Laudas Críticas

Archive for the ‘Ciência’ Category

‘Doutores mal treinados formam novos doutores’

Um dos mais renomados bioquímicos do Brasil, Lewis Joel Greene, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, chamou a atenção para avaliar a influência dos rumos da pós-graduação do país no quadro de estagnação da qualidade da produção científica brasileira, apesar do seu crescimento quantitativo.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 27/01/2015 at 16:36

Receita de sucesso acadêmico para intelectos preguiçosos

O lógico e matemático Adonai Sant’Anna, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicou ontem em seu blog dois posts sobre assuntos altamente intrigantes. Um deles trata de uma questão crítica no âmbito da física, mas deixarei para comentar depois esse tema. Hoje quero apenas repercutir o outro post, “Conquistando respeito acadêmico sem esforço”.

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domingo, 28/12/2014 at 9:54

A dialética de Aldo Rebelo e o clima global

A notícia da escolha de Aldo Rebelo (PC do B-SP) pela presidente Dilma Rousseff para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) chegou a ser interpretada na terça-feira (23) nas redes sociais como um possível trote ou “pegadinha”. Em que pese sua experiência na política e na administração pública, o deputado federal, que está licenciado desde 2011 para ocupar a pasta do Esporte, tem no seu histórico registros um tanto conflitantes com atribuições do órgão que comandará a partir de 1º de janeiro.

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quinta-feira, 25/12/2014 at 12:20

Um alerta de 1977 para a crise da água

Paulo Nogueira Neto, professor de ecologia da USP e ex-secretário especial do Meio Ambiente do governo federal de 1974 a 1986, em entrevista ao Canal Brasil em 2012. Imagem: Canal Brasil/Reprodução

Paulo Nogueira Neto, professor de ecologia da USP e ex-secretário especial do Meio Ambiente do governo federal de 1974 a 1986, em entrevista ao Canal Brasil em 2012. Imagem: Canal Brasil/Reprodução

“Água de São Paulo está no fim, diz Nogueira Neto” foi o título de uma reportagem da Folha há 37 anos. A matéria, na edição de 25 de maio de 1977 (Primeiro Caderno, pág. 12), noticiava o alerta de Paulo Nogueira Neto, professor de ecologia da USP e titular da Sema (Secretaria Especial do Meio Ambiente), do governo federal, que comandou de 1974 a 1986.

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quinta-feira, 13/11/2014 at 15:18

A pesquisa no Brasil e em SP (parte 3)

Apesar do crescimento de pólos de pesquisa científica de bom desempenho fora das três universidades estaduais paulistas, a média da qualidade do Brsil é a mesma de 2003. Obviamente, se na média do país todo houve estagnação e alguns centros melhoraram, em outros a situação piorou.

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quarta-feira, 15/10/2014 at 11:37

A pesquisa no Brasil e em SP (parte 1)

A Folha publicou nesta segunda-feira (13.out) minha reportagem “Produção científica no Brasil fica menos concentrada em SP”. É a primeira vez que a imprensa apresenta dados comparativos da quantidade e da qualidade da publicação de artigos científicos anualmente de 1981 a 2013 de todo o Brasil e das três universidades estaduais paulistas, que são a USP, Unicamp e Unesp.

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segunda-feira, 13/10/2014 at 6:48

Newton da Costa e a lógica da liberdade

O matemático brasileiro Newton da Costa, em foto de 1973, em Berkeley, nos Estados Unidos. Imagem: George M. Bergman/Berkeley

O matemático brasileiro Newton da Costa, em foto de 1973, em Berkeley, nos Estados Unidos. Imagem: George M. Bergman/Berkeley

Nesta terça-feira, 16 de setembro, completa 85 anos de idade um dos matemáticos brasileiros de maior projeção internacional, o curitibano Newton Carneiro Affonso da Costa. Desenvolvidos no início dos anos 1950, seus primeiros trabalhos resultaram na elaboração de um novo capítulo na história da lógica, trazendo desdobramentos não só para a matemática, mas também para outras ciência, como a física, a economia, a computação, além da própria filosofia.

O Brasil mal o conhece, mas ele nunca desperdiçou seu tempo pensando nisso.

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terça-feira, 16/09/2014 at 14:46

Diferenças cerebrais entre exatas e humanas

Cena do seriado humorístico "The Big Bang Theory", com o físico teórico "nerd" Sheldon Cooper, representado pelo ator Jim Parsons. Imagem: Reprodução

Cena do seriado humorístico “The Big Bang Theory”, com o físico teórico “nerd” Sheldon Cooper, representado pelo ator Jim Parsons. Imagem: Reprodução

De um lado, as ciências exatas, naturais e engenharias, inclusive as novas disciplinas tecnológicas. De outro, as letras, artes e ciências humanas. Entre os cérebros de estudantes desses dois campos existem diferenças estruturais, segundo um estudo de neurocientistas japoneses publicado na semana passada (quinta-feira, 31.jul) pela revista científica “Brain Structure & Function”. O trabalho também apontou semelhanças cerebrais entre o primeiro grupo e autistas.

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quarta-feira, 06/08/2014 at 15:15

Publicado em Ciência, Comportamento

Economia, biodiversidade e jornalismo investigativo

O jornalista de ciência e blogueiro Maurício Tuffani, o economista Sérgio Besserman Viana e o jornalista André Trigueiro, no debate “Economia, sociedade e biodiversidade em crise”, no 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, em São Paulo. Imagem: Alice Vergueiro/Abraji/Divulgação

O jornalista de ciência e blogueiro Maurício Tuffani, o economista Sérgio Besserman Viana e o jornalista André Trigueiro, no debate “Economia, sociedade e biodiversidade em crise”, no 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, em São Paulo. Imagem: Alice Vergueiro/Abraji/Divulgação

Um dos grandes desafios para a preservação do meio ambiente no brasil e também para o jornalismo investigativo nesse campo é a quase total desconsideração do tema da diversidade biológica em estudos e na formação em economia. Essa foi a mensagem principal do debate “Economia, sociedade e biodiversidade em crise”, entre o economista Sérgio Besserman Vianna e o jornalista André Trigueiro, em que atuei como mediador no sábado (26.jul), no 9º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, em São Paulo.

Leia o post completo em meu blog na Folha de S. Paulo.

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terça-feira, 29/07/2014 at 9:54

Alimentação influencia relógio biológico, diz estudo japonês

"Petit dejeuner", by Rama

“Petit dejeuner”, by Rama

Além de prover nutrientes, água e energia para os seres vivos, a alimentação também atua na regulação do ritmo biológico dos organismos, concluiu um estudo realizado no Japão, a ser publicado na edição deste mês da revista científica norte-americana “Cell”.

Leia a reportagem completa no site da Folha de S. Paulo.

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sábado, 19/07/2014 at 8:43

Publicado em Ciência, Pesquisa

O mistério da quase-morte

Imagem: Jesse Krauss/Wikimedia Commons

Imagem: Jesse Krauss/Wikimedia Commons

A tranquilidade foi a característica mais frequente em cerca de 90% dos relatos de experiências de quase-morte em um estudo recente. E muitas vezes com direito à visão de luz no fim de um túnel. Apenas dois relatos, menos de 1% do total, foram de experiências marcadamente negativas.

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sexta-feira, 27/06/2014 at 15:43

Pré-programa de governo do PT empobrece papel da inovação

Marco Aurélio Garcia, Assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais (Imagem: Alan Marques/Folha Press)

Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais (Imagem: Alan Marques/Folha Press)

O trecho que aborda ciência, tecnologia e inovação nas diretrizes do programa de governo do PT não deve ter sido devidamente avaliado por especialistas do próprio partido sobre essa área. Motivada pelo objetivo de “incremento da produtividade” da economia brasileira, a diretriz petista para a política nacional de pesquisa e desenvolvimento (P&D) desconsidera a importância da inovação para o aumento da competitividade de produtos e serviços nos mercados interno e externo.

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quarta-feira, 30/04/2014 at 20:57

Código Florestal anistia 58% de áreas devastadas, diz Science

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Queimada em São Félix do Xingu, no Pará (Foto de Valter Campanato/Agência Brasil)

O impacto das alterações vigentes a partir de maio de 2012 no Código Florestal brasileiro, que comentei na semana passada, é assunto de uma pesquisa publicada na edição desta semana da revista Science, que é editada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência.

Estabelecida pela nova lei, a anistia da obrigação de proprietários de imóveis rurais restaurarem áreas em que houve desmatamentos ilegais até 2008 reduziu de 5o milhões para 21 milhões de hectares, ou seja, em 58%, a extensão total da superficie a ser recuperada.

Liderada por Britaldo Soares Filho e Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a pesquisa teve a participação de cientistas do Woods Hole Research Center, dos Estados Unidos.

Mais informações sobre esse estudo estão em

Cientistas ‘despublicam’ artigo e alegam que o motivo foi ‘negócios’

Cristal de carbeto de silício do Laboratório de Materiais de Grenoble, França (Foto: David Monniaux sob licença livre Wikimedia Commons)

Cristal de carbeto de silício do Laboratório de Materiais de Grenoble, França (Foto: David Monniaux, sob licença livre Wikimedia Commons)

A explicação dada por cinco pesquisadores japoneses ao recolherem um trabalho científico que eles haviam publicado em dezembro certamente deve ter provocado comparações com uma famosa conversa do filme “O Poderoso Chefão” (1972). Na nota em que anuncia a remoção de seu site do estudo sobre um composto de silício, a revista Journal of Chrystal Growth afirma que a razão do pedido dos autores para a retirada foi uma decisão de negócios (“business decision”) de seu patrão.

Associadas ao constrangimento que há em toda retratação científica, essas palavras lembram, como piada pronta, a explicação do mafioso Solozzo ao jovem Michael Corleone, por ter matado seu pai, Don Corleone: “I am sorry. What happened to your father was business.” (Sinto muito. O que aconteceu com seu pai foi negócio.)

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quinta-feira, 24/04/2014 at 16:35

O ‘Brasil improdutivo’ e seu bloqueio na inovação

Engarrafamento na Marginal do Tietê, em São Paulo (Imagem: Alexandre Moreira/FolhaPress)

Desde a semana passada não faltaram na imprensa e nas redes sociais manifestações de indignação discordantes e lições de moral concordantes sobre as afirmações “brasileiros são gloriosamente improdutivos” e “para que a economia cresça, eles devem pular fora de sua letargia”, da revista britânica “The Economist”. Em meio às reações à reportagem “50 anos de soneca”, que destacou engarrafamentos, longas filas, prazos não cumpridos e atrasos, pouca atenção foi dada a um fator que se torna cada vez mais crucial para o desenvolvimento econômico: a inovação, atividade em que o desempenho do Brasil tem sido inferior ao de outros países latino-americanos e caribenhos.

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terça-feira, 22/04/2014 at 22:10

Tiradentes, as prostitutas e a Inconfidência

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Aurélio de Figueiredo, "Martírio de Tiradentes"

Aurélio de Figueiredo, “Martírio de Tiradentes”

“Tiradentes, as prostitutas e outra história do herói da Inconfidência Mineira” é o título do artigo de André Figueiredo Rodrigues, professor do Departamento de História do campus de Assis da Unesp e autor de “A fortuna dos inconfidentes: caminhos e descaminhos dos bens de conjurados mineiros, 1760-1850”. Nesse artigo ele conta que em Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, um dos assíduos frequentadores dos bordéis era o alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido entre nós pelo apelido de Tiradentes, que, após longas bebedeiras e contatos amorosos, divulgava ideias de que se planejava uma revolta contra o poder de Portugal na região de Minas Gerais.

Leiam o artigo “Tiradentes, as prostitutas e outra história do herói da Inconfidência Mineira” no blog História Hoje.

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segunda-feira, 21/04/2014 at 23:08

A ciência não nega Deus, e o azeite não tem colesterol

A religião é um assunto que costuma atrair muita atenção às vésperas do Natal e da Páscoa. Na segunda-feira (14.abr), primeiro dia do Pesach judaico e desta semana que termina no domingo da Ressurreição, o escritor Amir Aczel, autor de várias obras de divulgação científica, publicou no portal The Huffington Post o artigo Matando o Deus de Einstein. No dia seguinte, ele lançou o livro “Por que a Ciência não Desmente Deus”. O foco das duas publicações é a controvérsia entre ciência e religião. Ainda não li o livro, que mal acaba de ser posto à venda na Amazon e na Barnes and Noble, mas espero que ele não tenha a mesma retórica argumentativa do artigo.

Leia o post completo no meu blog na Folha de S. Paulo.

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sexta-feira, 18/04/2014 at 22:28

Subsídios críticos para o trabalho da imprensa em desastres ambientais

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Um estudo publicado já há alguns meses traz subsídios críticos importantes para o trabalho de jornalistas na cobertura de acontecimentos relacionados a eventos geradores de graves prejuízos para o meio ambiente e para a saúde humana.

Apesar de sua análise ter sido restrita a um único caso — a mortandade de peixes, crustáceos e outros animais em um estuário na região de Natal (RN) em julho de 2007 —, o artigo “Desafios da divulgação científica em cobertura jornalística de desastre ambiental” aponta problemas com o uso de termos científicos e com o tratamento de informações relacionadas a eles.

Termos técnicos

O trabalho foi publicado na revista Ciência & Educação, editada pela Faculdade de Ciências do campus da Unesp em Bauru, por Luiz Fernando Dal Pian, da Escola de Comunicações e Artes da USP, e Daniel Durante Pereira Alves, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O dois pesquisadores analisaram o uso dos termos “metais pesados”, “amônia”, “metabissulfito de sódio”, “demanda bioquímica de oxigênio”, “eutrofização” e “demanda química de oxigênio” em 34 textos publicados entre a última semana de julho de 2007 e a última semana do mês seguinte. Entre outras conclusões, os autores apontaram a seguinte.

A análise de conteúdo jornalístico identificou o tratamento um tanto precário dos conceitos científicos capazes de fundamentar os reais motivos relacionados à mortandade de toneladas de fauna aquática, contribuindo pouco para a formação e educação ambiental dos leitores.

Confronto de acusações

Dal Pian e Alves observaram que as autoridades atribuíram a mortandade de seres vivos a fatores naturais, mas, posteriormente o laudo técnico preliminar do órgão estadual de meio ambiente chegou a outra conclusão. Desse modo,

A partir de então, os acontecimentos construídos pela cobertura da mídia impressa expuseram o confronto de acusações entre os diversos atores envolvidos e suas diferentes versões, cumprindo, assim, com um dos deveres éticos do jornalismo, que é o de buscar uma diversidade de fontes. No entanto, em casos como esses, em que diversas instituições participam das apurações e em que as provas de sustentação de causalidade e de culpabilidade são construídas ao longo do tempo, os jornalistas deveriam recorrer mais às suas ferramentas investigativas, ouvir novas fontes, levantar novas evidências e comparar os laudos emitidos. Ou seja, qualificar a apuração ao longo do tempo, ser mais proativos na busca por explicações causais e recolocar o assunto na pauta jornalística.

Cientistas e jornalistas

O assunto instiga várias possibilidades de discussão. A preferida de grande parte dos cientistas é sobre a qualidade da tradução da linguagem especializada para a linguagem do público em geral. Isso é importante, mas o trabalho do jornalista não se restringe a fazer essa tradução; ele inclui também abordar criticamente as versões das fontes especializadas. Felizmente Luiz Fernando Dal Pian e Daniel Durante Pereira Alves foram devidamente atentos a isso em seu estudo.

De minha parte, essa pesquisa reforça uma das conclusões de um estudo que produzi há alguns anos: a questão crucial do jornalismo na área de ciência acabou por se tornar a mesma do jornalismo em geral neste neste início de século: o essencial não é saber se os jornais vão desaparecer, nem se os profissionais de imprensa serão todos terceirizados, mas se a função do jornalista deixará de ser a produção da informação para se restringir ao mero gerenciamento dela.

Autores admitem fraude em estudo que serviu de argumento contra células-tronco

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Volume 146, Issue 3, p359–371, 5 August 2011Na semana passada, a prestigiada revista científica norte-americana Cell reconheceu oficialmente que houve fraude em um estudo publicado em sua edição de 5 de agosto de 2011. Na época, as conclusões desse trabalho foram usadas como argumento contra a necessidade de pesquisas com células-tronco embrionárias humanas (CTEHs).

O artigo da pesquisa coordenada por Liang Qiang, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, anunciou a obtenção de neurônios a partir de células da pele de pacientes portadores de Alzheimer.

Desse modo, o estudo apontava para o desenvolvimento de terapias para essa e outras doenças neurológicas crônicas dispensando o uso de CTEHs, que tem sido contestado por argumentos baseados na comparação desse tipo de pesquisa com abortos. (Ver reportagem “Cientistas produzem neurônios a partir de células de pele humana“, do G1.)

Manipulação indevida

A retratação publicada na Cell citou nominalmente um dos membros da equipe como responsável pela manipulação indevida de células usadas no trabalho:

Também apresentamos análises moleculares de células com marcadores associados a Alzheimer. O Dr. Ryousuke Fujita, que foi responsável especificamente e apenas pelas análises moleculares da patologia de Alzheimer associada, reconheceu não só ter manipulado inapropriadamente painéis de imagens e seus dados, mas também ter distorcido o número de repetições realizadas (…) Estamos no processo de repetir essas análises. Considerando esses resultados, acreditamos que a linha de ação mais apropriada é recolher o paper. Lamentamos profundamente esta circunstância e pedimos desculpas para a comunidade.

Caronas indevidas

Ao ler o post do dia 11 do blog Retraction Watch  sobre a retratação, lembrei-me desse estudo, mas muito mais em função de ele ter sido usado como argumento contra as pesquisas com CTEHs. Inclusive no Congresso Nacional, onde o deputado Henrique Afonso (PV-AC), na época integrante da bancada do PT, fez um pronunciamento em plenário. Referindo-se a essa pesquisa e à votação da Lei de Biossegurança, o parlamentar proclamou sua

alegria ao descobrir que estava certo o tempo todo em não votar a favor da manipulação das células embrionárias. Quero registrar que valeu a pena ser tachado de religioso, fanático, retrógrado.

Na verdade, este Parlamentar estava, em todo o momento, apenas defendo a vida e combatendo uma crueldade desnecessária.

Divido esta minha alegria com todos os demais Deputados que também votaram contra o tema, especialmente com os membros da Frente Parlamentar Evangélica que resistiram a todas as pressões e críticas e não fugiram de suas convicções.

Isso deve servir de alerta, entre os inimigos da pesquisa de células-tronco, para aqueles que ficam de plantão à espera de novidades da ciência aparentemente úteis como munição. Não se deve ir com muita sede aos potes que surgem pelo caminho, pois sua água pode estar contaminada. Na verdade, o alerta vale para todos os que apelam para o vale-tudo em diversos tipos de cruzadas, inclusive fora do âmbito da ciência.

 

As células-tronco e a saia justa do Parlamento Europeu

@European Union 2013 - European Parliament

Lideradas pela fundação britânica Wellcome Trust, 35 associações de instituições pesquisa europeias divulgaram nota na quarta-feira (9.abr) em protesto contra uma iniciativa de lei que prevê a proibição do financiamento público da pesquisa de células embrionárias humanas.

As entidades afirmam que haverá sérios prejuízos para o desenvolvimento de novos tratamentos para câncer, diabetes e outras doenças crônicas se for aprovada a proposta da campanha Um de Nós, que obteve mais de 1,7 milhão de assinaturas em todos os 28 países da União Europeia (UE).

Leia o post completo no meu blog na Folha de S. Paulo.

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sábado, 12/04/2014 at 8:43

Brasil ganha elogio na estreia de ‘Anos para Viver Perigosamente’

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Estrelada por Harrison Ford e Don Cheadle, a série “Anos para Viver Perigosamente“, cujo tema central é o aquecimento global, será lançada pelo ShowTime domingo (13.abr), mesmo dia em que será divulgado o próximo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas). Nesse primeiro episódio, o Brasil não só fica fora da pancadaria que tradicionalmente tem recebido por causa da devastação da Amazônia, mas também é apontado por cientistas da Nasa como o país que mais tem reduzido os desmatamentos.

Criada por Joel Bach e David Gelber, produtores do telejornal norte-americano 60 Minutos, a série tem em sua produção Arnold Schwarzennegger e James Cameron, diretor e autor de “Titanic” e “Avatar”. Para os episódios seguintes estão previstas as participações, como entrevistadores, de Matt Damon, Jessica Alba e outros astros de Hollywood.

Documentário

“Viemos com a ideia de fazer uma série de documentários no modelo do 60 Minutos“, declarou Gelber em entrevista anteontem ao Sun Herald, na qual afirmou também que ele e Bach, seu sócio na criação do novo programa, acreditam que a mudança climática é a história mais importante desta geração, mas está recebendo pouca atenção da mídia.

O primeiro episódio está disponível com closed caption original no YouTube no vídeo a seguir. E um preview do segundo, com a participação de Ian Somerhalder, galã da série “The Vampire Diaries”, também já pode ser acessado.

Secas e desmatamentos

A irrupcão e o agravamento das secas em diversas regiões do mundo como consequências do aquecimento global é o assunto central do primeiro episódio, que tem início em pleno Vale do Silício, na Califórnia. Lá, no Centro de Pesquisas Ames, da Nasa, em Mountain View, Harrison Ford pega carona em um jato em missão de coleta de amostras de ar em altitudes de alguns quilômetros. Em seguida, o ator-entrevistador conversa com cientistas da Divisão de Supercomputação Avançada da agência espacial.

Depois de receber explicações sobre a conexão entre as secas e o aumento da temperatura média global por meio das crescentes emissões de dióxido de carbono e metano, Ford ouve do indiano “Rama” Nemani, diretor do Laboratório de Previsão Ecológica da Nasa, que 20% desses gases lançados à atmosfera vêm de desmatamentos.

Texas, Síria e Indonésia

“O melhor país em termos da redução de desmatamentos tem sido o Brasil”, afirma para Ford o geógrafo Mathew Hansen, da Universidade de Maryland, que acrescenta ser a Indonésia o pior dos maus exemplos no combate ao desflorestamento. A partir daí o entrevistador segue para o Sudeste Asiático para constatar in loco que a derrubada de florestas tropicais acontece em grandes proporções até mesmo dentro de grandes parques nacionais, envolvendo a extração de óleo de palma para a fabricação de xampus e outros produtos de limpeza pessoal.

Na Indonésia, Ford reporta os desmatamentos seguidos de queimadas e suas enormes emissões de gases estufa. Don Cheadle visita diversas comunidades arrasadas economicamente pela estiagem no Texas. E Thomas Friedman, repórter do New York Times, vai ao Oriente Médio para compreender o agravamento das causas da guerra civil na Síria pelas secas.

Paro de antecipar informações por aqui, pois detalhes sobre o que já foi dito seriam spoilers. O que importa, desde já, é observar que, apesar de ter o mesmo propósito, “Anos para Viver Perigosamente” com seu formato não deverá ser, para o público menos engajado, tão chato quanto “Uma Verdade Incoveniente”. O ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, por sua iniciativa de fazer o filme e de nele participar ganhou o apelido de “Al Bore” (algo como “Al Maçante”).

Vamos com calma

Por mais justa que seja a menção ao Brasil nesse primeiro episódio como bom exemplo no combate ao desmatamento, não dá para deixar de lado que nosso país já foi longe demais na tolerância à destruição de nossas florestas. Em fevereiro, poucos dias depois do anúncio do Ministério do Meio Ambiente da redução dos desmatamentos na Amazônia brasileira, este mesmo blog mostrou que a extensão da devastação acumulada nessa região passou de 377,6 mil km2 em 1988 para 759,2 mil km2 em 2013.

Essa superfície já desmatada corresponde aproximadamente à metade de todo o estado do Amazonas, que é de 1,57 milhão de quilômetros quadrados). Equivale também ao triplo da área do estado de São Paulo (248,2 mil km2), que é pouco maior que a do Reino Unido (243,1 mil km2). Antes que comecem a soltar rojão pegando carona no primeiro episódio da série, vale lembrar esses outros números do post “Amazônia desmatada é o triplo da área de SP” (25.fev).

 

 

 

Imprensa começa a destacar impactos ambientais da seca em SP

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Em suas edições deste domingo (6.abr), os jornais O Estado de S. Paulo e Diário da Região, de São José do Rio Preto, mostram um aspecto que estava demorando para começar a ser abordado pela imprensa, que é o impacto ambiental da redução do volume de água de nascentes, rios e reservatórios e sua relação com as políticas de recursos hídricos e de uso e ocupação do solo.

O Estadão, com a reportagem “Volume morto do sistema Cantareira ameaça espécies de extinção“, de Rodrigo Brandt, destacou previsões de especialistas para as consequências do uso, por meio de bombeamento, do chamado volume morto dos sistema Cantareira, que faz parte da estratégia do governo do estado de São Paulo para abastecer a população da Grande São Paulo e de muitos outros municípios. Na avaliação dos pesquisadores ouvidos pelo repórter,

Peixes vão desaparecer, aves e outros animais migrarão. Esses e demais organismos vivos do bioma passarão por transformações biológicas e comportamentais, provocadas pela seca severa fora de época do verão de 2014. Problema que será potencializado com a captação do volume morto do Cantareira. Num efeito em cascata, toda cadeia alimentar das vidas dos mananciais vai mudar.

O Diário da Região, por sua vez, ressalta que serão necessários pelo menos dez anos para recuperar as “Dez nascentes mortas e 29 agonizando” às quais se refere o título de sua reportagem. A reportagem destacou também a indução ao agravamento desse quadro pela criação de gado e pelas plantaçõs de cana-de-açúcar em áreas, que deveriam ser de preservação permanente, mas se tornaram livres para esse tipo de ocupação do solo devido às mudanças no Código Florestal:

As APP’s eram áreas de no mínimo 30 metros em rios de até 10 metros de largura próximo ao curso d’água, até a aprovação do novo Código Florestal, em 2012. Essas áreas precisam ser preservadas e cercadas para que o gado não avance para o leito das nascentes, porém, com a aprovação do novo Código Florestal, o produtor rural que já mantinha alguma atividade nessas áreas foi autorizado a manter a cultura já existente. O novo código também mudou a área das APP’s que variam de acordo com o município onde estão e do tamanho da propriedade.

As duas reportagens mostram essas e outras importantes informações prestadas por pesquisadores. O Diário da Região traz também um infográfico muito bem elaborado sobre a extensão do problema da seca em nascentes, rios e reservatórios do interior do estado.

Os dois veículos permitem acesso para quem não é assinante por meio dos dois links acima. Boa leitura!

 

Errata do Ipea não corrige questão nem elimina vícios de pesquisa

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A errata do documento “Tolerância social à violência contra mulheres“, divulgada ontem (sexta-feira, 4.abr) por meio de nota oficial do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) não pode ser considerada uma correção da questão à qual ela se refere. Na verdade, não há o que fazer para dar credibilidade a essa tentativa de estudo sobre o problema grave da sociedade brasileira da tolerância de agressões contra mulheres.

Não há como obter nenhuma conclusão cientificamente válida do uso da afirmação “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

As palavras “merecem” e “atacadas” induzem a interpretações diferentes dessa sentença. Desse modo, foi prejudicado de antemão o aproveitamento das respostas afirmativas, negativas ou neutras dos entrevistados à pergunta aos entrevistados sobre se eles concordavam com essa frase.

Questões viciadas

Houve expressões de duplo sentido também em pelo menos outras três das 27 sentenças apresentadas a 3.801 pessoas entrevistadas de maio a junho de 2013 pelo Ipea, como já havia sido informado neste blog no post “Ambiguidades comprometem estudo sobre violência contra mulheres” na terça-feira (1º.abr), três dias antes do anúncio da errata.

A presença de expressões ambíguas nessas quatro questões que figuram entre as mais cruciais para o objetivo do trabalho impossibilita qualquer possibilidade de “salvar” o trabalho realizado pelo instituto. Além das que foram apontadas acima, as demais expressões de duplo sentido são as que aparecem em negrito nas afirmações a seguir.

Dá para entender que um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher.

Dá para entender que um homem rasgue ou quebre as coisas da mulher se ficou nervoso.

Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros.

Devido a essas ambiguidades, é desnecessária qualquer consideração sobre a quantificação das respostas dadas pelo entrevistados sobre as perguntas se eles concordavam ou não com essas afirmações.

Isso implica que, diferentemente do que passou a ser afirmado por ativistas após a errata, não dá para serem considerados confiáveis nem mesmo os dados referentes a opiniões sobre estupros.

Retratação

Dá para entender — e aqui é inevitável o trocadilho com duas das questões do Ipea — que ativistas não tenham levado em consideração essas ambiguidades que comprometem a credibilidade desse estudo. O que não dá para entender nem para aceitar é que especialistas tenham ignorado esses vícios ao se pronunciarem sobre o assunto na imprensa e nas redes sociais.

Quanto ao Ipea, não parece haver nenhuma outra saída senão a retratação desse trabalho, o que implica considerar que ele não tem validade científica.

 

Ambiguidades comprometem pesquisa sobre violência contra mulheres

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Não há dúvida de que é preciso combater tanto a violência contra as mulheres como a tolerância social com esse tipo de agressão no Brasil. Não há dúvida de que é preciso combater também os preconceitos que geram e fortalecem essa violência e essa tolerância. Mas há boas razões para duvidar da confiabilidade da pesquisa sobre o nível dessa tolerância social no país divulgada recentemente pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), do governo federal, e que ainda está tendo grande repercussão nos meios de comunicação.

Além dessas considerações, é importante esclarecer também que este post não tem o objetivo de contestar pessoas que, a partir da divulgação dessa pesquisa, protestaram contra as diferentes formas de agressão às mulheres. Inclusive porque este blog não tem seu foco em comportamentos pessoais. Mas ele tem como objetivo tratar jornalisticamente de questões como a confiabilidade de estudos como esse divulgado pelo Ipea.

Ambiguidades grosseiras

Na quinta-feira (27.mar), quando os veículos online começaram a divulgar o anúncio feito pelo Ipea por meio do release “SIPS revela percepções sobre a violência contra a mulher“, já dava para perceber que havia ambiguidades grosseiras em algumas das frases apresentadas a 3.801 entrevistados de maio a junho de 2013. A começar pela questão que provavelmente foi a que teve mais repercussão na imprensa, a que aborda estupros, apresentada a seguir com seus respectivos resultados em relação às suas alternativas de respostas, da mesma forma como no relatório da pesquisa.

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O que significa “saber se comportar” em relação a mulheres no contexto dessa pergunta e de toda a entrevista? A interpretação dos autores da pesquisa está expressa no trecho a seguir, transcrito da página 23 de seu relatório.

A culpabilização da mulher pela violência sexual é ainda mais evidente na alta concordância com a ideia de que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” (58,5%). Por trás da afirmação, está a noção de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais; então, as mulheres, que os provocam, é que deveriam saber se comportar, e não os estupradores. A violência parece surgir, aqui, também, como uma correção. A mulher merece e deve ser estuprada para aprender a se comportar. O acesso dos homens aos corpos das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras, como se comportar e se vestir “adequadamente”.

Em outras palavras, os autores da pesquisa do Ipea descartaram completamente a possibilidade de essa questão receber respostas concordantes até mesmo por parte de pessoas — inclusive mulheres — completamente contrárias a qualquer ideia de responsabilizar vítimas de estupro por essa violência praticada contra elas. É razoável, por exemplo, supor que uma mulher em trajes sexy esteja em situação de maior risco de sofrer estupro, e essa pressuposição pode não ter nada a ver com aceitar esse tipo de violência nessas condições.

Dá para ‘entender’

Também houve duplo sentido e, consequentemente, prejuízo da aferição do nível de tolerância social à agressão masculina contra mulheres pelo uso da expressão “dá para entender” na afirmação a seguir, apresentada com seus resultados.

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Embora minoritárias, corresponderam a 33,9%, ou seja, a pouco mais de um terço do total, as opiniões concordantes ainda que parcialmente a essa afirmação, que foi considerada como “justificativa” do comportamento agressivo masculino no relatório da pesquisa, como mostra o trecho de sua página 20 transcrito a seguir com negrito deste blogueiro.

Assim, 83,6% das pessoas entrevistadas discordaram da sentença “dá para entender que um homem rasgue ou quebre as coisas da mulher se ficou nervoso”. A discordância em relação à frase “é da natureza do homem ser violento” foi um pouco menor, em torno de 74%. A justificativa “dá para entender que um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher” agrega maiores níveis de concordância, mas, ainda assim, a maioria, em torno de 64%, dela discorda.

Essas afirmações demonstram que os responsáveis pela pesquisa desconsideraram que, além de poder ser percebida como “justificativa” ou aceitação do comportamento masculino agressivo contra a mulher, a expressão “dá para entender” também pode ser interpretada como compreensão do processo de formação dessa agressividade no comportamento masculino.

Na verdade, pelo simples fato de ter sido construída com essa expressão, a questão é inadequada para uma pesquisa de opinião. E isso vale também para a outra frase apresentada aos entrevistados que trata sobre rasgar ou quebrar pertences de mulheres e está citada nesse mesmo trecho acima transcrito. Nesses dois casos, em vez de “dá para entender”, deveria ter sido usada outra expressão para identificar inequivocamente a tolerância à agressão, como, por exemplo, “é aceitável”.

Mulheres ‘atacadas’

Segundo os responsáveis pela pesquisa do Ipea, a questão que mais os surpreendeu pelo elevado índice de concordâncias correspondentes à tolerância à violência contra as mulheres foi a seguinte.

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Essa questão foi criticada também por Felipe Moura Brasil, colunista de Veja, em artigo publicado no dia seguinte à divulgação da pesquisa. Embora eu considere pertinentes muitas das críticas feitas por esse jornalista ao estudo, não concordo, porém, com a interpretação dele em relação à palavra “atacadas”. Concordo com sua afirmação de que

“Atacar” mulher no Brasil não é necessariamente cometer crimes contra ela. Até “criticar alguém” é “atacar”. Quase todo homem ataca mulheres neste sentido. Se a pesquisa pretendesse esclarecer alguma coisa, teria definido a que tipo de “ataque” se refere (e não teria usado a palavra “merece”, que, entre tantos significados, tem até mesmo o de “atrair sobre si”; sem contar o vazio que gírias como “ninguém merece!” e “fulano merece!” lhe emprestaram). (…) Agora: se a palavra “atacadas” fosse trocada por “espancadas” ou “estupradas”, é evidente que o resultado teria sido mais ameno.

Essas observações do colunista foram mais que suficientes para apontar que a questão a que elas se referem foi completamente contaminada por conter as duas expressões vagas. Desse modo, é desnecessário eu fazer outras ponderações, exceto a de que discordo dele em suas considerações a seguir.

Quantas vezes homens de bem não dizem aos amigos que “partiram para o ataque” com fulana, querendo dizer que apenas a abordaram de forma mais incisiva, mostrando o quanto querem ter com elas alguma relação? Quantos não estimulam os outros a deixar de lero-lero e “partir para o ataque”? Quantas mulheres não adoram ser “atacadas” neste sentido pelos homens?

O colunista tem razão por lembrar da existência desse sentido ameno para “atacar”, mas não deixa de ser razoável pressupor que esse significado praticamente não deve ter sido interpretado desse modo por grande parte dos entrevistados, pois o contexto da entrevista não induz a considerações desse tipo.

Outra conversa

Felipe Moura Brasil voltou à carga contra a pesquisa do Ipea no dia seguinte (sábado, 29.mar) em outro artigo, trazendo dessa vez considerações que, mais pela forma do que pelo conteúdo, serviram para acirrar nesse tema a oposição entre direita e esquerda. Inclusive por relacionar a “cultura do estupro” que “coloca mulheres contra homens (os que não estupram, inclusive)” ao PT, que “coloca negros contra brancos, filhos contra pais, sem-terra contra fazendeiros”.

Não me interessa investir nessa oposição, que muitas vezes, mesmo sendo pertinente, acaba servindo mais para desviar o foco do que considero essencial. No entanto, faço questão de dar a esse segundo artigo o crédito por me informar sobre a “Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar sobre Atitudes, Normas Culturais e Valores em Relação à Violação de Direitos Humanos e Violência – Um Estudo em 11 Capitais de Estado”, divulgada pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP em junho de 2012. E já que é para reconhecer a informação dada pelo jornalista, que ele seja creditado também por suas palavras a seguir sobre o estudo da USP.

Mas o que a população brasileira realmente pensa a respeito de estupradores? Eu conto: de acordo com uma pesquisa de 2010 do Núcleo de Estudos da Violência da USP, 39,5% dos entrevistados acham que estupradores merecem pena de morte, 34,3% defendem prisão perpétua e 11,1% apoiam prisão com trabalhos forçados. Ou seja: a imensa maioria da população defende penas tão duras aos estupradores que elas sequer estão previstas no nosso Código Penal. Ou ainda, traduzindo para o idioma do IPEA: nenhum outro criminoso “merece” tanto a pena de morte, para os brasileiros, quanto o estuprador.

Os dados do Núcleo de Estudos da Violência da USP são um contraponto equilibrado às afirmações diparatadas do relatório da pesquisa do Ipea, principalmente àquela já reproduzida na primeira citação acima e que vale a pena destacar agora:

O acesso dos homens aos corpos das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras, como se comportar e se vestir “adequadamente”.

Objeções de consistência

Muitas outras objeções podem ser feitas à consistência do estudo divulgado pelo Ipea, inclusive no que diz respeito ao uso, na forma de questões, de algumas máximas populares — também passíveis de ambiguidade na interpretação —, como, por exemplo, “Em briga de marido e mulher não se deve meter a colher” e outras.

Se alguma tolerância foi efetivamente confirmada por meio desse estudo, essa foi a que se deu em relação à presença de ambiguidades nas questões apresentadas aos entrevistados.

Cientistas relatam pressões para publicar estudos incompletos ou com dados não verificados

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Células-tronco embrionárias humanas. Imagem de Nissim Benvenisty, via Wikimedia Commons (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Human_embryonic_stem_cells_only_A.png#), licença CC-BY-2.5 Dezoito cientistas que trabalham com células-tronco afirmaram terem recebido pressões para publicar estudos incompletos ou com dados não verificados, noticiou a revista britânica New Scientist na semana passada. O semanário informou também que cinco pesquisadores nessa mesma área confirmaram adulteração por eles mesmos ou por colegas de dados de trabalhos que foram publicados.

“Sei de numerosas situações em que bolsistas, algumas vezes com o conhecimento de seus mentores, publicaram dados falsificados”, disse um professor à revista, que se baseou em respostas de 112 cientistas a um questionário enviado para mil pesquisadores de células-tronco de diversos países.

Por que células-tronco?

O objetivo do levantamento, segundo Helen Thomson, autora da reportagem “Cientistas de células-tronco relatam pressões de trabalho antiéticas“, foi buscar alguns insights para compreender por que têm ocorrido tantos casos de más-condutas científicas nessa área de pesquisas, da qual se espera o desenvolvimento de terapias para diferentes tipos de câncer e doenças como as de Parkinson, Alzheimer e outras.

O escândalo mais recente nessa área veio a tona em 17 de fevereiro, quando o periódico britânico Nature divulgou em seu site que já teria iniciado uma averiguação sobre acusações de adulteração de imagens em um dos dois trabalhos desenvolvidos no Japão, ambos publicados na edição de 30 de janeiro, que anunciaram a reversão de células de diversos tecidos de camundongos para o estágio embrionário por meio de nada mais que um banho ácido.

Maior exposição

Mais da metade dos que responderam aos questionário (55,9%) afirmaram acreditar que a investigação sobre células-tronco está sob maior escrutínio que as outras áreas da pesquisa biomédica. “Isso acontece porque as implicações para terepias são maiores do que em outras áreas”, disse um dos pesquisadores que acrescentaram informações para explicar a resposta afirmativa à seguinte pergunta.

Você acha que a pesquisa com células-tronco está sob escrutínio mais intenso (por exemplo, de jornalistas, de revisores de periódicos ou de outros cientistas) do que outras áreas da ciência biomédica?
Respostas: 62 "Sim" (55,9%) e 49 "Não" (44,1%)
Explicaram a resposta afirmativa: 0
Responderam: 111 – Pularam a questão: 1

Quase um quinto dos que responderam afirmativamente a essa questão disseram que seu trabalho é afetado por esse quadro de intensa exposição. Enquanto alguns disseram que isso os fez serem mais rigorosos, outros afirmaram que se sentem forçados a encontrar aplicações clínicas muito cedo.

Se você respondeu "sim" à questão anterior, você acha que isso afeta seu trabalho de alguma forma?
Respostas: 21 "Sim" (24,4%) e 65 "Não" (75,6%)
Explicaram a resposta afirmativa: 19
Responderam: 86 – Pularam a questão: 26

Disputa entre equipes

“Há uma pressão tremenda para publicar e ela tem a finalidade de receber financiamento”, declarou um dos entrevistados para explicar as pressões a que se referem às seguintes perguntas.

Você já sentiu alguma pressão para submeter para publicação um artigo que você achava estar incompleto ou com informações não verificadas?
Respostas: 18 "Sim" (16,7%) e 90 "Não" (83,3%)
Explicaram a resposta afirmativa: 14
Responderam: 108 – Pularam a questão: 4
Você ou algum de seus colegas já falsificou ou acrescentou dados que acabaram sendo publicados em um artigo?
Respostas: 5 "Sim" (4,7%) e 101 "Não" (95,3%)
Explicaram a resposta afirmativa: 6
Responderam: 106 – Pularam a questão: 6

Além das pressões motivadas para captar recursos, foram relatadas também aquelas originadas de competições entre equipes que querem marcar pioneirismo em suas áreas de atuação. Um líder de grupo de pesquisa, por exemplo, afirmou à New Scientist que o atalho para o envio um determinado trabalho acaba acontecendo quando há risco de uma equipe rival publicar antes um estudo semelhante.

Medo do chefe

Entre as demais explicações dos entrevistados — que estão no relatório completo da pesquisa da New Scientist — destacam-se principalmente acusações contra cientistas  responsáveis por grupos de pesquisa e instâncias superiores, como as três seguintes.

Os supervisores e mentores ficam muito animados com os dados, mas algumas pessoas ficam depois com medo de dizer a eles que não podem validar esses resultados.

Às vezes um emprego é posto em questão, e superiores se tornaram conhecidos por tentarem forçar a publicação prematura e levar o crédito por resultados… quando eles nem sequer conheciam o conteúdo do trabalho.

Projetos grandes e caros financiados pelo governo estão às vezes sob grande pressão para publicar trabalhos que geralmente teriam como melhor encaminhamento um maior escrutínio antes da apresentação. Da mesma forma, subvenções e prazos de carreiras muitas vezes geram pressão para publicar — ou perecer.

Extensão do problema

Embora possam ser considerados mais ou menos preocupantes, os dados da prospecção feita pela New Scientist não comprometem toda a área da pesquisa com células-tronco. Eles importam muito mais para compreender como e por que acontecem esses casos de más-condutas científicas, e é para isso que a revista se propôs a fazer esse trabalho.

Esses resultados reforçam ainda mais o desafio crescente para as agências de financiamento à pesquisa e para as revistas científicas de não só saberem separar o joio do trigo, mas também de não serem os fatores de estímulo da produção do joio. E a lição vale também para grande parte da imprensa, que em janeiro deste ano já possuía registros suficientes para ter sido mais cuidadosa em face da promessa sensacionalista de uma pesquisa que agora está sob suspeita de fraude.

O Congresso, a OMC e as terras-raras de ‘House of Cards’

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Kevin Spacey, no papel do corrupto vice-presidente Frank Underwood, e Terry Chen, representando o bilionário chinês Xander Feng, em cena de negociação secreta e ilegal no quinto episódio da segunda temporada da série House of Cards, da Netflix. (Foto: reprodução)

Um tema abordado na série House of Cards tem rondado discussões em nosso Congresso Nacional sobre a proposta do governo de um novo Código de Mineração. São as terras-raras, um grupo de 17 minerais que a maioria das pessoas não conhece ou nem se lembra deles entre os elementos da tabela periódica. Nesta terça-feira (26.mar) eles viraram notícia com a derrota da China em um processo na OMC (Organização Mundial do Comércio) contra as elevadas taxas de exportação cobradas sobre eles por esse país.

Na segunda temporada da série, esses elementos químicos foram ingredientes das manobras políticas secretas e ilegais do vice-presidente Frank Underwood, representado por Kevin Spacey. E aqui, no Brasil, o Congresso discute a possibilidade de assegurar políticas para o país recuperar a cadeia produtiva perdida desses materiais considerados estratégicos e usados em computadores, smartphones e outros equipamentos de alta tecnologia.

Negócio da China

No quinto episódio da segunda temporada de House of Cards, o corrupto Frank Underwood negocia secretamente com um empresário chinês, proprietário de uma refinaria de terras-raras, condições especiais de fornecimento do mineral samário para ser usado como moderador de reações nucleares em usinas de um magnata da produção de energia nos Estados Unidos.

As terras-raras compreendem, além do samário, outros 16 elementos químicos que, embora não sejam raros na natureza, são de difícil separação de outras substâncias. Grande parte deles tem aplicação em equipamentos de informática e em outros de alta tecnologia. Muitas indústrias instalaram filiais na China para evitar as taxas de exportações sobre as terras-raras cobradas por esse país, que detém cerca de 60% da produção mundial desses materiais, como mostra o seguinte quadro da Agência Câmara de Notícias.

Quadro-Agencia-Camara-de-Noticias

Código de Mineração

Desde o ano passado cresceu a preocupação com as terras-raras no Congresso a partir do momento em que o governo enviou à Câmara dos Deputados o projeto de lei 5.807, de 2013, que propõe um novo texto para o Código de Mineração, que foi baixado em 1967 por decreto-lei. Hoje, por exemplo, exatamente quando a OMC anunciou sua decisão contrária às taxas chinesas para exportação desses minerais, acontece uma reunião sobre o assunto no Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Câmara.

Em 2011, a alta dos preços dos terras-raras provocada pela política chinesa de restrição às exportações levou vários países a questionar o governo de Pequim na OMC. A justificativa chinesa para a restrição às exportações desses materiais se baseou em argumentos de preservação ambiental. Por outro lado, como bem destacou o estudo “Terras-raras: elementos estratégicos para o Brasil“, do consultor legislativo Paulo César Ribeiro Lima,

(…) as políticas chinesas dão às firmas domésticas que usam os terras-raras como matérias primas em seu processo produtivo uma vantagem competitiva, na medida em que restringem a oferta mundial dessas matérias-primas e provocam o aumento de seus preços.

Pioneirismo perdido

A partir de 1956, com o crescimento das aplicações da energia nuclear, o Brasil passou a se concentrar na produção de outros minerais como urânio e tório, abandonando o foco em sua atuação pioneira desde 1946 tanto na separação de terras-raras de outros minerais como também na produção industrial desses elementos, conforme declarou Alair Veras, engenheiro químico das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em uma das 21 audiências com especialistas promovidas no ano passado no Senado para discutir especificamente sobre esses materiais.

A partir de 1915, com a exploração de areia da faixa do litoral do norte do Rio de Janeiro ao sul da Bahia, o Brasil, em alternância com a Índia, se tornou o maior fornecedor mundial de monazita, mineral que contém terras-raras, que eram utilizadas em pedras de isqueiro, baterias recarregáveis, polimento de vidros e metalurgia, como destacou a revista Em Discussão, publicada pelo Congresso, em sua edição de setembro de 2013.

Riscos para o ambiente

Mas também houve iniciativas de debates sobre outros aspectos da exploração desses minerais. Foi o caso do requerimento de julho de 2013 do deputado Augusto Carvalho (SDD-DF) para realização de audiência pública para discutir os impactos ambientais da extração de terras-raras, que acabou sendo arquivado pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável em 4 de fevereiro deste ano.

Embora não sejam elementos radiativos, as terras-raras envolvem aplicações industriais com substâncias emissoras de radiação. Seus processos de extração e de produção industrial trouxeram grandes danos ambientais à China, onde empresas estatais desativaram suas refinarias e as reconstruíram em um enorme complexo de mineração no deserto de Gobi, onde se extrai cerca de metade desses minerais no mundo, como destacou o New York Times em novembro do ano passado.

Oportunidade

Em 2012, prevendo grandes chances para a decisão favorável aos reclamantes que hoje se concretizou, o consultor legislativo Paulo César Ribeiro Lima já havia afirmado em seu estudo acima citado que esse desdobramento poderia trazer oportunidades comerciais significativas para o país. No ano passado, com projeto do novo Código de Mineração já enviado ao Legislativo, Lima propôs, para o produtor poder investir em novas tecnologias, que os royalties da mineração não sejam cobrados sobre a exploração de elementos estratégicos, como os terras-raras.

Em janeiro deste ano, o deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), relator do substitutivo do projeto do novo Código de Mineração, afirmou que pretendia encerrar até este mês as negociações com o governo em torno de centenas de propostas ao texto, entre elas 372 emendas de deputados e outras 300 sugestões apresentadas em 40 audiências públicas em diferentes cidades do país. Em relação à chamada Contribuição Financeira pela Exploração Mineral (Cfem), que funciona como os royalties da mineração, ele afirmou à Agência Câmara de Notícias:

Parte do governo entende que isso deve ser feito por meio de decreto, e o setor mineral e os parlamentares, por unanimidade, entendem que nós temos a obrigação de colocar na lei as alíquotas a serem pagas.

Se o governo e os congressistas pretenderem entrar no mercado das terras-raras, é bom não se esquecerem não só da concorrência a ser enfrentada com os chineses, mas também da máxima de Frank Underwood que esse país do Extremo Oriente parece ter compreendido muito bem:

Para aqueles que estão no topo da cadeia alimentar, não há misericórdia. Existe apenas uma regra: cace ou seja caçado.

Brasil acordou tarde para o monitoramento de cheias e secas

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Sala de situação da Agência Nacional de Águas, em Brasília. Foto: Natália Sampaio/Banco de Imagens/ANA

O uso de modernas tecnologias e sistemas adotados em outros países para o monitoramento em tempo real de cheias e secas chegou tarde ao Brasil. A partir de amanhã (terça-feira, 26.mar) é que Minas Gerais inaugura sua sala de situação em conexão direta com a Rede Hidrometeorológica Nacional, da ANA (Agência Nacional de Águas). E somente desde o ano passado passaram a atuar nessa rede outros 12 estados — Amazonas, Amapá, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins.

Ainda faltam implantar suas salas de situação e outras instalações integradas a essa rede o Distrito Federal, o Espírito Santo e Mato Grosso do Sul. Os dois últimos estados têm suas inaugurações previstas para este ano, segundo a edição 2013-2014 da revista Balanço das Águas, cuja versão online acaba de ser publicada pela ANA.

Estações e satélites

A agência realiza o monitoramento em tempo real de chuvas, rios e reservatórios com base em dados de cerca de 2.100 estações de coleta e transmissão de dados em todo o país. A rede hidrometeorológica atua em parceria com os centros do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) de Cuiabá e de Cachoeira Paulista, onde são coordenados os trabalhos com satélites.

Em Belo Horizonte, a Sala de Situação de Eventos Críticos Hidrológicos, que será inaugurada amanhã pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) e pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, exigiu investimentos de mais R$ 1 milhão custeados pelo governo federal. No ano passado, a ANA investiu cerca de R$ 7,6 milhões nas 12 salas e em 158 plataformas de coletas de dados dos estados que passaram a integrar a rede.

Parcerias

A rede nacional vem sendo implantada pela ANA em parceria com os estados. A agência oferece acesso ao seu banco de dados hidrológicos, equipamentos para as salas de situação e treinamento de técnicos, além de instalar novas plataformas para coletas de dados, segundo a revista. Aos estados cabe garantir o espaço físico e os recursos humanos.

A Rede Hidrometeorológica Nacional possui mais de 4,5 mil estações para em todo o país. Em 2013, foram modernizadas 158 estações fluviométricas (monitoram rios) e 181 pluviométricas (monitoram chuvas). Segundo a agência, no de 2010 a 2013, foram modernizados 19% de seus equipamentos fluviométricos e 24% de seus pluviométricos. Para 2014, a meta do órgão é aumentar esses percentuais respectivamente para 24% e 29%.

Boa má notícia

No Distrito Federal, a implantação de estações e equipamentos para integração à rede nacional não passou da estaca zero, pois ainda nem sequer foi assinado o acordo de cooperação técnica da agência nacional com o governo distrital.

No caso de Minas Gerais, a notícia que só consegue ser boa devido ao “antes tarde do que nunca” mostra a absoluta falta de prioridade do poder público para investimentos em infraestrutura para prevenção de crises. E isso vale não só para o governo desse estado — que, vale lembrar, também abriga nascentes do sistema Cantareira, de São Paulo, que se encontra em situação crítica desde o ano passado —, mas para os gestores das demais unidades da federação e o próprio governo federal.

Leia também neste blog: “A água que se perde antes de chegar ao ralo” (24.mar.2014)

Comissão aprova mudança no projeto para regulamentar profissão de historiador

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By Diogo Homem (Unknown) [Public domain], via Wikimedia Commons

Foi aprovado ontem (quarta-feira, 19.mar) por unanimidade na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados o parecer do deputado Roberto Policarpo (PT-DF), com a proposta de alteração do tecto do projeto de lei 4699/2012 sugerida em conjunto pela Anpuh (Associação Nacional de Professores Universitários de História), Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) e SBHE (Sociedade Brasileira da História da Educação).

novo texto propõe a ampliação do exercício da profissão de historiador — previsto inicialmente apenas para graduados em história — para portadores de diploma de mestrado ou doutorado em programa de pós-graduação reconhecido pelo governo que tenha linha de pesquisa dedicada à história.

A alteração inclui também os profissionais diplomados em outras áreas que tenham exercido a profissão comprovadamente por mais de cinco anos, antes da data de promulgação da lei.

A iniciativa de regulamentação foi apresentada em 2009 pelo senador Paulo Paim (PT-RS), a pedido da Anpuh (Associação Nacional de Professores Universitários de História), por meio do projeto de lei 368/2009 do Senado.

O texto seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça, onde aguarda designação de relator. Mas a iniciativa pode agora, com a oficialização da nova redação, ser rapidamente aprovada e levada à apreciação do plenário por meio de acordo entre lideranças partidárias.

Há mais informações sobre o assunto neste blog no artigo de anteontem “Comissão vota amanhã nova proposta para regulamentar profissão de historiador“.

Pesquisador coagiu estagiários a alterarem dados de experiência, concluiu agência dos EUA

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Advocate Lutheran General Hospital, Park Ridge, Illinois,  Creative Commons Attribution-Share Alike 2.0 Generic License

A Agência da Integridade da Pesquisa (ORI) dos Estados Unidos relatou anteontem (segunda-feira, 18.mar) que o cardiologista Parag V. Patel constrangeu estagiários a falsearem resultados de uma pesquisa coordenada por ele a partir de 2008 no Hospital Geral Beneficente Luterano, da cidade de Park Ridge, no estado de Illinois.

Os estagiários teriam sido coagidos pelo médico a registrar percentuais menores que os realmente observados para os volumes de sangue bombeados nos ventrículos esquerdos dos corações de pessoas com infarto agudo do miocárdio, segundo a nota da ORI publicada no Federal Register, o diário oficial dos EUA. Desse modo, esses pacientes teriam sido indevidamente indicados para tratamento com desfibriladores.

Uso de desfibrilador

A publicação relata anda que Patel também teria incorrido em “má-conduta” influenciando outros médicos a rever e a reduzir para menos de 35% os percentuais registrados para a chamada fração de ejeção do ventrículo esquerdo (LVEF na sigla em inglês) de pacientes. Em condições normais, o percentual de bombeamento nessa parte do coração humano varia de 55% a 70%, segundo nota da Retraction Watch.

O estudo, que previa envolver cerca de 1.900 pacientes até 2015 e foi custeado com recursos do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e do Sangue, teve resultados preliminares divulgados em 2009. Na ocasião, Patel sugeriu o uso de um colete desfibrilador automático para reduzir o risco de mortalidade nos primeiros 60 dias, após infarto do miocárdio, em pacientes com LVEF fração de ejeção ventricular esquerda menor ou igual a 35 por cento.

Acordo de dois anos

A investigação do caso foi realizada pela ORI com a participação do Hospital Geral Beneficente Luterano, que não tem fins lucrativos e tem sido apontado nos últimos 15 anos entre os cem melhores dos Estados Unidos.

Nascido no Quênia, Patel, que tem 47 anos de idade e 15 de experiência como cardiologista, não negou nem admitiu a responsabilidade pela alteração dos resultados, mas se comprometeu a cumprir um acordo vigente por dois anos a partir de sua assinatura, que ocorreu em 21 de fevereiro.

O acordo estabelece que nos próximos dois anos Patel não poderá atuar como consultor em nenhum trabalho no âmbito do serviço de saúde pública, nem em comissões de revisão de trabalhos científicos, e só poderá realizar outras pesquisas após aprovação pela ORI de um plano de supervisão para novos trabalhos. Além disso, o cardiologista terá de submeter relatórios semestrais a uma comissão de três médicos do hospital, que se encarregará também de fazer uma revisão dos estudos nos quais ele participou.

Burocracia disfuncional

A ORI é uma agência ligada ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), órgão ministerial do governo dos EUA. Antes que os leitores fiquem impressionados positivamente com a atuação desse órgão no caso que envolveu Parag V. Patel, vale registrar que seu diretor David Wright se demitiu em 25 de fevereiro fazendo duras críticas à burocracia “descomunalmente disfuncional” do governo federal.

Conforme reportagem da Science Insider (12.mar), entre outras reclamações Wright afirmou em sua carta de demissão a Howard Koh, seu superior imediato no HHS, que o orçamento da ORI tem sido comido pelas beiradas por funcionários veteranos da agência e que o próprio gabinete de Koh tem uma cultura de trabalho com falhas graves, entre elas a tendência ao segredo, à autocracia e à falta de esclarecimentos.

Comissão vota amanhã nova proposta para regulamentar profissão de historiador

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Mapa de 1794 de Samuel Dunn – Wall Map of the World in Hemispheres - Geographicus - From Wikimedia Commons, the free media repository (http://www.geographicus.com/P/AntiqueMap/World2-dunn-1794)

O projeto de lei para a regulamentação da profissão de historiador recebeu ontem (segunda-feira, 17.mar) proposta de alteração. Está agendada para amanhã a apresentação à Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados do relatório do deputado federal Roberto Policarpo (PT-DF), com a nova redação, proposta por associações de historiadores após as críticas feitas por outras entidades e por pesquisadores.

O novo texto propõe a ampliação do exercício da profissão de historiador — previsto inicialmente apenas para graduados em história — para portadores de diploma de mestrado ou doutorado em programa de pós-graduação reconhecido pelo governo que tenha linha de pesquisa dedicada à história.

A alteração inclui também os profissionais diplomados em outras áreas que tenham exercido a profissão comprovadamente por mais de cinco anos, antes da data de promulgação da lei.

Registro no ministério

Diferentemente da regulação de algumas categorias de nível superior, como as de médicos, dentistas, engenheiros, arquitetos, contadores, economistas e outras, essa proposta legislativa não visa criar um conselho federal, bastando apenas a obrigação, para cada historiador, de registro profissional prévio no no Ministério do Trabalho e Emprego mediante a apresentação de diploma.

Apresentado inicialmente no Senado, onde foi aprovada em novembro de 2012, o projeto provocou controvérsia entre pesquisadores, inclusive entre historiadores.

Em entrevista à Folha de S. Paulo o cientista político e historiador José Murilo de Carvalho disse:

Isso é um corporativismo inadmissível. Reserva de mercado é algo absurdo. Posso listar grandes historiadores brasileiros que não são formados em história.

Em contrapartida, na mesma reportagem Carlos Guilherme Mota, professor emérito da USP, declarou:

Se for para lecionar, faz sentido, porque precisa ter formação na área. Para dar aula em universidade eu deixaria em aberto, porque há antropólogos e sociólogos com formação histórica sólida.

Controvérsia no Senado

A iniciativa de regulamentação foi apresentada em 2009 pelo senador Paulo Paim (PT-RS), a pedido da Anpuh (Associação Nacional de Professores Universitários de História), por meio do projeto de lei 368/2009 do Senado. Além do senador Pedro Taques (PDT-MT), um dos principais opositores à proposta foi o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), que no dia da votação afirmou:

É a investigação sobre a evolução das sociedades humanas que tem que ser vista sob os mais diferentes prismas. História é política. História é vida. História é pluralismo. Não pode ser objeto de um carimbo profissional.

A proposta foi defendida no relatório do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), aprovado na Comissão de Constituição e Justiça:

(…) a omissão do legislador pode permitir que pessoas inabilitadas no exercício profissional coloque em risco valores, objetos ou pessoas.

Crítica de pesquisadores

Na Câmara, após tramitar nas comissões na forma do PL 4699/2012, a proposta chegou ao plenário, onde entrou dez vezes na pauta de votações em regime de urgência entre junho e setembro de 2013, mas acabou sempre sendo retirado da ordem do dia. Nesse período surgiram as críticas mais incisivas ao projeto, como a carta conjunta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Nessa correspondência, Helena Nader, presidente da SBPC, e Jacob Palis, presidente da ABC, afirmaram:

O projeto tem problemas graves e, se aprovado na forma em que está, trará sério prejuízos ao Brasil e ao ensino superior de inúmeras disciplinas relacionadas com a História.

Em ofício dirigido à SBPC, Benito Bisso Schmidt, então presidente da Anpuh, declarou:

O PL apenas quer regulamentar a atividade de Historiador nos âmbitos do ensino formal e da pesquisa histórica científica. Não veda a ninguém escrever ou ensinar História, apenas não confere o título de Historiador aos que não têm essa formação específica.

Além da SBPC e da ABC, outras associações acadêmicas também apresentaram críticas ao projeto de lei, como a Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) e a Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE). No entanto, essas duas entidades, em entendimento com a Anpuh, apresentaram em outubro de 2013 sua proposta conjunta de alteração, que foi agora incorporada ao PL 4699/2012.

Direto para o plenário?

Em face da apreciação pela CTAS prevista para amanhã, vale a pena perguntar se antes de chegar ao plenário promoverão discussões ou consultas sobre as alterações formuladas por essas três entidades, como eu já havia dito neste blog no artigo “Regulamentação de historiadores recua no Congresso” (26.fev).

Afinal de contas, o texto inicial já havia provocado diversas manifestações não só no Brasil, mas também no exterior. Inclusive por parte da Associação Americana de História (AHA), que é contrária à regulamentação, assim como de pesquisadores da área de estudos brasileiros em algumas universidades dos Estados Unidos, que são favoráveis. Será que as alterações não merecem ser discutidas?

Para quem quiser saber mais sobre o assunto, vale a pena ler a reportagem “PL que regulamenta profissão de historiador gera polêmica na comunidade científica“, de Flávia Machado, no blog da revista História, Ciências, Saúde — Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz. Vale a pena também consultar seus links para documentos sobre o assunto.

PS de 20.mar — Foi aprovado ontem (quarta-feira, 19.mar) por unanimidade na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público o parecer do deputado Roberto Policarpo (PT-DF), com a proposta de alteração do tecto do projeto de lei 4699/2012 sugerida em conjunto pela Anpuh, SBHC e SBHE. O texto seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça, onde aguarda designação de relator. Mas a iniciativa pode agora, com a oficialização da nova redação, ser rapidamente aprovada e levada à apreciação do plenário por meio de acordo entre lideranças partidárias.

‘Cosmos’ estreia sob ataques de criacionistas e caçadores de erros

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Lançada nos Estados Unidos no domingo (9.mar) e no Brasil nesta quinta-feira (13.mar) pelo canal National Geographic (22h30), a série Cosmos – Uma odisseia no espaço-tempo já começa sob críticas de caçadores de erros e ataques de contestadores da teoria da evolução. Inspirado na série Cosmos – Uma viagem pessoal, de 1980, idealizada e apresentada pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996), o novo programa tem como anfitrião o astrofísico e divulgador científico Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, do Museu Americano de História Natural, e personalidade muito atuante nos meios de comunicação.

A nova série tem tudo para conseguir sucesso em audiência. Além de contar com a parceria do NatGeo com o canal Fox e com a rede educativa de TV PBS , a versão repaginada da iniciativa de Sagan tem efeitos especiais de grande impacto visual que não eram possíveis há 34 anos e um apresentador plenamente articulado com os recursos das novas tecnologias de comunicação.

No momento em que este artigo foi concluído, Tyson já contava com cerca de 935 mil seguidores em sua página no Facebook e com mais de 1,74 milhão no seu perfil no Twitter. Outra participação de importância midiática na equipe do programa é o produtor executivo Seth MacFarlane, um dos criadores de Family Guy (Uma Família da Pesada), que é sucesso desde 1999.

Jogo dos cinco erros

Como acontece com grande parte das iniciativas de popularização da ciência, Cosmos não poderia deixar de receber acusações de imprecisão. A crítica mais recente foi publicada nesta quinta-feira por Hank Campbell, co-autor do best-seller “Science Left Behind” (A Ciência deixada para trás), de 2012. Ele postou “Cinco coisas que deram errado com Neil de Grasse Tyson“, destacando no blog as frases “Qual é a precisão da ciência em Cosmos? Isso tem importância? Ela seria boa mesmo sendo ruim, como pizza?”

Ressalvando que reconhece em Tyson um espírito aberto a críticas como em Sagan, Campbell afirma que identifica quatro erros no o primeiro episódio da série, “De pé na Via Láctea”: a comparação da quentíssima atmosfera de Vênus com o efeito estufa da Terra, a menção aos multiversos ou múltiplos universos como se sua existência fosse uma verdade científica, a propagação de sons da fictícia espaçonave pilotada pelo apresentador e que são impossíveis na imensidão do espaço e, finalmente, a apresentação do filósofo e teólogo Giordano Bruno (1548-1600) com uma importância para a ciência maior do que a do astrônomo, físico e matemático Galileu Galilei (1564-1642).

E Campbell acrescenta um problema que afirma ser de “estilo”: não dá certo, segundo ele, apresentar os cerca de 14 bilhões de anos desde a explosão do Big Bang condensados nos 12 meses de um ano, fazendo com que cada dia nesse calendário seja equivalente a aproximadamente 40 milhões de anos.

Exageros

Campbell tem razão em suas quatro primeiras objeções, apesar de que podem até ser consideradas “licenças poéticas” as três escorregadelas iniciais sobre Vênus, os multiversos e o som que não se propaga no espaço. Mas ele exagera no que afirma ser uma objeção de estilo e parece procurar chifre em cabeça de cavalo quando afirma que escolha da explicação com a evolução Universo desde o Big Bang por meio da analogia com o calendário de 12 meses, onde a civilização humana aparece em uma fração do último segundo, se deve ao “ateísmo declarado” do produtor Seth MacFarlane.

Ou seja, o criador de Family Guy teria forçado a barra para usar um modelo que mal mostra o surgimento dos humanos para menosprezar o período que muitos interpretam como sendo  o da obra Criação de Deus. A menos que o objetivo não seja popularizar conhecimentos da ciência, não faz sentido rejeitar analogias como essa.

Galileu menosprezado

Mas, apesar de ter Tyson ter afirmado que Bruno não era cientista, o episódio tem uma longa animação dramatizada sobre o teólogo condenado à fogueira pela Inquisição e dá pouquíssima importância para Galileu, deixando de lado seus enfrentamentos científicos com as autoridades do saber eclesiástico de sua época. Nesse ponto Campbell está coberto de razão.

Em 1609, modificando um dispositivo óptico que aproximava a observação de objetos, construído no ano anterior por holandeses, Galileu construiu o telescópio, que teve esse nome a partir de 1611. Seu uso permitiu refutar a concepção de que a Terra estava no centro do mundo e de que todos os corpos celestes eram imutáveis e perfeitos, formados por éter, como havia afirmado Aristóteles (384-322 a.C.), em Sobre o Mundo e Sobre o Céu, e também Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), em seus manuscritos Almagesto e Tetrabiblos.

A iniciativa de Galileu ultrapassou o âmbito da astronomia, não só por articular uma nova etapa na história do conhecimento, com a rejeição da autoridade da religião nas ciências naturais e a afirmação da autonomia do uso da observação, da experimentação e da superioridade do raciocínio demonstrativo matemático na busca da verdade sobre os fenômenos da natureza. Ele também superou a concepção teológica judaico-cristã de que o conhecimento era imutável e de que tudo o que existe e acontece já havia sido previsto por Deus no Gênesis. Nada seria novo, pois tudo o que se acrescentasse ao conhecimento somente confirmaria — e jamais modificaria — as eternas verdades bíblicas. Em outras palavras, acreditava-se que, aconteça o que acontecer, “não há nada de novo debaixo do sol” (Eclesiastes, 1,9).

Briga com criacionistas

No domingo, já antes da apresentação de seu primeiro episódio, a nova série já estava com os dias contados para não ter problemas com os criacionistas em geral e também com os adeptos do chamado design inteligente, que são opositores mais sofisticados à evolução das espécies por meio da seleção natural. Em entrevista à CNN, Tyson ouviu do jornalista Brian Stelter a pergunta sobre como intermediar a paz na “guerra contra a ciência”, referindo-se principalmente aos contestadores do aquecimento global.

O astrofísico respondeu que a imprensa tem a vantagem de não se prender ao ethos da ciência, baseado na discussão interna na comunidade acadêmica, mas que os jornalistas agem errado quando, para “ouvir o outro lado”, contrapõem afirmações científicas com opiniões não científicas. E, como destacou Jack Mirkinson no Huffington Post (10.mar), acrescentou:

Você não fala sobre a Terra esférica com a Nasa e, em seguida, diz “vamos dar tempo igual ao pessoal da Terra plana”. Além disso, a ciência não existe para você agir como ao escolher cerejas. (…) O bom da ciência é que ela funciona com você acreditando ou não nela.

Não demorou para surgirem manifestações criacionistas, como o artigo “Neil deGrasse Tyson: velho produto, nova embalagem“, no site do Instituto Discovery. Aqui no Brasil, defensores da teoria do design inteligente, inclusive membros da comunidade científica, já conversam por e-mails para articular uma reação.

Atuação da imprensa

Tyson tem razão quando afirma que não é correto tentar equilibrar posições científicas com opiniões religiosas, como fazem muitas vezes os meios de comunicação quando o contexto da notícia é o conhecimento. Por outro lado, jornalistas especializados em ciência muitas vezes agem como se não existissem pesquisadores que contestam a teoria da evolução e apresentam argumentos para isso. É o caso, no Brasil, de Marcos Eberlin, professor do Instituto de Química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) com um currículo respeitado internacionalmente na área de espectrometria de massas, que defende que a probabilidade de a vida ter surgido na Terra é um número que excede toda a probabilidade do universo.

Mesmo no âmbito das discussões com base em critérios científicos, as chances de algum diálogo entre darwinistas e antievolucionistas são praticamente nulas, pois muitos de ambos os lados já partiram há tempos para provocações e xingamentos. De minha parte, penso que sempre se deve aplicar o preceito do filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873) destacado, em um contexto completamente diferente do tema presente, pelo jornalista Hélio Schwartsman em sua coluna na Folha de S. Paulo, na terça-feira (11.mar):

(…) mesmo os piores preconceitos precisam ter sua circulação assegurada, a fim de que as ideias verdadeiras sejam submetidas à contestação e triunfem. Se não for assim, elas próprias serão percebidas como simples preconceitos, sem base racional.

Seja como for, vale a pena assistir Cosmos.

PS — Acabo de ser informado (14h30) que a emissora afiliada da Fox em Oklahoma teria censurado, substituindo por uma inserção de publicidade própria, um trecho de aproximadamente 15 segundos no primeiro episódio. O trecho, que seria justamente aquele, acima mencionado, dos últimos segundos do calendário em que aparece a espécie humana, teria a seguinte fala de Nei deGrasse Tyson:

Somos recém-chegados ao Cosmos. Nossa própria história só começa na última noite do ano cósmico. Três milhões e meio de anos atrás, nossos ancestrais, o seu e o meu, deixaram esses rastros. Nós nos levantamos e nos separaramos deles. Uma vez que estávamos sobre dois pés, nossos olhos já não estavam mais fixados no chão. Agora, éramos livres para olhar para cima e para admirar.

A informação é do site de notícias The Raw Story com base no vídeo abaixo postado no YouTube.

Pesquisador que revelava fraudes científicas vive receio de ações judiciais e retaliações

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Paul-Bookes

Pouco mais de um ano após ter sua identidade descoberta e de ter encerrado suas atividades sob anonimato em seu blog Science Fraud, o pesquisador britânico Paul Brookes, do Centro Médico da Universidade de Rochester, no estado de Nova York, vive sob a ameaça de ações judiciais e sob o risco de retaliações nas avaliações de seus pedidos de financiamento para pesquisas. Além disso, ele tem também evitado proferir palestras fora da cidade onde trabalha, conforme declarou em entrevista à Science Careerspublicada ontem (segunda-feira, 10.mar).

Durante cerca de seis meses de atuação com o blog, apresentando-se sob o pseudônimo “Fraudster” (fraudador), Brooks apontou 275 trabalhos publicados em revistas especializadas como envolvidos em más-condutas científicas. Devido a essa exposição, 16 estudos passaram por investigações que terminaram em retratações e outros 41 foram corrigidos.

Em 3 de janeiro do ano passado, Brookes reconheceu no próprio blog ser o seu ator e deletou todos os seus posts. Ele fez isso porque no dia anterior vários dirigentes de sua universidade, inclusive o reitor, receberam e-mails de pesquisadores — autores de trabalhos que ele havia investigado e apontado como irregulares — que pediam a abertura de processo administrativo.

Leitura obrigatória

Science-Fraud_2012-10-04

Página de abertura do blog Science Fraud (em 4.out.2012), usado anonimamente até janeiro de 2013 pelo pesquisador britânico Paul Brookes, da Universidade Rochester, nos Estados Unidos. A página mostra uma imagem de experimento de laboratório que teria sido adulterada e usada em um artigo publicado em uma revista científica

Science Fraud fez sucesso rapidamente. Chegou a ser considerado leitura obrigatória por acadêmicos e editores interessados em problemas na comunicação científica. O monitoramento de investigações sobre estudos com suspeitas de irregularidades já vinha antes sendo realizado por outro blog, o Retraction Watch, ao qual se referiu Brooks na página de seu blog sobre seu objetivo:

Atualmente essas suspeitas têm sido muitas vezes relatadas em blogs como o Retraction Watch. Mas é necessário também um site com foco neste tipo de discurso. [Science Fraud] visa proporcionar um catalisador de novas investigações por parte das autoridades reguladoras e das revistas científicas. Muitos editores dessas publicações ignoram e-mails de acusadores anônimos.

Primeiro, uma enquadrada

Em resposta às mensagens de pesquisadores que exigiram instauração de processo interno, os administradores de Rochester fizeram vários questionamentos a Brookes. Segundo ele, uma das preocupações principais da universidade era se sua dedicação à atividade de pesquisar casos de procedimentos irregulares, avaliá-los e publicá-los em seu blog não teria prejudicado o tempo que deveria empregar no trabalho pelo qual ele era pago pela instituição.

O outro foco dos questionamentos era se o pesquisador teria usado recursos de seu laboratório em sua dedicação ao blog. Com isso, além de silenciar o Science Fraud, o primeiro contra-ataque dos reclamantes teve também como resultado fazer a reitoria verificar se ela teria fornecido ao Fraudster tempo remunerado  e meios para sua atividade como blogueiro. Em outras palavras, eles fizeram a universidade dar uma enquadrada nele.

Depois, as ameaças

Brookes afirmou na entrevista que, apesar de os dirigentes universitários não terem gostado de sua conduta, a administração teve uma atitude muito aberta ao entendimento dos fatos. Ele disse que conseguiu fazer a instituição compreender que nunca havia ultrapassado 12 horas de atividade por semana para o blog e que quase todo esse tempo teria sido despendido em sua residência. No final das contas, ele não teve problemas com seu emprego.

Nenhuma das ameaças de processo judicial contra ele se concretizou, mas pelo menos seis delas se tornaram riscos potenciais que, segundo Brookes, exigem que ele tenha despesas permanentes, de seu próprio bolso, com um advogado. Ele disse na na entrevista:

(…) ainda estou preocupado. Estou com 41 anos, portanto tenho mais 25 anos pela frente antes de me aposentar. Preciso continuar recebendo suporte financeiro para publicar artigos e, obviamente, se há pessoas lá fora que estão com raiva de mim, então talvez elas avaliem maldosamente meus financiamentos, talvez elas revisem maldosamente meus papers. O potencial de retaliação existe e não há, realmente, nenhuma maneira de contornar isso.

Palestras canceladas

Brookes disse na entrevista à repórter Elisabeth Pain que chegou a cancelar viagens que ele havia agendado para proferir palestras em cidades onde trabalham autores de estudos que foram criticados por ele no Science Fraud. Ele não pode, afirmou, correr o risco de ser colocado em situações com possibilidade de originar processos judiciais em outras localidades, exigindo novas despesas com advogados e com custos adicionais de viagem e até de hospedagem.

A aventura anônima custou caro para o jovem pesquisador, que aprendeu na pele que o anonimato na internet é cada vez mais fadado ao fracasso. Em resposta a uma pergunta da repórter, ele disse que deveria ter sido mais cauteloso, não só evitando postar comentários anônimos em outros blogs — que sempre registram o IP dos comentadores —, mas também sendo menos ácido em suas postagens.

Meritocracia

A pedido da entrevistadora, o ex-blogueiro fez também um conselho não só a pesquisadores em início de carreira, mas inclusive para acadêmicos em pós-doutorados, que, segundo ele, reclamam de serem muitas vezes coagidos por seus superiores a maquiarem os resultados de seus experimentos: recusem essas pressões e guardem bons registros.

Brookes afirma que não desistiu de retomar a atividade de observação de más-condutas científicas, mas que o fará com mais cautela e de forma não provocativa. E acrescentou que isso deve ser feito porque o sistema acadêmico é uma meritocracia, na qual o mecanismo de recompensas deve ser baseado na realidade.

Presença incômoda

Brookes disse ter angariado a simpatia de muitos que acompanhavam seu blog e até de seus colegas mais próximos. Mas, se ele retomar realmente sem anonimato o trabalho que desenvolvia no Science Fraud, ele certamente será visto como uma presença incômoda, até mesmo por aqueles que não se envolvem em más-condutas científicas. Se assim o fizer, ele será “o tipo de homem que o mundo finge reverenciar, mas na verdade despreza”, como disse o corrupto Viktor Komarovsky, personagem do filme Doutor Jivago, referindo-se a um jovem revolucionário e idealista.

Aqui no Brasil, onde a compreensão distorcida de direitos que se sobrepõem a deveres já contaminou profundamente o ambiente acadêmico, as afirmações do jovem pesquisador de Rochester sobre meritocracia com certeza provocariam rejeições ainda mais pesadas contra ele.

STF reconheceu em 1979 autonomia que universidades querem pedir ao MEC

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A autonomia que os reitores das universidades federais brasileiras pretendem garantir por meio de lei já foi reconhecida por unanimidade pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 1979, em pleno regime militar e antes da Constituição de 1988. A proposta de envio de projeto de lei ao Congresso Nacional deverá ser apresentada ao Ministério da Educação pela  Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), informou o repórter Victor Vieira ontem (10/mar), em reportagem no jornal O Estado de S. Paulo.

Para os dirigentes das universidades federais, diz a reportagem, não existe “na prática”  a autonomia prevista no artigo 207 da Constituição Federal, cujo caput estabelece:

As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

Briga na Justiça

Em 1974 a USP (Universidade de São Paulo) decidiu recorrer à Justiça quando seus remanejamentos de recursos orçamentários foram rejeitados pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado), para o qual esses ajustes deveriam ter sido previamente aprovados pelo governo do estado. A universidade perdeu em todas as instâncias até o processo chegar ao STF em 1979. Foi quando o plenário aprovou por unanimidade o relatório do ministro Pedro Soares Muñoz, que destacou as seguintes palavras do parecer do jurista Caio Tácito:

Subordinar cada uma dessas mutações internas das despesas de custeio à aprovação do governador do Estado, como decorrerá da exegese esposada pelo Tribunal de Contas do Estado, é condenar a USP a uma subordinação intolerável, jungindo-a em atos comezinhos de sua economia ao alvedrio do Poder Executivo. Será a mutilação ou a castração de sua autonomia, despojando-a de uma qualidade indispensável ao regular o eficaz funcionamento da universidade, ao arrepio da lei e do sistema federal do ensino superior.

Em 1999, onze anos após a Carta entrar em vigor, a autonomia das universidades foi comentada no estudo “Autonomia universitária na Constituição de 1988“, de Anna Cândida da Cunha Ferraz, professora da Faculdade de Direito da USP:

Consiste a autonomia administrativa universitária no poder de autodeterminação e autonormação relativos à organização e funcionamento de seus serviços e patrimônio próprios, inclusive no que diz respeito ao pessoal que deva prestá-los, e à prática de todos os atos de natureza administrativa inerentes a tais atribuições e necessários à sua própria vida e desenvolvimento. Tais poderes deverão ser exercidos sem ingerência de poderes estranhos à universidade ou subordinação hierárquica a outros entes políticos ou administrativos. Consiste, pois, na autonomia de meios para que a universidade possa cumprir sua autonomia de fins.

Alguém pode então dizer que “na prática”, as universidades federais poderão recorrer à Justiça para ter sua autonomia assegurada, caso a proposta da Andifes não seja acolhida pelo MEC, ou, se for, caso ela não seja aprovada pelo Congresso.  Mas nem essa briga essas instituições de ensino poderão provocar, pois elas são representadas judicialmente pela própria Advocacia Geral da União (portaria AGU nº 548, de 5.set.2013).

O outro lado da moeda

Antes que acadêmicos mais ousados comecem a fazer planos para a autonomia das universidades federais, é bom lembrar que esse princípio tem uma contrapartida que é a responsabilidade não só pela oferta de ensino de qualidade e por bom desempenho na pesquisa e na extensão de serviços à comunidade, mas também pela gestão eficiente de pessoal e de recursos orçamentários e financeiros.

No que diz respeito a essa contrapartida, são bem oportunas as palavras de outra docente da Faculdade de Direito da USP, Nina Ranieri, em seu estudo publicado em 2005 “Aspectos jurídicos da autonomia universitária no Brasil“:

O art. 207 da Constituição Federal, por sua vez, indica com precisão as esferas de atuação autônoma das universidades — didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial —, visando assegurar o cometimento de funções sociais específicas concernentes ao interesse geral, que podem ser sintetizadas no conhecido trinômio ensino/pesquisa/extensão. Do ponto de vista jurídico, é apenas e tão-somente em razão desse objetivo que a Universidade é autônoma e que, em função do mesmo, a autonomia deve ser exercida de forma responsável, eficiente e adequada aos objetivos nacionais e às referências socioculturais, econômicas e políticas da sociedade na qual se insere.
(…)
A compreensão da garantia constitucional nesse nível, entretanto, não está enraizada na tradição educacional brasileira. E a experiência tem demonstrado que a autonomia universitária, quando mal compreendida, reforça a tutela estatal, a irresponsabilidade institucional e os traços corporativos internos nas universidades, em detrimento das finalidades que devem alcançar.

Modelo paulista

Em São Paulo, a nova Constituição Estadual entrou em vigor em 1989 reafirmando em seu artigo 254 a autonomia universitária da Carta Federal. No mesmo ano, um decreto estadual estabeleceu o repasse mensal para a USP e também para a Unesp e a Unicamp com base em um percentual fixo sobre a receita líquida do ICMS. Hoje esse percentual é 9,57%, correspondente no orçamento do estado neste ano a R$ 11,7 bilhões.

Esse modelo faz das três universidades estaduais paulistas as únicas instituições de ensino superior do Brasil que efetivamente contam com a autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial estabelecida pelo artigo 207 da Constituição Federal.

Boa notícia

No início deste ano, a USP esteve por vários dias no noticiário brasileiro por ter comprometido totalmente sua dotação orçamentária com folha de pagamento de professores e demais funcionários (ver neste blog “USP comprometeu orçamento para esvaziar greves“, 3.mar).

A proposta de autonomia da Andifes, segundo a reportagem do Estadão, começa a ser esboçada tendo como preceito o limite de 75% de dotação para despesas com pessoal. Se esse é ou não um percentual adequado, só o fato de ser proposto esse limite já é uma boa notícia.

Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 11/03/2014 at 0:08

Co-autor de pesquisa sob suspeita de fraude diz não saber que células usou

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Mouse-embryo_Haruko-Obokata

Hoje surgiu mais uma notícia para abalar a credibilidade do recente anúncio de uma nova técnica para obter células-tronco e, com elas, facilitar o desenvolvimento de tratamentos de diversas doenças. Teruhiko Wakayama, da Universidade Yamanashi, no Japão, afirmou não ter certeza da procedência das células por ele usadas em laboratório, em um trabalho relatado por ele e por outros cientistas em dois artigos publicados em janeiro na revista científica britânica Nature.

“Não existe mais credibilidade quando existem tais erros cruciais”, disse Wakayama por e-mail ao jornal The Wall Street Journal. O pesquisador não entrou em detalhes sobre os erros sobre os quais comentou, segundo o repórter Alexander Martin. No entanto, segundo o jornalista, o cientista afirmou “Eu mesmo não sei o que usei em meus experimentos”, ao se referir às células que recebera da coordenadora da pesquisa, a bióloga Haruko Obokata, do Laboratório de Reprogramação Celular, vinculado ao Instituto Riken.

Retratação

A reportagem do WSJ informou também que Wakayama declarou ter pedido a Obokata a retratação pela publicação dos dois artigos científicos.

No dia 17 de fevereiro, a Nature divulgou em seu site que já teria iniciado uma averiguação sobre acusações de adulteração de imagens em um dos dois trabalhos desenvolvidos no Japão, ambos publicados na edição de 30 de janeiro, que anunciaram a reversão de células de diversos tecidos de camundongos para o estágio embrionário por meio de nada mais que um banho ácido.

Junto com essa notícia estava a promessa de dispensar os riscos e as complicações de técnicas que envolvem manipulação genética de vírus para desenvolver tratamentos de diferentes tipos de câncer e doenças como as de Parkinson, Alzheimer e outras. Restaria apenas reproduzir em humanos os resultados obtidos com cobaias.

Resultados não reproduzidos

Ao anunciar essa apuração, a Nature afirmou que já havia sido iniciada na semana anterior uma investigação sobre a pesquisa pelo próprio Instituto Riken. E ressaltou também o fato de que especialistas de outras instituições afirmaram não terem conseguido reproduzir em seus próprios laboratórios os resultados apontados nessa pesquisa.

Mais informações sobre esse assunto estão neste mesmo blog no post “A suspeita de fraude e o ‘sensacionalismo’ em revistas científicas“, de 28 de fevereiro.

Mais uma tentativa de negar a importância do carbono no aquecimento global

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Global-Warming

Um relatório divulgado na semana passada acusou cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática) de esconderem o que seria uma boa notícia: o clima global seria menos sensível ao aumento da concentração atmosférica de CO2 (dióxido de carbono) do que afirmam há décadas esses pesquisadores. Em outras palavras, a ciência estaria escondendo da humanidade a informação de que podemos ficar menos preocupados com a emissão de gás carbônico pela queima de carvão e de outros combustíveis, pois esse composto não seria o vilão doaquecimento global.

O relatório mal havia sido repercutido por alguns sites de notícias e blogs estrangeiros quando surgiram as primeiras constatações de que ele não passava de mais uma tentativa de desmoralização de todo o esforço iniciado há décadas para reduzir as emissões de carbono na atmosfera por meio da queima de carvão e outros combustíveis fósseis pelas indústrias, por usinas termelétrica e por veículos.

Pesquisadores ‘independentes’

Ainda era Quarta-Feira de Cinzas (5.mar) quando um leitor deste blog me enviou o link do press-release “Novo relatório: o clima é menos sensível ao CO2 do que sugerem os modelos“, distribuído pela Fundação da Política do Aquecimento Global (GWPF) , sediada em Londres, no Reino Unido. Esse material para a imprensa fornecia links para duas versões — um artigo completo e um sumário — do relatório “Um assunto sensível: como o IPCC enterrou boas notícias sobre o aquecimento global”. Os autores do estudo são o pesquisador britânico Nic Lewis, apontado no release como “cientista do clima independente”, e o jornalista científico dinamarquês Marcel Crok.

Segundo esse relatório, o IPCC teria deixado de divulgar dados que projetariam o aumento da temperatura média global terrestre até o final deste século oscilando entre 1,3°C e 1,4°C, o que estaria cerca de 2°C abaixo da média de 3,2°C divulgada pelo painel intergovernamental, como mostra o gráfico a seguir.

Adaptação de gráfico elaborado por Nic Lewis e Marcel Crock, que afirmam que a variação climática é menos sensível ao carbono do que os modelos do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática). A faixa azulada se refere à projeção de aumento de 1,3°C e 1,4°C na temperatura média global até o final do século, que, segundo os autores, se basearia em dados deliberadamente ocultados pelo IPCC, que aponta a variação média de 3,2°C referente à área alaranjada do gráfico

Adaptação de gráfico de Nic Lewis e Marcel Crock em “A Sensitive Matter: How The IPCC Buried Evidence Showing Good News About Global Warming”

Militantes anti-IPCC

Minhas primeiras buscas de mais informações sobre o assunto me deixaram com uma boa dose des desconfiança: a GWPF é uma fundação com um esforço concentrado em contestar a importância das emissões de carbono e combustíveis fósseis para o aquecimento global e os trabalhos anteriores de Lewis me pareceram ser um trabalho de militância negacionista do IPCC.

Deixei o assunto para o fim de semana, quando percebi que Greg Laden, bioantropólogo e divulgador científico dos Estados Unidos já havia posto os pingos nos is, desqualificando o relatório de Lewis e Crock com o post “Um novo relatório falso sobre mudança do clima“.

Laden mostrou que os dois autores haviam, na verdade, limitado sua tese a dados que o próprio IPCC havia registrado, mas o afirmaram desconsiderando toda uma série de outras evidências que necessariamente puxam para cima a faixa de variação média da temperatura projetada para o final do século.

Interesses não científicos

Os estudos do IPCC não são textos sagrados que não podem ser contestados. Existem, aliás, pesquisadores sérios que têm ressaltado a possibilidade de o aumento da temperatura média global desde o século 19 estar relacionada a fenômenos independentes da ação humana, como a variação da atividade solar. Mas é outra coisa querer negar a importância da redução da emissão dos chamados gases-estufa, que tem proporcionado, entre outros resultados, esforços para tornar a humanidade menos dependente do consumo crescente de energia, seja por meio de novas tecnologias, seja por meio da própria mudança de atitude por parte das pessoas e das instituições.

Curiosamente, essa corrente negacionista do IPCC e autodenominada “independente”, no final das contas, é em grande parte bancada por entidades ligadas ao setor energético, como é o caso da GWPF.

Para os que quiserem saber mais sobre o assunto, copio a seguir alguns links. Os quatro primeiros são sugeridos por Greg Laden:

Criacionistas manipulam crítica a ‘escravidão de pós-graduandos’ e a revistas científicas

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Página do blog Evolution News and Views, publicado pela entidade criacionista Instituto Discovery, dos Estados Unidos

Eu já previa os tipos de oportunismos que poderiam pegar carona nas pesadas declarações do geneticista Sydney Brenner contra instituições acadêmicas e publicações científicas, quando as repercuti em meu post de anteontem (quarta-feira, 5/mar). Mas confesso que fui surpreendido depois, ao constatar que na véspera de minha postagem o blog criacionista  Evolution News and Views já havia se apropriado das críticas desse cientista para advogar teses contrárias à teoria da evolução de Charles Darwin.

Brenner, de 87 anos, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 2002, e um dos maiores nomes do mundo na biologia molecular, afirmou em entrevista publicada em 24 de fevereiro que as novas ideias na ciência são obstruídas por burocratas do financiamento de pesquisas, por professores que impedem seus alunos de pós-graduação de seguirem suas próprias propostas de investigação e por revistas de artigos científicos que empregam editores que, segundo ele, não passam de cientistas fracassados.

‘Incentivos preversos’

Mantido pelo Instituto Discovery, sediado em Seattle, nos Estados Unidos, o blog começa essa postagem manipuladora com o seguinte parágrafo, que é um primor de oportunismo.

No mundo atual da Big Science, a resistência a novas idéias sobre a evolução está enraizada em parte na ideologia, em parte em preocupações sobre o status pessoal e em parte na natureza da indústria da pesquisa contemporânea, com seus incentivos perversos para aderir à ortodoxia. E essa indústria é objeto de observações sinceras do geneticista Sydney Brenner,  um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 2002, na revista The King’s Review, da Universidade de Cambridge. Ele não estava falando sobre a evolução, mas estamos livres para aplicar o que ele diz conforme for apropriado.

Aspas e enxertos

Poupo os leitores da apresentação de mais detalhes sobre esse post horroroso. Não por ele ser de criacionistas, pois respeito convicções diferentes das minhas (e tenho amigos que são cientistas sérios e rejeitam a teoria da evolução de Darwin). Mas pela manipulação excessiva, com aspas — que servem mais para apontar do que para citar — em torno de palavras ditas por Brenner e enxertadas em asserções que advogam o chamado Design Inteligente, para o qual na natureza não ocorre a seleção natural das espécies, mas um processo guiado por um planejamento prévio.

Talvez o mais ridículo de toda essa manipulação tenha sido a escolha de tags para um post sobre a entrevista de Brenner: “Evolução”, “Design Inteligente… Por causa disso, também tenho de usá-las aqui

No final das contas, e isso é o que mais importa, o oportunismo desse blog que nem oferece espaço para comentários em seus posts é mais uma lição para grande parte dos acadêmicos, que preferem silenciar sobre declarações como as de Brenner,. E, por isso, acabam deixando terreno livre para apropriações indevidas.

Bom final de semana!

Nasa fabrica notícias de asteroides para conseguir dinheiro

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Nasa-Asteroid

Nas últimas semanas, parece que se tornou maior o risco de a Terra ser atingida por um asteroide de tamanho suficiente para provocar uma catástrofe como aquela que há cerca de 65 milhões de anos provocou a extinção dos dinossauros. Na verdade, não houve aumento da presença dessas enormes rochas espaciais. O que houve foi o aumento de notícias sobre esses objetos. E esse aumento foi promovido na imprensa internacional pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos. O motivo é dinheiro.

Em fevereiro, dois asteroides estiveram nas imediações de nosso planeta, um deles com cerca de 100 metros de comprimento, tamanho insuficiente para ser considerado ameaçador. Ontem (quarta-feira, 5/mar) outro, ainda menor, de 30 metros, virou notícia. E hoje três especialistas da agência espacial estarão disponíveis a partir das 16h00 (horário de Brasília) para responder pela internet perguntas do público sobre o que são essas rochas que viajam pelo espaço, qual é a ameaça que elas trazem e o que pode ser feito para impedir que elas se colidam com a Terra. E o que pode ser feito cabe à Nasa, que está empenhada em conseguir com o governo mais recursos para seus programas bilionários.

Estratégia de comunicação

A proposta de orçamento para 2015 apresentada pela Nasa para o governo é US$ 17,5 bilhões, quantia 0,5% menor que os US$ 17,6 bilhões de 2014. A agência solicitou especificamente US$ 133 milhões para sua Missão de Redirecionamento de Asteroides. No entanto, a Casa Branca sabe que essa iniciativa implica despesas diluídas em outros programas, e com aumentos para os anos seguintes. É o caso do Ciência Planetária, que prevê US$ 1,280 bilhão no ano que vem com acréscimos anuais que chegam a US$ 1,374 bilhão em 2019, assim como o programa Desenvolvimento de Sistemas de Exploração, orçado em US$ 2,784 bilhões para 2015, chegando a US$ 3,107 bilhões em 2019.

A estratégia de comunicação da Nasa para sensibilizar os cidadãos dos Estados Unidos não se restringe à missão de prevenção de asteroides. A preocupação da agência se estende a todo o seu orçamento, como mostra o vídeo a seguir.

A Missão de Redirecionamento de Asteroides se baseia na mesma estratégia mostrada no filme Armageddon, de 1998, no qual uma equipe comandada por Bruce Willis coloca uma bomba atômica em um cometa que rumava em direção a Terra para explodi-lo em pedaços menores que se desviariam de nosso planeta ou se desintegrariam ao penetrar na atmosfera. (Para mais detalhes, recomendo a leitura de “Bombas atômicas contra asteroides“, do blog Mensageiro Sideral, de Salvador Nogueira.)

Passagens frequentes

As passagens de asteroides pelas imediações da Terra não são acontecimentos extraordinários. “Esses eventos ocorrem frequentemente. E o acompanhamento deles se tornou mais preciso nos últimos anos com o desenvolvimento da tecnologia”, afirmou a este blog o astrônomo Othon Winter, professor do campus de Guaratinguetá da Unesp.

Também chamado pela sigla NEO (near Earth object, que em inglês significa objeto próximo da Terra), um asteroide ou cometa é considerado potencialmente perigoso pela Nasa se tem mais de 150 metros de diâmetro ou de comprimento. Isso significa que, para sensibilizar a opinião pública para a necessidade de investir em seu programa de prevenção de NEOs, os exemplos usados na divulgação recentemente realizada pela agência espacial foi algo semelhante a noticiar a ação de ladrões de galinhas para justificar a compra de armamentos pesados para a polícia.

Sensacionalismo

Para complicar, a Nasa tem um histórico recente de sensacionalismo na divulgação de notícias de seus feitos para dar a eles maior impacto na opinião puública. Em 1996 a agência exagerou as expectativas de alguns de seus cientistas sobre a possibilidade de haver vestígios de supostas bactérias em um meteorito marciano que caíra na Antártida há cerca de 13 mil anos. Em dezembro do ano seguinte, um estudo publicado na revista Nature desmentiu a notícia. Em 2000, foi a vez de outro desmentido, o da descoberta de água em Marte. Nas duas ocasiões a agência estava em campanha para conseguir mais recursos do governo.

Apesar de todos esses exageros, é preciso investir os recursos que forem realmente necessários para garantir uma iniciativa como a Missão de Redirecionamento de Asteroides, seja ela realizada só pelos Estados Unidos ou em parceria com outros países.  Até o final de fevereiro deste ano, foram identificados 10.759 NEOs pela Nasa. Desse total, 1.456 foram classificados como potencialmente perigosos, sendo que 866 deles com mais de um quilômetro de diâmetro ou comprimento.

Enfim, o risco de um cometa ou um asteroide se chocar contra nosso planeta e acabar conosco não está maior do que já estava. Mas não é nada razoável não temosr um aparato de defesa para ameaças contra toda a população terrestre. Difícil vai ser convencer muita gente de não investir a parte que cabe a esse programa em saúde, educação ou assistência social.

Cientistas escravizam pós-graduandos e obstruem a ciência, diz Nobel de Medicina de 2002

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Sydney Brenner,  um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 2002

As novas ideias na ciência são obstruídas por burocratas do financiamento de pesquisas e por professores que impedem seus alunos de pós-graduação de seguirem suas próprias propostas de investigação. E há revistas de artigos científicos que estão corrompendo a ciência, pois empregam editores que não passam de cientistas fracassados que atuam de modo semelhante ao dos agentes do Departamento de Segurança Interna dos EUA e são pequenos ladrões do trabalho alheio. Quem diz isso é um do maiores nomes da biologia molecular, o sul-africano Sydney Brenner, de 87 anos, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 2002, em uma entrevista publicada em 24 de fevereiro pela revista eletrônica The Kings’s Review, do King’s College da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Brenner recebeu o Nobel de Fisiologia e Medicina de 2002 com outros dois colegas por suas descobertas sobre o mecanismo de regulação genética do desenvolvimento de organismos e da morte das células. Formado em medicina na Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, ele se doutorou em química na Universidade de Oxford, no Reino Unido, país onde trabalhou no Laboratório de Biologia Molecular, em Cambridge, com Francis Crick (1916-2004), um dos descobridores da estrutura e do funcionamento do DNA. Depois de se aposentar, Brenner se vinculou ao Instituto Salk para Estudos Biológicos, em La Jolla, na Califórnia, nos Estados Unidos.

Ia ser só uma homenagem

A entrevista em que Brenner fez suas declarações bombásticas havia sido pautada inicialmente para ser uma homenagem a outro cientista com o qual ele havia trabalhado, o bioquímico britânico Frederick Sanger (1918-2013), premiado com o Nobel em 1958 e também em 1980, que havia morrido em novembro do ano passado.

Seguem alguns dos trechos mais quentes da longa entrevista.

A biologia obteve seu principal sucesso por meio da importação de físicos, que entraram em campo sem saber nada de biologia, e eu acho hoje que isso é muito importante.
(…)
Acredito firmemente que a única maneira de incentivar a inovação é dá-la para os jovens. Os jovens têm a grande vantagem de serem ignorantes. Porque acho que a ignorância em ciência é muito importante. Se você é como eu, sabe muito bem que não pode tentar coisas novas. Eu sempre trabalho em campos nos quais eu sou totalmente ignorante.
(…)
Hoje os americanos desenvolveram uma nova cultura na ciência baseada na escravidão dos estudantes de pós-graduação. Agora os estudantes de pós-graduação de instituições americanas estão com medo. Ele [o pós-graduando] apenas executa. Ele deve executar. O pós-doc é um trabalhador contratado. Agora temos laboratórios que não funcionam da mesma forma como os primeiros laboratórios onde as pessoas eram independentes, onde elas poderiam ter suas próprias idéias e persegui-las.
(…)
Mas hoje não há nenhuma maneira de fazer isso sem dinheiro. Essa é a dificuldade. Para fazer ciência é preciso ter suporte. Hoje, os apoiadoores, os burocratas da ciência, não querem correr riscos. Portanto, para apoiar alguém, eles querem saber desde o início como ele vai trabalhar. Isto significa que você precisa ter informações preliminares, ou seja, que você é obrigado a seguir o caminho estreito e apertado.
(…)
Acho que a revisão por pares está obstruindo a ciência. Na verdade, acho que ela se tornou um sistema completamente corrompido. É corrupto em muitos aspectos, como no fato de cientistas e acadêmicos deixarem para os editores dessas revistas a competência de fazer juízo sobre a ciência e os cientistas. Há universidades nos Estados Unidos, e eu ouvi isso de muitos comitês, que não vão considerar as publicações das pessoas em revistas de baixo fator de impacto.
(…)
Em outras palavras, [essa cultura] coloca o julgamento nas mãos de pessoas que realmente não têm nenhuma razão para exercer juízo em tudo. E isso tudo foi feito com a auda do comércio, porque eles são agora organizações gigantes que estão fazendo dinheiro com isso.
(…)
E todo mundo trabalha para essas revistas para nada. Não há nenhuma compensação. Não há nada. Elas recebem tudo de graça. Elas só têm de empregar um monte de cientistas fracassados, os editores, que são como o pessoal [do Departamento] da Segurança Interna, pequenos ladrões de energia em sua própria esfera.
(…)
Se você enviar um PDF de seu próprio paper a um amigo, então [para as revistas que cobram pelo acesso a seus artigos] você está cometendo uma infração.

Brenner certamente erra ao fazer afirmações genéricas que, em princípio, atingem não só todos os orientadores de pós-graduandos, mas também todos os periódicos e seus editores. Não é possível que toda a produção científica esteja contaminada da forma apontada por ele. Mas suas acusações não podem ser varridas para baixo do tapete. 

Pouca repercussão

As afirmações de Brenner à King’s Review tiveram pouca repercussão. O blog Retraction Watch, que monitora as retratações de publicações científicas, publicou uma nota na segunda-feira (3/mar), mas seu tom foi muito mais suave do que o das palavras ditas por Brenner.

É habitual na comunidade científica um certo silêncio em situações constrangedoras provocadas por integrantes em idade avançada. Um silêncio que por parte de uns funciona não só como uma demonstração de respeito pela carreira, mas também, por parte de outros, como um certo desdém do tipo “isso não passa de excentricidade de celebridade que já deveria estar de pijama”.

Corda em casa de enforcado

Mas certamente Brenner não está só. Essa mesma cultura que ele acusa de ser corrupta é dissecada impiedosamente pelo norte-americano Lindsay Waters, editor de humanidades da Harvard University Press, em seu livro Inimigos da Esperança: Publicar, perecer e o eclipse da erudição, publicado no Brasil em 2006 pela Editora Unesp. Para Waters, a relevância é um atributo que deixou de ser considerado na produção acadêmica contemporânea, dando lugar à competência para produzir mais, publicar mais, substituindo a qualidade pela quantidade. Segundo Waters (pág. 53),

Uma certa timidez permeia o mundo acadêmico no momento. A sabedoria de hoje diz: ‘não formule grandes questões; não pergunte por que as coisas são como são’.

Passados 10 dias desde a publicação online dessa entrevista, não é por menos o silêncio sobre ela na internet por parte de publicações científicas. A situação se aplica perfeitamente à máxima segundo a qual não se fala sobre corda em casa de enforcado.

PS — O parágrafo situado imediatamente antes do intertítulo “Pouca repercussão” foi introduzido hoje (quarta-feira, 5/mar) às 16h57, quando constatei que eu o havia suprimido acidentalmente durante a edição do texto. Não houve nenhuma reclamação de leitores, mas poderia ter havido. Afinal, embora eu não tenha endossado as afirmações genéricas de Brenner, a falta de uma relativização acabaria dando ao leitor a impressão de minha concordância com elas. Peço desculpas pelo descuido.

PS 2 — Dois dias depois da publicação do texto acima, este blog voltou ao tema com o post “Criacionistas manipulam crítica a ‘escravidão de pós-graduandos’ e a revistas científicas“.

PS 3 — Leia também neste blog “Pesquisador que revelava fraudes científicas vive receio de ações judiciais e retaliações” (12.mar)

Está na hora de comparar rankings universitários

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Ranking-Alto

Os rankings sobre o ensino superior se tornaram cada vez presentes no noticiário, e já começaram há alguns anos a apresentar colocações muito diferentes para universidades e faculdades. Com isso já está mais do que na hora de começar a comparar essas classificações, de modo a facilitar a compreensão de seus métodos e critérios.

No ano passado, por exemplo, a USP ficou no 43ª lugar na classificação do Webometrics Ranking Web of World Universities. Ontem a mesma universidade foi anunciada em oitavo lugar no Top Universities, da instituicão de pesquisa educacional Quacquarelli Symonds.

A principal razão para a discrepância está no fato de que o primeiro levantamento se baseia na exposição que as instituições alcançam na internet, enquanto a outra classificação se baseia na produção de trabalhos científicos e outros indicadores acadêmicos e abrangeu apenas as universidades emergentes do Brics, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Na versão referente à área de ciências agrárias e florestais, por exemplo, a Unicamp (Universidades Estadual de Campinas) ficou classificada como a 22ª melhor do mundo, seguida no Brasil pela USP, em 27º lugar, e pela Unesp (universidade Estadual Paulista), na 50ª posição.

Esses levantamentos sobre o desempenho de universidades e faculdades se baseiam geralmente em indicadores sobre trabalhos científicos publicados em periódicos internacionais, citações desses trabalhos por outros estudos, pesquisadores com maior número de publicações, desempenho na formação de estudantes de graduação e pós graduação e até mesmo dados de pesquisas de satisfação de pais e alunos. Mas suas metodologias e critérios acabam quase sempre produzindo resultados muito diferentes na classificação das instituições.

Novidade da China

No Brasil, já havíamos começado a nos habituar com esse tipo de classificação do ensino superior no século passado, a partir dos anos 1980, com o ranking que periodicamente era divulgado por uma revista masculina, a Playboy. Mas em 2003 surgiu uma novidade chinesa que teve repercussão internacional, o Academic Ranking of World Universities (ARWU), da Universidade Shanghai Jiao Tong.

Em 2004, o grupo editorial do jornal britânico The Times lançou o Times Higher Education (THE). Nesse mesmo ano, o Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha lançou o Webometrics Ranking of World Universities, que se baseia na divulgação de trabalhos acadêmicos pela internet. Na Holanda, o CWTS Leiden Ranking foi criado em 2008 pela Universidade Leiden.

Carreira solo

Em 2009, o centro de pesquisas britânico Quacquarelly-Symonds (QS), que desde 2004 fornecia dados para o Times Higher Education, passou a fazer “carreira solo” com seu próprio ranking, e o THE passou a trabalhar com informações da base de dados Thomson Reuters. Mais recentemente, a QS lançou o Top Universiities, cuja edição de 2013 foi anunciada ontem.

Entre os demais rankings que surgiram depois, destaca-se no Brasil o Ranking Universitário Folha, que para os brasileiros trouxe a oportunidade de ter um levantamento com metodologia e critérios mais adequados para a comparação entre as instituições de ensino superior do país.

Campanhas publicitárias

Os rankings que envolvem o ensino superior já fazem parte há alguns anos do calendário de divulgação de universidades e faculdades. Essas informações interessam não só para grande parte da população, que cada vez mais vê a formação universitária como um caminho para melhor qualificação profissional, mas também para as próprias instituições ranqueadas.

Para as universidades e faculdades, além de os dados sobre suas colocações poderem servir para elas aperfeiçoarem seu desempenho no ensino e na pesquisa, eles servem também para a captação de recursos e a apresentação de indicadores de desempenho acadêmico e, no caso das particulares, para campanhas publicitárias.

Novos rankings?

Por envolverem expectativas da sociedade e das próprias instituições classificadas, os rankings sobre o ensino superior costumam interessar também para a imprensa e para os departamentos de marketing das universidades e faculdades. Ao serem levados para o conhecimento do público em geral, os dados desses rankings passam por uma tradução que, na linguagem da comunicação, envolve geralmente uma semelhança com os pódios e premiações esportivos. Desse modo, aquela informação que já era de interesse geral passa a ser mais atrativa.

Desse modo, a elaboração de rankings passou a ser também uma atividade geradora de recursos, tanto para instituições com fins lucrativos como para entidades públicas que buscam recursos para manter ou ampliar seus projetos. Desse modo, novos rankings devem surgir nos próximos anos. Ou, quem sabe, comecem a acontecer fusões e aquisições nesse setor.

Para saber mais

Deputado contrário a testes com animais assume Comissão de Ciência da Câmara

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Opositor de longa data à realização de experiências científicas com animais vivos, o deputado federal Ricardo Trípoli (PSDB-SP) foi eleito nesta quarta-feira presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados. Se, por um lado, a escolha agradará defensores dos direitos dos animais, ela certamente desagradará lideranças da comunidade científica que argumentam não haver como substituir seres vivos em pesquisas para tratamento de doenças.

Em rápida entrevista por telefone a este blog no início desta tarde, Trípoli afirmou que não vê problema com eventuais controvérsias sobre direitos dos animais com alguns setores da comunidade científica. “Sou um parlamentar completamente aberto ao diálogo e ao debate em torno de ideias”, disse o parlamentar. “O problema que considero mais complicado e delicado é o risco do controle das comunicações pelo poder público, cerceando direitos fundamentais da cidadania. Essa é uma grande ameaça a todo tipo de debates”, arrematou o tucano ambientalista.

Além do desenvolvimento científico e tecnológico, da política nacional de ciência e tecnologia e organização institucional do setor e acordos de cooperação com outros países e organismos internacionais, a área de atuação temática da CCTCI envolve também meios de comunicação social, liberdade de imprensa, produção e programação das emissoras de rádio e televisão, política nacional de informática e automação e de telecomunicações e regime jurídico das telecomunicações e informática.

Eduardo Gomes (SDD-TO), que havia tentado articular sua escolha para ela presidência da CCTCI, foi eleito vice-presidente.

Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 26/02/2014 at 16:51

Amazônia desmatada já é o triplo da área de SP

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Devastação florestal acumulada na região dobrou entre 1988 e 2013, alcançando uma extensão equivalente também à metade do estado do Amazonas e ao triplo do Reino Unido.

Na semana passada, o Ministério do Meio Ambiente anunciou que os desmatamentos na Amazônia brasileira de agosto de 2013 e janeiro de 2014 caíram 19% em relação ao mesmo período de 2012 a 2013. Baseada em dados do sistema Deter (Desmatamento em Tempo Real), que são obtidos por satélites para apoiar ações de fiscalização e controle de degradações de diversos tipos, essa boa notícia não vale para Mato Grosso, onde a devastação aumentou, como bem destacou o jornalista Marcelo Leite em seu comentário “Mato curto e grosso“, na edição de domingo da Folha de S. Paulo.

Mas outra má notícia sobre a Amazônia é a da extensão de seu desmatamento acumulado, que passou de 377,6 mil km2 em 1988 para 759,2 mil km2 em 2013. Essa superfície corresponde aproximadamente à metade do estado do Amazonas (1,57 milhão de quilômetros quadrados) e ao triplo da área do estado de São Paulo (248,2 mil km2), que é pouco maior que a do Reino Unido (243,1 mil km2).

Divulgação seletiva

Esses dados de desmatamentos acumulados não têm sido anunciados pelo governo, mas podem ser obtidos do sistema Prodes (Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite). Realizado sistematicamente desde 1988 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), esse sistema também emprega imagens de satélites, mas detecta apenas desflorestamentos do tipo “corte raso”, e não de devastações de diversos tipos, como as registradas pelo Deter.

Apesar de sua magnitude, o desmatamento bruto acumulado da Amazônia não tem sido divulgado pelo governo, a não ser em séries anuais que começam em 1988, mas sem mostrar sua situação naquele ano. O dado de 377,6 mil km2 está no relatório do Prodes de 1990-1991.

Tempos agitados

Em 1988 foram concluídos os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, iniciados no ano anterior. A devastação da Amazônia se intensificou nesse período, pois estavam sendo construídos princípios constitucionais para fortalecer a legislação ambiental, inclusive com previsão de sanções penais e ações de responsabilização civil para danos ao meio ambiente. Naqueles anos, cosmonautas soviéticos a bordo da estação espacial Mir ficaram impressionados com as grandes queimadas amazônicas que eram visíveis para eles a olhos nus. Muitas delas ocorreram em áreas agrícolas, mas o próprio Inpe reconheceu que 40% da extensão atingida por esses incêndios era coberta por florestas.

Acusações de omissão em relação à Amazônia, feitas por governantes de outros países e por entidades internacionais, puseram o governo brasileiro na defensiva. Os estudos sobre os desmatamentos da Amazônia até 1988 foram feitos em 1989, último ano da gestão do presidente José Sarney (PMDB). Foi um período muito complicado e tenso dessa linha de pesquisa no Brasil. Mas isso será assunto para outro artigo.

A suspeita de fraude e o ‘sensacionalismo’ em revistas científicas

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Já foi o tempo em que se podia dizer que os exageros na divulgação de novidades da ciência eram sempre provocados pela imprensa. A própria comunidade científica passou a ser geradora de sensacionalismos desde o final do século 20, quando algumas de suas publicações, os chamados periódicos, começaram a ser menos exigentes em relação à isenção e ao caráter crítico, não de seus artigos científicos, mas de suas reportagens e outros textos explicativos, que passaram a ser mais atrativos para a avidez da imprensa por notícias de impacto, especialmente por boas notícias para a saúde humana. Essa tendência foi um dos ingredientes da repercussão internacional, no final de janeiro, da pesquisa realizada no Japão que propunha uma técnica promissora para terapias com células-tronco e voltou a ser anunciada  nesta semana por estar sob investigação por suspeita de fraude.

Apesar do costume de se retratarem publicamente em relação aos seus artigos envolvidos em casos de fraudes, plágios e outros tipos de má-conduta científica — como mostra o monitoramento realizado pelo blog Retraction Watch —, os chamados periódicos praticamente nunca adotam o mesmo procedimento sobre o estardalhaço provocado por seus materiais elaborados para divulgação em paralelo para o público não especializado, inclusive e especialmente para a imprensa.

Acusações e investigações

Na segunda-feira, dia 17, a prestigiada revista científica britânica Nature divulgou em seu site que já teria iniciado uma averiguação sobre acusações de adulteração de imagens em um dos dois trabalhos desenvolvidos no Japão, ambos publicados na edição de 30 de janeiro, que anunciaram a reversão de células de diversos tecidos de camundongos para o estágio embrionário por meio de nada mais que um banho ácido. Junto com essa notícia estava a promessa de dispensar os riscos e as complicações de técnicas que envolvem manipulação genética de vírus para desenvolver tratamentos de diferentes tipos de câncer e doenças como as de Parkinson, Alzheimer e outras. Restaria apenas reproduzir em humanos os resultados obtidos com cobaias.

Ao anunciar essa apuração, a Nature afirmou que já havia sido iniciada na semana anterior uma investigação sobre a pesquisa pelo próprio Instituto Riken, ao qual pertence o Laboratório de Reprogramação Celular, onde trabalha a autora principal dos dois estudos, a bióloga Haruko Obokata, de 30 anos de idade. E ressaltou também o fato de que especialistas de outras instituições afirmaram não terem conseguido reproduzir em seus próprios laboratórios os resultados apontados nessa pesquisa.

Material para jornalistas

Na edição impressa de 30 de janeiro, que já estava disponível na versão online desde o dia anterior, foram publicados também, além dos dois trabalhos comandados por Obokata, outros dois textos, os quais serviram como subsídios didáticos para toda a divulgação realizada pela imprensa internacional: a reportagem: “Banho ácido oferece caminho fácil para células-tronco“, e o artigo opinativo “Potência desencadeada“, de autoria de Austin Smith, pesquisador do Instituto de Células-Tronco da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Textos como esses passaram a ser cada vez mais importantes para os jornalistas poderem entender melhor o que é relatado pelos cientistas nos chamados papers, que são os artigos científicos. Também em linguagem mais didática ou menos técnica que a dos artigos científicos, os artigos opinativos servem geralmente como subsídio para dar a posição isenta e independente de um especialista não envolvido com a pesquisa publicada.

Além do título e das primeiras frases, são poucos os trechos mais otimistas e pouco relativizadores dessa reportagem publicada na própria Nature em 30 de janeiro. Por outro lado, não faltaram no artigo opinativo de Austin Smith afirmações muito otimistas em relação à eficácia da técnica proposta nos dois estudos.

Divulgação otimista

É geralmente das próprias revistas científicas a responsabilidade final pelos títulos e subtítulos de suas reportagens e dos artigos opinativos sobre seus papers. No entanto, Smith certamente não teria o que reclamar do título “Potência desencadeada”. Para um especialista que, em princípio, não tem envolvimento com os dois trabalhos por ele analisados, seu texto é repleto de afirmações assertivas demais e sem as devidas ressalvas para a necessidade de os resultados serem reproduzidos em outros laboratórios, como mostra o trecho a seguir.

A descoberta inesperada de que um estímulo físico pode desencadear a reversão da diferenciação celular para um estado de potência irrestrita abre a possibilidade de obtenção de células-tronco específicas para tratamento de doenças por meio de um procedimento simples, sem manipulação genética. (…) No entanto, eles [Obokata e colegas] estabeleceram um novo princípio: um estímulo físico pode ser suficiente para desmembrar os circuitos de controle de genes e criar um estado ‘plástico’ do qual pode rapidamente ser desenvolvido um nível de potência antes inatingível.

Não se trata aqui de apontar desonestidade por parte de Smith. É possível até que ele realmente tenha acreditado na efetividade das alegações de Haruko Obokata e seus colegas. Não cabe, portanto, nenhuma exigência de explicação por parte dele, principalmente agora, por não haver ainda qualquer resultado das apurações em curso. Mas cabe certamente enfatizar que as coisas seriam muito melhores se a Nature e todos os periódicos tivessem e explicitassem seus critérios editoriais para publicar reportagens e opiniões de especialistas.

Lição esquecida

A pergunta que não quer calar, porém, é como foi possível o caso Okobata ter acontecido após o lamentável episódio que envolveu em 2004 outra consagrada revista, a Science, editada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). Naquele ano aconteceu a divulgação, também por meio de dois artigos nesse periódico, da falsa clonagem de células-tronco embrionárias humanas pelo sul-coreano Hwang Woo-suk, então professor da Universidade Nacional de Seul.

No âmbito da Science, o desfecho desse caso se deu com a “Retratação editorial”, assinada por Donald Kennedy, editor-chefe da revista, que fez uma breve síntese do relatório da auditoria da universidade, informou que os dois artigos de Hwang deveriam ser considerados inválidos e pediu desculpas pelo tempo que os revisores científicos “e outros” perderam avaliando os dois papers, assim como pelo tempo e pelos recursos que a comunidade científica gastou tentando reproduzir os resultados divulgados pela revista. (A revista mantém uma página com essa retratação e outros documentos em seqüência cronológica.)

Efeitos colaterais

Mas não houve nenhuma menção sobre o governo da Coréia do Sul, o qual, acreditando não só nos dois artigos publicados pela Science, mas principalmente na sua repercussão internacional turbinada pela estratégia midiática da revista, ter investido US$ 65 milhões no laboratório do pesquisador e reservado outros US$ 15 milhões do Ministério da Saúde e do Bem-Estar Social para a criação do Centro Mundial de Células-Tronco.

Uma coisa, e perfeitamente aceitável, é os periódicos entenderem que seus papers são mais importantes que suas reportagens e seus artigos opinativos. Outra coisa é uma revista científica agir como se esses dois gêneros textuais não passassem de meros instrumentos para manipular a imprensa e a opinião pública. É o que fazem parecer, no final das contas, algumas atitudes editoriais.

Fora, imprensa!

E, por falar em Hwang e na imprensa, vale lembrar de um dos episódios desse caso no final de 2005, quando o assunto estava fervendo, que foi registrado pelo jornalista Marcelo Leite em seu comentário “Células de decepção em massa“, na Folha de S. Paulo:

Nos mesmos dias em que pipocava o escândalo, um grupo de bambambãs da biotecnologia publicou uma carta no sítio http://www.sciencexpress.org defendendo, com palavras escolhidas a dedo, o afastamento da imprensa leiga. ‘Acusações feitas pela imprensa sobre a validade dos experimentos publicados na Coréia do Sul são, em nossa opinião, mais bem-resolvidos na comunidade científica’, escreveram os oito autores da correspondência. Entre eles estão Ian Wilmut e Alan Colman, dois dos “pais” da ovelha Dolly. (…) Na hora do oba-oba, a imprensa veio bem a calhar, pois ajudou a aprovar verbas para pesquisa. Na hora em que essa mesma imprensa lanceta o tumor, pedem que se afaste para que a comunidade científica enfim cumpra a sua obrigação, tendo já falhado uma vez.

Curiosamente, Austin Smith, autor do artigo “Potência desencadeada”, de 30 de janeiro deste ano, foi também um dos cientistas que assinaram essa carta que demonstrou uma forma realmente desastrosa de lidar com a opinião pública (“Células-tronco embriônicas humanas“, ScienceExpress, 13/12/2005).

PS — Leia também neste blog o post “Co-autor de pesquisa sob suspeita de fraude diz não saber que células usou” (10.3.2014)

Jornalismo científico e mudanças conjunturais da comunicação

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Trabalho elaborado para o I Simpósio Nacional de Jornalismo Científico,
Universidade Estadual do Norte Fluminense, Campos de Goytacazes, RJ,
26 de novembro de 2009.

Maurício Tuffani
(Assessoria de Comunicação e Imprensa, UNESP – Univ Estadual Paulista)

Resumo: A questão crucial do jornalismo na área de C&T acabou por se
tornar a mesma do jornalismo em geral neste neste início de milênio: o
essencial não é saber se os jornais vão desaparecer, nem se os
profissionais de imprensa serão todos terceirizados, mas se a função do
jornalista deixará de ser a produção da informação para se restringir
ao mero gerenciamento dela.

1. O modelo deficitário da divulgação científica

Em seu livro Conhecimento Público, de 1968, o físico britânico John Ziman (1925-2005) destacou que a ciência moderna teve início pouco depois do surgimento da imprensa.1 Não a imprensa no sentido mais estrito e hoje predominante do jornalismo, mas no sentido da impressão, da invenção gutemberguiana que no século XV rompeu definitivamente o círculo fechado em torno do conhecimento escrito. A partir desse novo e revolucionário recurso, a recém-nascida ciência moderna não poderia ter deixado de se estruturar em função dele. Muito mais do que ser registrado, o conhecimento científico tinha de ser comunicado. Centenas de anos depois, já no final do século XIX, os cientistas já haviam consolidado entre si a comunicação por meio de publicações destinadas a especialistas, ao passo que o jornalismo já se tornara uma atividade empresarial voltada para o público em geral.

Em meio aos profissionais das diversas especialidades jornalísticas, os repórteres de ciência consolidam sua imagem, já no início do século XX, de tradutores da linguagem especializada dos cientistas, cada vez mais inacessível para os leigos. “Verdadeiros descendentes de Prometeu, os escritores de ciência pegam o fogo do Olimpo científico — os laboratórios e as universidades — e de lá o trazem para baixo, para o povo”, disse William Laurance, jornalista do The New York Times.2 Essa criativa metáfora ressalta no imaginário da sociedade não só a distância entre o discurso científico e a linguagem comum, mas também a posição dos cientistas como deuses, acima dos “mortais”.

Essa visão “prometéica” do jornalismo na área de ciência e tecnologia (C&T) passou a ser amplamente criticada por estudiosos da divulgação científica a partir dos anos 80. Rotulada como “modelo difusionista linear” ou “modelo do déficit”, essa concepção tem as seguintes características, como bem resumiu Yurij Castelfranchi:

  • a ciência é pensada (conscientemente ou não) como em certa medida autônoma em relação ao resto da sociedade, e “impermeável”;
  • o público é visto como massa homogênea e passiva de pessoas caracterizadas por déficits, falhas, buracos cognitivos e informativos que devem ser preenchidos por uma espécie de transmissão de tipo “inoculador”; e
  • o processo comunicativo é tratado como substancialmente unidirecional, linear, “top-down”: do complexo para o simples, de quem sabe para quem ignora, de quem produz conteúdos para quem é uma tabula rasa científica. A comunicação de C&T para o “público leigo” é, então, uma operação de simplificação em que, no caminho entre a ciência e a cabeça das pessoas, muita informação é sacrificada ou perdida, por causa da banalização operada pelo comunicador ou por uma parcial incompreensão devido às falhas culturais do receptor. 3

É consenso entre vários estudos que essa é uma concepção ultrapassada de divulgação da ciência, e para ela foram propostos modelos alternativos, como o contextual, o do conhecimento leigo e o democrático ou da participação pública.4 De um modo geral, no plano do ensino de graduação do jornalismo, prevalece o objetivo pedagógico de substituí-la por meio de uma prática jornalística ancorada na contextualização das atividades científicas, destacando seus problemas, seus métodos e seus aspectos históricos, sociológicos e filosóficos.

2. Animador de torcida ou cão de guarda?

A convicção de tantos de especialistas de que o modelo deficitário de divulgação científica é uma visão ultrapassada pouco ultrapassou, porém, o mundo acadêmico onde ela foi construída. Todos esses estudos parecem terem surtido pouquíssimos efeitos na prática do jornalismo na área de C&T, uma vez que nela persiste hegemonicamente esse modelo teoricamente superado. No entanto, vale ressaltar que menos freqüentes entre essas críticas acadêmicas são aquelas que ressaltam dois aspectos essenciais em relação ao jornalismo: o compromisso com a sociedade e a independência em relação às fontes. Castelfranchi, por exemplo, baseando-se em um dos mais recentes relatos sobre a situação da imprensa norte-americana em relação à sua credibilidade,5 destacou que a função do jornalista não é apenas entreter, informar e educar:

É também a de ser “um ‘cão de guarda da sociedade’ capaz de latir para denunciar práticas incorretas e abusos, para ‘catalisar’ um debate informado e são sobre questões éticas levantadas por práticas científicas ou por aplicações tecnológicas, para colocar nas pautas de debates públicos potenciais desencadeamentos suspeitos ou ameaçadores no sistema de C&T ou em suas ligações com o sistema político, o aparato militar ou o mercado.6

Desse modo, o papel passivo e de tabula rasa apontado como característica da sociedade no modelo do déficit da divulgação científica aplica-se também, em certa medida, a grande parte dos jornalistas que cobrem C&T, uma vez que seu papel mediador é também o de uma instância“deficitária” no fluxo vertical da informação. E isso se deve não só à omissão no plano da contextualização das notícias de ciência, mas também à falta de independência e de compromisso com a sociedade. Estes dois últimos aspectos são, no entanto, freqüentemente ressaltados por aqueles que atuam tanto no estudo da divulgação científica como na prática jornalística, como Martha San Juan França:

Enquanto repórteres de política e economia freqüentemente vão além dos releases oficiais para comprovar a veracidade das notícias, os colegas de ciência se contentam com a informação autorizada, os papers (relatórios científicos), entrevistas coletivas e revistas especializadas. Enquanto as notícias de outras áreas são normalmente objeto de crítica, a ciência e a tecnologia são poupadas ― até que ocorram acidentes trágicos. Se bons jornalistas são reconhecidos ― e temidos ― por suas análises críticas, no caso de ciência, a investigação e a crítica costumam passar longe.7

Herdeira direta dos ideais da Revolução Francesa e da modernidade, a função de cão de guarda (“watchdog) presente nos códigos de deontologia jornalística de diversos países não tem encontrado correspondência na maior parte da cobertura de C&T. Para muitos dos jornalistas que atuam na área, assim como para os que dirigem as redações, as reportagens de ciência precisam ser bonitas, agradáveis e principalmente instrutivas, ressaltou França. “É como se os assuntos de ciência, tecnologia, saúde e meio ambiente não envolvessem polêmicas.”8 Essa crítica mais aguda ao modelo deficitário foi apontada também pela jornalista Mônica Teixeira em termos muito taxativos, mas bem adequados para apontar uma tendência:

Não há contraditório na cobertura de ciência. Dispensamos o jornalismo sobre ciência de cumprir o mandamento que interdita a matéria feita a partir de uma única fonte porque entendemos que não há versões de verdade quando se trata de ciência. Compartilhamos e cultivamos, ao longo da modernidade, a crença de que a ciência não comporta versões, dado ser a ciência justamente o método mais perfeito desenvolvido pelo homem para a apreensão da verdade sobre tudo no mundo passível de ser tomado como objeto desse método. Não há contraditório na cobertura de ciência porque não há contraditório possível para a ciência. 9

Essa tendência do jornalismo científico foi duramente criticada no editorial “Cheerleader or watchdog?”, publicado em junho deste ano pela revista Nature.10 E foi devidamente identificada no Brasil em um estudo de grande envergadura realizado pela Fundação para o Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), vinculada à Universidade Federal de Minas Gerais, em parceria com a Agência Nacional de Direitos da Infância (Andi). A pesquisa se baseou nas matérias sobre ciência publicadas durante 2007 e 2008 por 62 jornais diários brasileiros, descartados os textos com menos de 500 caracteres. Nas 2.599 reportagens, colunas, artigos, editoriais e entrevistas selecionadas e analisadas – 1.394 matérias de 2007 e 1.205 de 2008 –, em cerca de 55% dos textos, apenas uma única fonte é explicitamente indicada no conteúdo da notícia (55,9% em 2007 e 54,4% em 2008). No entanto, mesmo nas matérias com mais de uma fonte mencionada, apenas 10,6% apresentaram opiniões divergentes. Entre as divergências apresentadas, 54,7% são de ordem técnica.11

3. Percepção pública da ciência

Apesar de a afirmação de que “não há contraditório na ciência” ser uma explanação intencionalmente caricatural, ela mostra uma imagem que corresponde em grande parte à percepção pública sobre a importância da pesquisa científica e tecnológica para a vida humana. É o que mostrou uma pesquisa de âmbito nacional realizada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) em 2007. 12

Nesse levantamento, a comunidade acadêmica foi o grupo melhor avaliado em relação ao aspecto da credibilidade pública: apenas 2% dos entrevistados escolheram “cientistas que trabalham em universidades” como resposta à pergunta “Se você desejar receber informações sobre algum assunto importante para você e para a sociedade, quem te inspira menor confiança como fonte de informações?” 13

Essa mesma pesquisa destacou a importância dada pelos entrevistados à ciência, uma vez que 70% deles optaram pela resposta “concordo totalmente” e outros 21% por “concordo em parte” com a afirmação “As empresas privadas brasileiras devem investir mais na pesquisa científica e tecnológica”. Em relação à asserção “Os governos devem aumentar os recursos que destinam à pesquisa científica e tecnológica”, 68% das pessoas consultadas optaram por “concordo totalmente” e outras 21% por “concordo em parte”.

A essa demonstração de importância correspondeu, porém, uma expectativa geral de cautela em relação aos limites da ciência em relação aos problemas sociais, dado o resultado referente à afirmação “O desenvolvimento científico e tecnológico levará a uma diminuição das desigualdades sociais”: 26% concordaram “plenamente” e 32%, “em parte”.

Entendido como o conjunto de imagens, expectativas e valorações sobre a ciência e a tecnologia como instituição, instrumento de ação, fonte do saber e da verdade e grupo humano ou social com uma função específica,14 esse imaginário social da ciência apontado no Brasil pelo estudo do MCT corresponde aos resultados de diversas pesquisas de opinião pública estrangeiras. É o caso dos levantamentos bianuais da Fundação Nacional da Ciência,15 nos Estados Unidos, a européia Eurobarometer,16 assim como a pesquisa realizada em 2003 alguns países latinos, entre eles o Brasil.17

No plano da retórica política, esse imaginário tem sido muitas vezes exaltado em relação às expectativas da ciência. Foi o caso do discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao assumir seu cargo em 20 de janeiro deste ano, no qual ele prometeu:

Vamos restaurar a ciência ao seu lugar de direito e empregar as maravilhas da tecnologia para elevar a qualidade da saúde e reduzir seus custos. Vamos atrelar o sol, os ventos e o solo para proverem combustível para nossos carros e nossas fábricas. E vamos transformar nossas escolas, nossas faculdades e universidades para que façam frente às demandas de uma nova era. Tudo isso nós podemos fazer. E tudo isso nós vamos fazer. 18

4. Conseqüências no jornalismo diário

Os cientistas, no entanto, sabem que as conclusões de suas pesquisas não são definitivas. Sabem também que grande parte de seus trabalhos envolve diferenças de interpretações, e geralmente os bons papers fazem menção a trabalhos baseados em visões conflitantes com a do autor. Mas raros são os jornalistas que lidam com artigos publicados em periódicos científicos e têm condições de identificar outras fontes que possam oferecer versões diferentes e até mesmo divergentes da pesquisa que é o tema central de sua reportagem.

No jornalismo diário, as fontes primárias das reportagens de ciência de maior repercussão —aquelas que apresentam descobertas ou inovações dos países mais desenvolvidos — são geralmente as agências internacionais de notícias e serviços de divulgação de instituições de pesquisa. Na maior parte das vezes, esse material acaba sendo reproduzido ou copidescado, dando seqüência ao fluxo vertical do modelo deficitário da divulgação científica.

Poucas são as iniciativas editoriais de interferir nesse processo, inclusive por meio de entrevistas com outros pesquisadores da mesma área de especialidade do tema em pauta. No mais das vezes, essas outras fontes são procuradas para “repercutir” a notícia, quase sempre descartando de antemão a possibilidade de esses contatos colocarem em xeque os pressupostos que justificaram sua escolha como pauta.

No Brasil, a velocidade desse fluxo “top-down” é agravada na cobertura diária de ciência devido ao fato de o fuso das principais cidades do país ser duas horas adiantado em relação a uma das regiões mais importantes do mundo como origem das notícias de ciência. É a Costa Leste dos Estados Unidos, onde estão localizados o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), os NIH (Institutos Nacionais de Saúde) e importantes universidades, como Harvard, Yale, Princeton, Chicago, Cornell, Columbia, Johns Hopkins e outras. E nosso fuso é cinco horas adiantado ao de outra região importante, que é a Costa Oeste, onde estão o Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia) e as universidades Stanford e de Berkeley, Los Angeles e San Diego.

Qualquer anúncio feito à tarde nessas localidades deixa a maior parte das redações brasileiras em dificuldades na corrida contra o tempo. Há que se ressaltar, no entanto, que as poucas equipes especializadas na cobertura de C&T superam satisfatoriamente esses contratempos, seja devido à sua desenvoltura e ao amplo conhecimento de fontes nessa área, seja porque muitas vezes estão informados com antecedência sobre essas divulgações.

5. Os periódicos científicos e a imprensa

De um modo nem sempre consciente, o critério adotado pela maior parte da cobertura jornalística de C&T para assegurar confiabilidade de suas notícias tem sido nas últimas décadas o princípio de exigência do endosso de comitês científicos independentes. Em termos práticos, isso significa estabelecer como fontes principais do noticiário de ciência os informes para a imprensa de agências internacionais e por instituições de pesquisa, elaborados a partir de artigos publicados em periódicos científicos, os quais contam com comitês consultivos independentes para avaliar os estudos encaminhados para publicação.19

Entre os periódicos interdisciplinares destacam-se os norte-americanos Science e PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) e o britânico Nature. Na área da medicina, que é um dos principais interesses do público em geral, os que mais se destacam são o Jama (Journal of the American Medical Association) e The New England Journal of Medicine, dos Estados Unidos, e British Medical Journal e The Lancet, do Reino Unido. Consagradas como principais e indispensáveis fontes da imprensa em todos os países, essas revistas rapidamente incorporaram uma outra função além da original de divulgação científica inter pares, mas de uma forma não explícita: elas passaram a ser veículos de comunicação disponíveis para instituições científicas ― governamentais ou não-governamentais ―, lideranças acadêmicas e até de empresas, como as indústrias farmacêuticas, os recentes empreendimentos da genômica e outros.20

Tendo expandido seu público-alvo para além dos limites da comunidade acadêmica, muitos periódicos científicos passaram também a organizar com regularidade eventos especiais para influenciar comunicadores, formadores de opinião e tomadores de decisão. Desse modo, essas revistas passaram a servir como veículos para campanhas institucionais do setor, as quais muitas vezes se destinam à captação de recursos. Aos simples press-releases se acrescentaram, com o tempo, entrevistas coletivas, eventos especiais e teleconferências. Nos anos finais do século XX, em plena disputa pela preferência de pesquisadores para a publicação de artigos científicos com potencial de grande repercussão, alguns desses periódicos passaram inclusive a estabelecer os destaques de suas edições de olho na pauta de seus concorrentes, chegando ao ponto de antecipar, inclusive por meio de entrevistas coletivas, a liberação de informações sobre pesquisas antes das datas de publicações.

6. O exemplo da genômica

Esse novo papel dos periódicos científicos no agendamento das pautas jornalísticas teve como um de seus mais contundentes exemplos já em fevereiro de 2001, com a divulgação simultânea dos resultados do Projeto Genoma Humano (HGP) — de instituições públicas dos EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Japão e China — e do grupo privado norte-americano Celera Genomics. Por meio de um entendimento que envolveu até mesmo os governos norte-americano e britânico, o primeiro empreendimento teve seus resultados divulgados no dia 15 daquele mês pela revista Nature (vol. 409, nº 6822), ao passo que os do segundo projeto foram veiculados no dia seguinte na Science (vol. 291, nº 5507.

Essa iniciativa simultânea das duas publicações, compreensível devido à importância dos resultados divulgados, foi caracterizada, porém, por notáveis transgressões ao padrão da linguagem empregada em publicações científicas, que sempre evitaram o recurso a metáforas e de outras figuras de linguagem. Mais que isso, essas duas edições usaram e abusaram até mesmo de hipérboles, tais como “Nova Era”, “Livro da Vida”, “Admirável Mundo Novo”, “façanha épica”, “tabela periódica da vida”, “Jóia da coroa”, “ápice da biologia” e outras, como mostrou o jornalista Marcelo Leite em sua tese de doutorado já convertida em livro.21

O uso dessas metáforas e hipérboles não foi episódico. Na verdade, desde seu início em 1989, o Projeto Genoma Humano passou a adotar essa prática dentro de uma estratégia para captação de elevadas somas de recursos. Como bem destacou Leite em seu estudo, justamente em um momento do desenvolvimento da biologia em que estava consolidada a convicção de que a arquitetura do genoma humano não comporta interpretações deterministas do tipo “tudo está nos genes”, as lideranças do HGP passaram a adotar uma “mobilização retórica e política, nas interfaces com a esfera pública leiga, de um determinismo genético crescentemente irreconciliável com os resultados empíricos obtidos no curso da própria pesquisa genômica”.22

A adoção dessa retórica voltada para a captação de recursos na divulgação por meio dos próprios periódicos científicos tem sido um exemplo mais contundente das atividades proporcionadas por esse novo papel dessas revistas. Nesse sentido, vale retomar as seguintes considerações da obra de Leite:

As revistas Nature e Science se encontram em posição privilegiada para influenciar o significado que realizações de cientistas assumem no imaginário social: têm periodicidade semanal, não são ultra-especializadas como maioria dos journals, os trabalhos técnicos que veiculam são precedidos por artigos, comentários e notícias que contextualizam e discutem os dados e interpretações dos papers científicos propriamente ditos, e aderiram nas duas últimas décadas sistemas de prestação de serviços para jornalistas especializados em ciência23 que as transformaram em duas de suas fontes preferidas de informação e em mananciais de pautas para reportagem (ambas as publicações são também importantes formadoras de opinião na comunidade científica internacional). Ambas as duas edições aqui analisadas abundam em hipérboles que sublinham o caráter histórico da publicação das seqüências-rascunho do genoma humano; era imperioso, antes de mais nada, que os jornalistas assim a percebessem e assim a apresentassem para o grande público. 24

7. Conclusões: as transformações no jornalismo

A conseqüência principal dessa dinâmica hegemônica na cobertura jornalística de ciência não é apenas a falta de um posicionamento crítico nas matérias: é também a homogeneização do noticiário sobre C&T, com notícias cada vez mais parecidas umas com as outras nos diferentes meios de comunicação. No final das contas, essa sistemática interna da cobertura de C&T passou a ser criticada muito tarde, e justamente quando o jornalismo em geral começou, devido a fatores conjunturais, a passar por uma erosão de seus valores e atitudes editoriais vigentes havia muito tempo.

No final do século XX, grande parte das empresas jornalísticas começou a ser incorporada a grupos empresariais que atuavam em diversos outros setores. Em outras palavras, os meios de comunicação, que, em países como os Estados Unidos, durante quase dois séculos haviam sido exclusivos de empresários que separavam a informação da interferência direta de outras atividades econômicas, passaram cada vez mais a pertencer a conglomerados empresariais com diversas áreas de atuação. A essa mudança no modelo de propriedade da imprensa juntaram-se também as transformações tecnológicas na informação e nas comunicações, que promoveram aproximações cada vez maiores entre os conteúdos dos diversos tipos de mídias. Nesse novo contexto, a receita publicitária das mídias convencionais começou a diminuir. Em busca de novos modelos de negócios para enfrentar as mudanças na nova economia, as empresas de comunicação foram mudando o perfil de seus executivos não só nas áreas de administração e de negócios, mas também nas redações.

Na verdade, grande parte da cobertura jornalística de ciência já se encontrava — e em muitos casos pode-se dizer que hoje se encontra em uma situação mais agravada —no processo que foi devidamente caracterizado como tendência da imprensa norte-americana em geral no relatório “The State of Newsmedia 2004”, do Projeto para Excelência do Jornalismo:

  • a maior parte da atividade jornalística consiste em distribuir informações, e não em produzi-las; e
  • mesmo entre grande parte dos meios que produzem a informação a ser distribuída, confunde-se cada vez mais os elementos informativos brutos com o que seria a informação resultante de checagem, comparação e avaliação.25

Baseados em amplos dados empíricos da imprensa norte-americana, os relatórios de 2005 e 2006 do Projeto para Excelência do Jornalismo mostraram tendências complementares a essas duas, também desfavoráveis a uma prática jornalística voltada para o interesse público, entre elas a influência crescente de governos, grupos de interesses e corporações na agenda dos veículos de comunicação.26,27 Sem apontar nenhuma alternativa para reverter essas tendências indicadas anteriormente, os documentos anuais a partir de 2007 desse projeto destacaram muito mais as estratégias para sobreviver à crise nos negócios.28,29,30 No final das contas, apesar de haver luz no final do túnel para os negócios, tudo leva e crer que a crise é também do jornalismo como atividade, e que ele, para sobreviver, está se transformando também no que diz respeito aos seus valores.31

Desse modo, em vista dos aspectos de ordem conjuntural envolvidos, a questão crucial do jornalismo na área de C&T acabou por se tornar a mesma do jornalismo em geral neste neste início de milênio: o essencial não é saber se os jornais vão desaparecer, nem se os profissionais de imprensa serão todos terceirizados, mas se a função do jornalista deixará de ser a produção da informação para se restringir ao mero gerenciamento dela.32

Referências

  1. ZIMAN, John — Conhecimento Público. Tradução de Regina Regis Junqueira. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1979, p. 60.
  2. NELKIN, Dorothy — Selling Science. How the press covers science and technology. Nova York: W. H. Freeman & Co., 1985, p. 83.
  3. CASTELFRANCHI, Yurij — “Para além da tradução: o jornalismo científico crítico na teoria e na prática”. in MASSARANI, Luisa e POLINO, Carmelo (orgs.) — “Los desafíos y la evaluación del periodismo científico en Iberoamérica”. Relatório. Jornadas iberoamericanas sobre la ciencia en los medios masivos. Santa Cruz de La Sierra: AECI, RICYT, CYTED, SciDevNet, OEA, 2008.
  4. FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO (FAPESP) — “Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo 2004”. São Paulo: FAPESP, 2005 [http://www.fapesp.br/indicadores2004/volume1/cap12_vol1.pdf]. Acesso em 23/11/2009, vol. I, p. 12-8.
  5. KOVACH, Bill; ROSENSTIEL, Tom — Os Elementos do Jornalismo: O que os jornalistas devem saber e o público exigir. São Paulo. Geração Editorial, 2003, pp. 22-23.
  6. CASTELFRANCHI, obra citada, pp. 11-12.
  7. FRANÇA, Martha San Juan — “Divulgação ou jornalismo?” in VILAS BOAS, Sérgio (organizador) — Formação e Informação Científica: Jornalismo para iniciados e leigos. São Paulo: Summus Editorial. 2005, p. 41-42.
  8. Idem, p. 32.
  9. TEIXEIRA, Mônica ― “Pressupostos do Jornalismo de Ciência no Brasil”. in MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro; e BRITO, Fátima (orgs.) — Ciência e Público: Caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência/Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002. pp. 133-141.
  10. “Cheerleader or watchdog?”. Editorial. Nature. vol. 459, nº 7250, 25/06/2009, p. 1033 [http://www.nature.com/nature/journal/v459/n7250/pdf/4591033a.pdf]. Acesso em 23/11/2009.
  11. FUNDAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA; AGÊNCIA NACIONAL DOS DIREITOS DA INFÂNCIA — “Ciência, Tecnologia & Inovação na Mídia Brasileira: Conhecimento gera desenvolvimento. Relatório. Brasília: Agência Nacional dos Direitos da Infância, 2009, p. 64 [http://www.andi.org.br/_pdfs/paper_c&t_midia.pdf ]. Acesso em 23/11/2009.
  12. MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA — “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia”. Apresentação. Brasília: Ministério da Ciência e Tecnologia/Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social/Departamento de Popularização e Difusão da C&T, 2007. [http://semanact.mct.gov.br/index.php/content/view/922.html]. Acesso em 23/11/2009.
  13. As outras alternativas de resposta eram: representantes de organizações de defesa do consumidor (3%), médicos (7%), cientistas que trabalham em empresas (7%), escritores (8%), jornalistas (15%), religiosos (18%), militares (44%) e políticos (84%).
  14. FAPESP, Obra citada, vol. I, p. 12-13.
  15. NATIONAL SCIENCE FOUNDATION — “Science and engineering indicators 2008”. Washington: U.S. Government Printing Office, 2008 [http://www.spaceref.com/news/viewsr.html?pid=26695]. Acesso em 23/11/2009.
  16. EUROPEAN COMMISSION — Special Eurobarometer 224 “Europeans, Science and Technology”. Relatório. Bruxelas: European Commission/Directorate General Research, junho de 2005 [http://ec.europa.eu/public_opinion/archives/ebs/ebs_224_report_en.pdf ]. Acesso em 23/11/2009.
  17. VOGT, Carlos; POLINO, Carmelo (orgs.) — Percepção pública da ciência: Resultados da pesquisa na Argentina, Brasil, Espanha e Uruguai. Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, 2003.
  18. OBAMA, BARACK — “Rejeitamos como falsa a opção entre segurança e ideias” (Transcrição de discurso). Folha de S. Paulo, 21/01/2009, caderno especial “A posse de Obama”, p. A2.
  19. TUFFANI, Maurício — “A clonagem das notícias de ciência”. ComCiência, nº 74, 10/02/2006 [http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=8&id=46]. Acesso em 23/11/2009.
  20. Idem.
  21. LEITE, Marcelo — Promessas do Genoma. São Paulo: Editora UNESP, 2007, p. 31.
  22. Idem, p. 11.
  23. Press Nature (www.pressnature.com) e Eurekalert/Sience (www.eurekalert.org/jrnls/sci) [nota do texto original transcrito].
  24. Marcelo Leite, Obra citada, p. 30.
  25. THE PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM — “The State of the News Media 2004”. Relatório. Nova York: Columbia University/Graduated School of Journalism, 2004. [http://www.stateofthenewsmedia.com/2004]. Acesso em 23/11/2009.
  26. THE PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM — “The State of the News Media 2005”. Relatório. Nova York: Columbia University/Graduated School of Journalism, 2005 [http://www.stateofthenewsmedia.com/2005]. Acesso em 23/11/2009
  27. THE PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM — “The State of the News Media 2006”. Relatório. Washington: The Pew Research Center, 2006 [http://www.stateofthenewsmedia.com/2006]. Acesso em 23/11/2009
  28. THE PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM — “The State of the News Media 2007”. Relatório. Washington: The Pew Research Center, 2007 [http://www.stateofthenewsmedia.com/2007]. Acesso em 23/11/2009.
  29. THE PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM — “The State of the News Media 2008”. Relatório. Washington: The Pew Research Center, 2008 [http://www.stateofthenewsmedia.com/2008]. Acesso em 23/11/2009.
  30. THE PROJECT FOR EXCELLENCE IN JOURNALISM — “The State of the News Media 2009”. Relatório. Washington: The Pew Research Center, 2009 [http://www.stateofthenewsmedia.com/2009]. Acesso em 23/11/2009
  31. TUFFANI, Maurício — “O mal-estar na informação”. Laudas Críticas (blog), 19/08/2008 [https://laudascriticas.wordpress.com/2008/08/19/o-mal-estar-na-informacao]. Acesso em 23/11/2009.
  32. Idem.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 26/11/2009 at 13:14

Alerta contra o sensacionalismo catastrofista

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Montagem com o titulo de reportagem e respectiva imagem publicadas no portal argentino "Urgente 24"Peço desculpas aos visitantes habituais deste blog pela falta de postagens mais freqüentes nos últimos dias. Minhas atividades profissionais estão desde o início do ano mais intensas e absorventes, inclusive porque preciso concluir muitas tarefas e compromissos antes de entrar em férias.

Há poucos dias, o jornalista Fabiano Angélico, coordenador de projetos da Transparência Brasil, perguntou-me se eram procedentes ou não as informações da reportagem “¿Se viene el fin del mundo?: La NASA pronostica fuertes tormentas solares para el 2012”, publicada em 16/01 pelo portal argentino Urgente 24.

A matéria afirma que pesquisadores ligados à Nasa teriam previsto para 2012 uma intensificação das emissões solares de partículas eletromagnéticas, provocando não só transformações climáticas globais, capazes de prejudicar a produção de alimentos e gerar catástrofes ambientais, mas também distúrbios eletromagnéticos em todo o sistema mundial de telecomunicações e de distribuição de energia elétrica.

Encontrei na internet pouca repercussão sobre esse assunto, como a reportagem “Powerful solar storm could shut down U.S. for months”, da Fox News, que dava o mesmo tom catastrofista. Por outro lado, encontrei também a matéria “Is a ‘Katrina-like’ space storm brewing?”, da ABC News, que se referia a possibilidades que governantes e legisladores de todo o mundo precisam considerar para os próximos anos.

Possibilidades, e não predições

O objetivo deste blog não é fazer reportagem, mas provocar reflexões, o que exige um mínimo de pesquisa minha sobre os temas abordados. Desta vez, por força de minhas limitações momentâneas, limitei-me a entrar em contato com o coordenador da pesquisa citada nessas reportagens: Daniel Baker (Daniel.Baker@lasp.colorado.edu), diretor do Laboratório de Física Atmosférica e Espacial, da Universidade do Colorado, em Boulder, nos Estados Unidos.

Baker atenciosamente respondeu que muitas matérias deram um tom sensacionalista ao assunto, mas observou que houve também boas reportagens, e citou a da ABC News como bom exemplo. O pesquisador coordenou a edição do relatório “Severe Space Weather Events — Understanding societal and economic impacts”, referente ao trabalho de um comitê organizado pela centenária Academia Nacional de Ciências (NAS).

As observações de Baker foram reforçadas também em e-mail enviado pela pesquisadora Sandra Graham (SGraham@nas.edu), diretora de estudos da Junta de Estudos do Espaço do Conselho Nacional de Pesquisas (NRC), que é vinculado à NAS. Ambos me solicitaram que repassasse para jornalistas brasileiros a informação de que as conclusões sobre esses estudos estão disponíveis no relatório acima citado. O acesso ao documento é pago, mas seu sumário executivo (PDF, 240 kB) pode ser baixado gratuitamente.

O assunto não teve, felizmente, maior repercussão, mas pode ser desengavetado a qualquer momento. A fim de não deixar prevalecer o tom sensacionalista e catastrofista, vale a pena retomá-lo, mas de forma responsável.

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Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 28/01/2009 at 8:45

‘Ibama’ de Obama será mais científico, promete a nova chefe

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lisa-jackson1A imprensa brasileira não deu importância à notícia da confirmação pelo Senado dos EUA da engenheira química Lisa Jackson para chefiar a EPA (Agência de Proteção Ambiental). A escolha dela pelo presidente eleito dos EUA, Barack Obama, já havia sido anunciada em meados de dezembro. Porém, mais importante que a aprovação de seu nome para o cargo que assume na próxima terça-feira (20/01) foi a declaração dela sobre sua primeira tarefa — “resgatar a integridade científica e legal” do órgão, segundo a reportagem “EPA pick vows to put science first” (The New York Times, 14/01).

“A ciência precisa ser o esqueleto do que a EPA faz”, afirmou Lisa no início de sua explanação ao comitê de meio ambiente do Senado. O sentido da afirmação da nova administradora é que a agência teve muitas ingerências políticas durante as gestões de Christine Todd Whitman (2001-2003), Michael O. Leavitt (2003-2005) e Stephen L. Johnson (2005-2009), todas da administração de George W. Bush.

Criada em julho de 1970, a EPA é diretamente subordinada à Casa Branca. Possui cerca de 17 mil funcionários em todo o país, trabalha com um orçamento anual de aproximadamente US$ 7 bilhões e possui também uma grande estrutura de laboratórios de pesquisa científica.

‘Música para os ouvidos’

De ascendência afro-americana, a nova administradora da EPA chefiou o Departamento de Proteção Ambiental do Estado de New Jersey durante quase dois anos, até assumir em 1º de dezembro a chefia do gabinete do governador do estado. Ela, que completa 47 anos em 8 de fevereiro, é funcionária do departamento há 15 anos.

Lisa Jackson teve a aprovação de seu nome pelo Senado comemorada por ambientalistas como Josh Dorner, secretário-adjunto de imprensa da ONG Sierra Club. Ele disse que fazia também suas as palavras “música para meus ouvidos” da senadora californiana Barbara Boxer (Partido Democrata), referindo-se às respostas de Lisa durante sua sabatina pelo comitê.

É interessante notar que ao se referir aos aspectos científico e legal da EPA, ela não usou o bordão “resgatar a credibilidade”, tão comum no Brasil, mas resgatar a integridade. Não fosse pelo enfoque muito mais científico do que ambientalista de seus posicionamentos, essas circunstâncias da definição da nova administradora da EPA poderiam ser comparadas com a da indicação de Marina Silva (PT-AC) para o Ministério do Meio Ambiente (MMA) em 2003, no início da gestão de Lula.

Mesmo assim, ainda é uma boa oportunidade para a imprensa brasileira lembrar que tivemos aqui no Brasil  um filme com início mais ou menos parecido. O bom é torcer para que daqui a algum tempo Lisa Jackson não seja também obrigada a dizer “perco o pescoço, mas não perco o juízo”.

PS — Só para lembrar: enquanto isso, aqui no Brasil, continua “em obras” o site do Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecav), conforme este blog havia informado em sua postagem de 14/11/2008.

PS 2 (segunda-feira, 19/01) Lisa Jackson não foi mencionada nem mesmo por Marina Silva em seu texto de hoje, “A hora de Obama”, em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo (p. A2). Muito menos sua promessa de “resgatar a integridade científica e legal” da EPA.

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 18/01/2009 at 17:58

Publicado em Ambiente, Ciência, Política

O ano da astronomia e os quatro séculos da ciência moderna

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Nos próximos dias 15 e 16 (quinta e sexta-feira) acontece em Paris, na sede da Unesco, a cerimônia de abertura do Ano Internacional da Astronomia, com uma programação de eventos em 129 países em 2009. Mas não foi apenas a astronomia que “nasceu” há exatos quatro séculos, com a observação do céu por Galileu Galilei (1564-1642) ao telescópio. Foi também o nascimento da ciência moderna.

A comemoração se deve às primeiras observações astronômicas de Galileu em 1609 com um instrumento aperfeiçoado por ele. Com essa modificação de um dispositivo óptico que aproximava a observação de objetos, construído no ano anterior por holandeses, nasceu o telescópio, que teve esse nome a partir de 1611. Seu uso permitiu refutar a concepção geocêntrica do mundo e a da imutabilidade e perfeição dos corpos celestes, que eram formados por éter, segundo Aristóteles (384-322 a.C.), em Sobre o Mundo e Sobre o Céu, e Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), no Almagesto e no Tetrabiblos.

Em 4 de março de 1610, Galileu concluiu seu opúsculo Siderius Nuncius (Mensageiro Sideral). Nesse livro ele afirmou pela primeira vez que a Terra e os demais planetas realizam “grandes revoluções em torno do centro do mundo, isto é, em torno do próprio Sol”. (Galileo Galilei, Gaceta Sideral; Johannes Kepler, Conversación con el Mensajero Sideral. Tradução, introdução e notas de Carlos Solís Santos. Madrid: Alianza Editorial, 1984, p. 45.). A partir dessas observações,

… o que [Galileu] viu transformou para sempre nossa concepção do cosmo. A Lua estava longe de ser perfeita, coberta que era por crateras e montanhas. Portanto, não podia ser feita de éter. Júpitar tinha quatro “estrelas” (suas quatro maiores luas) girando à sua volta. (…) A cada nova descoberta astronômica as idéias de Aristóteles faziam menos sentido.
(Pablo Rubén Mariconda & Júlio Vasconcelos, Galileu e a Nova Física. São Paulo: Odysseus Editora, 2006 [Coleção Imortais da Ciência], pp. 9-10.)

Revolução copernicana

No plano da astronomia, além de refutar o modelo aristotélico-ptolemaico do universo, Galileu também corroborou o sistema proposto em 1609 na obra Astronomia Nova, de Johannes Kepler (1571-1630). Este propunha que as órbitas dos planetas eram elípticas, e não circulares, e que elas tinham como centro o Sol, e não a Terra, como havia postulado o polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) em As Revoluções das Orbes Celestes, de 1543.

A iniciativa de Galileu ultrapassou o âmbito da astronomia. Ao compreender que a principal dificuldade do modelo de Kepler era a falta de evidências empíricas, ele começou a articular uma nova etapa na história do conhecimento, com a rejeição da autoridade da religião nas ciências naturais e a afirmação da autonomia do uso da observação, da experimentação e da superioridade do raciocínio demonstrativo matemático na busca da verdade sobre os fenômenos da natureza. Em suas obras, essa nova concepção da ciência tem como uma de suas expressões máximas a seguinte fala de seu fictício personagem Salviatti:

… afirmo que temos no nosso século acontecimentos e observações novas e de tal alcance que não tenho dúvidas de que se Aristóteles vivesse em nossa época, mudaria de opinião.
(Galileu Galilei, Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo — ptolemaico & copernicano. Tradução, introdução e notas de Pablo Rubén Mariconda. São Paulo: Discurso Editorial/Fapesp, 2006, p. 131.)

O trabalho de Galileu foi o ponto culminante de um longo processo não só para superar a antiga cosmologia ptolemaica, mas também a concepção teológica judaico-cristã que com ela se mesclava, segundo a qual o conhecimento era imutável — o que era conflitante com o pensamento aristotélico original — e tudo o que existe e acontece já havia sido previsto por Deus no Gênesis. Nada seria novo, pois tudo o que se acrescentasse ao conhecimento somente confirmaria — e jamais modificaria — as eternas verdades bíblicas. Em outras palavras, haja o que houver, “não há nada de novo debaixo do sol” (Eclesiastes, 1,9).

Esse é o sentido, em O Nome da Rosa, do sermão de advertência do sacerdote quase cego, Jorge de Burgos, ao final da condenação à morte na fogueira dos suspeitos pelos assassinatos em uma abadia no norte da Itália no final do século XIV:

Não há progresso, não há revolução de períodos na história do saber, mas, no máximo, sublime e contínua recapitulação. (…) Eu sou Aquele que é, disse o Deus dos hebreus. Eu sou o caminho, a verdade e a vida, disse Nosso Senhor. Bem, o saber não é outra coisa senão o atônito comentário dessas duas verdades. Tudo quanto foi dito a mais, foi proferido pelos profetas, pelos padres e pelos doutores para tornar mais claras essas duas sentenças.
(Umberto Eco, O Nome da Rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 452)

Pensamento moderno

Levada a cabo por Kepler e Galileu, a revolução copernicana teve implicações na história do pensamento que foram muito além da própria ciência. Em 1917, Sygmund Freud (1856-1939) afirmou que a primeira grande ofensa à auto-imagem da civilização humana foi justamente a substituição da cosmologia geocêntrica pelo heliocentrismo, tirando definitivamente dos homens a idéia de que eles ocupavam um lugar privilegiado no universo.

A segunda grande ferida no narcisismo da humanidade, segundo o fundador da psicanálise, foi desferido por Charles Darwin (1809-1892), que colocou nossa espécie diante da constatação de que ela não é tão diferente dos outros animais, como até então se imaginava. (Sygmund Freud, “Una dificultad del psicoanálisis”. Obras Completas. Tradução de Luís López Ballesteros y de Torres. Madrid: Biblioteca Nueva, 1972, p. 2434.) Por falar nisso, em 2009 se comemoram também não só o bicentenário do nascimento de Darwin, mas também os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies.

Decididamente, 2009 merece ser comemorado como o ano da ciência moderna e até mesmo do pensamento moderno. Ainda há tempo.

Written by Mauricio Tuffani

sábado, 10/01/2009 at 14:37

Lombroso, espiritismo e ceticismo

Cesare Lombroso (1835-1909)A edição de hoje (sábado, 03/01) de O Estado de S. Paulo sinaliza a possibilidade de o espiritismo virar objeto de polêmica em 2009. Em 19 de outubro se completarão cem anos desde a morte do médico italiano Cesare Lombroso (1835-1909), um dos expoentes da criminologia como disciplina científica. A efeméride é lembrada no Estadão por Miguel Reale Júnior. Em seu artigo “Razão e religião”, o jurista destaca a ligação do pesquisador italiano com a doutrina espírita.

Adepto do positivismo de Auguste Comte (1798-1857), Lombroso foi um dos principais nomes da escola positiva do direito penal (ver Lélio Braga Calhau, “Criminologia e a Escola Positiva do Direito Penal”, Jus Navigandi, julho de 2003). Suas incursões no espiritismo aconteceram a partir de 1891 ao aceitar o desafio público do divulgador e propagandista espírita Ercole Chiaia para acompanhar, com outros pesquisadores, sessões da médium Eusapia Paladino (1854-1918).

Lombroso acabou convertendo-se ao espiritismo se retratou das contestações em tom de deboche feitas por ele a essa doutrina aos chamados fatos espíritas em seu livro Studi sull’Ipnotismo, de 1892 (ver Patricia Fazio, “Ricerca personale su Cesare Lombroso”, Il Foro Universitario, 18/03/2007). Por mais que se desacredite dessa atividade das duas últimas décadas de vida do criminologista italiano — e desde já deixo claro meu “pé-atrás” com o assunto —, é inaceitável que ela muitas vezes tenha sido simplesmente varrida para baixo do tapete.

Se a efeméride da morte de Lombroso trouxer novas discussões sobre o assunto, só espero que sejam menos surdos os antagonismos sempre surgem com questões desse tipo. A esse respeito, temos ainda muito a aprender com o bom e velho ceticismo de Pirro de Élis (c. 360-275 a.C.), imortalizado por Sexto Empírico (c. 160-210 d.C.) em sua obra Hipotiposes Pirrônicas. Para não alongar demais no assunto, mostro do que se trata com as sintéticas considerações de Plínio Junqueira Smith a seguir.

A terapia pirrônica, tal como no-la descreve Sexto, faz-se por meio da oposição de discursos e razões e supõe que os dogmáticos sofrem de precipitação e arrogância, que se manifestariam na adesão apressada a um discurso argumentativo e a uma tese em detrimento da tese e discurso argumentativo opostos. O problema do dogmático não consiste na adoção desta ou daquela tese filosófica, mas numa atitude que se caracteriza pela precipitação e pela arrogância. É essa atitude, segundo Sexto, que deve ser tratada. Além disso, a idéia pirrônica é que essa atitude dogmática é fonte de perturbação e de uma vida pior.
(Plínio Junqueira Smith, “Ceticismo dogmático e ceticismo sem dogmas”. Integração. nº 45, abr./mai./jun. 2006, pp. 181-182.)

Claro que isso não tem nada a ver com o que se convencionou chamar de ceticismo nos últimos tempos.

PS das 11h46 — As correções do terceiro parágrafo acima foram feitas em função do comentário de Luiz Roberto Turatti, a quem agradeço pelos esclarecimentos (ver abaixo).

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 03/01/2009 at 11:02

Publicado em Ciência, Filosofia, Religião

‘Físico da alma’ quer unir darwinismo e criacionismo

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Já pensei em colocar na coluna de links deste blog um item chamado Antibibliografia. Nele certamente entrariam todos os livros do midiático físico indiano Amit Goswami. Por dever de ofício, tive de ler quase todas as suas obras. Na mais recente, Deus Não Está Morto: Evidências científicas da existência divina (Tradução de Marcello Borges. São Paulo: Editora Aleph, 2008, 304 pp., R$ 46), a estratégia retórica é a mesma dos livros anteriores: dizer a leitores ávidos por uma prova de existência divina exatamente aquilo que eles esperam, fugir da confrontação com aspectos polêmicos e dar um ar de erudição às suas considerações com o apelo a superficialidades e até a equívocos típicos da cultura de almanaque.

O aparato de divulgação de Goswami costuma apresentá-lo ora como “um dos principais físicos da atualidade”, ora como um “revolucionário em um corpo crescente de cientistas renegados” (ver seu site oficial). Ele é, de fato, um dos físicos mais conhecidos da atualidade, não por causa de sua atuação na física, mas devido ao sucesso com vendas de seus livros, com suas palestras organizadas em vários países pelos editores de seus livros e também por sua participação nos filmes Quem Somos Nós?, em 2004, e O Segredo, em 2006. Em outras palavras, seu sucesso se deve somente à mídia.

Uma coisa é tentar promover a discussão entre partidários de teses contrárias. Certamente isso não levará nunca a um consenso. Nem deve se esperar por esse resultado, mas o processo é sempre enriquecedor para aqueles que se esforçam para compreender argumentos contrários. Porém, outra coisa é a pretensão de Goswami de ter formulado um novo paradigma científico no qual coexistiriam os princípios do evolucionismo e do criacionismo. Essa formulação, que dependeria de muita pesquisa e reflexão científica e filosófica, cresce à vontade em muitos nichos midiáticos.

Conclusões forçadas

Nesse livro, o físico indiano repete, sem dar novos argumentos, a mesma tese, apresentada em publicações anteriores, de que o universo é matematicamente inconsistente sem a hipótese da existência de Deus.

O primeiro tipo de evidência científica para a existência de Deus é o que chamo “as assinaturas quânticas do divino”. A física quântica nos oferece novos aspectos da realidade — as assinaturas quânticas — e, para compreendê-las, explicá-las e apreciá-las, somos obrigados a introduzir a hipótese de Deus. Um exemplo é a não-localidade quântica, a comunicação sem sinal. A comunicação normal é uma comunicação local, realizada por meio de sinais que transportam energia. Mas, em 1982, Alain Aspect e seus colaboradores confirmaram em laboratório a existência de comunicações que não exigem esses sinais. [pág. 5]

Goswami se refere nesse trecho a um dos mais importantes experimentos da física do século XX. Seus resultados foram publicados em 20/12/1982 no mais conceituado periódico especializado em física, o Physical Review Letters. O estudo, apresentado no artigo “Experimental Test of Bell’s Inequalities Using Time-Varying Analyzers” pelo francês Alan Aspect e seus colaboradores do Instituto de Óptica, de Paris, contrariou a previsão da Teoria da Relatividade para velocidades maiores que a da luz e provocou muitas questões não só na física, mas também na filosofia [ver Sílvio Seno Chibeni, “Implicações filosóficas da microfísica”, Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Série 3, 2 (2): 141-164, 1992].

No entanto, todas as implicações do trabalho de Aspect, assim como as de outros, trazem muito mais interrogações do que conclusões forçadas como a de Goswami. Por mais que dela se discorde, seria perfeitamente compreensível a atitude daqueles que crêem na existência divina de responder a essas questões com base em sua crença. No entanto, para aqueles que não são crentes — como o físico indiano até antes de refletir sobre esses problemas, segundo ele afirma — não faz sentido se apegar a essa hipótese.

Argumento da ignorância

Feita por parte de alguém que se diz ter sido ateu e que se defrontou com essas questões da microfísica, a opção de Goswami incorre naquilo que em lógica é chamado de falácia do argumento da ignorância, como mostram os trechos a seguir.

(…) recentemente, tem surgido muita controvérsia sobre teorias criacionistas/desígnio inteligente versus evolucionismo. Por que toda essa polêmica? Porque, mesmo depois de 150 anos de darwinismo, os evolucionistas ainda não têm uma teoria à prova de falhas. Não podem sequer explicar os dados fósseis, especialmente as lacunas fósseis, e também não podem dar explicações satisfatórias sobre como e porque a vida parece ter sido projetada de forma tão inteligente. [p. 5]

E, pouco mais adiante, ele acrescenta:

A chave, neste sentido, seria perguntar: “Haverá uma alternativa para ambas essas abordagens que concorde com todos os dados?” Minha resposta é sim, e vou demonstrá-la nesta obra. Porém, a resposta exige a existência de um Deus com poderes causais e de um corpo sutil que atua como gabarito da forma biológica; o materialismo não permite nenhuma dessas duas entidades. E, assim, problemas impossíveis requerem soluções impossíveis! [p. 6]

Em outras palavras, em face do desconhecimento de explicações no âmbito das teorias que são alvos de suas críticas, ele conclui que não há explicações possíveis, uma vez que postula a existência divina como única alternativa.

Precariedade filosófica

Não bastassem essas e outras saídas forçadas, o físico indiano mostrou nessa obra com mais clareza sua precariedade no plano filosófico. Sua forma de lidar com a idéia de um princípio finalista revela sua confusão entre essa noção e a de criação, que até para alguns pensadores medievais teve de ser objeto de demonstração.  Muitos séculos antes deles, o  próprio Aristóteles, que formulou a causa final (télos) exterior aos processos por ela guiados, em seu livro Sobre o Céu (Livro B, Capítulo 1, 283b26-29) afirmou que

(…) o mundo certamente não foi gerado nem pode ser destruído, como alguns alegam, é único e eterno, não tem começo nem fim em sua extensão e contém o tempo infinito.
[On the Heavens. Texto grego estabelecido por Immanuel Bekker. Introdução, tradução para o inglês e notas de William Guthrie. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library, Aristotle, vol. VI), 1934, pp. 130-131.]

Outra interpretação precária de Goswami é a do pensamento de Friedrich Nietzsche (1844-1900), apontado simploriamente por ele como o niilista que proclamou “Deus está morto” (págs. 53 e 60). O pensador alemão, foi, no entanto, um crítico do niilismo, este entendido como a incapacidade de o Ocidente construir valores para nortear a civilização, que se encontra cada vez mais, desde o início da modernidade, diante da falência de todos os valores supremos:

Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e o mais sagrado que o mundo até então  possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais — quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos teremos de inventar?
[A Gaia Ciência, § 125. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 148]

Longe de discussões

Apesar de ter sido lançado pouco antes das recentes discussões no Brasil sobre o evolucionismo e o criacionismo (ver neste blog “A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo”, de 15/12), Deus Não Está Morto escapou desse confronto. É bem possível que o subtítulo dado ao livro pelos editores brasileiros tenha ajudado a não evidenciar seu conteúdo relativo a esse antagonismo. A versão original é God is Dead: What quantum physics tells us about our origins and how we should live (Deus Não Está Morto: O que a física quântica nos diz sobre nossas origens e como deveríamos viver).

Na verdade, não existe a tal polêmica na ciência em torno das obras de Goswami, como pregam os divulgadores de seus livros. Eu mesmo afirmei isso pessoalmente a ele durante sua entrevista ao programa Roda Viva exibido em 11/02/2008 pela TV Cultura, de São Paulo.

Durante a gravação desse programa, que se realizou 27/08/2007, eu apresentei  os registros dele na base de dados Web of Science, que mostravam, naquela data, nove trabalhos publicados por ele após janeiro de 1986, quando deixou a “ciência materialista”. Esses nove artigos tiveram, até aquela ocasião, apenas 46 citações em pesquisas indexadas nessa base de dados em todo o mundo, quase todas feitas por ele próprio ou por pesquisadores ligados a ele. Em outras palavras, não havia, como até hoje não há, nenhuma repercussão significativa da atuação dele na ciência, muito menos uma polêmica científica em torno de suas idéias.

Eu disse a ele também que seus livros não discutem verdadeiramente as idéias científicas que aborda, pois ele apenas as cita em seus aspectos que lhe interessam, diferentemente do que costuma ser feito por cientistas, por mais parciais que eles sejam. Goswami, que tanto alega se basear na mecânica quântica, fez em seus livros várias considerações en passant sobre Albert Einstein (1879-1955) sem deixar claro que esse cientista durante as três últimas décadas de sua vida se posicionou contrariamente a essa teoria. À minha pergunta sobre esse procedimento que nada tem a ver com a forma de se resolver dúvidas na ciência, ele respondeu:

Infelizmente, o confronto não é o estilo recomendado pela visão de mundo que tenho… e a visão de mundo que explica a física quântica e que agora parece explicar muitos fenômenos inexplicáveis e que nem mesmo podem ser abordados pela visão de mundo materialista. Essa é uma abordagem muito amigável, inclusiva. Eu não acho que bater de frente em debates com cientistas específicos fará alguma coisa a favor da nossa causa de mudança de paradigma. O paradigma será mudado a partir do peso de evidências em favor dele. Atualmente, o que nos ajuda muito é que temos aplicações práticas na área da medicina, da psicologia… Infelizmente, eu acho que você não consultou quantas vezes a minha obra é citada em trabalhos de psicólogos, de profissionais da saúde e de outros, ainda, não-pertencentes às ciências puras. Sim, é verdade que aqueles das ciências puras, os físicos, os químicos e até mesmo os biólogos, preferem oferecer a chamada “negligência benigna”. Eles não se envolvem com essa questão, pois fazendo isso acabarão dando maior publicidade para mim, algo considerado por eles prejudicial à sua causa. Então, deixá-los viver do modo deles e nós do nosso é agora a melhor abordagem.

Em outras palavras, a explicação de Goswami é que não existe discussão na comunidade científica em torno das idéias dele porque existe uma conspiração para evitar de lhe dar maior publicidade. Por mais que ele mereça ter seus livros incluídos em antibibliografias, como eu disse acima em tom de brincadeira, o melhor mesmo é forçá-lo ao confronto de idéias. No entanto, até mesmo para isso teremos dificuldade, dada a crescente apatia da comunidade científica em geral para tratar de temas polêmicos. Enquanto isso, os espaços midiáticos vão sendo ocupados.

Em meio à sua decadência e à ascensão da burguesia mercantil, a Igreja Católica foi duramente abalada com a revolução gutenberguiana. Não sei se o capitalismo está em decadência, mas um de seus principais suportes ideológicos, o pensamento laico, vem sendo desprestigiado há algum tempo. Nesse contexto, em que algumas questões científicas já chegaram aos tribunais sem serem discutidas em outras instâncias, há bons motivos para pensar na possibilidade de a revolução da internet trazer surpresas. Já pensaram em mudanças científicas baseadas na preferência popular?

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 27/12/2008 at 16:28

A mídia e o conflito de interesses na pesquisa científica

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O jornal O Estado de S. Paulo abordou ontem (sexta-feira, 19/11) um tema muito negligenciado pela imprensa brasileira, que é o conflito de interesses em pesquisas médicas. A reportagem “Pesquisa sobre males do amianto tem verba do setor”, do jornalista Emilio Sant’Anna, informa que três universidades públicas paulistas — USP, Unicamp e Unifesp — investigam denúncia de conflito de interesses em um estudo sobre os efeitos do amianto sobre a saúde humana.

Segundo a reportagem, as três universidades não foram informadas que a pesquisa teve suporte financeiro de R$ 1 milhão do Instituto Brasileiro do Crisotila (IBC), entidade de empresas e associações de trabalhadores ligados à mineração do amianto e à fabricação de produtos com esse material. O projeto recebeu também R$ 1 milhão do CNPq e recursos do Governo do Estado de Goiás, cujo valor não é mencionado na reportagem.

No site do projeto Asbesto Ambiental não é mencionado o suporte financeiro do IBC. Os coordenadores da pesquisa são os pneumologistas Mário Terra Filho, da USP, e Ericson Bagatin, da Unicamp, e o fisiologista Luiz Eduardo Nery, da Unifesp. A matéria do Estadão registra a declaração de Bagatin de que não foi criticada a metodologia do estudo, que, segundo ele, dá continuidade a 15 anos de trabalhos para “obter dados científicos brasileiros para dar condições de discutir se é possível ou não usar o material de forma segura”.

Padrões internacionais

O fato de uma pesquisa receber apoio financeiro de entidade que tem interesse direto no tema a ser estudado não implica necessariamente que as conclusões dos pesquisadores sejam enviesadas. Mas toda vinculação desse tipo, tanto do estudo como de seus participantes, deve ser formalmente informada às instituições que dão suporte ao trabalho e também à revista científica que o publica. Essa situação é definida como de potencial conflito de interesse segundo os preceitos da chamada ética da pesquisa. No caso da medicina, sobre isso existem padrões internacionais, como os do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (ICMJE).

As normas do ICMJE não se aplicam apenas a autores de estudos médicos, mas também a editores, revisores e demais membros do staff editorial. Uma síntese dessas normas é mostrada no estudo “Conflito de interesses em pesquisa clínica”, dos cirurgiões Elaine Maria de Oliveira Alves e Paulo Tubino, da Universidade de Brasília (Acta Cirúrgica Brasileira. Vol 22 (5) 2007). Nesse trabalho, é apresentada a seguinte definição.

O conflito de interesses surge, em pesquisa clínica, quando um ou mais de um dos participantes do processo — sejam os pesquisadores ou até mesmo o editor e/ou o revisor do periódico no qual, eventualmente, o trabalho será publicado — têm ligações com instituições ou interesses que possam prejudicar a lisura da investigação ou restringir a competência e a imparcialidade para avaliação da mesma.

A conclusão de Alves e Tubino é a de que

(…) os conflitos de interesses são generalizados e inevitáveis na vida acadêmica. O desafio não é erradicá-los, mas reconhecê-los e manejá-los adequadamente. A única prática aceitável é que sejam expostos claramente e que todas as pesquisas em seres humanos passem pelo crivo dos comitês de ética em pesquisa.

Dinheiro de laboratórios

Esse tema já trouxe grandes constrangimentos para a medicina. Um dos episódios mais marcantes foi a revelação de que 70 estudos sobre uma determinada droga anti-hipertensiva, publicados de março de 1995 a setembro de 1996, foram direta ou indiretamente financiados pelos mesmos laboratórios que os fabricam. Segundo a pesquisa “Conflict of interest in the debate over calcium-channel antagonists” (The New England Journal of Medicine, v. 338(2), janeiro de 1998, pp. 101-106), coordenada por Henry Thomas Stelfox, da Universidade de Toronto, no Canadá, os autores desses estudos estavam envolvidos com os laboratórios por meio de serviços de consultoria, pagamento de conferências, custeios de viagens, apoio a pesquisas e suporte educacional

Muitas publicações médicas brasileiras exigem declaração de conflito de interesses. Algumas chegam a exigir até mesmo declaração de que não há conflitos de interesses, como é o caso, por exemplo, da Arquivos de Gastroenterologia. Ou seja, algumas publicações simplesmente exigem que as situações de conflito de interesses sejam apontadas, enquanto outras exigem que todos os autores declarem formalmente se têm ou não qualquer vinculação desse tipo.

No Brasil, a imprensa raramente se interessa pelo conflito de interesses em pesquisas científicas. Uma grande reportagem sobre esse tema foi feita há oito anos pelos jornalistas Eliane Brum, Bruno Weis e Raphael Falavigna para a revista Época (“A maldição do amianto”, 16/04/2001). Na ocasião, uma outra pesquisa sobre amianto, também realizada por Bagatin, havia recebido financiamento privado não informado à sua agência pública fomentadora, a Fapesp.

Jornalistas devem ser atentos ao aspecto de conflitos de interesse sempre que divulgarem pesquisas científicas científicas em geral, e não só as da área de saúde. Vale a pena conferir, nas publicações científicas, se suas instruções para autores incluem normas sobre isso. A lista de periódicos nacionais da Scientific Electronic Library Online — Scielo facilita essa verificação. Ainda há revistas que não exigem declaração nenhuma

Recentemente, o New York Times noticiou uma pesquisa que mostrou conflitos de interesses na área médica também entre jornalistas (“Conflicts of Interest May Ensnare Journalists, Too”, 21/11/2008). Mas isso será assunto para outra conversa.

* * * * * * *

PS de 26/12 — Além da reportagem acima citada de Época, essa revista publicou outra, também de capa, em abril de 2005, feita por Eliane Brum, Patrícia Cançado e André Barrocal, de abril de 2005 (“Vida e morte pelo amianto”). A matéria mostrou vítimas desse produto, lobbistas, a bancada do amianto no Congresso, recursos envolvidos e vários outros aspectos relevantes sobre esse assunto. Em comentário enviado à reprodução do texto acima no Observatório da Imprensa, o leitor Márcio Gaspar, de São Paulo, chamou minha atenção para as reportagens da jornalista Conceição Lemes acerca das relações entre médicos, vítimas desse produto, empresas que o usam. Essas matérias foram publicadas no blog Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha.

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 20/12/2008 at 11:56

A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo

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Caricatura de Charles Darwin na capa de "La Petite Lune", revista satirica parisiense dos anos 1880.O recente confronto entre criacionistas e o evolucionistas no Brasil está rendendo nos meios de comunicação muitas manifestações que pouco colaboram para um debate de idéias. Mas também têm acontecido algumas interessantes e pedagógicas contraposições de argumentos. Na praticamente absoluta falta de iniciativas acadêmicas para um embate entre os dois lados dessa polêmica, a imprensa, os blogs e outros espaços na internet se tornaram o meio viabilizador para ele.

Ninguém espera que essas discussões cheguem a um consenso. Mas, independentemente da posição de cada um nessa polêmica, para aqueles que se esforçam em manter um mínimo de honestidade intelectual, essa é uma oportunidade para aprender o que é e o que não é válido em questões que envolvem ciência e religião. Além disso, e muito mais importante, é o caso de se considerar o risco de que o persistente afastamento da comunidade científica desse debate público possa levar a reveses maiores do evolucionismo em um período de ascensão de muitas crenças religiosas.

Esse confronto teve início na primeira metade do século XX nos Estados Unidos e teve vários episódios posteriores. Foi reacendido em 30/11 pelo jornalista Marcelo Leite em seu blog Ciência em Dia e sua coluna homônima da Folha de S. Paulo, com a notícia de que o Colégio Presbiteriano Mackenzie, com sedes em São Paulo, Barueri e Brasília, passou a ensinar criacionismo em suas aulas de ciências. O debate ferveu no espaço de comentários daquele blog e também na seção de cartas do jornal, que na seção “Tendências/Debates” apresentou dois artigos de posições contrárias em 06/11, que comentei em “O debate sabotado entre criacionistas e evolucionistas” (07/12).

No dia 08/11, O Estado de S. Paulo agitou mais essa polêmica com a reportagem “Escolas adotam criacionismo em aulas de ciências”, de Simone Iwasso e Giovana Girardi, mostrando que o ensino dessa concepção sobre a vida não se limita ao Mackenzie. No sábado (13/12), o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. publicou em seu blog o artigo “Deus e o Diabo disputam o ensino Brasileiro?”.

Ainda no sábado, foi a vez do Ministério da Educação, com sua posição de que o criacionismo “pode e deve ser discutido nas aulas de religião, como visão teológica, nunca nas aulas de ciências”. A declaração foi feita pela secretária da Educação Básica do MEC, Maria do Pilar, à reportagem de Fábio Takahashi e Talita Bedinelli, na Folha (“MEC diz que criacionismo não é tema para aula de ciências”, 13/12) [Acréscimo das 10h35]. E, após duas semanas de manifestações sobre o assunto, o “Estadão” de ontem (domingo, 14/12) trouxe as opiniões sobre esse assunto de Roseli Fischmann, professora de filosofia da educação da USP (“Deus não freqüenta laboratório”).

Construção humana

A professora da USP é contra o ensino do criacionismo em aulas de ciências. De todas as afirmações atribuídas a ela na matéria de hoje, a que me pareceu mais importante foi a de que os professores podem ensinar aos alunos que a ciência é fruto da construção humana, e que eles podem participar dessa construção:

Assim se desenvolve nos alunos a possibilidade de questionar, e uma boa dúvida é a pérola do mundo científico. Se, do ponto de vista religioso, existe alguém infalível, isso é para as pessoas que acreditam. Quem acreditar será respeitado por isso, mas não se pode querer que todo o mundo esteja dentro dessa lógica. Ninguém, enfim, ganha misturando as duas frentes porque os cientistas podem pensar que são deuses, e quem fala de Deus pode pensar que é cientista.

Teria sido interessante a professora explicar melhor — e a reportagem a ela perguntar — o que entende por “misturar as duas frentes”, uma vez que outro defensor do evolucionismo, o biólogo e educador Charbel Niño El-Hani, professor da Universidade Federal da Bahia, manifestou-se antes, na Folha, também contra ensinar o criacionismo nas aulas de ciências, mas a favor de discuti-lo com os alunos.

Roseli, que é também coordenadora de projetos de pesquisa da Fundação MacArthur, colaboradora da Unesco e do Ministério das Relações Exteriores, cometeu um engano ao tentar explicar a polêmica em pauta ao recorrer ao pensamento do filósofo da ciência norte-americano Thomas Kuhn (1922-1976), autor do clássico A Estrutura das Revoluções Científicas, de 1962. Nas palavras atribuídas pela reportagem à professora, esse autor teria proposto que

(…) a ciência se constrói historicamente por paradigmas. Com o tempo surgem novas idéias, novas propostas, que vão corroendo essa estrutura até que surja um novo modelo. Aquele vigente nem sempre é tolerante para com as visões mais recentes. O que Kuhn diz é que a classe científica, que justamente por precisar da transformação deveria ser a mais aberta a mudanças, se manifesta muitas vezes resistente. Há egos, interesses financeiros pesados, falta de ética… Mas são as novidades que, em geral, promovem o avanço científico.

Tiros pela culatra

Muitos criacionistas já devem estar festejando essa declaração. A conseqüência da aceitação dessa interpretação seria a de que são válidas quaisquer novas propostas para o evolucionismo, pois elas, em princípio, poderiam promover o avanço científico. Se fosse assim, não haveria razão na própria recusa, defendida por ela, de ensinar o criacionismo como teoria alternativa.

Na verdade, o que Kuhn afirmou é que um “paradigma” (conjunto de compromissos conceituais, metodológicos e instrumentais compartilhados pelos membros de uma especialidade científica durante um determinado período) entra em crise a partir de sucessivas dificuldades e contradições apresentadas por observações e experimentos. Por meio de diversas revisões críticas, são feitas adequações no paradigma, inclusive por meio da redução do campo seu campo de validade. Desse modo, crescem as “anomalias” nos modelos, e, para isso, não são necessárias novas propostas. Nas palavras de Kuhn, as revoluções científicas consistem em “episódios extraordinários” desencadeados por essas dificuldades:

Desse e de outros modos também, a ciência normal freqüentemente se desnorteia. E, quando isso acontece — quando já não se pode mais livrar-se das anomalias que subvertem a prática vigente da prática científica —, começam então as investigações extraordinárias que finalmente levam a profissão a um novo conjunto de compromissos, a uma nova base para a prática da ciência.
(The Structure of the Scientific Revolutions, Chicago University Press, 3ª edição, 1996, p. 6. Não indico a página da edição brasileira, que também uso, porque no momento não a tenho em mãos.)

Tomando como exemplo a astronomia medieval, baseada na tese geocêntrica de  Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), tantas eram as suas anomalias que no prefácio de sua obra de 1543, Sobre a Revolução dos Corpos Celestes, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) disse que a tradição astronômica havia herdado um “monstro”.

Involuntariamente, a declaração da professora é, na verdade, muito mais próxima da posição do pensador austríaco Paul Feyerabend (1924-1994) para o qual a transgressão dos métodos da ciência é necessária para o progresso. “O único princípio que não inibe o progresso é tudo vale [anything goes]”, diz Feyerabend na terceira e última edição de Contra o Método, de 1993 (Tradução de Cezar Augusto Mortari. São Paulo: Editora Unesp, 2007, p. 37). Não é por menos que alguns criacionistas já fizeram uso dessa obra. Na verdade, um uso ingênuo, pois o anarquismo epistemológico desse autor se voltaria também contra a religião, em especial contra o cristianismo, por ele chamada de “sanguinária religião do amor fraternal” na primeira edição desse mesmo livro, de 1975 (Tradução de Octany S. da Mota e Leônidas Hegenberg. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977, p. 433).

Outras oportunidades que têm sido oferecidas “de bandeja” para os argumentos criacionistas vieram de muitas manifestações cientificistas. A maior parte delas consiste em simplórias afirmações de que a seleção natural é “comprovada”, e o texto anterior deste blog (“O debate sabotado…”) já tratou desse assunto. Só faltou dizer que, como nenhuma teoria científica é comprovada, essas afirmações acabam permitindo pesadas e bem-fundamentadas contestações de criacionistas mais sofisticados.

Falseabilidade

Mesmo que pudéssemos considerar o evolucionismo como um paradigma em crise, o criacionismo não é uma formulação teórica passível de refutação, como deve ser toda teoria das ciências empíricas. Aproveitando um comentário meu feito no blog de Marcelo Leite:

A premissa de que uma instância externa conduz o desenvolvimento da vida não é falseável: ela é compatível com o fato de a girafa ter pescoço comprido e, se essa espécie tivesse pescoço curto, seria compatível também. Isso não é ciência da natureza. O evolucionismo pode e deve ser esmiuçado e ter expostos todos os casos de observações e experimentos que o contradizem. Mas enquanto não houver uma proposta de paradigma não evolucionista baseada em premissas falseáveis, não vale a pena abandoná-lo.

Esse é um exemplo de aplicação do critério de falseabilidade do filósofo da ciência austríaco Karl Popper (1902-1994) que apontei na semana passada. Esse é o ponto que me parece estar sendo deixado de lado pelos defensores do criacionismo. Eu o considero o mais frágil dessa concepção, inclusive em sua formulação mais sofisticada, que é o Design Inteligente (DI).

Em meio aos que se manifestaram, fram poucos os que se mostraram atentos para a importância da falseabilidade nesse assunto, entre eles o jornalista Cláudio Weber Abramo, presidente diretor-executivo da Transparência Brasil. Porém, muitos como ele acreditam que esse confronto não passa de um pseudodebate. Mestre em filosofia da ciência, ele afirmou em carta ao “Painel do Leitor” da Folha (08/12) que é um equívoco participar de uma discussão sobre esse tema porque

(…) com isso confere-se respeitabilidade ao misticismo religioso que alimenta o criacionismo quando deveria ser óbvio que é impossível discutir seja o que for com quem acredita em seres incorpóreos e influências etéreas. Da mesma forma que crêem em divindades, anjos, almas e no além, crerão em astrologia, leitura de mão, homeopatia e qualquer outra bobagem que apareça.

Do ponto de vista estritamente epistemológico, o comentário de Abramo pode ser considerado correto. O próprio Kuhn formulou a tese da incomensurabilidade de paradigmas, ou seja, não é possível um efetivo diálogo entre partidários de paradigmas diferentes, uma vez que eles envolvem compromissos distintos e diferentes compartilhamentos de valores.

No entanto, o crescimento de muitas religiões em todo o mundo é apenas uma entre várias razões para crer que, cada vez mais, as decisões sobre a ciência podem escapar do controle dos cientistas, da mesma forma como ela escapou do controle da Igreja bem antes da derrocada do mundo medieval. Em outras palavras, o encastelamento na torre de marfim, com a recusa em participar do debate público nos meios de comunicação, pode ser a maior armadilha que muitos evolucionistas estejam a armar para o próprio evolucionismo.

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PS — Ao ser reproduzida no Observatório da Imprensa, minha postagem anterior sobre este tema recebeu muitos comentários, entre eles do jornalista Michelson Borges, editor do site Criacionismo.com.br e da Casa Publicadora Brasileira, uma das 56 editoras pertencentes à Igreja Adventista do Sétimo Dia. No primeiro desses comentários, Borges me atribuiu uma “posição equilibrada e não beligerante”. Agradeço pelo elogio, que recebo como um reconhecimento de minha determinação em tentar a todo custo compreender diversos pontos de vista, mas não creio ter uma posição equilibrada. Prefiro a idéia da harmonia por meio do confronto entre os contrários, da forma expressada por Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.), segundo o registro de Aristóteles:

Heráclito diz “a contraposição unifica”, “a mais bela harmonia vem da diferença” e “todas as coisas se originam da discórdia” [éris].
(Ethica Nicomachea, 1155b4-7)*

* Nicomachean Ethics. Texto grego estabelecido por Immanuel Bekker. Introdução, tradução para o inglês e notas de H. Rackham. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library, Aristotle, v. XIX), 2003, págs. 454-455.

PS 2 — Borges contestou em seu blog a posição do MEC contrária ao ensino do criacionismo nas aulas de ciências.

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 15/12/2008 at 7:12