Laudas Críticas

Cientistas relatam pressões para publicar estudos incompletos ou com dados não verificados

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Células-tronco embrionárias humanas. Imagem de Nissim Benvenisty, via Wikimedia Commons (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Human_embryonic_stem_cells_only_A.png#), licença CC-BY-2.5 Dezoito cientistas que trabalham com células-tronco afirmaram terem recebido pressões para publicar estudos incompletos ou com dados não verificados, noticiou a revista britânica New Scientist na semana passada. O semanário informou também que cinco pesquisadores nessa mesma área confirmaram adulteração por eles mesmos ou por colegas de dados de trabalhos que foram publicados.

“Sei de numerosas situações em que bolsistas, algumas vezes com o conhecimento de seus mentores, publicaram dados falsificados”, disse um professor à revista, que se baseou em respostas de 112 cientistas a um questionário enviado para mil pesquisadores de células-tronco de diversos países.

Por que células-tronco?

O objetivo do levantamento, segundo Helen Thomson, autora da reportagem “Cientistas de células-tronco relatam pressões de trabalho antiéticas“, foi buscar alguns insights para compreender por que têm ocorrido tantos casos de más-condutas científicas nessa área de pesquisas, da qual se espera o desenvolvimento de terapias para diferentes tipos de câncer e doenças como as de Parkinson, Alzheimer e outras.

O escândalo mais recente nessa área veio a tona em 17 de fevereiro, quando o periódico britânico Nature divulgou em seu site que já teria iniciado uma averiguação sobre acusações de adulteração de imagens em um dos dois trabalhos desenvolvidos no Japão, ambos publicados na edição de 30 de janeiro, que anunciaram a reversão de células de diversos tecidos de camundongos para o estágio embrionário por meio de nada mais que um banho ácido.

Maior exposição

Mais da metade dos que responderam aos questionário (55,9%) afirmaram acreditar que a investigação sobre células-tronco está sob maior escrutínio que as outras áreas da pesquisa biomédica. “Isso acontece porque as implicações para terepias são maiores do que em outras áreas”, disse um dos pesquisadores que acrescentaram informações para explicar a resposta afirmativa à seguinte pergunta.

Você acha que a pesquisa com células-tronco está sob escrutínio mais intenso (por exemplo, de jornalistas, de revisores de periódicos ou de outros cientistas) do que outras áreas da ciência biomédica?
Respostas: 62 "Sim" (55,9%) e 49 "Não" (44,1%)
Explicaram a resposta afirmativa: 0
Responderam: 111 – Pularam a questão: 1

Quase um quinto dos que responderam afirmativamente a essa questão disseram que seu trabalho é afetado por esse quadro de intensa exposição. Enquanto alguns disseram que isso os fez serem mais rigorosos, outros afirmaram que se sentem forçados a encontrar aplicações clínicas muito cedo.

Se você respondeu "sim" à questão anterior, você acha que isso afeta seu trabalho de alguma forma?
Respostas: 21 "Sim" (24,4%) e 65 "Não" (75,6%)
Explicaram a resposta afirmativa: 19
Responderam: 86 – Pularam a questão: 26

Disputa entre equipes

“Há uma pressão tremenda para publicar e ela tem a finalidade de receber financiamento”, declarou um dos entrevistados para explicar as pressões a que se referem às seguintes perguntas.

Você já sentiu alguma pressão para submeter para publicação um artigo que você achava estar incompleto ou com informações não verificadas?
Respostas: 18 "Sim" (16,7%) e 90 "Não" (83,3%)
Explicaram a resposta afirmativa: 14
Responderam: 108 – Pularam a questão: 4
Você ou algum de seus colegas já falsificou ou acrescentou dados que acabaram sendo publicados em um artigo?
Respostas: 5 "Sim" (4,7%) e 101 "Não" (95,3%)
Explicaram a resposta afirmativa: 6
Responderam: 106 – Pularam a questão: 6

Além das pressões motivadas para captar recursos, foram relatadas também aquelas originadas de competições entre equipes que querem marcar pioneirismo em suas áreas de atuação. Um líder de grupo de pesquisa, por exemplo, afirmou à New Scientist que o atalho para o envio um determinado trabalho acaba acontecendo quando há risco de uma equipe rival publicar antes um estudo semelhante.

Medo do chefe

Entre as demais explicações dos entrevistados — que estão no relatório completo da pesquisa da New Scientist — destacam-se principalmente acusações contra cientistas  responsáveis por grupos de pesquisa e instâncias superiores, como as três seguintes.

Os supervisores e mentores ficam muito animados com os dados, mas algumas pessoas ficam depois com medo de dizer a eles que não podem validar esses resultados.

Às vezes um emprego é posto em questão, e superiores se tornaram conhecidos por tentarem forçar a publicação prematura e levar o crédito por resultados… quando eles nem sequer conheciam o conteúdo do trabalho.

Projetos grandes e caros financiados pelo governo estão às vezes sob grande pressão para publicar trabalhos que geralmente teriam como melhor encaminhamento um maior escrutínio antes da apresentação. Da mesma forma, subvenções e prazos de carreiras muitas vezes geram pressão para publicar — ou perecer.

Extensão do problema

Embora possam ser considerados mais ou menos preocupantes, os dados da prospecção feita pela New Scientist não comprometem toda a área da pesquisa com células-tronco. Eles importam muito mais para compreender como e por que acontecem esses casos de más-condutas científicas, e é para isso que a revista se propôs a fazer esse trabalho.

Esses resultados reforçam ainda mais o desafio crescente para as agências de financiamento à pesquisa e para as revistas científicas de não só saberem separar o joio do trigo, mas também de não serem os fatores de estímulo da produção do joio. E a lição vale também para grande parte da imprensa, que em janeiro deste ano já possuía registros suficientes para ter sido mais cuidadosa em face da promessa sensacionalista de uma pesquisa que agora está sob suspeita de fraude.

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