Laudas Críticas

Subsídios críticos para o trabalho da imprensa em desastres ambientais

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Um estudo publicado já há alguns meses traz subsídios críticos importantes para o trabalho de jornalistas na cobertura de acontecimentos relacionados a eventos geradores de graves prejuízos para o meio ambiente e para a saúde humana.

Apesar de sua análise ter sido restrita a um único caso — a mortandade de peixes, crustáceos e outros animais em um estuário na região de Natal (RN) em julho de 2007 —, o artigo “Desafios da divulgação científica em cobertura jornalística de desastre ambiental” aponta problemas com o uso de termos científicos e com o tratamento de informações relacionadas a eles.

Termos técnicos

O trabalho foi publicado na revista Ciência & Educação, editada pela Faculdade de Ciências do campus da Unesp em Bauru, por Luiz Fernando Dal Pian, da Escola de Comunicações e Artes da USP, e Daniel Durante Pereira Alves, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O dois pesquisadores analisaram o uso dos termos “metais pesados”, “amônia”, “metabissulfito de sódio”, “demanda bioquímica de oxigênio”, “eutrofização” e “demanda química de oxigênio” em 34 textos publicados entre a última semana de julho de 2007 e a última semana do mês seguinte. Entre outras conclusões, os autores apontaram a seguinte.

A análise de conteúdo jornalístico identificou o tratamento um tanto precário dos conceitos científicos capazes de fundamentar os reais motivos relacionados à mortandade de toneladas de fauna aquática, contribuindo pouco para a formação e educação ambiental dos leitores.

Confronto de acusações

Dal Pian e Alves observaram que as autoridades atribuíram a mortandade de seres vivos a fatores naturais, mas, posteriormente o laudo técnico preliminar do órgão estadual de meio ambiente chegou a outra conclusão. Desse modo,

A partir de então, os acontecimentos construídos pela cobertura da mídia impressa expuseram o confronto de acusações entre os diversos atores envolvidos e suas diferentes versões, cumprindo, assim, com um dos deveres éticos do jornalismo, que é o de buscar uma diversidade de fontes. No entanto, em casos como esses, em que diversas instituições participam das apurações e em que as provas de sustentação de causalidade e de culpabilidade são construídas ao longo do tempo, os jornalistas deveriam recorrer mais às suas ferramentas investigativas, ouvir novas fontes, levantar novas evidências e comparar os laudos emitidos. Ou seja, qualificar a apuração ao longo do tempo, ser mais proativos na busca por explicações causais e recolocar o assunto na pauta jornalística.

Cientistas e jornalistas

O assunto instiga várias possibilidades de discussão. A preferida de grande parte dos cientistas é sobre a qualidade da tradução da linguagem especializada para a linguagem do público em geral. Isso é importante, mas o trabalho do jornalista não se restringe a fazer essa tradução; ele inclui também abordar criticamente as versões das fontes especializadas. Felizmente Luiz Fernando Dal Pian e Daniel Durante Pereira Alves foram devidamente atentos a isso em seu estudo.

De minha parte, essa pesquisa reforça uma das conclusões de um estudo que produzi há alguns anos: a questão crucial do jornalismo na área de ciência acabou por se tornar a mesma do jornalismo em geral neste neste início de século: o essencial não é saber se os jornais vão desaparecer, nem se os profissionais de imprensa serão todos terceirizados, mas se a função do jornalista deixará de ser a produção da informação para se restringir ao mero gerenciamento dela.

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