).

  2. “Sobre a necessidade de ser claro” (William Bonner, Observatório da Imprensa, 06/12/2005).

  3. “A questao central nao é o perfil do Homer”, replica Lalo, (Laurindo Lalo Leal Filho, Blue Bus, 07/12/2005).

  4. Sobre Hommer, (William Bonner, Carta Capital, 09/12/2005, nº 372).

  5. Bonner e o comedor de biscoitos (Eliakim Araújo, Direto da Redação, 8/dez/2005).

  6. José Ortega y Gasset, La Rebelión de las Masas, Alianza Editorial, Madrid, 1979, p. 48.

  7. Intercom — “Comunicado 08/2005”: Anamaria Fadul exorta comunidade acadêmica da comunicação a superar atitude de menosprezo pela mídia e seus agentes profissionais.

  8. Ciro Marcondes Filho, Jornalismo: A saga dos cães perdidos, Hacker Editores, São Paulo, 2000, p. 66.

  9. Martin Heidegger, Über den Humanismus. Vittorio Klostermann, Frankfurt, 2000, p. 9. Na versão da Ed. Tempo Brasileiro (Carta sobre o Humanismo, tradução de Emanuel Carneiro Leão, Rio de Janeiro, 1967), a palavra Öffentlichkeit, que traduzo como “espaço público” é traduzida por “publicidade”. Na versão feita a partir de uma tradução francesa da Aubier Éditions (Carta sobre o Humanismo, tradução de Rubens Eduardo Frias, Ed. Moraes, São Paulo, 1991), Öffentlichkeit é traduzida como “opinião pública”.

  10. Idem, p. 10.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 13/12/2005 at 5:57