Laudas Críticas

Obra analisa a história da ocupação da mata atlântica de SP

Resenha publicada originalmente na Folha de S. Paulo em 06/10/2007 (Ilustrada)

MAURÍCIO TUFFANI

Os temas ambientais têm inspirado belos livros institucionais de órgãos governamentais e também de ONGs. Mas o destino dessas obras acaba sendo quase sempre as estantes de burocratas e de especialistas do círculo de relacionamento de seus idealizadores. Lançado recentemente pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Nos Caminhos da Biodiversidade Paulista é um bem-sucedido contra-exemplo em meio a essa enxurrada verde de publicações institucionais.

Para apresentar o percurso histórico da ocupação dos hábitats naturais paulistas, o livro toma como ponto de partida o trabalho iniciado em 1886, ainda no Império, pela CGG (Comissão Geográfica e Geológica), criada pelo governo da então Província de São Paulo para explorar e mapear sua área de cerca de 250 milhões de hectares, equivalente ao que hoje é o Reino Unido.

Organizado por Marcelo Leite, colunista da Folha, o livro reconstitui caminhos trilhados por essa comissão, retomando também relatos mais antigos, como os de bandeirantes e de estudiosos viajantes. No trajeto, são lembrados componentes históricos das paisagens e é mostrada e ilustrada com imagens sua rica diversidade de espécies animais e vegetais.

Caminho da devastação

A CGG funcionou até 1923 e integrou especialistas que hoje são muito mais conhecidos como nomes de ruas -como Teodoro Sampaio, Gentil de Moura e Paula Souza. Seu trabalho visava orientar a ocupação da área do Estado com bases técnicas e científicas. Apesar da visão conservacionista já então presente em muitos dos membros da comissão, esse objetivo, na prática, era o de organizar o processo de devastação de extensas áreas da mata atlântica e de cerrados para viabilizar a expansão da economia.

O livro mostra a marcha da ocupação do litoral paulista para o interior como um avanço semelhante, mas muito mais enérgico, aos desmatamentos ocorridos antes em outras regiões, fazendo a construção da civilização brasileira e a destruição de quase toda a mata atlântica parecerem as duas faces de um mesmo processo histórico e ambiental.

Essa interpretação tem como referência principal a obra A Ferro e Fogo: A História da Devastação da Mata Atlântica Brasileira, do brazilianista Warren Dean (1932-1994). Mas como uma característica da construção de nossa identidade, o espírito predatório que visava “muito menos a aumentar a produtividade do solo do que a economizar esforços” havia sido apontado por Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em Raízes do Brasil.

Ao retomar e contextualizar a saga da CGG, Nos Caminhos da Biodiversidade Paulista alerta não só para o futuro dos 10% de remanescentes das florestas nativas do Estado mas também para os limites do conhecimento orientado pelo impulso do que convencionamos chamar de progresso.

MAURÍCIO TUFFANI é jornalista especializado em ciência e meio ambiente e assessor de Comunicação e Imprensa da Unesp.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 24/07/2008 às 12:08

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