Laudas Críticas

Errata do Ipea não corrige questão nem elimina vícios de pesquisa

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A errata do documento “Tolerância social à violência contra mulheres“, divulgada ontem (sexta-feira, 4.abr) por meio de nota oficial do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) não pode ser considerada uma correção da questão à qual ela se refere. Na verdade, não há o que fazer para dar credibilidade a essa tentativa de estudo sobre o problema grave da sociedade brasileira da tolerância de agressões contra mulheres.

Não há como obter nenhuma conclusão cientificamente válida do uso da afirmação “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

As palavras “merecem” e “atacadas” induzem a interpretações diferentes dessa sentença. Desse modo, foi prejudicado de antemão o aproveitamento das respostas afirmativas, negativas ou neutras dos entrevistados à pergunta aos entrevistados sobre se eles concordavam com essa frase.

Questões viciadas

Houve expressões de duplo sentido também em pelo menos outras três das 27 sentenças apresentadas a 3.801 pessoas entrevistadas de maio a junho de 2013 pelo Ipea, como já havia sido informado neste blog no post “Ambiguidades comprometem estudo sobre violência contra mulheres” na terça-feira (1º.abr), três dias antes do anúncio da errata.

A presença de expressões ambíguas nessas quatro questões que figuram entre as mais cruciais para o objetivo do trabalho impossibilita qualquer possibilidade de “salvar” o trabalho realizado pelo instituto. Além das que foram apontadas acima, as demais expressões de duplo sentido são as que aparecem em negrito nas afirmações a seguir.

Dá para entender que um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher.

Dá para entender que um homem rasgue ou quebre as coisas da mulher se ficou nervoso.

Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros.

Devido a essas ambiguidades, é desnecessária qualquer consideração sobre a quantificação das respostas dadas pelo entrevistados sobre as perguntas se eles concordavam ou não com essas afirmações.

Isso implica que, diferentemente do que passou a ser afirmado por ativistas após a errata, não dá para serem considerados confiáveis nem mesmo os dados referentes a opiniões sobre estupros.

Retratação

Dá para entender — e aqui é inevitável o trocadilho com duas das questões do Ipea — que ativistas não tenham levado em consideração essas ambiguidades que comprometem a credibilidade desse estudo. O que não dá para entender nem para aceitar é que especialistas tenham ignorado esses vícios ao se pronunciarem sobre o assunto na imprensa e nas redes sociais.

Quanto ao Ipea, não parece haver nenhuma outra saída senão a retratação desse trabalho, o que implica considerar que ele não tem validade científica.

 

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