Laudas Críticas

A água que se perde antes de chegar ao ralo

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Kenneth-Cruz_CC

Quando há uma seca, há o agravamento de conflitos, disse Norman Gall, diretor-executivo do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial. A afirmação não foi feita para explicar a recente discussão entre os governadores Geraldo Alckmin (PSDB), de São Paulo, e Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro, sobre o projeto paulista de levar para o sistema Cantareira águas do Rio Jaguari, que desemboca no Rio Paraíba do Sul e abastece a região metropolitana da capital fluminense e outras cidades. Na verdade, em uma entrevista à TV Cultura em 2012, Gall explicou o que dizia ser um padrão desde os tempos mais primitivos da humanidade para contextualizar disputas que nos dias de hoje ocorrem principalmente no Oriente Médio, na África e na Ásia.

Essa tensão entre os dois governadores é um episódio lamentável por acontecer na região mais rica e desenvolvida do país considerado como detentor das maiores reservas de água doce do planeta. As notícias divulgadas nas últimas semanas já evidenciaram o mau gerenciamento de recursos hídricos no Brasil em seus aspectos de planejamento, de falta de racionalização do consumo e de investimentos insuficientes em saneamento e fornecimento de águas.

Ações urgentes

No entanto, a questão entre os dois governadores em torno de uma obra que pode demorar mais de 18 meses e os investimentos necessários para ampliar o fornecimento de água não resolvem o problema urgente de diversas cidades da região mais populosa do país. E, nesse quadro crítico, além da redução do consumo, pouco se falou no elevado índice de perda de água nas redes de fornecimento, que é um problema que pode e deve ser atacado com urgência.

O levantamento mais recente em nível nacional das perdas de água em sistemas de abastecimento do Brasil se refere a 2011 e foi divulgado dois anos depois, em 2013 no Diagnóstico de Serviços de Águas e Esgotos, do Sistema Nacional de Informações de Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades.

Perdas no Brasil

Os dados a seguir se baseiam no índice de perdas na distribuição, baseado na razão entre o volume de água disponibilizado para distribuição e o volume que é realmente consumido. Os fatores desse desperdício estão no mau estado de conservação das redes de distribuição e em falhas em seu gerenciamento, como na detecção de vazamentos, na alta pressão a que são submetidas as tubulações e, em alguns casos, até na falta de monitoramento das perdas.

O quadro a seguir mostra índices médios de perdas em 2011 das principais empresas prestadoras de serviço de fornecimento de água de abrangência regional do Brasil.

Indices-de-Perdas-2011

A linha vermelha no gráfico indica a média de 39,4% de perdas para os 27 distribuidores regionais em 2011. No ano anterior, a média foi de 39,2%. O diagnóstico de 2011 do SNIS aponta que “os investimentos em curso no país não conseguiram reduzir, de maneira significativa as perdas de água nos sistemas de abastecimento”.

Com a marca de 24,8%, apenas a Caesb, do Distrito Federal, apresentou naquele ano índice de perdas abaixo de 25%. Indicadores inferiores a 50% foram apenas de outros 12 prestadores de abrangência regional:

  • Copanor, de Minas Gerais (30,5%),
  • Cedae, do Rio de Janeiro (31,6%),
  • Saneago, de Goiás (31,6%),
  • Copasa, de Minas Gerais (32,5%),
  • Sanepar, do Paraná (33,1%),
  • Sabesp, de São Paulo (34,0%),
  • Saneatins, do Tocantins (35,5%),
  • Casan, de Santa Catarina (35,5%),
  • Cesan, do Espírito Santo (35,6%),
  • Cacege, do Ceará (36,1%),
  • Sanesul, do Mato Grosso do Sul (36,3%),
  • Embasa, da Bahia (38,3%),
  • Corsan, do Rio Grande do Sul (41,7%),
  • Cosan, do Pará (45,4%) e
  • Cageb, da Paraíba (46,9%).

Os índices superiores a 50% de perdas de água em redes regionais de distribuição se restringiram às regiões Norte e Nordeste:

  • Depasa, do Acre (57,8%),
  • Caerr, de Roraima (58,1%),
  • Caema, do Maranhão (59,0%),
  • Agespisa, do Piauí (60,0%),
  • Caern, do Rio Grande do Norte (60,4%),
  • Deso, de Sergipe (60,5%),
  • Caerd, de Rondônia (61,5%),
  • Cosama, do Amazonas (62,3%),
  • Casal, de Alagoas (64,5%),
  • Compesa, de Pernambuco (66,0%) e
  • Caesa, do Amapá (73,3%).

Periodicidade

É praticamente impossível não haver perda nos sistemas de abastecimento de água. Elas tendem a existir devido a vazamentos não detectáveis, problemas no gerenciamento de pressão e outros fatores, como afirmaram Rudinei Toneto, Carlos Saiani e Regiani Lopes Rodrigues em no estudo “Entraves ao avanço do saneamento básico e riscos de agravamento à escassez hídrica no Brasil“, referente a dados de 2010. Os pesquisadores ressaltaram que os níveis de perdas no Brasil são elevados em comparação com outros países. E destacaram o Japão, que é referência mundial no combate às perdas, com índices de aproximadamente 7%.

Os relatórios anuais do SNIS são divulgados anualmente e abrangem diversos aspectos do fornecimento de água e captação e tratamento de esgotos de todo o país com uma defasagem de dois anos.

Embora essa diferença temporal possa ser considerada aceitável do ponto de vista gerencial, os indicadores de perdas de água nas redes de distribuição, assim como os de coleta e tratamento de esgotos, poderiam ser antecipados. Desse modo, seria possível proporcionar não só um melhor acompanhamento pela sociedade dos serviços prestados, mas também a responsabilização, nas urnas, dos partidos e dos agentes políticos que administram os estados e as empresas de águas e saneamento.

Leia também neste blog: “Brasil acordou tarde para o monitoramento de cheias e secas” (25.mar.2014)

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