Laudas Críticas

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Números da Amazônia derrotaram a imprensa em 2008

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2008 passará para a história da Amazônia como o ano em que os números derrotaram a imprensa. Ofuscada por estatísticas mensais da degradação florestal, a cobertura jornalística mal se deu conta da área total desmatada de 706,9 mil quilômetros quadrados, que já equivale a quase metade (45,1%) do Estado do Amazonas e corresponde a pouquíssimo menos que as superfícies terrestres da França, da Holanda e da Bélgica somadas. Também passou despercebido que a devastação praticamente dobrou — cresceu 97% — desde o fim de 1988, quando ela atingira 358,7 mil quilômetros quadrados.

Essa tendência da imprensa de ver as árvores sem enxergar a floresta foi predominante também nas duas últimas décadas, desde o desastroso início da elaboração de taxas anuais de desmatamento pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 1989 (“Enquanto a floresta queima, os números dançam”, Nova Ciência, São Paulo, ano II, nº 7, 1990, agosto/setembro/outubro, págs. 32-36). Os índices anuais foram se acumulando, mas raramente os jornalistas os totalizaram.

Taxas anuais de desmatamento da Amazônia Legal de 1988 a 2008 (km2)

Além de não se dar conta da expansão total da degradação da Floresta Amazônica, a cobertura jornalística chegou muitas vezes a comemorar a redução de taxas anuais de desmatamentos sem perceber que caía o ritmo dessa diminuição. Ou seja, houve anos em que a área total anual desmatada diminuiu, mas a imprensa não percebeu que a diminuição também diminuiu. Repetindo esse mesmo engano do passado em relação aos dados de 1990, 1991, 1997, tivemos várias manchetes que comemoraram os números de 2006 e 2007, que, comparados a 2005, já projetavam más notícias.

Variação anual das taxas de desmatamento de 2000 a 2008 (%)

Prodes/INPE

Confusão de dados

Essa distração midiática, que era antes anual, baseada nos anúncios do sistema Prodes (Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), intensificou-se como um repetitivo e desgastado exercício mensal neste ano. Foi quando teve início a divulgação de índices mensais do sistema Deter (Desmatamento em Tempo Real), cuja finalidade não é obter dados precisos como o do Prodes, mas apoiar ações de fiscalização e controle de desmatamentos.

Num primeiro momento, houve a positiva iniciativa do governo de não liberar os dados do Deter enquanto não elaborava uma boa desculpa para eles (“Governo decide parar de segurar dados de desmatamentos”, 10/07/2008). No entanto, o que aconteceu foi a banalização desses índices. Ela começou com a estratégia de comunicação do próprio Ministério do Meio Ambiente, dado o estilo excessivamente midiático do ministro Carlos Minc, com suas sucessivas entrevistas coletivas.

A imprensa em geral, em busca de novos títulos e lides, fez o arremate. Ela não só reproduziu de modo acrítico os pronunciamentos oficiais, como também tratou os números parciais do sistema Deter como se eles tivessem a mesma finalidade do Prodes, passando uma imagem otimista que não corresponde à realidade da extensão da devastação (“Amazônia: imprensa se deixa pautar pelo governo”, 30/08/2008).

Ofuscamento

Também quase nada foi dito sobre os dados do relatório de 2008 do Prodes que mostram o crescimento da degradação, em áreas não completamente desmatadas, de 14,9 mil para 24,9 mil quilômetros quadrados de 2007 para 2008. Em outras palavras, salvo pelas exceções, “passou batido” que tivemos em um só ano um aumento de 61,1% de áreas degradadas sem desmate completo na Floresta Amazônica. Todos esses dados são acessíveis a qualquer cidadãocom acesso à internet. Desse modo, a banalização da transparência se transformou em um mecanismo de ofuscamento.

Não bastasse esse ilusionismo numerológico, poucos foram os esforços significativos de reportagem para uma cobertura da Amazônia fora do rotineiro enfoque turístico ou exótico, mostrando-a não só em sua riqueza social e ambiental, mas também na dimensão do desastre da herança das políticas públicas para a região.

“Eu costumo dizer que a gente não sabe o que tem na Amazônia porque a gente não pesquisa adequadamente. Nós estamos destruindo uma biblioteca cheia de livros que nós não lemos”, disse o cientista político Sérgio Abranches, diretor e colunista do site de notícias ambientais O Eco, no programa de televisão do Observatório da Imprensa exibido em 02/12“Amazônia na mídia: muita estatística, pouca reflexão”).

Bons exemplos

Entre as raras exceções a essa tendência, destacou-se a reportagem de Leonencio Nossa e Celso Júnior “Eldorados da Exploração Infantil”, de 07/09 n’O Estado de S. Paulo. (Uma síntese de suas quatro páginas está em “Cidades amazônicas viram eldorados da prostituição infantil”.) Eles mostraram a realidade da exploração de menores e das péssimas condições de vida em Coari (Amazonas), Juriti (Amapá) e Paraupebas (Pará), consideradas como localidades para novas iniciativas de negócios na região.

A própria imprensa da Região Norte não cobre os problemas locais, como bem explicou Chico Araújo, diretor da Agência Amazônia de Notícias. No já citado programa do OI de 02/12, ele afirmou que “quando trabalhava para o Estado de S.Paulo, jornais de Manaus e outras cidades da Amazônia esperavam a Agência Estado distribuir o boletim informativo com notícias sobre a região para elaborar a manchete dos jornais”.

Enquanto isso permanece, os veículos dos outros estados mal investem em equipes permanentes de reportagem nessa região. Mas existem ali algumas iniciativas de bom jornalismo na internet, além da agência dirigida por Araújo. Por exemplos, o site Amazônia, da ONG Amigos da Terra, o blog do jornalista Altino Machado, sediado em Rio Branco (AC), e o Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, que após 21 combativos anos de artesanal circulação quinzenal impressa em Belém (PA), sem venda de espaço publicitário, ganhou neste ano seu próprio espaço na internet. Talvez seja essa a única boa notícia sobre a imprensa em relação à Amazônia neste ano.

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 29/12/2008 at 6:32

Publicado em Amazônia, Ambiente

O noticiário de meio ambiente a reboque do governo

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Marcello Casal/Agência Brasil)

Pautando a imprensa: Suzana Kahn, secretária de Mudanças Climáticas, e os ministros Carlos Minc e Sérgio Rezende (Foto: Marcello Casal Jr./ABr)

Em suas edições desta sexta-feira, os jornais mostram uma notícia que especialistas e ambientalistas brasileiros já vinham antecipando: o governo brasileiro não fixou metas de redução das emissões de gases-estufa no documento que deve apresentar no início de dezembro em Poznan, na Polônia, à 14ª Conferência das Partes (CoP-14) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

A forma como a notícia foi dada é mais um indicativo de que a imprensa em geral está cada vez mais passiva em relação às ações governamentais de divulgação na área de meio ambiente. Alguns veículos já haviam noticiado em abril deste ano que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) só divulgaria agora esse documento. Houve, portanto, tempo de sobra para eles abordarem o assunto com antecedência em vez de se deixarem pautar pelo governo governo e surpreenderem o leitor com a crônica de uma omissão anunciada.

Uma das raras exceções a essa passividade foi o jornal Valor Econômico em sua edição de 19/09/2008 com o artigo “Mudanças de clima: quem tem medo de metas no Brasil?“, de Rubens Born e Juliana Russar, ambos do Vitae Civilis – Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz, uma ONG que desde tem acompanhado as negociações internacionais em mudança de clima desde antes da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92.

Aviso prévio

Lembrando na CoP-13, em Bali, na Indonésia,em 2007, o Brasil concordou que os países em desenvolvimento devem adotar ações mensuráveis de redução de emissões de gases-estufa, inclusive porque cerca de 75% delas no país se deve ao desmatamento e há a tendência de crescimento relativo daquela originadas de combustíveis fósseis, o artigo dos dois ambientalistas já apontava os rumos governamentais na construção do documento apresentado ontem pelo MMA e pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT):

No entanto, pronunciamentos oficiais, notadamente originários dos Ministérios das Relações Exteriores (MRE) e de Ciência e Tecnologia (MCT), rejeitavam compromissos na forma de metas para países em desenvolvimento, interpretando isso como cortes obrigatórios de emissões, que até agora são exigidos somente de países desenvolvidos.

No final das contas, acabou prevalecendo na imprensa o esquema de divulgação armado com eficiência pelo governo. Mas, felizmente, desta vez a imprensa em geral não embarcou na retórica governamental do modo mostrado por este blog com a postagem “Amazônia: Imprensa se deixa pautar pelo governo“, de 30/08/2008. Apesar da nota do MMA de título capcioso “Plano Nacional de Mudanças do Clima incorpora metas de redução do desmatamento“, ficou claro para todo mundo que não foram traçadas metas, exceto a de substituição de 11 milhões de geladeiras com mais de dez anos de fabricação. O MCT, por sua vez, foi mais equilibrado com a nota “Ministros apresentam Plano Nacional de Mudança Climática“.

O que está aqui em questão não é se o governo deveria ou não ter traçado as metas cobradas pelos ambientalistas e com as quais concordou na COP-13. O problema é com a imprensa, que se mostra cada vez mais a reboque das ações de divulgação governamentais. Vale a pena ressaltar a influência crescente das ações corporativas de comunicação na agenda da mídia, apontada por pesquisas devidamente enfatizadas neste blog com a postagem “O mal-estar na informação“, de 19/08/2009.

* * * * * * *

PS — O jornalista Cláudio Ângelo, editor de ciência da Folha de S. Paulo, enviou um comentário para este blog lembrando que a matéria “Plano nacional para o clima será refeito’, publicada por ele na terça-feira, havia antecipado a falta de metas do documento do governo. Em primeiro lugar, ressalto com grifo o que escrevi no segundo parágrafo acima: “A forma como a notícia foi dada é mais um indicativo de que a imprensa em geral está cada vez mais passiva em relação às ações governamentais de divulgação na área de meio ambiente.” A ressalva se deve a exceções, como as equipes de ciência da Folha e d’O Estado de S. Paulo, que têm sido cuidadosas com os artifícios de divulgação governamentais.

Em segundo lugar, embora o tenha feito criticamente, o que a Folha fez com a citada reportagem foi noticiar o teor do documento pronto. O texto acima se refere à passividade da imprensa em geral durante longos meses em que o rascunho foi elaborado. É verdade que a situação não devia ser muito diferente disso na sexta-feira da semana passada, quando o Valor Econômico publicou o artigo citado. Mas, afinal de contas, não é um artigo de nenhum jornalista, mas de dois ambientalistas que já vinham alertando há meses para os rumos da redação em curso. (Vide o informativo do Vitae Civilis de junho.) Não se trata de cobrar da imprensa que faça parte do lobby ambientalista, mas de atuar como monitor independente em relação àquilo a que o próprio poder público se propôs.

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Written by Mauricio Tuffani

sexta-feira, 26/09/2008 at 7:45

Uma boa reportagem sobre o outro lado da devastação

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Em meu post anterior (“Amazônia: Imprensa se deixa pautar pelo governo”, 30/09), eu afirmei que estamos próximos do total de 700 mil km2 de área total desmatada na Amazônia brasileira, e que isso equivale a quase meio Estado do Amazonas completamente devastado, ou seja, algo maior que as superfícies da França e Holanda somadas.

Pensei em retomar o tema da Amazônia em um comentário sobre a boa reportagem “Eldorados da Exploração Infantil”, dos jornalistas Leonencio Nossa e Celso Júnior, publicada ontem (07/09) n’O Estado de S. Paulo (págs. C1, C3, C4 e C5). Uma síntese dos dados apresentados nessas quatro páginas está na matéria “Cidades amazônicas viram eldorados da prostituição infantil”, no portal Estado.com.br. Mas todo esse rico material pode ser visto na edição digital do jornal, aquela que tem o recurso de virar as páginas na tela do computador.

Absorvido ontem em meu tempo de folga pela elaboração de um comentário que apresentarei aqui amanhã, acabei demorando muito para escrever a respeito dessa reportagem. Agora há pouco, dando uma olhada no Observatório da Imprensa, vi que o jornalista Luciano Martins Costa já fez isso hoje, de manhã, no programa do OI na Rádio Cultura FM e também no artigo “O que mostra uma boa reportagem”.

Transcrevo aqui apenas um parágrafo desse texto, que resume exatamente o sentido daquilo que eu pretendia escrever:

A reportagem deixa claro que, 34 anos depois da abertura da Transamazônica e 25 anos depois do auge do garimpo em Serra Pelada e da construção da hidrelétrica de Tucuruí, o Brasil ainda não foi capaz de produzir uma estratégia de desenvolvimento para a Amazônia que não seja simplesmente mais uma porta para a miséria e a exploração de seus habitantes e de seu patrimônio natural.

E acrescento apenas o que eu disse no espaço de comentários desse artigo:

Essa é uma boa matéria para esfregar na cara dos defensores dessa visão distorcida de progresso. Estamos perto do total de 700 mil km2 de devastação total da Amazônia Legal, e a contrapartida social para as populações locais, principalmente as tradicionais, é essa miséria. Infelizmente a realidade apresentada por esse bom trabalho de reportagem é apenas uma parte da desgraça toda.

Desse modo, em vez de tomar mais tempo de meus leitores, recomendo a leitura da reportagem de Leonencio Nossa e Celso Júnior e do artigo de Luciano.

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 08/09/2008 at 14:00

Publicado em Amazônia, Ambiente, Política

Amazônia: imprensa se deixa pautar pelo governo

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Mesmo sem esconder dados sobre o desmatamento da Amazônia, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem conseguido obter manchetes menos constrangedoras e, em muitos casos, até mesmo confortáveis para o governo. Em busca de fatos novos para os títulos e lides (primeiros parágrafos) de suas reportagens, grande parte da imprensa têm passado uma imagem otimista e que não corresponde à realidade da extensão da devastação. Várias matérias publicadas repetem o mesmo engano que vem sendo cometido há meses, que consiste em se basear nos dados mensais do sistema de detecção de desmatamentos em tempo real por satélites, que são úteis para orientar ações de fiscalização, mas não mostram a extensão total da devastação, que só é possível por meio da análise de períodos mais amplos.

Neste sábado, poucos veículos escaparam dessa interpretação mais confortável para o governo. Felizmente, entre eles estão jornais de grande alcance, como a Folha de S. Paulo, com a chamada de capa “Desmatamento na Amazônia cresce após 3 anos de queda” e a reportagem “Desmate na Amazônia subiu 64% em um ano, avalia Inpe”, de Marta Salomon, e O Estado de S. Paulo, com a chamada “Devastação da Amazônia cresce 64% em um ano” e a matéria “Desmatamento cresce 64% em 1 ano”, de Herton Escobar.

Por outro lado, não foram poucas as chamadas, títulos e lides (primeiros parágrafos de reportagens) que enfatizaram outro dado, que foi o da redução de 62% do desmatamento de julho deste ano em relação a junho, repetindo o enfoque da matéria “Desmatamento da Amazônia tem queda de 62% em julho”, publicada ontem no portal do MMA.

Manchetes otimistas

No mês passado foi a mesma coisa. A maior parte dos veículos de comunicação titulou suas chamadas de capa e suas reportagens em função dos índices de desmatamento de junho, que acusou redução da taxa de 20% em relação ao mês anterior e de 38% em relação a junho de 2007, na mesma linha da matéria “Ações do MMA pressionam queda da taxa de desmatamento na Amazônia”, publicada em 29/07/2008 no mesmo portal.

Desde o final de 2007, quando foi constatada a tendência de grande aumento da taxa anual de desmatamento da Floresta Amazônica brasileira para o período de 2007 a 2008, a atenção da imprensa e de ONGs passou a se concentrar nos índices mensais do sistema Deter (Desmatamento em Tempo Real). Esse processo teve um efeito inegavelmente positivo, pois levou o Governo Federal a melhorar e a intensificar as ações de fiscalização. No entanto, esses dados não são adequados para determinar a extensão total da devastação, pois muitas das imagens de satélites são prejudicadas por nuvens. As avaliações mais precisas se baseiam em períodos anuais e são feitas pelo sistema Prodes (Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite). Os dois projetos são desenvolvidos pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de São José dos Campos (SP), que é vinculado ao MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia).

Embora o próprio MMA tenha reiteradamente esclarecido o caráter parcial dos dados, as informações de seus comunicados são hierarquizadas de modo a enfatizar as reduções nas taxas de desmatamento apresentados mensalmente pelo Deter. Em outras, palavras, ninguém pode acusar o ministro Carlos Minc de estar escondendo dados, principalmente em suas entrevistas coletivas. Quem está bobeando é grande parte da imprensa, que tem avançado sem discernimento sobre a isca que lhe é oferecida.

Histórico de manipulações

Essa isca, felizmente, não pode ser comparada com exemplos anteriores, como o da maquiagem dos dados ocorrida em 1989, durante o governo Sarney, quando o índice de 251,4 mil km2 para 1987-1988 teve de ser corrigido para 358,7 mil km2, ou seja, 42,7% de diferença (ver Dossiê neste blog). Sem chegar a esse nível de manipulação, o governo FHC fez também sua manobra em 1998, ao segurar a taxa de 17,4 mil km2/ano para 1997-1998, deixando para apresentá-la somente no ano seguinte, quando o índice caiu para 17,3 mil km2/ano, anunciando a pífia redução de menos de 1% como boa notícia. E, pior, grande parte da imprensa vendeu esse peixe do mesmo modo como o governo o vendeu.

Não se trata aqui de desconsiderar as significativas quedas de taxas anuais de desmatamento da Amazônia nem os esforços governamentais feitos para conter o ritmo de seu avanço. Basta ver as estimativas anuais desde 1988 do Prodes para constatar isso. No entanto, o histórico dessas mesmas estimativas mostra sucessivos altos e baixos desde que elas começaram a ser elaboradas nos últimos 20 anos. Em outras palavras, não dá para comemorar nenhuma redução de índice.

Sem falar no resultado acumulado ao longo desse período. Elaborado sob pesada pressão internacional, o dado maquiado de 251,4 mil km2 divulgado em abril de 1989 correspondia à áreas do Estado de São Paulo ou à do Japão. Sua correção oito meses depois para 358,7 mil km2 mostrou uma realidade igual à extensão total de Mato Grosso do Sul ou à da Alemanha. Hoje, mesmo com as reduções das taxas anuais nos períodos 1988-1991 e 2005-2007, estamos próximos do total de 700 mil km2 de área total desmatada na Amazônia, o que equivale a quase meio Amazonas completamente devastado, que é maior que as superfícies da França e Holanda somadas.

Enfim, é uma imprensa que, em sua maioria, vê as árvores mas não enxerga a floresta.

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Postagens anteriores sobre o mesmo assunto:

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 30/08/2008 at 14:14

Publicado em Amazônia, Ambiente, Política

A Operação Satiagraha e o ‘meio ambiente’

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Localização da Floresta Nacional Itacaiunas, no Pará, indevidamente citada no relatório da Operação Satiagraha

Volto ao tema do relatório da Operação Satiagraha (a grafia usada no documento é “Sathiagraha”), da Polícia Federal, mas desta vez o assunto, que acho que vale a pena ser considerado pela imprensa, é ambiental. Ou melhor, mais ou menos ambiental.

O ponto a que me refiro está nas páginas 49 e 50 do relatório da operação, disponibilizado desde anteontem à noite (segunda-feira, 14/07) na reportagem “Operação Grampo”, do jormalista Cláudio Júlio Tognolli, publicada pela revista Consultor Jurídico. Segundo o documento, no dia 11 de março deste ano, Daniel Dantas teria autorizado a liberação de R$ 10 milhões para ser dada entrada na compra de uma propriedade chamada Fazenda Itacaiunas, no valor total de R$ 27 milhões (R$ 15 mil por alqueire), com prazo de carência de 5 anos e meio, devendo os R$ 12 milhões restantes serem pagos em 10 anos.

Na seqüência, o documento da Polícia Federal afirma:

No áudio acima, aparentemente se trata da aquisição de 1.800 alqueires da “Floresta Nacional de Itacaiunas”. A organização apresenta a estratégia de aquisição de imóveis rurais com carência de pagamento; ao mesmo tempo, mantém contato com políticos da região para através de tráfico de influência conseguir aprovação de futuro projeto de construção de um porto no estado do Pará. Aparentemente pretendem vender o projeto de construção do porto para empreendimentos estrangeiros (que ficariam encarregados da construção e pagamento dos imóveis adquiridos), auferindo lucro ilegítimo com a tráfico de influência.

A menção à Floresta Nacional Itacaiunas é um equívoco. Essa unidade de conservação é situada no município de Marabá, no sudeste do Pará. Sua área total é de 141,4 mil hectares, conforme estabelece seu ato de criação, o Decreto nº 2.480, de 2 de fevereiro de 1998. Toda Floresta Nacional (Flona) tem de ser de domínio público, como estabelece o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc) por meio de sua lei de criação:

Art. 17. A Floresta Nacional é uma área com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas e tem como objetivo básico o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica, com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nativas.
§ 1º A Floresta Nacional é de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas de acordo com o que dispõe a lei. (Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000).

Daniel Dantas não teria comprado uma área submetida a todas essas restrições. Na verdade, trata-se de uma fazenda em plena atividade agropecuária, como se pode concluir da coluna de Hiroshi Bogéia, publicada no Diário do Pará em 23 de maio, onde consta que o Grupo Opportunity comprou essa propriedade, mas por um valor maior, R$ 34 milhões”:

Mais um se vai
Mais um grande fazendeiro conta a grana e passa a propriedade para o grupo Opportunity. Desta vez foi Maurício Assunção. Há vários anos investidor em Marabá, temendo investidas cada vez mais virulentas de alguns movimentos sociais, registrou em cartório de imóvel a venda da fazenda Itacaiúnas, situada a 40 quilômetros da sede do município, com porteira fechada. Daniel Dantas assume 12 mil cabeças de gado e uma área de dois mil hectares. A grana não é das piores: R$ 34 milhões.

Céu como limite
O avanço de Daniel Dantas sobre terras paraenses não deixa de ser preocupante, devido à rapidez com que o Complexo Santa Bárbara (denominação da empresa agropecuária do Opportunity) arrebanha propriedades, rumo a múltiplos-latifúndios. Com a mais recente aquisição nas imediações do vale do Rio Vermelho, estima-se em 100 mil hectares o total de terras adquiridas para dar pastagem a algo já em torno de 520 mil cabeças de gado, número bem superior ao até então império dos irmãos Quagliato. O maior rebanho individual existente no mundo é de 600 mil cabeças, da empresa Australian Agricultural Company, conhecida como AA. Ou seja, em breve, Dantas e Cia. serão os maiores criadores do planeta.

Caminho das pedras
Daniel Dantas e Carlos Rodenburg, seu sócio, começaram a comprar terras no Sul do Pará quando a arroba do boi era de R$ 46,00. Com o tempo, demonstraram que o movimento deles era correto. Num crescente contínuo, a arroba, no final da tarde de quarta-feira, 21, foi cotada em R$ 81,00 no Estado de São Paulo. O formato de pagamento da fazenda Itacaiúnas segue linha anterior de outras aquisições: 20% à vista e o restante em oito anos, dinheiro, segundo consta, originário dos fundos do Opportunity e de grandes investidores internacionais. A fazenda Cedro foi negociada nessa configuração.

Curiosamente, uma propriedade também denominada Fazenda Itacaiunas, situada no mesmo município de Marabá, foi declarada de interesse social, para fins de reforma agrária, por meio do Decreto (sem número) de 14 de julho de 1999. Isso merece uma verificação.

Uma hipótese a ser considerada é a conexão desses dados com a transcrição, citada nas páginas 82 e 83 do relatório, de uma conversa telefônica em que um dos interlocutores afirma que uma consultaria a ser realizada seria paga “50% já e 50% na hora em que for aprovado lá no meio ambiente”. Curiosamente, essa conversa teria acontecido em 21 de maio, dois dias antes da nota no Diário do Pará sobre a compra da fazenda por Daniel Dantas. Pode não ter nada a ver uma coisa com a outra. Mas vale pena a imprensa conferir.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 15/07/2008 at 12:51

Publicado em Amazônia, Ambiente, Política

Governo decide parar de segurar dados de desmatamentos

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Parece que o Governo vai pôr fim à sua surrada prática de segurar dados de desmatamentos da Amazônia enquanto não tira da manga uma boa desculpa para eles. Por meio de boletim enviado por e-mail pela Assessoria de Comunicação do MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia), fui informado que essa pasta e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) decidiram divulgar esses índices “assim que forem calculados, deixando para apresentar sua qualificação, quando for feita, em data posterior”.

O boletim, que consiste na “Nota sobre os índices de desmatamento sobre a Floresta Amazônica”, informa também que os dados mais recentes de desmatamento da Amazônia “estão em fase de conclusão e serão divulgados pelo INPE na próxima terça-feira, 15 de julho”.

Curiosamente, anteontem (08/07), o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente (MMA) disse que os novos números de desmatamento levantados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e que estão em poder da Casa Civil, não são ruins, segundo consta na matéria da repórter Ana Paula Scinocca, da Agência Estado. A reportagem disse também que “Na semana passada, Minc disse que a chefia da Casa Civil havia pedido para ‘segurar’ a divulgação dos números”.

Sobre a decisão informada pela nota oficial de ontem, vejo que na chamada grande imprensa, salvo engano, a notícia foi dada somente pela Folha Online, e isso por conta do blog Ciência em Dia, do jornalista Marcelo Leite, que é um dos poucos que não deixam escapar informações relevantes sobre o assunto. OK, o boletim foi enviado perto do horário de fechamento (18h45), mas dava para ele ter sido noticiado. Já que não foi, vamos ver se pelo menos alguém tenta explorá-lo em relação às declarações anteriores do ministro do Meio Ambiente. Afinal de contas, os dados estão ou não estão prontos?

Sejam quais forem os dados a serem apresentados no próximo dia 15, é preciso sempre cautela com esse tipo de índice. Aliás, salvo engano, talvez tenha sido este blog a voz mais enfática em outubro de 2006, com o post “Amazônia: ainda é cedo para comemorar”, e em março de 2007, com ONG engole retórica de queda de desmatamento”.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 10/07/2008 at 10:05

Publicado em Amazônia, Ambiente, Política

ONG engole retórica da queda do desmatamento

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Só mesmo a convicção de que há problemas seriamente encobertos para me provocar a perpetrar mais um post nest blog devezenquandário.

O jornal francês Le Monde, em sua edição de ontem (28/02), ressaltou a reação do presidente Lula à proposta de criação da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente, feita pelo presidente francês Jacques Chirac no começo de fevereiro. A matéria “Le Brésil redoute l’instauration de critères écologiques internationaux”, assinada por Annie Gasnier, correspondente no Rio de Janeiro, destaca que Lula desencadeou uma campanha para “exigir dos países ricos” a redução da poluição provocada por eles.

O que me chamou a atenção na matéria foi o comentário, atribuído pela reportagem ao Greenpeace Brasil, sobre a evolução dos dados de desmatamento da Amazônia. O governo, segundo a matéria, “não aceita as críticas internacionais contra a degradação da floresta tropical no Brasil. Ele opõe a elas estatísticas recentes, que mostram, entre 2003 e 2006, uma redução de 52% do desmatamento.”

Diz o texto do Le Monde que o Greenpeace Brasil reconhece essa queda, atribuída principalmente às ações governamentais contra a exploração ilegal da madeira, mas que a entidade se preocupa com o fato de as queimadas na Amazônia e seus “enormes focos de fumaça” representarem 75% da poluição no Brasil e colocarem o país no quarto lugar no ranking mundial dos emissores de dióxido de carbono.

O comentário atribuído ao Greenpeace Brasil está correto e é pertinente, tanto no que se refere a reconhecer o esforço do governo federal, quanto no que diz respeito à gravidade da contribuição das queimadas para o aquecimento global. Mas o que me preocupa é o que a entidade ambientalista não disse ou, se disse, a matéria não registrou – o fato de que, mais uma vez, estamos diante de estatísticas que não devem ser comemoradas de imediato.

A explicação de minha atitude antiotimista com relação ao governo e de “pegar no pé” do Greenpeace Brasil está disponível, para os que estiverem com paciência de conferi-la, no post anterior (“Amazônia: ainda é cedo para comemorar”), escrito há algum tempo — e bota tempo nisso.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 01/03/2007 at 7:57

Amazônia: ainda é cedo para comemorar

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Só o tempo dirá se merece ser comemorada a redução de 30% da taxa anual de desmatamento da Amazônia, anunciada ontem pelo presidente da República e pela ministra do Meio Ambiente (quinta-feira, 26/10/2006). Sem querer desmerecer o trabalho do Governo Federal que levou a esse resultado, para quem acompanha o caso há anos a impressão de um déjà vu enganador é inevitável. Melhor deixar o champagne para daqui a alguns anos.

Vamos à sinopse de filme já visto. Em 1996 foi anunciada a redução de 37,5% correspondente à taxa de desmatamento de 29,1 mil km2/ano em 1994/1995 para 18,2 mil km2/ano em 1995/1996 (a medida é fechada anualmente no mês de agosto em função do regime das chuvas na Amazônia). No ano seguinte, a taxa foi de 13,2 mil km2/ano, correspondendo a uma redução de 27,5%.

Essas duas boas notícias de 1996 e 1997 não tiveram uma boa seqüência, pois nos quatro anos seguintes a taxa de desmatamento manteve-se acima dos 17 mil a 18 mil km2/ano e saltou muito acima dos 20 mil km2/ano nos três anos consecutivos posteriores. Enfim, o que parecia ser uma tendência de queda não passou de uma redução passageira seguida de um aumento para patamares maiores. (Ver gráfico a seguir.)

Vale lembrar aqui que em 1998 o Governo Federal, na gestão FHC, não divulgou a taxa de 17,4 mil km2/ano para 1997/1998, deixando para fazê-lo somente no ano seguinte, quando o índice caiu para 17,3 mil km2/ano, anunciando a pífia redução de menos de 1% como boa notícia. E, pior, a imprensa em geral vendeu esse peixe do mesmo modo como comprou do governo, rendendo até manchetes. Na gestão Lula não tivemos manobras desse tipo, mas, em compensação, já caíram no esquecimento os 27,2 mil km2/ano de desmatamentos em 2003/2004, que foi o segundo maior índice desde 1988.

Mesmo assim, felizmente não houve nada comparável, por parte das gestões presidenciais tucana e petista, ao vigoroso esforço de desinformação levado a cabo pelo governo Sarney, em 1989. Em abril daquele ano, foi anunciada a estimativa de 251,4 mil quilômetros quadrados para o total de cobertura vegetal da Amazônia desmatada até 1988; dez meses depois, foi necessário reconhecer um “errinho” de 42,6%, fazendo o dado inicial ser corrigido para 358,7 mil quilômetros quadrados (Mais informações).

Voltando ao presente, vemos que desde o ano passado o filme das notícias de 1996 e de 1997 se repete. Um ano após divulgar a redução da taxa anual de 27,2 mil km2 (2003/2004) para 18,7 mil km2 (2004/2005), correspondente a 31,3% a menos, o Governo Federal agora anuncia a estimativa de 13,1 mil km2 para 2005/2006, projetando uma diminuição de 30% para a totalização a ser fechada em dezembro. Esse dado preliminar foi anunciado agora, poucos dias antes da COP-12 (12ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), em Nairóbi, no Quênia, para ser apresentado oficialmente no evento. Coincidentemente — e não há ironia em dizer isto —, a três dias do segundo turno das eleições presidenciais.

O Ministério do Meio Ambiente credita esses resultados à implantação do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia, lançado em 2004. Em outras palavras, o governo afirma que essa redução é fruto de políticas públicas (ver nota do MMA). De fato, esse é o melhor caminho, e é pelo sucesso de iniciativas desse tipo que temos de trabalhar.

Temos de ser otimistas em nossos esforços, mas, ao discernir sobre o que comemorar, prefiro ficar com as sábias palavras de Nicola Chiaromonte, citadas por Norberto Bobbio em De Senectute: “(…) acredito que, hoje mais do que nunca, o pior inimigo da humanidade é o otimismo, qualquer que seja sua forma. Ele, de fato, equivale pura e simplesmente à recusa de pensar, por medo das conclusões a que poderíamos chegar.”

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Written by Mauricio Tuffani

sexta-feira, 27/10/2006 at 15:22

Publicado em Amazônia, Política