Laudas Críticas

Archive for the ‘Ética científica’ Category

Revista de humanidades estreia com plágio

Anúncio de chamada para publicação de artigos do site do periódico indiano "International Journal Online of Humanities (IJOHMN)". Imagem: Reprodução

Anúncio de chamada para publicação de artigos do site do periódico indiano “International Journal Online of Humanities (IJOHMN)”. Imagem: Reprodução

Se a primeira impressão é a que fica, o periódico indiano “International Journal Online of Humanities (Ijohmn)” se deu muito mal em sua pré-estreia nesta semana com um plágio descarado em um de seus cinco primeiros artigos.

Mais informações em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

sexta-feira, 06/02/2015 at 10:14

Periódico ‘despublica’ artigo que nega HIV como causa da Aids

Um artigo que afirmava que o HIV não é o agente causador da Aids foi retirado em 19 de dezembro da internet pelo periódico “Health”, que o havia publicado em julho. De autoria do romeno Dumitru Pavel, o artigo foi removido porque “necessita de mais pesquisa e estudo”, segundo a nota de retratação da revista, que pertence ao grupo editorial Scientific Research Publishing (Scirp), que é registrado nos Estados Unidos, mas desenvolve suas atividades na China.

Mais informações em minha reportagem na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 05/01/2015 at 8:29

Receita de sucesso acadêmico para intelectos preguiçosos

O lógico e matemático Adonai Sant’Anna, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicou ontem em seu blog dois posts sobre assuntos altamente intrigantes. Um deles trata de uma questão crítica no âmbito da física, mas deixarei para comentar depois esse tema. Hoje quero apenas repercutir o outro post, “Conquistando respeito acadêmico sem esforço”.

Mais informações em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

domingo, 28/12/2014 at 9:54

A caixa-preta do design inteligente

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O movimento negacionista da teoria da evolução de Charles Darwin (1809-1892) voltou a ser notícia recentemente ao realizar em Campinas (SP) o 1º Congresso Brasileiro do Design Inteligente. Há poucos dias, organizadores desse evento contestaram um manifesto em defesa da evolução de professores e pós-graduandos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Mais informações em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 23/12/2014 at 9:34

Delator de fraude na USP diz sofrer retaliação

O veterinário Paulo Henrique Mazza Rodrigues, professor da USP de Pirassununga, comunicou em maio do ano passado à comissão de ética da universidade que estaria sofrendo retaliações por ter colaborado em uma denúncia de fraude científica.

Mais informações em minha reportagem na Folha de S. Paulo.

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sexta-feira, 05/12/2014 at 13:23

O que há por trás das citações entre cientistas

Há outras razões para pesquisadores citarem outros estudos além do imperativo ético e técnico de referenciar as fontes de informações de que se faz uso. É o que afirmam os suecos Martin G. Erikson, da Universidade de Borås, e Peter Erlandson, da Universidade de Göteborgs, no trabalho “A taxonomy of motives to cite”, publicado na revista britânica “Social Studies of Science” em agosto.

Mais informações em meu blog na Folha de S. Paulo.

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sábado, 08/11/2014 at 13:52

Revista científica com caso de plágio teve maior ‘impacto’ do Brasil em 2013

A revista científica brasileira com maior fator de impacto em 2013 foi a “D&MS” (“Diabetology and Metabolic Syndrome”), publicada pela Sociedade Brasileira de Diabetes. Em segundo lugar, ficou a “Revista Brasileira de Psiquiatria”, que foi a primeira colocada em 2012. O terceiro lugar ficou para “Memórias do Instituto Oswaldo Cruz”, que teve a mesma posição na classificação anterior.
Apesar do sucesso na lista, a revista “D&MS” se viu em uma polêmica em maio. A então editora-chefe da publicação, que naquele mês se desligou do cargo, teve um trabalho retratado (despublicado) por conta de plágio.

A reportagem completa feita por mim e pela jornalista Giuliana Miranda está na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 02/10/2014 at 6:57

A fonte do absurdo dado sobre crianças de rua no Brasil

Boletim da Unicef, de 1984, que afirmava erroneamente que havia 30 milhões de crianças de rua no Brasil em 1983. Imagem: Reprodução.

Boletim da Unicef, de 1984, que afirmava erroneamente que havia 30 milhões de crianças de rua no Brasil em 1983. Imagem: Reprodução.

Eu mencionei no post de segunda-feira (15.set) a lenda urbana dos 30 milhões de crianças de rua no Brasil em meados dos anos 1980, baseando-me em um novo estudo, do antropólogo norueguês Ole Bjorn Rekdal, da Universidade de Bergen. Ele gentilmente enviou o link de uma cópia do boletim “Unicef Ideas Forum”, número 18, de 1984, que por sua vez atribuiu o dado de 30 milhões de crianças de rua no país a um relatório de julho daquele ano de uma “associação de juízes de varas de infância”.

Mais informações em meu blog na Folha de S. Paulo.

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sábado, 20/09/2014 at 10:31

O agosto mais quente desde 1880 e o aquecimento global

Quadro com variações da temperatura média combinada das superfícies de solos e mares de agosto deste ano em relação às do período 1981-2010 para o mesmo mês. As áreas em cinza não foram computadas. Imagem: Noaa/Divulgação

Quadro com variações em graus Celsius da temperatura média combinada das superfícies de solos e mares de agosto deste ano em relação às do período 1981-2010 para o mesmo mês. As áreas em cinza não foram computadas. Imagem: Noaa/Divulgação

A temperatura média mundial combinada das superfícies dos solos e dos mares em agosto deste ano, que foi de 16,35° C , foi a maior já registrada para esse mês nos últimos 134 anos, informou ontem (quinta-feira, 18.set) a Noaa (Agência Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos).

Mais informações em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

sexta-feira, 19/09/2014 at 12:24

‘Science’ cutuca ‘Nature’ por má revisão de artigos com fraude

Abertura de video de divulgação de pesquisa japonesa sobre celulas-tronco, produzido antes de ser comprovada fraude no estudo. Imagem: Reprodução

Abertura de video de divulgação de pesquisa japonesa sobre celulas-tronco, produzido antes de ser comprovada fraude no estudo. Imagem: Reprodução

A conceituada revista científica britânica “Nature” enfrenta novos dissabores por ter publicado em janeiro deste ano dois estudos que tiveram de ser retratados após ser comprovada a adulteração de imagens de experimentos com células-tronco de camundongos. Antes de serem aceitos por essa publicação, os mesmos trabalhos foram rejeitados por três revisores da rival “Science”, que levantaram mais de 20 objeções, inclusive às imagens.

Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

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quinta-feira, 11/09/2014 at 16:03

Periódico é processado por retratar má-conduta em pesquisa

Arroz comum e arroz dourado transgênico (Imagem: Isagani Serrano/International Rice Research Institute/Divulgação)

Arroz comum e arroz dourado transgênico (Imagem: Isagani Serrano/International Rice Research Institute/Divulgação)

Guangwen Tang, pesquisadora chinesa que vive nos Estados Unidos está processando por difamação e por prejuízos comerciais a universidade em que ela trabalha e a revista em que publicou um estudo sobre alimentação de crianças com arroz dourado transgênico. A Universidade Tufts havia considerado a pesquisa antiética por ter sido realizada sem consentimento dos pais das crianças. E o “American Journal of Clinical Nutrition” havia decidido retratar o artigo de agosto de 2012 de autoria da pesquisadora.

Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 21/07/2014 at 12:39

A desculpa esfarrapada da revista ‘Nature’

STAP mouse embryo

A respeitada revista científica britânica “Nature” faz parecer que age com transparência ao fazer do editorial sua própria retratação, mas não é bem assim. E o pior é que ela cobra muito caro não só para publicar um artigo, mas também para permitir acesso ao seu conteúdo.

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segunda-feira, 07/07/2014 at 13:32

Revista científica engrossa críticas ao Facebook

Sheryl Sandberg, chefe operacional do Facebook, em pedido de desculpas por uso de dados de usuários na quarta-feira (2.jul). Imagem: Brian Snyder/Reuters

Sheryl Sandberg, chefe operacional do Facebook, em pedido de desculpas por uso de dados de usuários na quarta-feira (2.jul). Imagem: Brian Snyder/Reuters

Depois de começar a ser investigado pelo governo britânico sob acusação de ter violado leis de proteção de dados e de ter sido bombardeado por críticas na internet, desta vez o polêmico estudo psicológico realizado pelo Facebook com 689 mil usuários teve sua integridade científica posta formalmente em xeque pela própria revista que o publicou.
Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

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sexta-feira, 04/07/2014 at 15:01

O mistério da quase-morte

Imagem: Jesse Krauss/Wikimedia Commons

Imagem: Jesse Krauss/Wikimedia Commons

A tranquilidade foi a característica mais frequente em cerca de 90% dos relatos de experiências de quase-morte em um estudo recente. E muitas vezes com direito à visão de luz no fim de um túnel. Apenas dois relatos, menos de 1% do total, foram de experiências marcadamente negativas.

Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

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sexta-feira, 27/06/2014 at 15:43

EUA prendem cientista que admitiu fraude em pesquisa

Han

Preso na semana passada, o sul-coreano Dong-Pyou Han, que deixou no ano passado seu cargo na Universidade Estadual de Iowa (ISU), nos Estados Unidos, confessou ontem (terça-feira, 24.jun) a um tribunal federal na cidade de Des Moines ter adulterado amostras de sangue de coelhos em trabalhos que tiveram financiamento de US$ 19 milhões dos Institutos Nacionais de Saúde para pesquisas de vacinas contra Aids.

Leia minha reportagem no site da Folha de S. Paulo.

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quarta-feira, 25/06/2014 at 9:11

CNPq analisará acusação de plágio em pesquisas sobre diabetes

Dois estudos de pesquisadores brasileiros retratados em maio sob alegação de plágio pela revista que os publicou no ano passado, a “D&MS” (“Diabetology & Metabolic Syndrome”), serão analisados pela Comissão de Integridade na Atividade Científica do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), informou a assessoria de imprensa do órgão.

Leia minha reportagem completa no site da Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 17/06/2014 at 23:32

Um índice de erros, plágios e fraudes na ciência

Capas de alguns dos periódicos classificados entre os de maior impacto na comunidade científica (Imagem: reprodução)

Capas de alguns dos periódicos classificados entre os de maior impacto na comunidade científica (Imagem: reprodução)

Está de volta mais uma vez a ideia de criar um índice para medir e ajudar a avaliar em cada revista científica as ocorrências de retratações de artigos, sejam elas devidas a erros, plágios ou até fraudes. No final de maio, três cientistas europeus retomaram juntos essa proposta em seu paper “Erros na ciência: o papel dos revisores”, publicado no periódico “Trends in Ecology & Evolution”, editado nos Estados Unidos.

Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

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sexta-feira, 13/06/2014 at 15:29

Europa veta proibição de pesquisas com células-tronco

Células-tronco embrionárias humanas (Imagem: Nissim Benvenisty/PLoS, sob licença Wikimedia Commons 2.5)

Células-tronco embrionárias humanas (Imagem: Nissim Benvenisty/PLoS, sob licença Wikimedia Commons 2.5)

A Comissão Européia e o Parlamento Europeu decidiram nesta quarta-feira (28.mai) vetar o prosseguimento da iniciativa popular para proibição do financiamento de pesquisas com células-tronco embrionárias humanas. A proposta havia sido protocolada em 27 de fevereiro pela campanha Um de Nós, que obteve mais de 1,7 milhão de assinaturas em todos os 28 países-membros da UE.

Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

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quarta-feira, 28/05/2014 at 22:22

A euforia genética e sua ressaca

Francis Collins (dir.), diretor dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, ao lado de Bill Clinton, na Casa Branca, anunciando a decifração do genoma humano em junho de 2000 (Imagem: AFP)

Francis Collins (dir.), diretor dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, ao lado de Bill Clinton, na Casa Branca, anunciando a decifração do genoma humano em junho de 2000 (Imagem: AFP)

A edição de hoje da Folha traz uma notícia importante sobre a atitude de cientistas na construção de esperanças da sociedade. É a entrevista “Houve excesso de otimismo com o DNA, diz líder do Projeto Genoma”, feita pelo jornalista Marcelo Leite com uma das maiores autoridades científicas e governamentais do mundo na área da pesquisa em genética médica, Francis Collins, diretor dos NIH (Institutos Nacionais de Saúde) dos Estados Unidos desde 2009.

Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

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sábado, 24/05/2014 at 14:52

Voto deixa de ser nominal em conselho de experiências com animais

Funcionária com cães mantidos em cativeiro no Instituto Royal, que realiza pesquisas de medicamentos (Imagem: Danilo Verpa/Folhapress)

Funcionária com cães mantidos em cativeiro no Instituto Royal, que realiza pesquisas de medicamentos (Imagem: Danilo Verpa/Folhapress)

As decisões do Concea (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal) não serão mais realizadas por meio de declaração dos votos de seus conselheiros. O novo regimento interno desse órgão, publicado na sexta-feira (2.mai) no “Diário Oficial da União”, estabelece que deixam de ser nominais e passam a ser quantitativas as deliberações sobre credenciamento de instituições e normas para uso de animais em atividades de pesquisa e ensino.

Leia o post completo em meu blog no site da Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 06/05/2014 at 9:06

Cientistas ‘despublicam’ artigo e alegam que o motivo foi ‘negócios’

Cristal de carbeto de silício do Laboratório de Materiais de Grenoble, França (Foto: David Monniaux sob licença livre Wikimedia Commons)

Cristal de carbeto de silício do Laboratório de Materiais de Grenoble, França (Foto: David Monniaux, sob licença livre Wikimedia Commons)

A explicação dada por cinco pesquisadores japoneses ao recolherem um trabalho científico que eles haviam publicado em dezembro certamente deve ter provocado comparações com uma famosa conversa do filme “O Poderoso Chefão” (1972). Na nota em que anuncia a remoção de seu site do estudo sobre um composto de silício, a revista Journal of Chrystal Growth afirma que a razão do pedido dos autores para a retirada foi uma decisão de negócios (“business decision”) de seu patrão.

Associadas ao constrangimento que há em toda retratação científica, essas palavras lembram, como piada pronta, a explicação do mafioso Solozzo ao jovem Michael Corleone, por ter matado seu pai, Don Corleone: “I am sorry. What happened to your father was business.” (Sinto muito. O que aconteceu com seu pai foi negócio.)

Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 24/04/2014 at 16:35

Autores admitem fraude em estudo que serviu de argumento contra células-tronco

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Volume 146, Issue 3, p359–371, 5 August 2011Na semana passada, a prestigiada revista científica norte-americana Cell reconheceu oficialmente que houve fraude em um estudo publicado em sua edição de 5 de agosto de 2011. Na época, as conclusões desse trabalho foram usadas como argumento contra a necessidade de pesquisas com células-tronco embrionárias humanas (CTEHs).

O artigo da pesquisa coordenada por Liang Qiang, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, anunciou a obtenção de neurônios a partir de células da pele de pacientes portadores de Alzheimer.

Desse modo, o estudo apontava para o desenvolvimento de terapias para essa e outras doenças neurológicas crônicas dispensando o uso de CTEHs, que tem sido contestado por argumentos baseados na comparação desse tipo de pesquisa com abortos. (Ver reportagem “Cientistas produzem neurônios a partir de células de pele humana“, do G1.)

Manipulação indevida

A retratação publicada na Cell citou nominalmente um dos membros da equipe como responsável pela manipulação indevida de células usadas no trabalho:

Também apresentamos análises moleculares de células com marcadores associados a Alzheimer. O Dr. Ryousuke Fujita, que foi responsável especificamente e apenas pelas análises moleculares da patologia de Alzheimer associada, reconheceu não só ter manipulado inapropriadamente painéis de imagens e seus dados, mas também ter distorcido o número de repetições realizadas (…) Estamos no processo de repetir essas análises. Considerando esses resultados, acreditamos que a linha de ação mais apropriada é recolher o paper. Lamentamos profundamente esta circunstância e pedimos desculpas para a comunidade.

Caronas indevidas

Ao ler o post do dia 11 do blog Retraction Watch  sobre a retratação, lembrei-me desse estudo, mas muito mais em função de ele ter sido usado como argumento contra as pesquisas com CTEHs. Inclusive no Congresso Nacional, onde o deputado Henrique Afonso (PV-AC), na época integrante da bancada do PT, fez um pronunciamento em plenário. Referindo-se a essa pesquisa e à votação da Lei de Biossegurança, o parlamentar proclamou sua

alegria ao descobrir que estava certo o tempo todo em não votar a favor da manipulação das células embrionárias. Quero registrar que valeu a pena ser tachado de religioso, fanático, retrógrado.

Na verdade, este Parlamentar estava, em todo o momento, apenas defendo a vida e combatendo uma crueldade desnecessária.

Divido esta minha alegria com todos os demais Deputados que também votaram contra o tema, especialmente com os membros da Frente Parlamentar Evangélica que resistiram a todas as pressões e críticas e não fugiram de suas convicções.

Isso deve servir de alerta, entre os inimigos da pesquisa de células-tronco, para aqueles que ficam de plantão à espera de novidades da ciência aparentemente úteis como munição. Não se deve ir com muita sede aos potes que surgem pelo caminho, pois sua água pode estar contaminada. Na verdade, o alerta vale para todos os que apelam para o vale-tudo em diversos tipos de cruzadas, inclusive fora do âmbito da ciência.

 

As células-tronco e a saia justa do Parlamento Europeu

@European Union 2013 - European Parliament

Lideradas pela fundação britânica Wellcome Trust, 35 associações de instituições pesquisa europeias divulgaram nota na quarta-feira (9.abr) em protesto contra uma iniciativa de lei que prevê a proibição do financiamento público da pesquisa de células embrionárias humanas.

As entidades afirmam que haverá sérios prejuízos para o desenvolvimento de novos tratamentos para câncer, diabetes e outras doenças crônicas se for aprovada a proposta da campanha Um de Nós, que obteve mais de 1,7 milhão de assinaturas em todos os 28 países da União Europeia (UE).

Leia o post completo no meu blog na Folha de S. Paulo.

Written by Mauricio Tuffani

sábado, 12/04/2014 at 8:43

Errata do Ipea não corrige questão nem elimina vícios de pesquisa

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A errata do documento “Tolerância social à violência contra mulheres“, divulgada ontem (sexta-feira, 4.abr) por meio de nota oficial do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) não pode ser considerada uma correção da questão à qual ela se refere. Na verdade, não há o que fazer para dar credibilidade a essa tentativa de estudo sobre o problema grave da sociedade brasileira da tolerância de agressões contra mulheres.

Não há como obter nenhuma conclusão cientificamente válida do uso da afirmação “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

As palavras “merecem” e “atacadas” induzem a interpretações diferentes dessa sentença. Desse modo, foi prejudicado de antemão o aproveitamento das respostas afirmativas, negativas ou neutras dos entrevistados à pergunta aos entrevistados sobre se eles concordavam com essa frase.

Questões viciadas

Houve expressões de duplo sentido também em pelo menos outras três das 27 sentenças apresentadas a 3.801 pessoas entrevistadas de maio a junho de 2013 pelo Ipea, como já havia sido informado neste blog no post “Ambiguidades comprometem estudo sobre violência contra mulheres” na terça-feira (1º.abr), três dias antes do anúncio da errata.

A presença de expressões ambíguas nessas quatro questões que figuram entre as mais cruciais para o objetivo do trabalho impossibilita qualquer possibilidade de “salvar” o trabalho realizado pelo instituto. Além das que foram apontadas acima, as demais expressões de duplo sentido são as que aparecem em negrito nas afirmações a seguir.

Dá para entender que um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher.

Dá para entender que um homem rasgue ou quebre as coisas da mulher se ficou nervoso.

Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros.

Devido a essas ambiguidades, é desnecessária qualquer consideração sobre a quantificação das respostas dadas pelo entrevistados sobre as perguntas se eles concordavam ou não com essas afirmações.

Isso implica que, diferentemente do que passou a ser afirmado por ativistas após a errata, não dá para serem considerados confiáveis nem mesmo os dados referentes a opiniões sobre estupros.

Retratação

Dá para entender — e aqui é inevitável o trocadilho com duas das questões do Ipea — que ativistas não tenham levado em consideração essas ambiguidades que comprometem a credibilidade desse estudo. O que não dá para entender nem para aceitar é que especialistas tenham ignorado esses vícios ao se pronunciarem sobre o assunto na imprensa e nas redes sociais.

Quanto ao Ipea, não parece haver nenhuma outra saída senão a retratação desse trabalho, o que implica considerar que ele não tem validade científica.

 

Cientistas relatam pressões para publicar estudos incompletos ou com dados não verificados

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Células-tronco embrionárias humanas. Imagem de Nissim Benvenisty, via Wikimedia Commons (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Human_embryonic_stem_cells_only_A.png#), licença CC-BY-2.5 Dezoito cientistas que trabalham com células-tronco afirmaram terem recebido pressões para publicar estudos incompletos ou com dados não verificados, noticiou a revista britânica New Scientist na semana passada. O semanário informou também que cinco pesquisadores nessa mesma área confirmaram adulteração por eles mesmos ou por colegas de dados de trabalhos que foram publicados.

“Sei de numerosas situações em que bolsistas, algumas vezes com o conhecimento de seus mentores, publicaram dados falsificados”, disse um professor à revista, que se baseou em respostas de 112 cientistas a um questionário enviado para mil pesquisadores de células-tronco de diversos países.

Por que células-tronco?

O objetivo do levantamento, segundo Helen Thomson, autora da reportagem “Cientistas de células-tronco relatam pressões de trabalho antiéticas“, foi buscar alguns insights para compreender por que têm ocorrido tantos casos de más-condutas científicas nessa área de pesquisas, da qual se espera o desenvolvimento de terapias para diferentes tipos de câncer e doenças como as de Parkinson, Alzheimer e outras.

O escândalo mais recente nessa área veio a tona em 17 de fevereiro, quando o periódico britânico Nature divulgou em seu site que já teria iniciado uma averiguação sobre acusações de adulteração de imagens em um dos dois trabalhos desenvolvidos no Japão, ambos publicados na edição de 30 de janeiro, que anunciaram a reversão de células de diversos tecidos de camundongos para o estágio embrionário por meio de nada mais que um banho ácido.

Maior exposição

Mais da metade dos que responderam aos questionário (55,9%) afirmaram acreditar que a investigação sobre células-tronco está sob maior escrutínio que as outras áreas da pesquisa biomédica. “Isso acontece porque as implicações para terepias são maiores do que em outras áreas”, disse um dos pesquisadores que acrescentaram informações para explicar a resposta afirmativa à seguinte pergunta.

Você acha que a pesquisa com células-tronco está sob escrutínio mais intenso (por exemplo, de jornalistas, de revisores de periódicos ou de outros cientistas) do que outras áreas da ciência biomédica?
Respostas: 62 "Sim" (55,9%) e 49 "Não" (44,1%)
Explicaram a resposta afirmativa: 0
Responderam: 111 – Pularam a questão: 1

Quase um quinto dos que responderam afirmativamente a essa questão disseram que seu trabalho é afetado por esse quadro de intensa exposição. Enquanto alguns disseram que isso os fez serem mais rigorosos, outros afirmaram que se sentem forçados a encontrar aplicações clínicas muito cedo.

Se você respondeu "sim" à questão anterior, você acha que isso afeta seu trabalho de alguma forma?
Respostas: 21 "Sim" (24,4%) e 65 "Não" (75,6%)
Explicaram a resposta afirmativa: 19
Responderam: 86 – Pularam a questão: 26

Disputa entre equipes

“Há uma pressão tremenda para publicar e ela tem a finalidade de receber financiamento”, declarou um dos entrevistados para explicar as pressões a que se referem às seguintes perguntas.

Você já sentiu alguma pressão para submeter para publicação um artigo que você achava estar incompleto ou com informações não verificadas?
Respostas: 18 "Sim" (16,7%) e 90 "Não" (83,3%)
Explicaram a resposta afirmativa: 14
Responderam: 108 – Pularam a questão: 4
Você ou algum de seus colegas já falsificou ou acrescentou dados que acabaram sendo publicados em um artigo?
Respostas: 5 "Sim" (4,7%) e 101 "Não" (95,3%)
Explicaram a resposta afirmativa: 6
Responderam: 106 – Pularam a questão: 6

Além das pressões motivadas para captar recursos, foram relatadas também aquelas originadas de competições entre equipes que querem marcar pioneirismo em suas áreas de atuação. Um líder de grupo de pesquisa, por exemplo, afirmou à New Scientist que o atalho para o envio um determinado trabalho acaba acontecendo quando há risco de uma equipe rival publicar antes um estudo semelhante.

Medo do chefe

Entre as demais explicações dos entrevistados — que estão no relatório completo da pesquisa da New Scientist — destacam-se principalmente acusações contra cientistas  responsáveis por grupos de pesquisa e instâncias superiores, como as três seguintes.

Os supervisores e mentores ficam muito animados com os dados, mas algumas pessoas ficam depois com medo de dizer a eles que não podem validar esses resultados.

Às vezes um emprego é posto em questão, e superiores se tornaram conhecidos por tentarem forçar a publicação prematura e levar o crédito por resultados… quando eles nem sequer conheciam o conteúdo do trabalho.

Projetos grandes e caros financiados pelo governo estão às vezes sob grande pressão para publicar trabalhos que geralmente teriam como melhor encaminhamento um maior escrutínio antes da apresentação. Da mesma forma, subvenções e prazos de carreiras muitas vezes geram pressão para publicar — ou perecer.

Extensão do problema

Embora possam ser considerados mais ou menos preocupantes, os dados da prospecção feita pela New Scientist não comprometem toda a área da pesquisa com células-tronco. Eles importam muito mais para compreender como e por que acontecem esses casos de más-condutas científicas, e é para isso que a revista se propôs a fazer esse trabalho.

Esses resultados reforçam ainda mais o desafio crescente para as agências de financiamento à pesquisa e para as revistas científicas de não só saberem separar o joio do trigo, mas também de não serem os fatores de estímulo da produção do joio. E a lição vale também para grande parte da imprensa, que em janeiro deste ano já possuía registros suficientes para ter sido mais cuidadosa em face da promessa sensacionalista de uma pesquisa que agora está sob suspeita de fraude.

Pesquisador coagiu estagiários a alterarem dados de experiência, concluiu agência dos EUA

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Advocate Lutheran General Hospital, Park Ridge, Illinois,  Creative Commons Attribution-Share Alike 2.0 Generic License

A Agência da Integridade da Pesquisa (ORI) dos Estados Unidos relatou anteontem (segunda-feira, 18.mar) que o cardiologista Parag V. Patel constrangeu estagiários a falsearem resultados de uma pesquisa coordenada por ele a partir de 2008 no Hospital Geral Beneficente Luterano, da cidade de Park Ridge, no estado de Illinois.

Os estagiários teriam sido coagidos pelo médico a registrar percentuais menores que os realmente observados para os volumes de sangue bombeados nos ventrículos esquerdos dos corações de pessoas com infarto agudo do miocárdio, segundo a nota da ORI publicada no Federal Register, o diário oficial dos EUA. Desse modo, esses pacientes teriam sido indevidamente indicados para tratamento com desfibriladores.

Uso de desfibrilador

A publicação relata anda que Patel também teria incorrido em “má-conduta” influenciando outros médicos a rever e a reduzir para menos de 35% os percentuais registrados para a chamada fração de ejeção do ventrículo esquerdo (LVEF na sigla em inglês) de pacientes. Em condições normais, o percentual de bombeamento nessa parte do coração humano varia de 55% a 70%, segundo nota da Retraction Watch.

O estudo, que previa envolver cerca de 1.900 pacientes até 2015 e foi custeado com recursos do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e do Sangue, teve resultados preliminares divulgados em 2009. Na ocasião, Patel sugeriu o uso de um colete desfibrilador automático para reduzir o risco de mortalidade nos primeiros 60 dias, após infarto do miocárdio, em pacientes com LVEF fração de ejeção ventricular esquerda menor ou igual a 35 por cento.

Acordo de dois anos

A investigação do caso foi realizada pela ORI com a participação do Hospital Geral Beneficente Luterano, que não tem fins lucrativos e tem sido apontado nos últimos 15 anos entre os cem melhores dos Estados Unidos.

Nascido no Quênia, Patel, que tem 47 anos de idade e 15 de experiência como cardiologista, não negou nem admitiu a responsabilidade pela alteração dos resultados, mas se comprometeu a cumprir um acordo vigente por dois anos a partir de sua assinatura, que ocorreu em 21 de fevereiro.

O acordo estabelece que nos próximos dois anos Patel não poderá atuar como consultor em nenhum trabalho no âmbito do serviço de saúde pública, nem em comissões de revisão de trabalhos científicos, e só poderá realizar outras pesquisas após aprovação pela ORI de um plano de supervisão para novos trabalhos. Além disso, o cardiologista terá de submeter relatórios semestrais a uma comissão de três médicos do hospital, que se encarregará também de fazer uma revisão dos estudos nos quais ele participou.

Burocracia disfuncional

A ORI é uma agência ligada ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), órgão ministerial do governo dos EUA. Antes que os leitores fiquem impressionados positivamente com a atuação desse órgão no caso que envolveu Parag V. Patel, vale registrar que seu diretor David Wright se demitiu em 25 de fevereiro fazendo duras críticas à burocracia “descomunalmente disfuncional” do governo federal.

Conforme reportagem da Science Insider (12.mar), entre outras reclamações Wright afirmou em sua carta de demissão a Howard Koh, seu superior imediato no HHS, que o orçamento da ORI tem sido comido pelas beiradas por funcionários veteranos da agência e que o próprio gabinete de Koh tem uma cultura de trabalho com falhas graves, entre elas a tendência ao segredo, à autocracia e à falta de esclarecimentos.

‘Cosmos’ estreia sob ataques de criacionistas e caçadores de erros

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Lançada nos Estados Unidos no domingo (9.mar) e no Brasil nesta quinta-feira (13.mar) pelo canal National Geographic (22h30), a série Cosmos – Uma odisseia no espaço-tempo já começa sob críticas de caçadores de erros e ataques de contestadores da teoria da evolução. Inspirado na série Cosmos – Uma viagem pessoal, de 1980, idealizada e apresentada pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996), o novo programa tem como anfitrião o astrofísico e divulgador científico Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, do Museu Americano de História Natural, e personalidade muito atuante nos meios de comunicação.

A nova série tem tudo para conseguir sucesso em audiência. Além de contar com a parceria do NatGeo com o canal Fox e com a rede educativa de TV PBS , a versão repaginada da iniciativa de Sagan tem efeitos especiais de grande impacto visual que não eram possíveis há 34 anos e um apresentador plenamente articulado com os recursos das novas tecnologias de comunicação.

No momento em que este artigo foi concluído, Tyson já contava com cerca de 935 mil seguidores em sua página no Facebook e com mais de 1,74 milhão no seu perfil no Twitter. Outra participação de importância midiática na equipe do programa é o produtor executivo Seth MacFarlane, um dos criadores de Family Guy (Uma Família da Pesada), que é sucesso desde 1999.

Jogo dos cinco erros

Como acontece com grande parte das iniciativas de popularização da ciência, Cosmos não poderia deixar de receber acusações de imprecisão. A crítica mais recente foi publicada nesta quinta-feira por Hank Campbell, co-autor do best-seller “Science Left Behind” (A Ciência deixada para trás), de 2012. Ele postou “Cinco coisas que deram errado com Neil de Grasse Tyson“, destacando no blog as frases “Qual é a precisão da ciência em Cosmos? Isso tem importância? Ela seria boa mesmo sendo ruim, como pizza?”

Ressalvando que reconhece em Tyson um espírito aberto a críticas como em Sagan, Campbell afirma que identifica quatro erros no o primeiro episódio da série, “De pé na Via Láctea”: a comparação da quentíssima atmosfera de Vênus com o efeito estufa da Terra, a menção aos multiversos ou múltiplos universos como se sua existência fosse uma verdade científica, a propagação de sons da fictícia espaçonave pilotada pelo apresentador e que são impossíveis na imensidão do espaço e, finalmente, a apresentação do filósofo e teólogo Giordano Bruno (1548-1600) com uma importância para a ciência maior do que a do astrônomo, físico e matemático Galileu Galilei (1564-1642).

E Campbell acrescenta um problema que afirma ser de “estilo”: não dá certo, segundo ele, apresentar os cerca de 14 bilhões de anos desde a explosão do Big Bang condensados nos 12 meses de um ano, fazendo com que cada dia nesse calendário seja equivalente a aproximadamente 40 milhões de anos.

Exageros

Campbell tem razão em suas quatro primeiras objeções, apesar de que podem até ser consideradas “licenças poéticas” as três escorregadelas iniciais sobre Vênus, os multiversos e o som que não se propaga no espaço. Mas ele exagera no que afirma ser uma objeção de estilo e parece procurar chifre em cabeça de cavalo quando afirma que escolha da explicação com a evolução Universo desde o Big Bang por meio da analogia com o calendário de 12 meses, onde a civilização humana aparece em uma fração do último segundo, se deve ao “ateísmo declarado” do produtor Seth MacFarlane.

Ou seja, o criador de Family Guy teria forçado a barra para usar um modelo que mal mostra o surgimento dos humanos para menosprezar o período que muitos interpretam como sendo  o da obra Criação de Deus. A menos que o objetivo não seja popularizar conhecimentos da ciência, não faz sentido rejeitar analogias como essa.

Galileu menosprezado

Mas, apesar de ter Tyson ter afirmado que Bruno não era cientista, o episódio tem uma longa animação dramatizada sobre o teólogo condenado à fogueira pela Inquisição e dá pouquíssima importância para Galileu, deixando de lado seus enfrentamentos científicos com as autoridades do saber eclesiástico de sua época. Nesse ponto Campbell está coberto de razão.

Em 1609, modificando um dispositivo óptico que aproximava a observação de objetos, construído no ano anterior por holandeses, Galileu construiu o telescópio, que teve esse nome a partir de 1611. Seu uso permitiu refutar a concepção de que a Terra estava no centro do mundo e de que todos os corpos celestes eram imutáveis e perfeitos, formados por éter, como havia afirmado Aristóteles (384-322 a.C.), em Sobre o Mundo e Sobre o Céu, e também Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), em seus manuscritos Almagesto e Tetrabiblos.

A iniciativa de Galileu ultrapassou o âmbito da astronomia, não só por articular uma nova etapa na história do conhecimento, com a rejeição da autoridade da religião nas ciências naturais e a afirmação da autonomia do uso da observação, da experimentação e da superioridade do raciocínio demonstrativo matemático na busca da verdade sobre os fenômenos da natureza. Ele também superou a concepção teológica judaico-cristã de que o conhecimento era imutável e de que tudo o que existe e acontece já havia sido previsto por Deus no Gênesis. Nada seria novo, pois tudo o que se acrescentasse ao conhecimento somente confirmaria — e jamais modificaria — as eternas verdades bíblicas. Em outras palavras, acreditava-se que, aconteça o que acontecer, “não há nada de novo debaixo do sol” (Eclesiastes, 1,9).

Briga com criacionistas

No domingo, já antes da apresentação de seu primeiro episódio, a nova série já estava com os dias contados para não ter problemas com os criacionistas em geral e também com os adeptos do chamado design inteligente, que são opositores mais sofisticados à evolução das espécies por meio da seleção natural. Em entrevista à CNN, Tyson ouviu do jornalista Brian Stelter a pergunta sobre como intermediar a paz na “guerra contra a ciência”, referindo-se principalmente aos contestadores do aquecimento global.

O astrofísico respondeu que a imprensa tem a vantagem de não se prender ao ethos da ciência, baseado na discussão interna na comunidade acadêmica, mas que os jornalistas agem errado quando, para “ouvir o outro lado”, contrapõem afirmações científicas com opiniões não científicas. E, como destacou Jack Mirkinson no Huffington Post (10.mar), acrescentou:

Você não fala sobre a Terra esférica com a Nasa e, em seguida, diz “vamos dar tempo igual ao pessoal da Terra plana”. Além disso, a ciência não existe para você agir como ao escolher cerejas. (…) O bom da ciência é que ela funciona com você acreditando ou não nela.

Não demorou para surgirem manifestações criacionistas, como o artigo “Neil deGrasse Tyson: velho produto, nova embalagem“, no site do Instituto Discovery. Aqui no Brasil, defensores da teoria do design inteligente, inclusive membros da comunidade científica, já conversam por e-mails para articular uma reação.

Atuação da imprensa

Tyson tem razão quando afirma que não é correto tentar equilibrar posições científicas com opiniões religiosas, como fazem muitas vezes os meios de comunicação quando o contexto da notícia é o conhecimento. Por outro lado, jornalistas especializados em ciência muitas vezes agem como se não existissem pesquisadores que contestam a teoria da evolução e apresentam argumentos para isso. É o caso, no Brasil, de Marcos Eberlin, professor do Instituto de Química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) com um currículo respeitado internacionalmente na área de espectrometria de massas, que defende que a probabilidade de a vida ter surgido na Terra é um número que excede toda a probabilidade do universo.

Mesmo no âmbito das discussões com base em critérios científicos, as chances de algum diálogo entre darwinistas e antievolucionistas são praticamente nulas, pois muitos de ambos os lados já partiram há tempos para provocações e xingamentos. De minha parte, penso que sempre se deve aplicar o preceito do filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873) destacado, em um contexto completamente diferente do tema presente, pelo jornalista Hélio Schwartsman em sua coluna na Folha de S. Paulo, na terça-feira (11.mar):

(…) mesmo os piores preconceitos precisam ter sua circulação assegurada, a fim de que as ideias verdadeiras sejam submetidas à contestação e triunfem. Se não for assim, elas próprias serão percebidas como simples preconceitos, sem base racional.

Seja como for, vale a pena assistir Cosmos.

PS — Acabo de ser informado (14h30) que a emissora afiliada da Fox em Oklahoma teria censurado, substituindo por uma inserção de publicidade própria, um trecho de aproximadamente 15 segundos no primeiro episódio. O trecho, que seria justamente aquele, acima mencionado, dos últimos segundos do calendário em que aparece a espécie humana, teria a seguinte fala de Nei deGrasse Tyson:

Somos recém-chegados ao Cosmos. Nossa própria história só começa na última noite do ano cósmico. Três milhões e meio de anos atrás, nossos ancestrais, o seu e o meu, deixaram esses rastros. Nós nos levantamos e nos separaramos deles. Uma vez que estávamos sobre dois pés, nossos olhos já não estavam mais fixados no chão. Agora, éramos livres para olhar para cima e para admirar.

A informação é do site de notícias The Raw Story com base no vídeo abaixo postado no YouTube.

Pesquisador que revelava fraudes científicas vive receio de ações judiciais e retaliações

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Pouco mais de um ano após ter sua identidade descoberta e de ter encerrado suas atividades sob anonimato em seu blog Science Fraud, o pesquisador britânico Paul Brookes, do Centro Médico da Universidade de Rochester, no estado de Nova York, vive sob a ameaça de ações judiciais e sob o risco de retaliações nas avaliações de seus pedidos de financiamento para pesquisas. Além disso, ele tem também evitado proferir palestras fora da cidade onde trabalha, conforme declarou em entrevista à Science Careerspublicada ontem (segunda-feira, 10.mar).

Durante cerca de seis meses de atuação com o blog, apresentando-se sob o pseudônimo “Fraudster” (fraudador), Brooks apontou 275 trabalhos publicados em revistas especializadas como envolvidos em más-condutas científicas. Devido a essa exposição, 16 estudos passaram por investigações que terminaram em retratações e outros 41 foram corrigidos.

Em 3 de janeiro do ano passado, Brookes reconheceu no próprio blog ser o seu ator e deletou todos os seus posts. Ele fez isso porque no dia anterior vários dirigentes de sua universidade, inclusive o reitor, receberam e-mails de pesquisadores — autores de trabalhos que ele havia investigado e apontado como irregulares — que pediam a abertura de processo administrativo.

Leitura obrigatória

Science-Fraud_2012-10-04

Página de abertura do blog Science Fraud (em 4.out.2012), usado anonimamente até janeiro de 2013 pelo pesquisador britânico Paul Brookes, da Universidade Rochester, nos Estados Unidos. A página mostra uma imagem de experimento de laboratório que teria sido adulterada e usada em um artigo publicado em uma revista científica

Science Fraud fez sucesso rapidamente. Chegou a ser considerado leitura obrigatória por acadêmicos e editores interessados em problemas na comunicação científica. O monitoramento de investigações sobre estudos com suspeitas de irregularidades já vinha antes sendo realizado por outro blog, o Retraction Watch, ao qual se referiu Brooks na página de seu blog sobre seu objetivo:

Atualmente essas suspeitas têm sido muitas vezes relatadas em blogs como o Retraction Watch. Mas é necessário também um site com foco neste tipo de discurso. [Science Fraud] visa proporcionar um catalisador de novas investigações por parte das autoridades reguladoras e das revistas científicas. Muitos editores dessas publicações ignoram e-mails de acusadores anônimos.

Primeiro, uma enquadrada

Em resposta às mensagens de pesquisadores que exigiram instauração de processo interno, os administradores de Rochester fizeram vários questionamentos a Brookes. Segundo ele, uma das preocupações principais da universidade era se sua dedicação à atividade de pesquisar casos de procedimentos irregulares, avaliá-los e publicá-los em seu blog não teria prejudicado o tempo que deveria empregar no trabalho pelo qual ele era pago pela instituição.

O outro foco dos questionamentos era se o pesquisador teria usado recursos de seu laboratório em sua dedicação ao blog. Com isso, além de silenciar o Science Fraud, o primeiro contra-ataque dos reclamantes teve também como resultado fazer a reitoria verificar se ela teria fornecido ao Fraudster tempo remunerado  e meios para sua atividade como blogueiro. Em outras palavras, eles fizeram a universidade dar uma enquadrada nele.

Depois, as ameaças

Brookes afirmou na entrevista que, apesar de os dirigentes universitários não terem gostado de sua conduta, a administração teve uma atitude muito aberta ao entendimento dos fatos. Ele disse que conseguiu fazer a instituição compreender que nunca havia ultrapassado 12 horas de atividade por semana para o blog e que quase todo esse tempo teria sido despendido em sua residência. No final das contas, ele não teve problemas com seu emprego.

Nenhuma das ameaças de processo judicial contra ele se concretizou, mas pelo menos seis delas se tornaram riscos potenciais que, segundo Brookes, exigem que ele tenha despesas permanentes, de seu próprio bolso, com um advogado. Ele disse na na entrevista:

(…) ainda estou preocupado. Estou com 41 anos, portanto tenho mais 25 anos pela frente antes de me aposentar. Preciso continuar recebendo suporte financeiro para publicar artigos e, obviamente, se há pessoas lá fora que estão com raiva de mim, então talvez elas avaliem maldosamente meus financiamentos, talvez elas revisem maldosamente meus papers. O potencial de retaliação existe e não há, realmente, nenhuma maneira de contornar isso.

Palestras canceladas

Brookes disse na entrevista à repórter Elisabeth Pain que chegou a cancelar viagens que ele havia agendado para proferir palestras em cidades onde trabalham autores de estudos que foram criticados por ele no Science Fraud. Ele não pode, afirmou, correr o risco de ser colocado em situações com possibilidade de originar processos judiciais em outras localidades, exigindo novas despesas com advogados e com custos adicionais de viagem e até de hospedagem.

A aventura anônima custou caro para o jovem pesquisador, que aprendeu na pele que o anonimato na internet é cada vez mais fadado ao fracasso. Em resposta a uma pergunta da repórter, ele disse que deveria ter sido mais cauteloso, não só evitando postar comentários anônimos em outros blogs — que sempre registram o IP dos comentadores —, mas também sendo menos ácido em suas postagens.

Meritocracia

A pedido da entrevistadora, o ex-blogueiro fez também um conselho não só a pesquisadores em início de carreira, mas inclusive para acadêmicos em pós-doutorados, que, segundo ele, reclamam de serem muitas vezes coagidos por seus superiores a maquiarem os resultados de seus experimentos: recusem essas pressões e guardem bons registros.

Brookes afirma que não desistiu de retomar a atividade de observação de más-condutas científicas, mas que o fará com mais cautela e de forma não provocativa. E acrescentou que isso deve ser feito porque o sistema acadêmico é uma meritocracia, na qual o mecanismo de recompensas deve ser baseado na realidade.

Presença incômoda

Brookes disse ter angariado a simpatia de muitos que acompanhavam seu blog e até de seus colegas mais próximos. Mas, se ele retomar realmente sem anonimato o trabalho que desenvolvia no Science Fraud, ele certamente será visto como uma presença incômoda, até mesmo por aqueles que não se envolvem em más-condutas científicas. Se assim o fizer, ele será “o tipo de homem que o mundo finge reverenciar, mas na verdade despreza”, como disse o corrupto Viktor Komarovsky, personagem do filme Doutor Jivago, referindo-se a um jovem revolucionário e idealista.

Aqui no Brasil, onde a compreensão distorcida de direitos que se sobrepõem a deveres já contaminou profundamente o ambiente acadêmico, as afirmações do jovem pesquisador de Rochester sobre meritocracia com certeza provocariam rejeições ainda mais pesadas contra ele.

Co-autor de pesquisa sob suspeita de fraude diz não saber que células usou

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Hoje surgiu mais uma notícia para abalar a credibilidade do recente anúncio de uma nova técnica para obter células-tronco e, com elas, facilitar o desenvolvimento de tratamentos de diversas doenças. Teruhiko Wakayama, da Universidade Yamanashi, no Japão, afirmou não ter certeza da procedência das células por ele usadas em laboratório, em um trabalho relatado por ele e por outros cientistas em dois artigos publicados em janeiro na revista científica britânica Nature.

“Não existe mais credibilidade quando existem tais erros cruciais”, disse Wakayama por e-mail ao jornal The Wall Street Journal. O pesquisador não entrou em detalhes sobre os erros sobre os quais comentou, segundo o repórter Alexander Martin. No entanto, segundo o jornalista, o cientista afirmou “Eu mesmo não sei o que usei em meus experimentos”, ao se referir às células que recebera da coordenadora da pesquisa, a bióloga Haruko Obokata, do Laboratório de Reprogramação Celular, vinculado ao Instituto Riken.

Retratação

A reportagem do WSJ informou também que Wakayama declarou ter pedido a Obokata a retratação pela publicação dos dois artigos científicos.

No dia 17 de fevereiro, a Nature divulgou em seu site que já teria iniciado uma averiguação sobre acusações de adulteração de imagens em um dos dois trabalhos desenvolvidos no Japão, ambos publicados na edição de 30 de janeiro, que anunciaram a reversão de células de diversos tecidos de camundongos para o estágio embrionário por meio de nada mais que um banho ácido.

Junto com essa notícia estava a promessa de dispensar os riscos e as complicações de técnicas que envolvem manipulação genética de vírus para desenvolver tratamentos de diferentes tipos de câncer e doenças como as de Parkinson, Alzheimer e outras. Restaria apenas reproduzir em humanos os resultados obtidos com cobaias.

Resultados não reproduzidos

Ao anunciar essa apuração, a Nature afirmou que já havia sido iniciada na semana anterior uma investigação sobre a pesquisa pelo próprio Instituto Riken. E ressaltou também o fato de que especialistas de outras instituições afirmaram não terem conseguido reproduzir em seus próprios laboratórios os resultados apontados nessa pesquisa.

Mais informações sobre esse assunto estão neste mesmo blog no post “A suspeita de fraude e o ‘sensacionalismo’ em revistas científicas“, de 28 de fevereiro.

Mais uma tentativa de negar a importância do carbono no aquecimento global

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Global-Warming

Um relatório divulgado na semana passada acusou cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática) de esconderem o que seria uma boa notícia: o clima global seria menos sensível ao aumento da concentração atmosférica de CO2 (dióxido de carbono) do que afirmam há décadas esses pesquisadores. Em outras palavras, a ciência estaria escondendo da humanidade a informação de que podemos ficar menos preocupados com a emissão de gás carbônico pela queima de carvão e de outros combustíveis, pois esse composto não seria o vilão doaquecimento global.

O relatório mal havia sido repercutido por alguns sites de notícias e blogs estrangeiros quando surgiram as primeiras constatações de que ele não passava de mais uma tentativa de desmoralização de todo o esforço iniciado há décadas para reduzir as emissões de carbono na atmosfera por meio da queima de carvão e outros combustíveis fósseis pelas indústrias, por usinas termelétrica e por veículos.

Pesquisadores ‘independentes’

Ainda era Quarta-Feira de Cinzas (5.mar) quando um leitor deste blog me enviou o link do press-release “Novo relatório: o clima é menos sensível ao CO2 do que sugerem os modelos“, distribuído pela Fundação da Política do Aquecimento Global (GWPF) , sediada em Londres, no Reino Unido. Esse material para a imprensa fornecia links para duas versões — um artigo completo e um sumário — do relatório “Um assunto sensível: como o IPCC enterrou boas notícias sobre o aquecimento global”. Os autores do estudo são o pesquisador britânico Nic Lewis, apontado no release como “cientista do clima independente”, e o jornalista científico dinamarquês Marcel Crok.

Segundo esse relatório, o IPCC teria deixado de divulgar dados que projetariam o aumento da temperatura média global terrestre até o final deste século oscilando entre 1,3°C e 1,4°C, o que estaria cerca de 2°C abaixo da média de 3,2°C divulgada pelo painel intergovernamental, como mostra o gráfico a seguir.

Adaptação de gráfico elaborado por Nic Lewis e Marcel Crock, que afirmam que a variação climática é menos sensível ao carbono do que os modelos do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática). A faixa azulada se refere à projeção de aumento de 1,3°C e 1,4°C na temperatura média global até o final do século, que, segundo os autores, se basearia em dados deliberadamente ocultados pelo IPCC, que aponta a variação média de 3,2°C referente à área alaranjada do gráfico

Adaptação de gráfico de Nic Lewis e Marcel Crock em “A Sensitive Matter: How The IPCC Buried Evidence Showing Good News About Global Warming”

Militantes anti-IPCC

Minhas primeiras buscas de mais informações sobre o assunto me deixaram com uma boa dose des desconfiança: a GWPF é uma fundação com um esforço concentrado em contestar a importância das emissões de carbono e combustíveis fósseis para o aquecimento global e os trabalhos anteriores de Lewis me pareceram ser um trabalho de militância negacionista do IPCC.

Deixei o assunto para o fim de semana, quando percebi que Greg Laden, bioantropólogo e divulgador científico dos Estados Unidos já havia posto os pingos nos is, desqualificando o relatório de Lewis e Crock com o post “Um novo relatório falso sobre mudança do clima“.

Laden mostrou que os dois autores haviam, na verdade, limitado sua tese a dados que o próprio IPCC havia registrado, mas o afirmaram desconsiderando toda uma série de outras evidências que necessariamente puxam para cima a faixa de variação média da temperatura projetada para o final do século.

Interesses não científicos

Os estudos do IPCC não são textos sagrados que não podem ser contestados. Existem, aliás, pesquisadores sérios que têm ressaltado a possibilidade de o aumento da temperatura média global desde o século 19 estar relacionada a fenômenos independentes da ação humana, como a variação da atividade solar. Mas é outra coisa querer negar a importância da redução da emissão dos chamados gases-estufa, que tem proporcionado, entre outros resultados, esforços para tornar a humanidade menos dependente do consumo crescente de energia, seja por meio de novas tecnologias, seja por meio da própria mudança de atitude por parte das pessoas e das instituições.

Curiosamente, essa corrente negacionista do IPCC e autodenominada “independente”, no final das contas, é em grande parte bancada por entidades ligadas ao setor energético, como é o caso da GWPF.

Para os que quiserem saber mais sobre o assunto, copio a seguir alguns links. Os quatro primeiros são sugeridos por Greg Laden:

Deputado contrário a testes com animais assume Comissão de Ciência da Câmara

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Opositor de longa data à realização de experiências científicas com animais vivos, o deputado federal Ricardo Trípoli (PSDB-SP) foi eleito nesta quarta-feira presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados. Se, por um lado, a escolha agradará defensores dos direitos dos animais, ela certamente desagradará lideranças da comunidade científica que argumentam não haver como substituir seres vivos em pesquisas para tratamento de doenças.

Em rápida entrevista por telefone a este blog no início desta tarde, Trípoli afirmou que não vê problema com eventuais controvérsias sobre direitos dos animais com alguns setores da comunidade científica. “Sou um parlamentar completamente aberto ao diálogo e ao debate em torno de ideias”, disse o parlamentar. “O problema que considero mais complicado e delicado é o risco do controle das comunicações pelo poder público, cerceando direitos fundamentais da cidadania. Essa é uma grande ameaça a todo tipo de debates”, arrematou o tucano ambientalista.

Além do desenvolvimento científico e tecnológico, da política nacional de ciência e tecnologia e organização institucional do setor e acordos de cooperação com outros países e organismos internacionais, a área de atuação temática da CCTCI envolve também meios de comunicação social, liberdade de imprensa, produção e programação das emissoras de rádio e televisão, política nacional de informática e automação e de telecomunicações e regime jurídico das telecomunicações e informática.

Eduardo Gomes (SDD-TO), que havia tentado articular sua escolha para ela presidência da CCTCI, foi eleito vice-presidente.

Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 26/02/2014 at 16:51

A suspeita de fraude e o ‘sensacionalismo’ em revistas científicas

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Já foi o tempo em que se podia dizer que os exageros na divulgação de novidades da ciência eram sempre provocados pela imprensa. A própria comunidade científica passou a ser geradora de sensacionalismos desde o final do século 20, quando algumas de suas publicações, os chamados periódicos, começaram a ser menos exigentes em relação à isenção e ao caráter crítico, não de seus artigos científicos, mas de suas reportagens e outros textos explicativos, que passaram a ser mais atrativos para a avidez da imprensa por notícias de impacto, especialmente por boas notícias para a saúde humana. Essa tendência foi um dos ingredientes da repercussão internacional, no final de janeiro, da pesquisa realizada no Japão que propunha uma técnica promissora para terapias com células-tronco e voltou a ser anunciada  nesta semana por estar sob investigação por suspeita de fraude.

Apesar do costume de se retratarem publicamente em relação aos seus artigos envolvidos em casos de fraudes, plágios e outros tipos de má-conduta científica — como mostra o monitoramento realizado pelo blog Retraction Watch —, os chamados periódicos praticamente nunca adotam o mesmo procedimento sobre o estardalhaço provocado por seus materiais elaborados para divulgação em paralelo para o público não especializado, inclusive e especialmente para a imprensa.

Acusações e investigações

Na segunda-feira, dia 17, a prestigiada revista científica britânica Nature divulgou em seu site que já teria iniciado uma averiguação sobre acusações de adulteração de imagens em um dos dois trabalhos desenvolvidos no Japão, ambos publicados na edição de 30 de janeiro, que anunciaram a reversão de células de diversos tecidos de camundongos para o estágio embrionário por meio de nada mais que um banho ácido. Junto com essa notícia estava a promessa de dispensar os riscos e as complicações de técnicas que envolvem manipulação genética de vírus para desenvolver tratamentos de diferentes tipos de câncer e doenças como as de Parkinson, Alzheimer e outras. Restaria apenas reproduzir em humanos os resultados obtidos com cobaias.

Ao anunciar essa apuração, a Nature afirmou que já havia sido iniciada na semana anterior uma investigação sobre a pesquisa pelo próprio Instituto Riken, ao qual pertence o Laboratório de Reprogramação Celular, onde trabalha a autora principal dos dois estudos, a bióloga Haruko Obokata, de 30 anos de idade. E ressaltou também o fato de que especialistas de outras instituições afirmaram não terem conseguido reproduzir em seus próprios laboratórios os resultados apontados nessa pesquisa.

Material para jornalistas

Na edição impressa de 30 de janeiro, que já estava disponível na versão online desde o dia anterior, foram publicados também, além dos dois trabalhos comandados por Obokata, outros dois textos, os quais serviram como subsídios didáticos para toda a divulgação realizada pela imprensa internacional: a reportagem: “Banho ácido oferece caminho fácil para células-tronco“, e o artigo opinativo “Potência desencadeada“, de autoria de Austin Smith, pesquisador do Instituto de Células-Tronco da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Textos como esses passaram a ser cada vez mais importantes para os jornalistas poderem entender melhor o que é relatado pelos cientistas nos chamados papers, que são os artigos científicos. Também em linguagem mais didática ou menos técnica que a dos artigos científicos, os artigos opinativos servem geralmente como subsídio para dar a posição isenta e independente de um especialista não envolvido com a pesquisa publicada.

Além do título e das primeiras frases, são poucos os trechos mais otimistas e pouco relativizadores dessa reportagem publicada na própria Nature em 30 de janeiro. Por outro lado, não faltaram no artigo opinativo de Austin Smith afirmações muito otimistas em relação à eficácia da técnica proposta nos dois estudos.

Divulgação otimista

É geralmente das próprias revistas científicas a responsabilidade final pelos títulos e subtítulos de suas reportagens e dos artigos opinativos sobre seus papers. No entanto, Smith certamente não teria o que reclamar do título “Potência desencadeada”. Para um especialista que, em princípio, não tem envolvimento com os dois trabalhos por ele analisados, seu texto é repleto de afirmações assertivas demais e sem as devidas ressalvas para a necessidade de os resultados serem reproduzidos em outros laboratórios, como mostra o trecho a seguir.

A descoberta inesperada de que um estímulo físico pode desencadear a reversão da diferenciação celular para um estado de potência irrestrita abre a possibilidade de obtenção de células-tronco específicas para tratamento de doenças por meio de um procedimento simples, sem manipulação genética. (…) No entanto, eles [Obokata e colegas] estabeleceram um novo princípio: um estímulo físico pode ser suficiente para desmembrar os circuitos de controle de genes e criar um estado ‘plástico’ do qual pode rapidamente ser desenvolvido um nível de potência antes inatingível.

Não se trata aqui de apontar desonestidade por parte de Smith. É possível até que ele realmente tenha acreditado na efetividade das alegações de Haruko Obokata e seus colegas. Não cabe, portanto, nenhuma exigência de explicação por parte dele, principalmente agora, por não haver ainda qualquer resultado das apurações em curso. Mas cabe certamente enfatizar que as coisas seriam muito melhores se a Nature e todos os periódicos tivessem e explicitassem seus critérios editoriais para publicar reportagens e opiniões de especialistas.

Lição esquecida

A pergunta que não quer calar, porém, é como foi possível o caso Okobata ter acontecido após o lamentável episódio que envolveu em 2004 outra consagrada revista, a Science, editada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). Naquele ano aconteceu a divulgação, também por meio de dois artigos nesse periódico, da falsa clonagem de células-tronco embrionárias humanas pelo sul-coreano Hwang Woo-suk, então professor da Universidade Nacional de Seul.

No âmbito da Science, o desfecho desse caso se deu com a “Retratação editorial”, assinada por Donald Kennedy, editor-chefe da revista, que fez uma breve síntese do relatório da auditoria da universidade, informou que os dois artigos de Hwang deveriam ser considerados inválidos e pediu desculpas pelo tempo que os revisores científicos “e outros” perderam avaliando os dois papers, assim como pelo tempo e pelos recursos que a comunidade científica gastou tentando reproduzir os resultados divulgados pela revista. (A revista mantém uma página com essa retratação e outros documentos em seqüência cronológica.)

Efeitos colaterais

Mas não houve nenhuma menção sobre o governo da Coréia do Sul, o qual, acreditando não só nos dois artigos publicados pela Science, mas principalmente na sua repercussão internacional turbinada pela estratégia midiática da revista, ter investido US$ 65 milhões no laboratório do pesquisador e reservado outros US$ 15 milhões do Ministério da Saúde e do Bem-Estar Social para a criação do Centro Mundial de Células-Tronco.

Uma coisa, e perfeitamente aceitável, é os periódicos entenderem que seus papers são mais importantes que suas reportagens e seus artigos opinativos. Outra coisa é uma revista científica agir como se esses dois gêneros textuais não passassem de meros instrumentos para manipular a imprensa e a opinião pública. É o que fazem parecer, no final das contas, algumas atitudes editoriais.

Fora, imprensa!

E, por falar em Hwang e na imprensa, vale lembrar de um dos episódios desse caso no final de 2005, quando o assunto estava fervendo, que foi registrado pelo jornalista Marcelo Leite em seu comentário “Células de decepção em massa“, na Folha de S. Paulo:

Nos mesmos dias em que pipocava o escândalo, um grupo de bambambãs da biotecnologia publicou uma carta no sítio http://www.sciencexpress.org defendendo, com palavras escolhidas a dedo, o afastamento da imprensa leiga. ‘Acusações feitas pela imprensa sobre a validade dos experimentos publicados na Coréia do Sul são, em nossa opinião, mais bem-resolvidos na comunidade científica’, escreveram os oito autores da correspondência. Entre eles estão Ian Wilmut e Alan Colman, dois dos “pais” da ovelha Dolly. (…) Na hora do oba-oba, a imprensa veio bem a calhar, pois ajudou a aprovar verbas para pesquisa. Na hora em que essa mesma imprensa lanceta o tumor, pedem que se afaste para que a comunidade científica enfim cumpra a sua obrigação, tendo já falhado uma vez.

Curiosamente, Austin Smith, autor do artigo “Potência desencadeada”, de 30 de janeiro deste ano, foi também um dos cientistas que assinaram essa carta que demonstrou uma forma realmente desastrosa de lidar com a opinião pública (“Células-tronco embriônicas humanas“, ScienceExpress, 13/12/2005).

PS — Leia também neste blog o post “Co-autor de pesquisa sob suspeita de fraude diz não saber que células usou” (10.3.2014)

‘Físico da alma’ quer unir darwinismo e criacionismo

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Já pensei em colocar na coluna de links deste blog um item chamado Antibibliografia. Nele certamente entrariam todos os livros do midiático físico indiano Amit Goswami. Por dever de ofício, tive de ler quase todas as suas obras. Na mais recente, Deus Não Está Morto: Evidências científicas da existência divina (Tradução de Marcello Borges. São Paulo: Editora Aleph, 2008, 304 pp., R$ 46), a estratégia retórica é a mesma dos livros anteriores: dizer a leitores ávidos por uma prova de existência divina exatamente aquilo que eles esperam, fugir da confrontação com aspectos polêmicos e dar um ar de erudição às suas considerações com o apelo a superficialidades e até a equívocos típicos da cultura de almanaque.

O aparato de divulgação de Goswami costuma apresentá-lo ora como “um dos principais físicos da atualidade”, ora como um “revolucionário em um corpo crescente de cientistas renegados” (ver seu site oficial). Ele é, de fato, um dos físicos mais conhecidos da atualidade, não por causa de sua atuação na física, mas devido ao sucesso com vendas de seus livros, com suas palestras organizadas em vários países pelos editores de seus livros e também por sua participação nos filmes Quem Somos Nós?, em 2004, e O Segredo, em 2006. Em outras palavras, seu sucesso se deve somente à mídia.

Uma coisa é tentar promover a discussão entre partidários de teses contrárias. Certamente isso não levará nunca a um consenso. Nem deve se esperar por esse resultado, mas o processo é sempre enriquecedor para aqueles que se esforçam para compreender argumentos contrários. Porém, outra coisa é a pretensão de Goswami de ter formulado um novo paradigma científico no qual coexistiriam os princípios do evolucionismo e do criacionismo. Essa formulação, que dependeria de muita pesquisa e reflexão científica e filosófica, cresce à vontade em muitos nichos midiáticos.

Conclusões forçadas

Nesse livro, o físico indiano repete, sem dar novos argumentos, a mesma tese, apresentada em publicações anteriores, de que o universo é matematicamente inconsistente sem a hipótese da existência de Deus.

O primeiro tipo de evidência científica para a existência de Deus é o que chamo “as assinaturas quânticas do divino”. A física quântica nos oferece novos aspectos da realidade — as assinaturas quânticas — e, para compreendê-las, explicá-las e apreciá-las, somos obrigados a introduzir a hipótese de Deus. Um exemplo é a não-localidade quântica, a comunicação sem sinal. A comunicação normal é uma comunicação local, realizada por meio de sinais que transportam energia. Mas, em 1982, Alain Aspect e seus colaboradores confirmaram em laboratório a existência de comunicações que não exigem esses sinais. [pág. 5]

Goswami se refere nesse trecho a um dos mais importantes experimentos da física do século XX. Seus resultados foram publicados em 20/12/1982 no mais conceituado periódico especializado em física, o Physical Review Letters. O estudo, apresentado no artigo “Experimental Test of Bell’s Inequalities Using Time-Varying Analyzers” pelo francês Alan Aspect e seus colaboradores do Instituto de Óptica, de Paris, contrariou a previsão da Teoria da Relatividade para velocidades maiores que a da luz e provocou muitas questões não só na física, mas também na filosofia [ver Sílvio Seno Chibeni, “Implicações filosóficas da microfísica”, Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Série 3, 2 (2): 141-164, 1992].

No entanto, todas as implicações do trabalho de Aspect, assim como as de outros, trazem muito mais interrogações do que conclusões forçadas como a de Goswami. Por mais que dela se discorde, seria perfeitamente compreensível a atitude daqueles que crêem na existência divina de responder a essas questões com base em sua crença. No entanto, para aqueles que não são crentes — como o físico indiano até antes de refletir sobre esses problemas, segundo ele afirma — não faz sentido se apegar a essa hipótese.

Argumento da ignorância

Feita por parte de alguém que se diz ter sido ateu e que se defrontou com essas questões da microfísica, a opção de Goswami incorre naquilo que em lógica é chamado de falácia do argumento da ignorância, como mostram os trechos a seguir.

(…) recentemente, tem surgido muita controvérsia sobre teorias criacionistas/desígnio inteligente versus evolucionismo. Por que toda essa polêmica? Porque, mesmo depois de 150 anos de darwinismo, os evolucionistas ainda não têm uma teoria à prova de falhas. Não podem sequer explicar os dados fósseis, especialmente as lacunas fósseis, e também não podem dar explicações satisfatórias sobre como e porque a vida parece ter sido projetada de forma tão inteligente. [p. 5]

E, pouco mais adiante, ele acrescenta:

A chave, neste sentido, seria perguntar: “Haverá uma alternativa para ambas essas abordagens que concorde com todos os dados?” Minha resposta é sim, e vou demonstrá-la nesta obra. Porém, a resposta exige a existência de um Deus com poderes causais e de um corpo sutil que atua como gabarito da forma biológica; o materialismo não permite nenhuma dessas duas entidades. E, assim, problemas impossíveis requerem soluções impossíveis! [p. 6]

Em outras palavras, em face do desconhecimento de explicações no âmbito das teorias que são alvos de suas críticas, ele conclui que não há explicações possíveis, uma vez que postula a existência divina como única alternativa.

Precariedade filosófica

Não bastassem essas e outras saídas forçadas, o físico indiano mostrou nessa obra com mais clareza sua precariedade no plano filosófico. Sua forma de lidar com a idéia de um princípio finalista revela sua confusão entre essa noção e a de criação, que até para alguns pensadores medievais teve de ser objeto de demonstração.  Muitos séculos antes deles, o  próprio Aristóteles, que formulou a causa final (télos) exterior aos processos por ela guiados, em seu livro Sobre o Céu (Livro B, Capítulo 1, 283b26-29) afirmou que

(…) o mundo certamente não foi gerado nem pode ser destruído, como alguns alegam, é único e eterno, não tem começo nem fim em sua extensão e contém o tempo infinito.
[On the Heavens. Texto grego estabelecido por Immanuel Bekker. Introdução, tradução para o inglês e notas de William Guthrie. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library, Aristotle, vol. VI), 1934, pp. 130-131.]

Outra interpretação precária de Goswami é a do pensamento de Friedrich Nietzsche (1844-1900), apontado simploriamente por ele como o niilista que proclamou “Deus está morto” (págs. 53 e 60). O pensador alemão, foi, no entanto, um crítico do niilismo, este entendido como a incapacidade de o Ocidente construir valores para nortear a civilização, que se encontra cada vez mais, desde o início da modernidade, diante da falência de todos os valores supremos:

Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e o mais sagrado que o mundo até então  possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais — quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos teremos de inventar?
[A Gaia Ciência, § 125. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 148]

Longe de discussões

Apesar de ter sido lançado pouco antes das recentes discussões no Brasil sobre o evolucionismo e o criacionismo (ver neste blog “A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo”, de 15/12), Deus Não Está Morto escapou desse confronto. É bem possível que o subtítulo dado ao livro pelos editores brasileiros tenha ajudado a não evidenciar seu conteúdo relativo a esse antagonismo. A versão original é God is Dead: What quantum physics tells us about our origins and how we should live (Deus Não Está Morto: O que a física quântica nos diz sobre nossas origens e como deveríamos viver).

Na verdade, não existe a tal polêmica na ciência em torno das obras de Goswami, como pregam os divulgadores de seus livros. Eu mesmo afirmei isso pessoalmente a ele durante sua entrevista ao programa Roda Viva exibido em 11/02/2008 pela TV Cultura, de São Paulo.

Durante a gravação desse programa, que se realizou 27/08/2007, eu apresentei  os registros dele na base de dados Web of Science, que mostravam, naquela data, nove trabalhos publicados por ele após janeiro de 1986, quando deixou a “ciência materialista”. Esses nove artigos tiveram, até aquela ocasião, apenas 46 citações em pesquisas indexadas nessa base de dados em todo o mundo, quase todas feitas por ele próprio ou por pesquisadores ligados a ele. Em outras palavras, não havia, como até hoje não há, nenhuma repercussão significativa da atuação dele na ciência, muito menos uma polêmica científica em torno de suas idéias.

Eu disse a ele também que seus livros não discutem verdadeiramente as idéias científicas que aborda, pois ele apenas as cita em seus aspectos que lhe interessam, diferentemente do que costuma ser feito por cientistas, por mais parciais que eles sejam. Goswami, que tanto alega se basear na mecânica quântica, fez em seus livros várias considerações en passant sobre Albert Einstein (1879-1955) sem deixar claro que esse cientista durante as três últimas décadas de sua vida se posicionou contrariamente a essa teoria. À minha pergunta sobre esse procedimento que nada tem a ver com a forma de se resolver dúvidas na ciência, ele respondeu:

Infelizmente, o confronto não é o estilo recomendado pela visão de mundo que tenho… e a visão de mundo que explica a física quântica e que agora parece explicar muitos fenômenos inexplicáveis e que nem mesmo podem ser abordados pela visão de mundo materialista. Essa é uma abordagem muito amigável, inclusiva. Eu não acho que bater de frente em debates com cientistas específicos fará alguma coisa a favor da nossa causa de mudança de paradigma. O paradigma será mudado a partir do peso de evidências em favor dele. Atualmente, o que nos ajuda muito é que temos aplicações práticas na área da medicina, da psicologia… Infelizmente, eu acho que você não consultou quantas vezes a minha obra é citada em trabalhos de psicólogos, de profissionais da saúde e de outros, ainda, não-pertencentes às ciências puras. Sim, é verdade que aqueles das ciências puras, os físicos, os químicos e até mesmo os biólogos, preferem oferecer a chamada “negligência benigna”. Eles não se envolvem com essa questão, pois fazendo isso acabarão dando maior publicidade para mim, algo considerado por eles prejudicial à sua causa. Então, deixá-los viver do modo deles e nós do nosso é agora a melhor abordagem.

Em outras palavras, a explicação de Goswami é que não existe discussão na comunidade científica em torno das idéias dele porque existe uma conspiração para evitar de lhe dar maior publicidade. Por mais que ele mereça ter seus livros incluídos em antibibliografias, como eu disse acima em tom de brincadeira, o melhor mesmo é forçá-lo ao confronto de idéias. No entanto, até mesmo para isso teremos dificuldade, dada a crescente apatia da comunidade científica em geral para tratar de temas polêmicos. Enquanto isso, os espaços midiáticos vão sendo ocupados.

Em meio à sua decadência e à ascensão da burguesia mercantil, a Igreja Católica foi duramente abalada com a revolução gutenberguiana. Não sei se o capitalismo está em decadência, mas um de seus principais suportes ideológicos, o pensamento laico, vem sendo desprestigiado há algum tempo. Nesse contexto, em que algumas questões científicas já chegaram aos tribunais sem serem discutidas em outras instâncias, há bons motivos para pensar na possibilidade de a revolução da internet trazer surpresas. Já pensaram em mudanças científicas baseadas na preferência popular?

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 27/12/2008 at 16:28

A mídia e o conflito de interesses na pesquisa científica

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O jornal O Estado de S. Paulo abordou ontem (sexta-feira, 19/11) um tema muito negligenciado pela imprensa brasileira, que é o conflito de interesses em pesquisas médicas. A reportagem “Pesquisa sobre males do amianto tem verba do setor”, do jornalista Emilio Sant’Anna, informa que três universidades públicas paulistas — USP, Unicamp e Unifesp — investigam denúncia de conflito de interesses em um estudo sobre os efeitos do amianto sobre a saúde humana.

Segundo a reportagem, as três universidades não foram informadas que a pesquisa teve suporte financeiro de R$ 1 milhão do Instituto Brasileiro do Crisotila (IBC), entidade de empresas e associações de trabalhadores ligados à mineração do amianto e à fabricação de produtos com esse material. O projeto recebeu também R$ 1 milhão do CNPq e recursos do Governo do Estado de Goiás, cujo valor não é mencionado na reportagem.

No site do projeto Asbesto Ambiental não é mencionado o suporte financeiro do IBC. Os coordenadores da pesquisa são os pneumologistas Mário Terra Filho, da USP, e Ericson Bagatin, da Unicamp, e o fisiologista Luiz Eduardo Nery, da Unifesp. A matéria do Estadão registra a declaração de Bagatin de que não foi criticada a metodologia do estudo, que, segundo ele, dá continuidade a 15 anos de trabalhos para “obter dados científicos brasileiros para dar condições de discutir se é possível ou não usar o material de forma segura”.

Padrões internacionais

O fato de uma pesquisa receber apoio financeiro de entidade que tem interesse direto no tema a ser estudado não implica necessariamente que as conclusões dos pesquisadores sejam enviesadas. Mas toda vinculação desse tipo, tanto do estudo como de seus participantes, deve ser formalmente informada às instituições que dão suporte ao trabalho e também à revista científica que o publica. Essa situação é definida como de potencial conflito de interesse segundo os preceitos da chamada ética da pesquisa. No caso da medicina, sobre isso existem padrões internacionais, como os do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (ICMJE).

As normas do ICMJE não se aplicam apenas a autores de estudos médicos, mas também a editores, revisores e demais membros do staff editorial. Uma síntese dessas normas é mostrada no estudo “Conflito de interesses em pesquisa clínica”, dos cirurgiões Elaine Maria de Oliveira Alves e Paulo Tubino, da Universidade de Brasília (Acta Cirúrgica Brasileira. Vol 22 (5) 2007). Nesse trabalho, é apresentada a seguinte definição.

O conflito de interesses surge, em pesquisa clínica, quando um ou mais de um dos participantes do processo — sejam os pesquisadores ou até mesmo o editor e/ou o revisor do periódico no qual, eventualmente, o trabalho será publicado — têm ligações com instituições ou interesses que possam prejudicar a lisura da investigação ou restringir a competência e a imparcialidade para avaliação da mesma.

A conclusão de Alves e Tubino é a de que

(…) os conflitos de interesses são generalizados e inevitáveis na vida acadêmica. O desafio não é erradicá-los, mas reconhecê-los e manejá-los adequadamente. A única prática aceitável é que sejam expostos claramente e que todas as pesquisas em seres humanos passem pelo crivo dos comitês de ética em pesquisa.

Dinheiro de laboratórios

Esse tema já trouxe grandes constrangimentos para a medicina. Um dos episódios mais marcantes foi a revelação de que 70 estudos sobre uma determinada droga anti-hipertensiva, publicados de março de 1995 a setembro de 1996, foram direta ou indiretamente financiados pelos mesmos laboratórios que os fabricam. Segundo a pesquisa “Conflict of interest in the debate over calcium-channel antagonists” (The New England Journal of Medicine, v. 338(2), janeiro de 1998, pp. 101-106), coordenada por Henry Thomas Stelfox, da Universidade de Toronto, no Canadá, os autores desses estudos estavam envolvidos com os laboratórios por meio de serviços de consultoria, pagamento de conferências, custeios de viagens, apoio a pesquisas e suporte educacional

Muitas publicações médicas brasileiras exigem declaração de conflito de interesses. Algumas chegam a exigir até mesmo declaração de que não há conflitos de interesses, como é o caso, por exemplo, da Arquivos de Gastroenterologia. Ou seja, algumas publicações simplesmente exigem que as situações de conflito de interesses sejam apontadas, enquanto outras exigem que todos os autores declarem formalmente se têm ou não qualquer vinculação desse tipo.

No Brasil, a imprensa raramente se interessa pelo conflito de interesses em pesquisas científicas. Uma grande reportagem sobre esse tema foi feita há oito anos pelos jornalistas Eliane Brum, Bruno Weis e Raphael Falavigna para a revista Época (“A maldição do amianto”, 16/04/2001). Na ocasião, uma outra pesquisa sobre amianto, também realizada por Bagatin, havia recebido financiamento privado não informado à sua agência pública fomentadora, a Fapesp.

Jornalistas devem ser atentos ao aspecto de conflitos de interesse sempre que divulgarem pesquisas científicas científicas em geral, e não só as da área de saúde. Vale a pena conferir, nas publicações científicas, se suas instruções para autores incluem normas sobre isso. A lista de periódicos nacionais da Scientific Electronic Library Online — Scielo facilita essa verificação. Ainda há revistas que não exigem declaração nenhuma

Recentemente, o New York Times noticiou uma pesquisa que mostrou conflitos de interesses na área médica também entre jornalistas (“Conflicts of Interest May Ensnare Journalists, Too”, 21/11/2008). Mas isso será assunto para outra conversa.

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PS de 26/12 — Além da reportagem acima citada de Época, essa revista publicou outra, também de capa, em abril de 2005, feita por Eliane Brum, Patrícia Cançado e André Barrocal, de abril de 2005 (“Vida e morte pelo amianto”). A matéria mostrou vítimas desse produto, lobbistas, a bancada do amianto no Congresso, recursos envolvidos e vários outros aspectos relevantes sobre esse assunto. Em comentário enviado à reprodução do texto acima no Observatório da Imprensa, o leitor Márcio Gaspar, de São Paulo, chamou minha atenção para as reportagens da jornalista Conceição Lemes acerca das relações entre médicos, vítimas desse produto, empresas que o usam. Essas matérias foram publicadas no blog Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha.

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 20/12/2008 at 11:56

Canadense revela conexão chinesa no escândalo de revista científica

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Apesar de continuar ignorado pela imprensa, o escândalo em torno do físico e engenheiro egípcio Mohamed Saladin El Naschie, editor-chefe da revista Chaos, Solitons & Fractals (CS&F), continua em blogs muito atuantes nas áreas de física e matemática. Depois da mais recente manifestação deste blog sobre esse caso (“Saída de editor não esfria caso de pseudociência e favorecimento”, 02/12/2008), alguns pesquisadores começaram a fuçar os registros de um dos parceiros de El Naschie nesse periódico: o físico chinês Ji-Huan He, da Universidade Donghua, em Xangai, editor regional desse periódico na China e editor-chefe da International Journal of Nonlinear Sciences and Numerical Simulation (IJNLSNS).

O interesse no caso não se restringe mais a físicos e matemáticos. Yves Gingras, professor de história e sociologia da ciência e da tecnologia da Universidade de Quebec em Montréal, no Canadá, fez no último sábado (06/12) um intrigante comentário sobre a relação entre o chinês e o egípcio. Está na postagem “L’affaire El Naschie” (30/11), publicado no Secret Blogging Seminar pelo matemático Ben Webster, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

Gingras aponta um fato que eu já havia ressaltado em “Periódico é acusado de pseudociência e favorecimento” (01/12): dos 268 trabalhos de El Naschie registrados no Science Citation Index (SCI), 246 foram publicados na própria CS&F e 19, na IJNLSNS. Mas ele arescenta outras informações relevantes, como a do salto da publicação de papers chineses na CS&F de 18% de 2001 a 2003 para 43% de 2004 a 2008.

Aqui, no Brasil, poucos blogs se manifestaram sobre o assunto. Ontem (segunda, 08/12), Alexandre Hannud Abdo, doutorando do Instituto de Física da USP, comentou o caso em “Pseudociência by Elsevier: o caso El Naschie”, reproduzido no blog Ars Physica, o mesmo da postagem “A semana nos arXives”, onde em 03/12 trocamos idéias eu e Daniel Doro Ferrante, que acaba de concluir seu pós-doutorado em física de partículas na Universidade Brown, em Providence (EUA).

Enfim, a cobrança continua em cima do grupo editorial Elsevier, sediado em Amsterdam, que publica a CS&F, ameaça crescer também junto à seletíssima base de dados SCI, que credencia essa revista e também a IJNLSNS, de Ji-Huan He, que apontou El Naschie como “um dos maiores cientistas deste século, desde Newton e Einstein”.

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Outras postagens sobre o mesmo assunto:

“Saída de editor não esfria caso de pseudociência e favorecimento”, 02/12/2008

“Periódico é acusado de pseudociência e favorecimento”, 01/12/2008

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 09/12/2008 at 6:54

Publicado em Ética científica

Saída de editor não esfria caso de pseudociência e favorecimento

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Mohamed Saladin El Naschie, editor-chefe da revista "Chaos, Solitons & Fractals"

A notícia de que o físico e engenheiro egípcio Mohamed Saladin El Naschie deixará seu cargo de editor-chefe da revista Chaos, Solitons & Fractals (CS&F) não conseguiu amenizar a crise que comentei ontem (segunda-feira, 01/12), em “Periódico é acusado de pseudociência e favorecimento”. Não está mais em questão, nem mesmo para os críticos mais moderados, se El Naschie publicou ou não 322 artigos de sua própria autoria no mesmo periódico por ele editado, nem se ele os usou para fazer grande parte das suas 3.050 citações. Enquanto a imprensa não toca no assunto, as atenções na blogosfera especializada se voltam cada vez mais para o grupo editorial Elsevier, sediado em Amsterdam, que publica a CS&F. E começam a ser dirigidas também para a seletíssima base de dados Science Citation Index, que credencia essa revista.

Destaquei ontem a atuação crítica nesse caso do físico-matemático John Baez, da Universidade da Califórnia em Riverside, por meio do blog comunitário de físicos e matemáticos The n-Category Café. Mas, como não prestei atenção aos comentários à sua postagem “The case of M. S. El Naschie”, faltou eu dizer que foram enviados e-mails para os superiores de Baez na UCR, alegando que suas críticas “ultrapassaram dos limites”, e que essas mensagens diziam ser de um consultor jurídico (legal advisor) do grupo editorial Elsevier, o que não foi confirmado.

Outra distração minha foi não considerar que a maioria dos internautas não tem livre acesso à reportagem “Self-publishing editor set to retire”, da Nature News. Nela, o físico teórico croata Zoran Škoda, radicado nos EUA na Universidade de Wisconsin, afirmou ter sido advertido por alguém — que seria outro legal advisor da Elsevier — de que suas críticas à CS&F seriam difamatórias e que ele poderia ser processado por isso. Parte do conteúdo dessa reportagem está transcrita em “El Naschie update and peer review” e há comentários sobre ela em “The case of M.S. El Naschie, continued”, de Baez.

Estigma indesejado

Uma forte evidência de que a saída do editor-chefe da CS&F não bastará para acabar com essa crise surgiu ontem foi a postagem “The soft underbelly of science” (algo como “O ponto fraco da ciência”), do blog The Scholarly Kitchen, mantido pela Society for Scholarly Publishing, dos Estados Unidos. Sem levar em conta as evidências de promoção de pseudociência, mas com várias ressalvas em prol do benefício da dúvida em favor de El Naschie, o texto de Philip Davis, doutorando em comunicação pela Universidade Cornell, chama a atenção para seguinte aspecto em relação às acusações ao editor-chefe da CS&F.

Não importa se os artigos dele foram de fato, submetidos ao peer-review [avaliação prévia pelos pares], como foi questionado por membros da comunidade de física matemática. Há uma percepcão de que El Naschie usou um atalho no processo, e isso, apenas, é uma preocupação válida sobre a integridade do periódico. [O negrito é do autor.]

Mais adiante, após explicar que as revistas científicas são comunidades que envolvem valores, e que por meio da aceitação de um artigo se dá uma transferência de prestígio da publicação para o seu autor, Davis afirma:

Ao prejudicar a reputação de um periódico, um editor enfraquece a disposição de futuros autores de oferecer seu manuscrito em função de prestígio. Esses autores terão satisfação oferecendo seus trabalhos a outras publicações; são milhares de revistas sedentas por manuscritos. Além disso, aqueles autores que já publicaram em um periódico duvidoso não conseguem automaticamente se dissociar dele. Eles ficam presos ao estigma que decorre de sua associação àquela comunidade.

Proposta de boicote

Acontece que a percepção destacada em negrito por Davis se refere a práticas que ocorreram durante dez anos, e isso faz com que surjam também críticas ao controle da qualidade por parte da Elsevier sobre suas revistas. Alguns desses questionamentos foram bem mais diretos, entre eles os que foram feitos pelo jornalista freelance britânico Richard Poynder, que mantém o blog Open and Shut. Ele afirma, em sua postagem de 29/11, ter encaminhado questões sobre esses aspectos à Elsevier e que a editora teria lhe dado respostas evasivas, questinando seu interesse pelo assunto.

Enquanto não surge uma resposta pública a essas questões, surgem até propostas de boicote às assinaturas aos periódicos, como a que foi feita pelo matemático Ben Webster, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Fora da Europa, a assinatura anual da CS&F custa U$ 4.520 para bibliotecas de instituições de pesquisa, mas esse valor diminui incluída em um pacote com outraspublicações.Em seu texto “L’affaire El Naschie” (30/11), publicado no Secret Blogging Seminar, um blog produzido por oito pesquisadores, a maioria deles da Universidade da Califórnia em Berkeley, Webster atacou também a base de dados Science Citation Index, que registra as citações de artigos publicados nos periódicos por ela credenciados.

Os índices do SCI são consagrados como critérios de avaliação de impacto, na comunidade científica internacional, não só de revistas e papers, mas também de autores e, por extensão, de suas instituições. Foi em vista disso e de toda essa crise que eu afirmei na postagem de ontem que ela pode ser interpretada como uma contrapartida involuntária do escândalo provocado propositalmente em 1996 pelo físico Alan Sokal, que extrapolou o escopo da crítica feita por ele e até hoje é usado indevidamente como argumento para menosprezar a credibilidade das humanidades. Vale lembrar que Baez considerou um dos artigos de El Naschie “bem menos sofisticado que os dos irmãos Bogdanoff”, comparado por ele em 2006 como um reverso do affaire Sokal.*

Em meio à elevação da temperatura dessa crise, o texto de Philip Davis se destaca como uma saudável provocação para usá-la como pontode partida para refletir com mais profundidade sobre as relações do mundo da ciência, principalmente aquelas que são ofuscadas pela engrenagem e pela banalização do dia-a-dia. Ele chama a atenção para aspectos sociológicos com claras implicações práticas. Ao comentar como o sistema da ciência reaje ao ser testado e cutucado e como as lideranças científicas se comportam sob pressão, Davis destaca também que crises como o caso El Naschie revelam normas não escritas que dirigem a conduta da instituição ciência.

* O texto sublinhado foi acrescentado às 23h59.

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Outras postagens sobre o mesmo assunto:

“Canadense revela conexão chinesa no escândalo de revista científica”, 09/12/2008

“Periódico é acusado de pseudociência e favorecimento”, 01/12/2008

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 02/12/2008 at 7:24

Periódico é acusado de pseudociência e favorecimento

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O físico e engenheiro egípcio Mohamed Saladin El Naschie está no centro de uma crise que ameaça a credibilidade dos sistemas de avaliação de publicações e de carreiras científicas. Na semana passada, a matéria “Self-publishing editor set to retire”, da Nature News, informou que ele deixará o cargo de editor da revista Chaos, Solitons & Fractals (CS&F). Nos últimos dez anos, ele publicou 322 artigos de sua autoria e obteve milhares de citações, quase todas feitas por ele mesmo aos seus próprios trabalhos.

Essa crise foi desencadeada por várias acusações de autofavorecimento e de publicação de trabalhos pseudocientíficos, feitas em blogs de especialistas nas últimas semanas a El Naschie e à CS&F. Mas essas críticas não se restrigem ao físico egípcio e ao seu periódico. Elas atingem também o centenário e mundialmente consagrado grupo editorial Elsevier, sediado em Amsterdam, que publica a CS&F. Mas ainda não puseram na linha de tiro a seletíssima base de dados onde ela está registrada, o Science Citation Index.

Numerologia indisciplinada

A crise começou em 03/11 no blog comunitário The n-Category Café, com um comentário do físico teórico croata Zoran Škoda a uma postagem de seu colega físico-matemático John Baez, da Universidade da Califórnia em Riverside. Radicado nos EUA na Univesidade de Wisconsin, Škoda disse, em meio à discussão sobre outro assunto, que “um certo Naschie” publicava trabalhos com graves inconsistências, e que o fazia por meio de um número elevados de papers de sua autoria na própria revista que edita.

Em 06/11, Baez apresentou no blog suas investigações sobre o assunto trazido pelo colega croata. Na postagem “The case of M. S. El Naschie”, ele disse ter notado a previsão da publicação na edição de dezembro — agora consumada — de cinco artigos de autoria exclusiva de Naschie na CS&F. Um deles lhe chamou a atenção pelo exotismo do título: “Anomalies free E-infinity from von Neumann’s continuous geometry”:

Esse paper consiste em uma numerologia indisciplinada engrossada com frases de efeito. Ele começa com uma referência às geometrias contínuas de Von Neumann e ao trabalho de Alain Connes, mas não faz nenhum uso dessas idéias. “E-infinity” é aparentemente o nome da “teoria” de Naschie, mas ele não a descreve. Em outras palavras, o título e o resumo têm muito pouco a ver com o conteúdo do paper. (…) O fato de que a Elsevier teria deixado Naschie editar essa revista e publicar um grande número de artigos como esse mostra que o sistema de monitoramento de seus jornais está falho [is broken]. O fato de essa revista custar US$ 4.520 por ano seria hilário se ela não fosse realmente comprada por bibliotecas — a uma taxa reduzida, em um pacote com outras publicações da Elsevier, mas até agora! (…) Por que a Elsevier deixou El Naschie se tornar editor-chefe dessa revista?

Também referindo-se à CS&F, o matemático Richard Elwes, pós-doutorando na Universidade de Freiburg (Alemanha), especialista em lógica e teoria dos modelos, disse em seu blog pessoal:

Talvez o editor-chefe dessa revista, Mohammed El Naschie, deva começar a prestar atenção. A Elsevier é a maior editora do mundo de periódicos científicas, e eles não são de modo nenhum universalmente amados por isso. Essa revista tem aspectos pseudocientíficos.

Autocitações

Em relação aos artigos publicados por El Naschie, ao todo 322, os dados sobre eles impressionam mesmo quando obtidos somente na base de dados Web of Knowledge, da qual faz parte o Science Citation Index. Nesse sistema mais restrito ele aparece com 268 trabalhos, dos quais 246 publicados na própria CS&F. Outros 19 foram publicados na International Journal of Nonlinear Sciences and Numerical Simulation. Acontece que essa publicação, como observou Baez, é editada por Ji-Huan He, da Universidade Donghua, em Xangai. Ele, que também integra o comitê editorial da CS&F como editor regional na China, apontou El Naschie como “um dos maiores cientistas deste século, desde Newton e Einstein”.

Sem considerar os registros de outras bases de dados, o físico egípcio tem no Web of Science o total de 3.050 citações. Na relação obtida por ordem decrescente de citações, o primeiro artigo que aparece é “A review of E infinity theory and the mass spectrum of high energy particle physics”, com o total de 236. As citações a vários desses artigos, quando não são dele próprio, são feitas em artigos publicados na revista editada por ele ou na de Ji-Huan He.

Escolhi, entre os artigos mais citados de Naschie, um que não tivesse quase todas as citações feitas por ele mesmo; “Elementary prerequisites for E-infinity (Recommended background readings in nonlinear dynamics, geometry and topology)”, com 74 menções, das quais 39 (52,7%) foram feitas por ele mesmo. Mas 62 delas (83,8%) foram feitas em artigos publicados na CS&F; outras 10 foram feitas na revista de Ji-Huan He. Apenas duas citações foram feitas em outras publicações, sendo uma delas desse mesmo editor chinês, que fez outras três das 74 citações.

‘Picaretagem’

Enquanto a Elsevier e a Web of Knowledge não fazem um pronunciamento público sobre o caso El Naschie e a CS&F, físicos blogueiros investigam os registros na internet sobre ele e a revista. Baez, por exemplo, já ressaltou que o nome do colega egípcio foi retirado de dois papers postados na rede arXiv.org. Škoda afirmou ter obtido a confirmação de que ele não tem mais vínculo com instituições que aponta como referência, como a Universidade Johann Wolfgang von Goethe, em Frankfurt.

Na galeria de imagens de seu website e também em um vídeo no Youtube, El Naschie mostra fotos em que ele aparece ao lado de alguns dos ganhadores do Nobel de Física. Mas o blog de Baez já tem comentários que sugerem que esses físicos premiados não mantêm relações com o editor da CS&F.

No Brasil, essa corrente já aconteceu pelo menos no blog Física, do Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense, com a postagem “Picaretagem em periódico da Elsevier”, de 17/11, onde o doutorando Rodrigo M. Pereira destacou um “Detalhe pitoresco: no blog do Baez apareceram alguns defensores do El Naschie, todos com nomes anglo-saxões, inglês meio macarrônico e IPs situados no Cairo….”.

Para muitos intelectuais pós-modernos e seus seguidores, essa crise pode ser interpretada como uma contrapartida involuntária do escândalo provocado em 1996 pelo físico Alan Sokal, usado até hoje como argumento contra a credibilidade de consagrados pesquisadores franceses e da esquerda norte-americana. O estrago involuntário na imagem das hard sciences pode ser muito maior do que aquele propositalmente provocado contra algumas correntes das humanidades por Sokal com seu artigo-armadilha que ele mesmo revelou ser uma farsa logo após ser publicado na revista Social Text. Uma coisa é mostrar que um periódico pode aceitar um texto carregado de equívocos conceituais. Outra coisa é uma revista científica da Elsevier indexada na Web of Knowledge ter seu editor incólume durante dez anos fazendo o que fez El Naschie.

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Outras postagens sobre o mesmo assunto:

“Saída de editor não esfria caso de pseudociência e favorecimento”, 02/12/2008

“Canadense revela conexão chinesa no escândalo de revista científica”, 09/12/2008

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 01/12/2008 at 4:51

Laboratório remove link de ‘partícula-fantasma’

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Este é apenas um registro de mais um fato curioso relacionado aos acontecimentos relatados neste blog em “A partícula-fantasma e o conselho de ‘Deep Throat’” (08/11/2008). O link para o paper sobre o experimento — que para alguns seria o prenúncio de grandes novidades na física — não está mais na página de publicações e pré-prints do site do Fermilab (Laboratório-Acelerador Nacional Fermi). No entanto, ele continua acessível na rede arXiv.org, que armazena dados sobre artigos e pré-publicações científicas e é gerenciada pela Universidade Cornell com apoio da Fundação Nacional da Ciência, dos Estados Unidos.

Só para lembrar os fatos anteriores que aguçam a curiosidade: 1) o relato de um experimento é redigido e disponibilizado na rede arXiv.org muito rapidamente para os padrões acadêmicos; 2) um terço dos cerca de 600 cientistas que habitualmente assinam os artigos sobre trabalhos desse centro não o fez dessa vez; 3) os resultados obtidos são noticiados pela revista britânica New Scientist como possibilidade de descoberta de uma nova partícula, destacando que o bilionário complexo LHC (Grande Colisor de Hádrons), na Suíça, não consegue dar seus primeiros passos; 4) surge, dez dias depois do primeiro relato, uma segunda versão sem os nomes de 38 dos 405 físicos signatários da anterior. E, como pano de fundo, a situação de crise financeira do Fermilab.

Uma discussão acirrada entre físicos sobre esse experimento e seus papers surgiu em blogs de especialistas desde a publicação do primeiro, em 29/10/2008. O blog A Quantum Diaries Survivor, do italiano Tommaso Dorigo, do Instituto Nacional de Física Nuclear, em Pádua, foi palco dos principais tiroteios. Perguntei em particular por e-mail a um dos debatedores por que eles não estavam até então comentando a retirada das 38 assinaturas, e ele me disse que isso seria “má publicidade” para o Fermilab, que “enfrenta dificuldades”.

Em meio a essas discussões, nas quais muitos físicos se esforçaram a todo custo para justificar hipóteses sobre o experimento da discórdia, Dorigo — que foi acusado de fazer “críticas não-construtivas” — citou uma frase interessante do grande físico e matemático britânico Freeman Dyson:

O dever profissional de um cientista confrontado com uma teoria (ou dados) nova e empolgante é tentar provar que ela está errada. É desse modo que a ciência funciona. Esse é o caminho que faz a ciência permanecer honesta. A crítica é absolutamente necessária para permitir uma compreensão melhor.

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Written by Mauricio Tuffani

sexta-feira, 21/11/2008 at 13:35

A partícula-fantasma e o conselho de ‘Deep Throat’

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Sala do centro de controle do Tevatron, no Fermilab

“Siga o dinheiro.” Esse conselho, dado pelo informante “Deep Throat” ao repórter Bob Woodward durante as reportagens investigativas do escândalo Watergate, precisa ser seguido também pelos jornalistas da área de ciência. Inclusive quando se trata de seguir quem não tem, mas busca dinheiro.

Na semana passada (03/10/2008), a edição online da revista britânica New Scientist noticiou que enquanto o bilionário complexo LHC (Grande Colisor de Hádrons), na Suíça, não consegue dar seus primeiros passos, experimentos com resultados surpreendentes teriam sido obtidos no velho acelerador de partículas Tevatron, dos Estados Unidos. Faltou, entre outros aspectos, observar não só que o paper com esses resultados foi posto na internet rápido demais para os padrões acadêmicos, mas também que uma boa notícia cai bem nesta hora para o projeto americano, que tem sofrido muito com a falta de recursos.

Ao começar a escrever este parágrafo, procurei novamente o link do paper acima citado para usá-lo nesta postagem, e percebi que ele já tem uma segunda versão. O que é normal, pois sempre há correções a serem feitas. No entanto, a alteração que salta aos olhos está na relação de autores: na primeira versão, datada de 29/10/2008, eram 405 pesquisadores, ao passo que a segunda, de hoje (08/10/2008), tem 367 signatários. Em outras palavras, 38 físicos deixaram de endossar o relatório. Já no mesmo dia em que a New Scientist veiculava a matéria elogiosa, a edição online da Nature informava que o experimento havia sido acompanhado por cerca de 600 físicos, o que significa que aproximadamente um terço deles já havia decidido não assinar a primeira versão (“Spectral particles spook physicsts”).

Desconfiança

No Brasil, a notícia foi repercutida pela Folha de S. Paulo, que chamou a atenção para o fato de que muitos dos participantes do experimento não o endossaram. A reportagem “Partícula ‘fantasma’ surge em colisão em acelerador nos EUA” (05/10/2008) também entrevistou um especialista brasileiro que se mostrou com desconfiança em relação ao resultado anunciado. Na verdade, não apareceu uma partícula estranha, mas muitas outras já conhecidas (múons) sem que, no entanto, fosse identificada a fonte delas.

Uma hipótese provável para o fenômeno é a desintegração de um corpúsculo desconhecido durante as colisões no Tevatron. No dia seguinte à publicação da primeira versão, Ilias Cholis, do Centro de Cosmologia e Física de Partículas da Universidade de Nova York, e mais três colaboradores disponibilizaram na rede um paper sobre outro estudo, no qual formulam hipóteses, baseadas na postulação de uma nova partícula, para a chamada matéria escura do Universo.

No dia 31, em plena comemoração do Halloween, que dava um toque especial à suposta “partícula-fantasma”, o físico italiano Tommaso Dorigo — que já trabalhou no Tevatron e atualmente é pesquisador do Instituto Nacional de Física Nuclear, em Pádua — criticou em seu blog A Quantum Diaries Survivor os dois estudos. E também apontou a pressa nas publicações. Com isso, a história começou a fever na blogosfera.

Demissões

O Tevatron pertence ao Fermilab (Laboratório-Acelerador Nacional Fermi), localizado em Batavia, perto de Chicago. No início deste ano, o centro começou a passar por dificuldades financeiras com o corte de US$ 52 milhões. Junto com o Laboratório Nacional Argonne, também da região, são empregados cerca de 5 mil pesquisadores, dos quais cerca de 200 já haviam sido demitidos antes do Natal de 2007, segundo a reportagem “Argonne, Fermilab lick wounds after fierce federal budget fight”, do jornal Chicago Tribune, em 20/01/2008.

Em julho, o Fermilab conseguiu evitar cerca de 80 demissões com o aporte federal de US$ 62,5 milhões para todos os laboratórios do Departamento de Energia, mas a continuidade de vários projetos continua com sérias restrições, de acordo com o diário The New York Times (“New money prevents layoffs at Fermilab”, 03/07/2008).

Sejam quais forem as reais circunstâncias do relatório pré-Halloween do Tevatron e do estudo liderado por Cholis, não se pode descartar a possibilidade de que eles venham a render importantes conclusões para a ciência. O problema, aqui, diz respeito muito mais aos jornalistas do que aos cientistas. Era importante ressaltar a situação de extrema necessidade de recursos. Em outras palavras, o conselho de “Deep Throat”, que vale para todas as áreas da cobertura jornalística: “Follow the money”. E, agora, na nova versão: “Follow who follows the money”.

PS — Mais ou menos relacionado a esse tema, este blogueiro escreveu em 2006 o artigo “A clonagem das notícias de ciência” (Revista Comciência, Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo Científico, Universidade Estadual de Campinas, fevereiro de 2006).

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 08/11/2008 at 18:26

O jornalismo científico e as duas culturas

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Há mais esqueletos no armário do chamado jornalismo científico do que supõe nossa vã crítica da mídia especializada em ciência. Não há como fugir dessa conclusão hamletiana o profissional de imprensa dessa área que, com um mínimo de senso crítico, tenha lido a matéria da Folha “A hélice dupla e as duas culturas”, publicada em 1º/04 no suplemento dominical “Mais!”.

A reportagem se refere ao debate realizado no auditório da Folha de S. Paulo no dia 27/03, com o lançamento do livro Promessas do genoma, do jornalista e cientista social Marcelo Leite. Além do autor do livro, que também é colunista da Folha, participaram do debate a geneticista Mayana Zatz, da USP, o biólogo molecular Gonçalo Pereira, da Unicamp, e o filósofo da ciência Hugh Lacey, do Swarthmore College (EUA).

Ao registrar o evento, a matéria ressaltou com pertinência aquilo ao qual o escritor britânico Charles Percy Snow (1905-1980) se referiu, em sua famosa conferência de 1959 na Universidade de Cambridge, depois convertida em livro, como o hiato entre “as duas culturas”, ou seja, o abismo existente entre os estudiosos das ciências naturais e da tecnologia e os das artes e das humanidades.

Mas, nos termos em que foi apresentada na reportagem, a retórica dos representantes das ciências naturais nesse debate traz um sinal de alerta para a cultura hegemônica da cobertura jornalística nas áreas de ciência, tecnologia, saúde e meio ambiente. O primeiro desses sinais vem das seguintes palavras da geneticista da USP no debate, transcritas pela matéria da Folha, ao se referir a cientistas envolvidos em projetos de longo prazo que exigem grandes somas de recursos:

Quem coloca a mão na massa sabe quais são as limitações. Às vezes, você realmente tem de vender o peixe quando precisa de financiamento. Não adianta você dizer: “Olha, vou ficar 20 anos seqüenciando para talvez chegar a um resultado”. A gente tenta dourar um pouquinho a pílula. Mas sabemos que as limitações são enormes e temos um longo caminho pela frente.

Ao transcrever essas declarações, a reportagem informa que “o sentido social e até ético da função deles [os pesquisadores das ciências naturais] era levado sempre para o individual”. Em sua tese de doutoramento de 2005 na Unicamp, na área de sociologia da ciência, que tomou forma no livro que foi tema do debate, lançado recentemente pela Editora Unesp, Marcelo Leite caracteriza de forma inequívoca a “mobilização retórica e política, nas interfaces com a esfera pública leiga, de um determinismo genético crescentemente irreconciliável com os resultados empíricos obtidos no curso da própria pesquisa genômica”.

O livro evidencia também o recurso crescente por parte de cientistas em publicações especializadas, com a função de suporte a um programa hegemônico de pesquisa, a justamente aquilo que muitos pesquisadores sempre criticaram em jornalistas: não só as metáforas no trabalho de divulgação, mas até mesmo hipérboles, pondo em prática um sensacionalismo dirigido a resultados. “Reduzir o sensacionalismo é algo para o jornalista fazer”, disse no debate o biólogo molecular Gonçalo Pereira, segundo a matéria da Folha.

Marcelo Leite mostra que ao anunciarem em janeiro de 2001 a reta final para o sequenciamento do genoma humano e solicitarem recursos dos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido, os cientistas norte-americanos e britânicos que participaram do projeto levaram o presidente Bill Clinton e o primeiro-ministro Tony Blair a comprarem um empreendimento com base naquilo que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, chamou apropriadamente de “propaganda científico-mediática enganosa”, em sua resenha “A ciência transcendental”, na mesma edição da citada matéria da Folha.

Longe de querer alimentar a controvérsia entre jornalistas e cientistas, não é nosso foco aqui, apesar da extensão do intróito acima, o que pode ser considerado criticável nos pesquisadores — tarefa da qual Marcelo Leite já se encarregou implacavelmente com a dissecação do tema em sua obra. O foco é a parte que cabe à imprensa nesse tema. O que está aqui em questão diz respeito à quase totalidade dos veículos e profissionais de imprensa especializados em ciência.

Para assegurar a credibilidade dos empreendimentos científicos que divulgam, a maioria dos jornalistas que cobrem essa área adotou há algumas décadas a prática de presumir como informações fidedignas aquelas que são prestadas pelas publicações científicas que contam com comitês consultivos independentes.

Já havíamos criticado em outro artigo (“A clonagem das notícias de ciência”, ComCiência, Labjor/Unicamp, fevereiro de 2005) esse procedimento de certificação consagrado pelo jornalismo científico, uma vez que muitas publicações científicas “expandiram seu público-alvo para além dos limites da comunidade acadêmica, abrindo espaço para influenciar comunicadores, formadores de opinião e tomadores de decisão, elas passaram a servir como palco para campanhas institucionais e disputas internas por poder e recursos”.

É nesse sentido que a douração da pílula de olho no cheque acaba pondo em xeque o modelo hegemônico de jornalismo científico, que se caracteriza, acima de tudo, pela renúncia não só à disciplina da verificação por meio da busca do contraditório — que é a essência do jornalismo —, mas também ao trabalho investigativo.

No debate, Gonçalo Pereira afirmou, de acordo com a reportagem, que “a sobrevivência na face da Terra depende totalmente do conhecimento que teremos da biotecnologia”. Diante de uma ciência que tem essa auto-imagem triunfalista, não basta o rigor da ética jornalística para entender que se faz necessária a busca do contraditório e para ver a possibilidade de algum trabalho jornalístico investigativo. É preciso, dentro do próprio jornalismo científico, superar o abismo entre as duas culturas, apontado por Snow.

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 02/04/2007 at 8:32

Lições da fraude dos clones

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No dia de Natal deste ano, o repórter Nicholas Wade afirmou no jornal The New York Times que a comunidade científica passou a ficar na defensiva com a confirmação de fraude no estudo que mais esperanças trouxe em 2005 para os pesquisadores da área de biotecnologia. No entanto, a divulgação da falsa clonagem de células-tronco embrionárias humanas pelo sul-coreano Hwang Woo-suk, da Universidade Nacional de Seul, precisa também ser motivo de reflexão e de preocupação por parte da imprensa que cobre a área de ciência.

A repercussão mundial do relatório divulgado por Hwang na revista científica norte-americana Science havia estimulado o Ministério da Ciência e Tecnologia sul-coreano a investir US$ 65 milhões no laboratório do pesquisador, guindado à posição de herói nacional e de celebridade internacional. Para 2006, já haviam sido prometidos mais US$ 15 milhões pelo Ministério da Saúde e do Bem-Estar Social para a criação do Centro Mundial de Célula-Tronco, no qual técnicos de Hwang clonariam células humanas para clientes científicos no exterior, como destacou Wade na reportagem “Clone Scientist Relied on Peers and Korean Pride” (The New York Times, 25/dez/2005).

As importantes revistas científicas que estavam em disputa pela publicação dos trabalhos de Hwang estão agora reexaminando seus procedimentos de avaliação, afirmou Wade. Mas, no que se refere à imprensa, outros procedimentos vinham sendo adotados por líderes da pesquisa nessa área, como bem mostrou na véspera de Natal em seu comentário Células de decepção em massa, na Folha, e em seu blog Ciência em Dia o jornalista Marcelo Leite:

Nos mesmos dias em que pipocava o escândalo, um grupo de bambambãs da biotecnologia publicou uma carta no sítio www. sciencexpress.org defendendo, com palavras escolhidas a dedo, o afastamento da imprensa leiga.

“Acusações feitas pela imprensa sobre a validade dos experimentos publicados na Coréia do Sul são, em nossa opinião, mais bem-resolvidos na comunidade científica”, escreveram os oito autores da correspondência. Entre eles estão Ian Wilmut e Alan Colman, dois dos “pais” da ovelha Dolly.

Essa aplicação da Lei de Ricúpero (“o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”) no plano da divulgação científica, como bem destacou Leite, mostra mais uma vez a necessidade de os profissionais do chamado jornalismo científico refletirem sobre a ênfase que geralmente dão ao papel de tradução que atribuem à sua atividade.

A comparação com personagens do noticiário de outras áreas do jornalismo pode, para muitos pesquisadores, parecer injusta e até ofensiva, principalmente aqui no Brasil, onde são muitas as atividades de pesquisa que só têm continuado graças à persistência e à abnegação de suas equipes. Mas não há como deixar de lado o fato de que há conflitos e disputas acirradas entre os diversos grupos de pesquisa, principalmente quando estão envolvidos recursos financeiros.

Reflexões sobre esse tema já haviam sido propostas há algum tempo aqui no Brasil por Mônica Teixeira [“Pressupostos do Jornalismo de Ciência no Brasil”. in MASSARANI, L. ET AL (orgs.) Ciência e Público: Caminhos da divulgação científica no Brasil. Casa da Ciência, UFRJ. Rio de Janeiro. 2002. pp. 133-141] e por mim (O fogo cruzado no jornalismo de ciência, ComCiência, 10/jul/2003). Recentemente, o assunto foi muito bem colocado por Martha San Juan França em seu artigo “Divulgação ou jornalismo?” [in VILAS BOAS, S. (org.) Formação e informação científica: Jornalismo para iniciados e leigos. Summus Editorial. São Paulo. 2005. pp. 31-47]:

Enquanto repórteres de política e economia freqüentemente vão além dos releases oficiais para comprovar a veracidade das notícias, os colegas de ciência se contentam com a informação autorizada, os papers (relatórios científicos), entrevistas coletivas e revistas especializadas. Enquanto as notícias de outras áreas são normalmente objeto de crítica, a ciência e a tecnologia são poupadas – até que ocorram acidentes trágicos. Se bons jornalistas são reconhecidos – e temidos – por suas análises críticas, no caso de ciência, a investigação e a crítica costumam passar longe.

Em grande parte das notícias de ciência não existe o contraditório. Ao se divulgar um trabalho científico sem citar outras conclusões ou visões sobre o mesmo assunto dá-se a impressão ao leitor de que aquele constitui uma verdade absoluta. O papel do jornalista acaba não sendo muito diferente daquele que seria de um assessor de imprensa do pesquisador que deu a entrevista. E o resultado confunde e lança dúvidas na própria pesquisa. Café faz bem ou faz mal? A dieta A é melhor do que a dieta B? O mundo está ficando mais quente? Cada pesquisa diz uma coisa diferente, mas todas são divulgadas como respostas absolutas para a questão.

A questão está colocada novamente. E, desta vez, de forma muito preocupante.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 27/12/2005 at 7:39

Não deixem de ler: ‘Células de decepção em massa’

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Para os que não leram a edição de sábado da Folha de S. Paulo (24/12), ainda é possível ler no blog Ciência em Dia o excelente comentário do jornalista Marcelo Leite, “Células de decepção em massa”, sobre a fraude do sul-coreano Woo-Suk Hwang com o anúncio da clonagem de células-tronco embrionárias humanas.

O comentário é imperdível até mesmo para aqueles que acompanharam o caso por meio de veículos de imprensa estrangeiros. Simplesmente por que Marcelo fez aquilo que a imprensa renuncia habitualmente a fazer, que é ir além do mero registro das posições dos “dois lados” envolvidos. OK, houve jornalistas que contextualizaram o assunto, mas, na chamada grande imprensa, só ele mostrou como muitos membros da comunidade científica reagem à exposição de suas mazelas — com a Lei de Ricúpero (“o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”):

Na hora do oba-oba, a imprensa veio bem a calhar, pois ajudou a aprovar verbas para pesquisa. Na hora em que essa mesma imprensa lanceta o tumor, pedem que se afaste para que a comunidade científica enfim cumpra a sua obrigação, tendo já falhado uma vez.

Recomendo a leitura do comentário no Ciência em Dia e, para os mais interessados, o registro do link direto de “Células de decepção em massa”.

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 26/12/2005 at 13:26