Laudas Críticas

‘Cosmos’ estreia sob ataques de criacionistas e caçadores de erros

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Lançada nos Estados Unidos no domingo (9.mar) e no Brasil nesta quinta-feira (13.mar) pelo canal National Geographic (22h30), a série Cosmos – Uma odisseia no espaço-tempo já começa sob críticas de caçadores de erros e ataques de contestadores da teoria da evolução. Inspirado na série Cosmos – Uma viagem pessoal, de 1980, idealizada e apresentada pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996), o novo programa tem como anfitrião o astrofísico e divulgador científico Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, do Museu Americano de História Natural, e personalidade muito atuante nos meios de comunicação.

A nova série tem tudo para conseguir sucesso em audiência. Além de contar com a parceria do NatGeo com o canal Fox e com a rede educativa de TV PBS , a versão repaginada da iniciativa de Sagan tem efeitos especiais de grande impacto visual que não eram possíveis há 34 anos e um apresentador plenamente articulado com os recursos das novas tecnologias de comunicação.

No momento em que este artigo foi concluído, Tyson já contava com cerca de 935 mil seguidores em sua página no Facebook e com mais de 1,74 milhão no seu perfil no Twitter. Outra participação de importância midiática na equipe do programa é o produtor executivo Seth MacFarlane, um dos criadores de Family Guy (Uma Família da Pesada), que é sucesso desde 1999.

Jogo dos cinco erros

Como acontece com grande parte das iniciativas de popularização da ciência, Cosmos não poderia deixar de receber acusações de imprecisão. A crítica mais recente foi publicada nesta quinta-feira por Hank Campbell, co-autor do best-seller “Science Left Behind” (A Ciência deixada para trás), de 2012. Ele postou “Cinco coisas que deram errado com Neil de Grasse Tyson“, destacando no blog as frases “Qual é a precisão da ciência em Cosmos? Isso tem importância? Ela seria boa mesmo sendo ruim, como pizza?”

Ressalvando que reconhece em Tyson um espírito aberto a críticas como em Sagan, Campbell afirma que identifica quatro erros no o primeiro episódio da série, “De pé na Via Láctea”: a comparação da quentíssima atmosfera de Vênus com o efeito estufa da Terra, a menção aos multiversos ou múltiplos universos como se sua existência fosse uma verdade científica, a propagação de sons da fictícia espaçonave pilotada pelo apresentador e que são impossíveis na imensidão do espaço e, finalmente, a apresentação do filósofo e teólogo Giordano Bruno (1548-1600) com uma importância para a ciência maior do que a do astrônomo, físico e matemático Galileu Galilei (1564-1642).

E Campbell acrescenta um problema que afirma ser de “estilo”: não dá certo, segundo ele, apresentar os cerca de 14 bilhões de anos desde a explosão do Big Bang condensados nos 12 meses de um ano, fazendo com que cada dia nesse calendário seja equivalente a aproximadamente 40 milhões de anos.

Exageros

Campbell tem razão em suas quatro primeiras objeções, apesar de que podem até ser consideradas “licenças poéticas” as três escorregadelas iniciais sobre Vênus, os multiversos e o som que não se propaga no espaço. Mas ele exagera no que afirma ser uma objeção de estilo e parece procurar chifre em cabeça de cavalo quando afirma que escolha da explicação com a evolução Universo desde o Big Bang por meio da analogia com o calendário de 12 meses, onde a civilização humana aparece em uma fração do último segundo, se deve ao “ateísmo declarado” do produtor Seth MacFarlane.

Ou seja, o criador de Family Guy teria forçado a barra para usar um modelo que mal mostra o surgimento dos humanos para menosprezar o período que muitos interpretam como sendo  o da obra Criação de Deus. A menos que o objetivo não seja popularizar conhecimentos da ciência, não faz sentido rejeitar analogias como essa.

Galileu menosprezado

Mas, apesar de ter Tyson ter afirmado que Bruno não era cientista, o episódio tem uma longa animação dramatizada sobre o teólogo condenado à fogueira pela Inquisição e dá pouquíssima importância para Galileu, deixando de lado seus enfrentamentos científicos com as autoridades do saber eclesiástico de sua época. Nesse ponto Campbell está coberto de razão.

Em 1609, modificando um dispositivo óptico que aproximava a observação de objetos, construído no ano anterior por holandeses, Galileu construiu o telescópio, que teve esse nome a partir de 1611. Seu uso permitiu refutar a concepção de que a Terra estava no centro do mundo e de que todos os corpos celestes eram imutáveis e perfeitos, formados por éter, como havia afirmado Aristóteles (384-322 a.C.), em Sobre o Mundo e Sobre o Céu, e também Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), em seus manuscritos Almagesto e Tetrabiblos.

A iniciativa de Galileu ultrapassou o âmbito da astronomia, não só por articular uma nova etapa na história do conhecimento, com a rejeição da autoridade da religião nas ciências naturais e a afirmação da autonomia do uso da observação, da experimentação e da superioridade do raciocínio demonstrativo matemático na busca da verdade sobre os fenômenos da natureza. Ele também superou a concepção teológica judaico-cristã de que o conhecimento era imutável e de que tudo o que existe e acontece já havia sido previsto por Deus no Gênesis. Nada seria novo, pois tudo o que se acrescentasse ao conhecimento somente confirmaria — e jamais modificaria — as eternas verdades bíblicas. Em outras palavras, acreditava-se que, aconteça o que acontecer, “não há nada de novo debaixo do sol” (Eclesiastes, 1,9).

Briga com criacionistas

No domingo, já antes da apresentação de seu primeiro episódio, a nova série já estava com os dias contados para não ter problemas com os criacionistas em geral e também com os adeptos do chamado design inteligente, que são opositores mais sofisticados à evolução das espécies por meio da seleção natural. Em entrevista à CNN, Tyson ouviu do jornalista Brian Stelter a pergunta sobre como intermediar a paz na “guerra contra a ciência”, referindo-se principalmente aos contestadores do aquecimento global.

O astrofísico respondeu que a imprensa tem a vantagem de não se prender ao ethos da ciência, baseado na discussão interna na comunidade acadêmica, mas que os jornalistas agem errado quando, para “ouvir o outro lado”, contrapõem afirmações científicas com opiniões não científicas. E, como destacou Jack Mirkinson no Huffington Post (10.mar), acrescentou:

Você não fala sobre a Terra esférica com a Nasa e, em seguida, diz “vamos dar tempo igual ao pessoal da Terra plana”. Além disso, a ciência não existe para você agir como ao escolher cerejas. (…) O bom da ciência é que ela funciona com você acreditando ou não nela.

Não demorou para surgirem manifestações criacionistas, como o artigo “Neil deGrasse Tyson: velho produto, nova embalagem“, no site do Instituto Discovery. Aqui no Brasil, defensores da teoria do design inteligente, inclusive membros da comunidade científica, já conversam por e-mails para articular uma reação.

Atuação da imprensa

Tyson tem razão quando afirma que não é correto tentar equilibrar posições científicas com opiniões religiosas, como fazem muitas vezes os meios de comunicação quando o contexto da notícia é o conhecimento. Por outro lado, jornalistas especializados em ciência muitas vezes agem como se não existissem pesquisadores que contestam a teoria da evolução e apresentam argumentos para isso. É o caso, no Brasil, de Marcos Eberlin, professor do Instituto de Química da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) com um currículo respeitado internacionalmente na área de espectrometria de massas, que defende que a probabilidade de a vida ter surgido na Terra é um número que excede toda a probabilidade do universo.

Mesmo no âmbito das discussões com base em critérios científicos, as chances de algum diálogo entre darwinistas e antievolucionistas são praticamente nulas, pois muitos de ambos os lados já partiram há tempos para provocações e xingamentos. De minha parte, penso que sempre se deve aplicar o preceito do filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873) destacado, em um contexto completamente diferente do tema presente, pelo jornalista Hélio Schwartsman em sua coluna na Folha de S. Paulo, na terça-feira (11.mar):

(…) mesmo os piores preconceitos precisam ter sua circulação assegurada, a fim de que as ideias verdadeiras sejam submetidas à contestação e triunfem. Se não for assim, elas próprias serão percebidas como simples preconceitos, sem base racional.

Seja como for, vale a pena assistir Cosmos.

PS — Acabo de ser informado (14h30) que a emissora afiliada da Fox em Oklahoma teria censurado, substituindo por uma inserção de publicidade própria, um trecho de aproximadamente 15 segundos no primeiro episódio. O trecho, que seria justamente aquele, acima mencionado, dos últimos segundos do calendário em que aparece a espécie humana, teria a seguinte fala de Nei deGrasse Tyson:

Somos recém-chegados ao Cosmos. Nossa própria história só começa na última noite do ano cósmico. Três milhões e meio de anos atrás, nossos ancestrais, o seu e o meu, deixaram esses rastros. Nós nos levantamos e nos separaramos deles. Uma vez que estávamos sobre dois pés, nossos olhos já não estavam mais fixados no chão. Agora, éramos livres para olhar para cima e para admirar.

A informação é do site de notícias The Raw Story com base no vídeo abaixo postado no YouTube.

8 Respostas

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  1. Tufani,

    Apresentar argumentos é diferente de apresentar argumentos bem embasados. E ter currículo na área de espectrometria dá embasamento para discutir evolução?

    Precisamos sim ouvir os dois lados, mas só quando os lados tiverem embasamento. Quando o Eberlin tiver artigos publicados sobre o tema em periódicos respeitados podemos encarar ele como um contra ponto para discutirmos a teorias evolução.

    Ou quando ele pelo menos começar a usar como base da sua argumentação artigos publicados em periódicos sérios. Ou vamos partir para o argumento de que existe um movimento mundial dos pesquisadores para negarem artigos criacionistas?

    Luiz Bento

    quinta-feira, 13/03/2014 at 13:18

  2. Um currículo respeitado em espectrometria te credencia a discutir evolução?
    É correto pegar um pesquisador que não tem formação na área, não trabalha na área, não tem artigos sérios publicados na área, para ser o contraponto de um conceito científico que está bem estabelecido a tanto tempo?

    Este é exatamente o problema da mídia. Achar que o Eberlin tem peso científico na área para ser um contraponto honesto em relação a teoria da evolução.

    O Eli Vieira discute um pouco sobre isso aqui http://www.elivieira.com/2009/10/5-criacionistas-desonestos-do-brasil.html?m=1

    Luiz Bento

    quinta-feira, 13/03/2014 at 13:30

  3. Vale mesmo? Hum…Pode ser…que sim…pode ser…que não. Uma série séria, minha opinião, deveria (teria…) que ser cética, apresentando prós e contras das teorias apresentadas , e não simplesmente celebrar a Dona Ciência… E pelos multiversos e a celebração do queimado italiano (que não era cientista, como demonstrou há décadas Frances Yates), dá para esperar mais do mesmo. Enfim, que seja… E, para terminar, num ensaio escrito no final da vida, John Stuart Mill declarou que que o hoje se denomina design inteligente (não parece que esses “planos” sejam tão inteligentes assim, mas vá lá…) não era uma tese totalmente descartável, e que se podia aceitar, de modo provisório, a existência de um Criador (bom, mas não onipotente). Essa postura de Mill (sem com isso querer arreliar os ateus religiosos de plantão, obviamente) apenas demonstra que as coisas são difíceis. E que talvez haja perguntas corretamente lançadas, mas que nunca poderão ser respondidas…

    Ari Brito

    quinta-feira, 13/03/2014 at 13:42

  4. Caro Luiz,

    Obrigado por sua participação e pela forma respeitosa de proceder a ela. Responderei adequadamente depois, pois estou agora envolvido com outros compromissos.

    Adianto apenas, na erdade mais para outros que queiram participar, que cuidarei para não serem reproduzidos neste espaço de comentários termos ofensivos como os que são empregados nesse texto do Eli Vieira indicado por você. Eu liberarei, por exemplo, comentários como os dois que você postou. Mas não permitirei, por exemplo, transcrições de trechos de outros textos que contenham xingamentos, injúiras, difamações ou calúnias.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    quinta-feira, 13/03/2014 at 13:43

  5. Acabo de ser informado (14h30) que a emissora afiliada da Fox em Oklahoma teria censurado, substituindo por uma inserção de publicidade própria, um trecho de aproximadamente 15 segundos no primeiro episódio. Vejam PS ao post acima.

    Mauricio Tuffani

    quinta-feira, 13/03/2014 at 15:06

  6. Caro Luiz Bento,

    Agradeço mais uma vez por sua participação e respondo agora aos seus dois comentários.

    Antes de mais nada, destaco que já fiz muitos artigos e reportagens sobre evolução sem nem sequer mencionar contestações à teoria. Não acho que se deva procurar criacionistas e adeptos do design inteligente como “outro lado” pelo fato de uma reportagem tratar de temas relacionados a essa teoria. Mas há situações em que o assunto é a recusa pelos criacionistas com a própria seleção natural. Foi o caso, por exemplo, da decisão do conselho de educação do Kansas, assim como foi o do remake de “O Vento Será sua Herança” e tantos outros.

    Nesses casos, mesmo sem ter papers que tratam do assunto, não é correto jornalisticamente não fazer nenhum esforço para mostrar que existem questionamentos dentro da academia.

    Uma coisa é uma revista especializada rejeitar uma monografia que contesta a evolução por considerá-la em desacordo com seus critérios para publicação. Mas o jornalismo não é um subconjunto da comunicação científica. Se o contexto da notícia é esse, a imprensa tem a obrigação de esclarecer para o público em geral que a esmagadora maioria dos especialistas não concorda com o criacionismo, mas também precisa mostrar que o universo de contestadores da evolução não se restringe a pessoas que não conhecem a ciência. Não se trata, portanto, de “equilibrar” a evolução com o criacionismo.

    Aliás, acabam servindo sempre como munição para os criacionistas as reportagens que omitem esse tipo de informação em contextos de notícias como os que descrevi. Primeiro, porque fica estranho para o leigo esse tipo de omissão quando ele depara com o aparato de comunicação do outro lado. Pode parecer que “a mídia” escondeu alguma coisa. Em segundo lugar, essa omissão restringe ainda mais as chances de comparação entre o que é aceito pela ciência e o que não é aceito. Em vez de promover essa comparação, a imprensa que procede dessa forma — nesses contextos de notícia, bem entendido — acaba promovendo uma separação ainda maior. E esse não é o ethos do jornalismo.

    Por outro lado, os adeptos do design inteligente recorrem com frequência a papers que apontam inconsistências no modelo evolucionista. Só para dar um único exemplo — e a lista deles é razoavelmente extensa—, em “The Implausibility of Metabolic Cycles on the Prebiotic Earth“, publicado em 22.jan.2008 na PLoS, Leslie Orgel levanta questionamentos sobre a pertinência das hipóteses vigentes sobre a evolução metabólica nos primórdios da vida no planeta. Nunca me atrevi a dizer “Parem as máquinas!” por causa disso, mas também nunca tive a ajuda que pedi a cientistas para ter um contraponto a essa afirmação de Orgel.

    Bem, paro por aqui porque daqui a pouco, por causa do parágrafo anterior, poderá surgir mais uma vez alguém que não leu direito o que escrevi — ou até simplesmente um mal-intencionado sem disposição para sair de sua zona de conforto para poder me responder — e me acusar de estar defendendo o design inteligente.

    Desse modo, neste momento preferi dizer que concordo com Tyson, mas acho que muitas vezes a imprensa age errado ao omitir que existem contestadores da teoria da evolucão.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    sábado, 15/03/2014 at 12:35

  7. Muito bem exposto Tuffani.
    Acho que o problema muitas vezes é de falta de espaço físico para realmente mostrar ao leitor que existem pensamentos diferentes, mas que os mesmos não apresentam corpo de evidências similares. Entre não citar o criacionismo ou acabar sendo raso demais colocando-o lado a lado com o evolucionismo em termos científicos, não sei em que lado eu ficaria. Mas agora entendo um pouco melhor o dilema.

    Abraços.

    Luiz Bento

    quarta-feira, 26/03/2014 at 17:51

  8. No “Recanto das Letras”, e através de vários e-livros que pode ser lidos grátis via Internet, o Caçador de Erros Bíblicos Lisandro Hubris mostra mais de 300 explicações que transformam a Bíblia num livro risível, ultrapassado, e fora do seu prazo de validade.

    Lisandro Hubris

    quarta-feira, 24/09/2014 at 17:55


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