Laudas Críticas

Pesquisador que revelava fraudes científicas vive receio de ações judiciais e retaliações

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Paul-Bookes

Pouco mais de um ano após ter sua identidade descoberta e de ter encerrado suas atividades sob anonimato em seu blog Science Fraud, o pesquisador britânico Paul Brookes, do Centro Médico da Universidade de Rochester, no estado de Nova York, vive sob a ameaça de ações judiciais e sob o risco de retaliações nas avaliações de seus pedidos de financiamento para pesquisas. Além disso, ele tem também evitado proferir palestras fora da cidade onde trabalha, conforme declarou em entrevista à Science Careerspublicada ontem (segunda-feira, 10.mar).

Durante cerca de seis meses de atuação com o blog, apresentando-se sob o pseudônimo “Fraudster” (fraudador), Brooks apontou 275 trabalhos publicados em revistas especializadas como envolvidos em más-condutas científicas. Devido a essa exposição, 16 estudos passaram por investigações que terminaram em retratações e outros 41 foram corrigidos.

Em 3 de janeiro do ano passado, Brookes reconheceu no próprio blog ser o seu ator e deletou todos os seus posts. Ele fez isso porque no dia anterior vários dirigentes de sua universidade, inclusive o reitor, receberam e-mails de pesquisadores — autores de trabalhos que ele havia investigado e apontado como irregulares — que pediam a abertura de processo administrativo.

Leitura obrigatória

Science-Fraud_2012-10-04

Página de abertura do blog Science Fraud (em 4.out.2012), usado anonimamente até janeiro de 2013 pelo pesquisador britânico Paul Brookes, da Universidade Rochester, nos Estados Unidos. A página mostra uma imagem de experimento de laboratório que teria sido adulterada e usada em um artigo publicado em uma revista científica

Science Fraud fez sucesso rapidamente. Chegou a ser considerado leitura obrigatória por acadêmicos e editores interessados em problemas na comunicação científica. O monitoramento de investigações sobre estudos com suspeitas de irregularidades já vinha antes sendo realizado por outro blog, o Retraction Watch, ao qual se referiu Brooks na página de seu blog sobre seu objetivo:

Atualmente essas suspeitas têm sido muitas vezes relatadas em blogs como o Retraction Watch. Mas é necessário também um site com foco neste tipo de discurso. [Science Fraud] visa proporcionar um catalisador de novas investigações por parte das autoridades reguladoras e das revistas científicas. Muitos editores dessas publicações ignoram e-mails de acusadores anônimos.

Primeiro, uma enquadrada

Em resposta às mensagens de pesquisadores que exigiram instauração de processo interno, os administradores de Rochester fizeram vários questionamentos a Brookes. Segundo ele, uma das preocupações principais da universidade era se sua dedicação à atividade de pesquisar casos de procedimentos irregulares, avaliá-los e publicá-los em seu blog não teria prejudicado o tempo que deveria empregar no trabalho pelo qual ele era pago pela instituição.

O outro foco dos questionamentos era se o pesquisador teria usado recursos de seu laboratório em sua dedicação ao blog. Com isso, além de silenciar o Science Fraud, o primeiro contra-ataque dos reclamantes teve também como resultado fazer a reitoria verificar se ela teria fornecido ao Fraudster tempo remunerado  e meios para sua atividade como blogueiro. Em outras palavras, eles fizeram a universidade dar uma enquadrada nele.

Depois, as ameaças

Brookes afirmou na entrevista que, apesar de os dirigentes universitários não terem gostado de sua conduta, a administração teve uma atitude muito aberta ao entendimento dos fatos. Ele disse que conseguiu fazer a instituição compreender que nunca havia ultrapassado 12 horas de atividade por semana para o blog e que quase todo esse tempo teria sido despendido em sua residência. No final das contas, ele não teve problemas com seu emprego.

Nenhuma das ameaças de processo judicial contra ele se concretizou, mas pelo menos seis delas se tornaram riscos potenciais que, segundo Brookes, exigem que ele tenha despesas permanentes, de seu próprio bolso, com um advogado. Ele disse na na entrevista:

(…) ainda estou preocupado. Estou com 41 anos, portanto tenho mais 25 anos pela frente antes de me aposentar. Preciso continuar recebendo suporte financeiro para publicar artigos e, obviamente, se há pessoas lá fora que estão com raiva de mim, então talvez elas avaliem maldosamente meus financiamentos, talvez elas revisem maldosamente meus papers. O potencial de retaliação existe e não há, realmente, nenhuma maneira de contornar isso.

Palestras canceladas

Brookes disse na entrevista à repórter Elisabeth Pain que chegou a cancelar viagens que ele havia agendado para proferir palestras em cidades onde trabalham autores de estudos que foram criticados por ele no Science Fraud. Ele não pode, afirmou, correr o risco de ser colocado em situações com possibilidade de originar processos judiciais em outras localidades, exigindo novas despesas com advogados e com custos adicionais de viagem e até de hospedagem.

A aventura anônima custou caro para o jovem pesquisador, que aprendeu na pele que o anonimato na internet é cada vez mais fadado ao fracasso. Em resposta a uma pergunta da repórter, ele disse que deveria ter sido mais cauteloso, não só evitando postar comentários anônimos em outros blogs — que sempre registram o IP dos comentadores —, mas também sendo menos ácido em suas postagens.

Meritocracia

A pedido da entrevistadora, o ex-blogueiro fez também um conselho não só a pesquisadores em início de carreira, mas inclusive para acadêmicos em pós-doutorados, que, segundo ele, reclamam de serem muitas vezes coagidos por seus superiores a maquiarem os resultados de seus experimentos: recusem essas pressões e guardem bons registros.

Brookes afirma que não desistiu de retomar a atividade de observação de más-condutas científicas, mas que o fará com mais cautela e de forma não provocativa. E acrescentou que isso deve ser feito porque o sistema acadêmico é uma meritocracia, na qual o mecanismo de recompensas deve ser baseado na realidade.

Presença incômoda

Brookes disse ter angariado a simpatia de muitos que acompanhavam seu blog e até de seus colegas mais próximos. Mas, se ele retomar realmente sem anonimato o trabalho que desenvolvia no Science Fraud, ele certamente será visto como uma presença incômoda, até mesmo por aqueles que não se envolvem em más-condutas científicas. Se assim o fizer, ele será “o tipo de homem que o mundo finge reverenciar, mas na verdade despreza”, como disse o corrupto Viktor Komarovsky, personagem do filme Doutor Jivago, referindo-se a um jovem revolucionário e idealista.

Aqui no Brasil, onde a compreensão distorcida de direitos que se sobrepõem a deveres já contaminou profundamente o ambiente acadêmico, as afirmações do jovem pesquisador de Rochester sobre meritocracia com certeza provocariam rejeições ainda mais pesadas contra ele.

3 Respostas

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  1. Tuffani. Muito bom o artigo de hoje (12). Parabéns. Para aproximar o tema do Brasil sugiro uma conversa com o professor Beirão, diretor da área de Biologia do CNPq, que também preside a Comissão de Ética do órgão. Quando estava na direção da Comunicação Social acompanhei o andamento de vários casos de fraude e desvio de conduta, que estavam sob exame da Comissão.

    Ubirajara Moreira Silva Júnior

    quarta-feira, 12/03/2014 at 8:55

  2. Bom dia, Bira!
    Obrigado pelo comentário e pela sugestão, que já está anotada!
    Abraço,
    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    quarta-feira, 12/03/2014 at 9:11

  3. Seria interessante contabilizar quantas retractions vieram do Brasil do total de 16, considerando que havia diversos artigos questionados daqui no blogue. Ao que parece, a primeira ameaça recebido por Brookes inclusive veio do Brasil.

    CR

    domingo, 06/04/2014 at 19:45


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