Laudas Críticas

Uma ameaça maior que o dogma

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O artigo abaixo foi publicado na Folha de S. Paulo hoje (8 de junho), à pág. A3 (Tendências/Debates).

Os temas filosóficos são muitas vezes identificados pelo senso comum por seus aspectos extravagantes. Estes, longe de transmitir as ideias originais, na verdade ofuscam o que há de essencial nelas.

Mas há também entre os próprios pensadores uma espécie de senso comum filosófico. Ele está no apelo exagerado aos “ismos” – o humanismo, o niilismo e outros –, e em chavões manipuláveis ao gosto de cada intérprete.

Devido à vastidão da filosofia, nenhum pensador é imune a essa banalização. Não há, portanto, desrespeito ao apontar isso nos dois textos mais recentes do colunista Antonio Cicero na Ilustrada, “Irracionalismo” (15/5) e “Heidegger, Descartes e a razão” (29/5).

O segundo artigo dele é uma réplica a “O tabu em torno da razão” (Tendências/Debates, 26/5), no qual contestei o primeiro por ele ter atribuído a Martin Heidegger um “feroz anticartesianismo” e também a “desqualificação” da tradição filosófica e da razão.

Peço desculpas por um erro em meu artigo anterior. Apontei como fonte o § 24 em vez do § 6 do livro Ser e Tempo, de Heidegger. E poupo os leitores do revide às suposições feitas pelo colunista sobre mim por não ter ele notado que esse foi um erro de referência.

Meu foco não é defender o pensador alemão. Como já ressaltei e exemplifiquei, existem críticas pertinentes a ele. Mas esse não é o caso dos argumentos do colunista, já previstos e contestados desde 1927 em Ser e Tempo.

Heidegger questionou as noções básicas do pensamento de Descartes, tradicionalmente concebidas como absolutas, e concluiu que elas são filhas da escolástica medieval. Essa investigação da “certidão de nascimento” do cartesianismo não é imune a críticas. Mas Antonio Cicero simplesmente chamou-a de “relativização”, sem notar que, há 73 anos, Ser e Tempo já previra e contestara essa rotulação (§ 6).

Para reforçar sua ideia do “ataque” a Descartes, o colunista alegou que em A Questão Fundamental da Filosofia Heidegger se queixou da importância do pensador francês nas universidades ao apontá-lo como o início de uma ampla decadência da filosofia. Mas o alvo da queixa do alemão foi outro: a tradição acadêmica dogmática e louvadora do cartesianismo.

Além disso, o conceito Verfallen (decadência em alemão) “não exprime qualquer avaliação negativa”, esclarece Ser e Tempo (§ 38). Trata-se do “empenho na convivência, na medida em que esta é conduzida pela falação, curiosidade e ambiguidade”.

Esse ponto nos conduz ao que importa nesta discussão, que pode soar “bizantina” para o senso comum: o pior ao se banalizar um pensamento não é distorcer suas conclusões, mas ocultar suas interrogações.

Antonio Cicero encerrou seu artigo dizendo defender a razão e a liberdade de pensamento contra o dogma. Mas a banalização é capaz de mascarar até mesmo o dogma. Ela está presente em cada um de nós e pode fazer da própria liberdade do pensamento um clichê vazio e inócuo.

MAURÍCIO TUFFANI é jornalista, editor do blog Laudas Críticas e assessor de comunicação e imprensa da Unesp.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 08/06/2010 às 7:00

Publicado em Filosofia

31 Respostas

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  1. Bela reflexão, Tuffani. Você levou a questão para um plano mais elevado. Antonio Cicero ignorou as citações de seu outro artigo e partiu para a estratégia argumentativa de desvio do foco sobre eles. Você, ao contrário, respondeu justamente em cima dos pontos levantados por ele. E, diga-se de passagem, sem apelar para argumentos ad hominem e falsos, como o de que você “não conhece bem a obra do autor que pretende socorrer”. Fica clara banalização em que ele incorreu. E o mais importante é que você mostra que isso pode acontecer com cada um de nós, tanto com você como com ele. Uma dúvida: essa é a única ressalva de Heidegger com o significado de “decadência”? Abraço, Alexis Tavares

    Alexis

    terça-feira, 08/06/2010 at 8:13

  2. acompanho na folha a discussão e dela pego este teu endereço de site – maneiro! quanta filosofia! quantos links relacionados! quanta gente boa no mundo! acho que a semana de dias da criação é simbólica, podem representar hum milhão de anos, sendo assim a razão evoluiria como numa semana simbólica culminante no ser humano e iniciando na luz mesma. a criação evolui na semana simbólica. não há razão pra tanta briga. diga-se de passagem creio que mais evolvemos (vamos pra trás e pra frente) que evoluímos (só pra frente?). O Descartes, o Newton e o Galileu fundam uma outra ciência não tradicional jogando no lixo a metafísica de então, para fazer a Revolução. Estavam com a razão. Coitada da Metafísica. A metafísica é boa. Valeu!

    ze

    terça-feira, 08/06/2010 at 10:51

  3. Esse é um debate que me desagrada. Acho o Antônio Cícero desnecessariamente arrogante, agressivo e muito ligado em questões de lana-caprina. Gosto mais do seu jeito de levar a coisa, mas concordo com Cícero que Heidegger era um feroz adversário da razão. Foi Heidegger que escreveu: “A razão é o adversário mais obstinado do pensamento” (“O mote de Nietzsche: Deus está morto”, 1943). Não li esse texto e duvido que entenderia se lesse, mas “eis uma profissão de fé anti-racionalista que não se preocupa com meios-tons” (Christian Delacampagne). Bom, talvez você tenha razão e Heidegger venha sendo “falsificado” em inúmeros textos de introdução e histórias da filosofia, mas é assim que ele tem sido vendido. Passo a bola para os especialistas! Grande abraço.

    Paulo de Tarso

    terça-feira, 08/06/2010 at 11:57

  4. Prezado Alexis,

    Heidegger também fez essa ressalva em outras obras. De imediato, lembro apenas de Sobre o Humanismo, de 1947, que tenho à mão agora:

    “O termo [decadência] não significa uma queda do homem, entendida sob uma perspectiva filosófico-moral e ao mesmo tempo secularizada, pois designa uma relação essencial do homem com o ser, no interior da referência deste à essência do homem.” [Como minha desenvoltura com o alemão não é muito confiável, segue o texto original: Das wort [Verfallen] meint nicht einen “moralphilosophisch” verstandenen und zugleich säkularisierten Sündfall des Menschen, sondern nennt ein wesenhaftes Verhältnis des Menschen zum Sein innerhalb des Bezugs des Seins zum Menschwesen.]
    (Martin Heidegger, Über den Humanismus. Frankfurt: Vittorio Klostermann, 2002, p. 24.)

    Outros comentadores também explicam esse conceito dintinguindo-o da conotação do senso comum:

    Apesar do sentido de deterioração, Heidegger iniste que Verfallen não é um termo de desaprovação moral, nada tendo em comum com a acepção cristã de queda da graça. (…) Heidegger dá três exemplos daquilo em que Dasein caiu e, implicitamente, de onde Dasein se afastou (ST, 175):
    1. Verfallen significa: “Dasein está antes de tudo e na maioria das vezes junto ao [bei] ‘mundo’ de sua ocupaçãp” (cf. ST, 250).
    2. “Esta absorção em… [Aufgehen bei…] geralmente possui o caráter de estar perdido na publicidade do impessoal”.
    3. “Decair no ‘mundo’ significa ser absorvido no ser-um-com-o-outro, à medida que isto é guiado pelo falatório, pela curiosidade e pela ambiguidade”.
    (Michael Inwood, Dicionário Heidegger. Tradução de Luísa Buarque de Holanda; revisão técnica de Márcia Sá Cavalcante Schuback. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002, p. 31.)

    A tradutora brasileira de Ser e Tempo, Márcia Sá Cavalcante Schuback, em suas”Notas Explicativas” à segunda edição, incluiu a seguinte:

    (N60) DECADÊNCIA = VERFALLEN
    O termo decadência corresponde à expressão alemã Verfallen, inclusive nas conotações morais e desabonadoras que Ser e tempo exclui. Trata-se de um termo que remete à estrutura ontológico-existencial que é a presença e não a uma qualidade ou modalidade. Em português, o étimoda cadência, do tatino cadere, exprime literalmente o que Heidegger expressamente insiste de que decadência significa movimentação de ser.
    (cf. Notas Explicativas in Martin Heidegger, Ser e Tempo. 2ª edição. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback; pósfacio de Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007, p. 576.)

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    terça-feira, 08/06/2010 at 12:56

  5. Tuffani, acho que você deveria ter destacado que seu primeiro artigo questionou a afirmação de Antonio Cicero de que Heidegger promove a “desqualificação da razão e da tradição filosófica e da razão”, e que ele, como disse a anônima, mandrakeou o assunto, pegando pela relativização. Você nem sequer usou esse termo! Ele pôs palavras em sua boca, e ainda por cima com a pergunta “Ora, o que é recusar uma coisa como absoluta senão relativizá-la?” Não seria esse o ponto essencial: você contestou a tese da desqualificação e ele mudou completamente o foco da discussão para a relativização?

    sergisapo

    terça-feira, 08/06/2010 at 20:49

  6. Prezado Paulo de Tarso,

    Só conseguirei consultar o Nietzsche A palavra de Nietzsche “Deus morreu”, de Heidegger, amanhã, ou melhor, mais tarde, pois já passa de meia-noite e terei poucas horas para dormir. peço, por favor, que aguarde.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    PS das 7h10– Além de corrigir esta resposta, encontrei o tal trecho, que é exatamente o final do texto. O sentido não é esse de Delacampagne. Depois, com mais tempo, explico.

    Mauricio Tuffani

    quarta-feira, 09/06/2010 at 0:08

  7. Prezado Sergisapo,

    De fato há uma diferença muito grande entre desqualificação e relativização, e eu acho também que Antonio Cicero desviou o foco que eu havia dado em cima da primeira. Mas apontar esse desvio não é um bom motivo para ocupar a página A3 da Folha, ou seja, dizer aos leitores: “Gente, ele disse que eu disse uma coisa que eu não disse”. Preferi ir ao cerne daquilo que o leva a pensar desse modo, que é a desconsideração de que Heidegger demonstrou uma genealogia da razão cartesiana a partir da escolástica, contrariando toda a tradição acadêmica do “No Princípio era o Cogito”, que, com o perdão da provocação, parece ser endossada por Antonio Cicero.

    Em outras palavras, Heidegger não nega que a razão cartesiana seja absoluta porque ele teria estabelecido um outro conceito de razão ou uma outra origem dela, mas simplesmente porque sua investigação concluiu que o pensamento de Descartes, diferentemente do modo como se apresenta e como é amplamente conhecido, é dependente da filosofia escolástica. Antonio Cicero tem todo o direito de não concordar com essa análise, mas não pode agir como se ela não existisse, como fez em seus artigos, ou desqualificá-la por decreto.

    Esse é o ponto. Antonio Cicero pode até vir a me convencer de que essa investigação de Ser e Tempo é completamente equivocada. Mas, para conseguir investigar isso, terá de deixar de lado toda essa adjetivação que empregou em seus dois artigos e que eu apontei.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    quarta-feira, 09/06/2010 at 0:14

  8. Tuffani, você poderia, por favor, transcrever o texto onde consta essa menção do Heidegger aos professores que veneravam Descartes?

    Anderson Torres

    quarta-feira, 09/06/2010 at 6:22

  9. Prezado Anderson,

    Na edição brasileira de A Questão Fundamental da Filosofia [essa é a tradução correta de Die Grundfrage der Philosophie, e não “As questões fundamentais da filosofia”, como disse Antonio Cicero em seu artigo, inclusive porque a questão a que se refere o título é uma só], o trecho comentado é o seguinte:

    Visto assim em sua dúvida universal e com a “acentuação”, ao mesmo tempo do eu, este Descartes é o objeto mais querido e usado nas chamadas provas e trabalhos para aprovação nas universidades alemãs. Este costume existente há decênios é apenas um sinal, mas inequívoco, da falta de pensamento e responsabilidade que se espalhou por lá. Não se teria chegado a tal desmoralização dos estudantes e do sistema de aprovação, se os próprios docentes não a tivessem patrocinado e permitido.
    (Ser e Verdade: 1. A questão fundamental da filosofia; 2. Da essência da verdade. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão; revisão da tradução de Renato Kirchner. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007, p. 53.)

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    quarta-feira, 09/06/2010 at 7:03

  10. Estimado Maurício,

    Fico impressionada com suas atitudes dignas e nobres ao lidar com pessoas que, para se contraporem a você, mandaram às favas os escrúpulos com o bom debate. Aliás, atitudes dignas e nobres até mesmo quando são para fustigar insolências.

    Veja, por exemplo, o tal anônimo que perguntou ao colunista o que ele acha de você ter se referido ao “desvio” de assunto, mas esquivou-se de igualmente copiar-e-colar o trecho em que você esclarece o xis de toda a questão.

    Acho que o colunista só tem uma saída digna: reconhecer que precisa conhecer melhor esse tema.

    Abraços.

    ana carolina fernandes

    quarta-feira, 09/06/2010 at 8:45

  11. COMENTÁRIO APAGADO

    Poucos minutos após publicar o comentário do internauta Sergisapo neste espaço, dei-me conta de que o texto continha provocações excessivas a terceiros. Peço desculpas por minha distração ao liberar um conteúdo desse tipo.

    Maurício Tuffani

    sergisapo

    quinta-feira, 10/06/2010 at 0:31

  12. Caro Maurício,

    Antes do meu questionamento, quero parabenizá-los ( vc e Cicero) pelo alto nível do debate.

    A minha questão é a seguinte:

    No primeiro artigo, vc sustenta que:

    “Em relação especificamente a Descartes, a obra principal de Heidegger, “Ser e Tempo” (parágrafo 24), ressalta não ser contestação à validade da concepção de certeza do pensador francês. Trata-se, isso sim, de mostrar a noção cartesiana não como essência da certeza, mas como derivação dessa essência.
    Em outras palavras, Heidegger problematiza as próprias noções de verdade e de razão. Ou seja, ele as recusa como absolutas.”

    No segundo artigo, porém, citando a mesma obra (“Ser e Tempo”), vc diz:

    “Heidegger questionou as noções básicas do pensamento de Descartes, tradicionalmente concebidas como absolutas, e concluiu que elas são filhas da escolástica medieval. Essa investigação da “certidão de nascimento” do cartesianismo não é imune a críticas. Mas Antonio Cicero simplesmente chamou-a de “relativização”, sem notar que, há 73 anos, Ser e Tempo já previra e contestara essa rotulação (§ 6).”

    Ora, no primeiro artigo “Heidegger problematiza as próprias noções de verdade e de razão”, recusando-as como absolutas. Se não são absolutas, então são relativas. Ocorre que, de acordo com o segundo artigo, Heidegger, há 73 anos, “já previra e contestara essa rotulação”. Sendo assim, como compatibilizar as duas afirmações? Não há aí uma contradição? Ou será que minha leitura não foi adequada?

    Grato pela atenção,

    Aetano

    Aetano

    quinta-feira, 10/06/2010 at 0:53

  13. Caros leitores,

    Abri agora há pouco o gerenciador do blog apenas para liberar mensagens. Fico devendo as respostas solicitadas. Tentarei responder amanhã (ou melhor, hoje) na hora do almoço, pois terei de sair de casa muito cedo novamente.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    quinta-feira, 10/06/2010 at 0:54

  14. Caro Tuffani,

    Sou um dos seus “inimigos” na questão da obrigatoriedade do diploma. Parabéns pela forma como você está se conduzindo no debate. Segue o comentário que postei ontem à noite no blog do Antonio Cícero.

    PS: Vê se volta a blogar mais frequentemente.

    [TRANSCRIÇÃO SUPRIMIDA PELO BLOGUEIRO: Na medida em que o comentário acima mencionado foi originalmente em outro blog, e com o objetivo de se contrapor a uma consideração ofensiva feita naquele mesmo espaço pelo respectivo blogueiro, não é necessário reproduzir aqui as palavras de elogio à minha pessoa, pelas quais agradeço. Saudações, Maurício Tuffani]

    Paulo Sandoval Lima

    quinta-feira, 10/06/2010 at 10:15

  15. Prezado Aetano,

    seja bem-vindo. Responderei à sua pergunta antes do que de àquela que foi feita por Paulo de Tarso por eu estar com esses temas mais frescos na memória.

    Em primeiro lugar, separo nos dois trechos apontados por você aqueles que, segundo sua pergunta, seriam contraditórios. O primeiro é “Heidegger problematiza as próprias noções de verdade e de razão. Ou seja, ele as recusa como absolutas.” O segundo é “Mas Antonio Cicero simplesmente chamou-a [a reflexão, ou seja, a problematização e sua conclusão] de ‘relativização’, sem notar que, há 73 anos, Ser e Tempo já previra e contestara essa rotulação (§ 6).”

    Examinemos o primeiro. Heidegger faz em Ser e Tempo longas considerações sobre as reflexões de Descartes e conclui que as concepções cartesianas são dependentes da escolástica medieval. Desse modo, não se trata de ele ter uma concepção, por exemplo, de razão, que seja “alternativa” à cartesiana – que, portanto, seria tão válida quanto ela, caindo em um mero relativismo -, ou que seria dependente de externalidades – como o “modo de produção capitalista” e outras coisas do tipo, o que também seria relativismo. O que ele fez foi se permitir a perplexidade, a admiração, o espanto filosófico em face das próprias reflexões cartesianas, em vez de se limitar a reproduzir dogmaticamente o percurso delas como uma receita. Chamar isso de relativizar significa colocar dentro desse saco o próprio filosofar, da forma definida nos termos iniciais da Metafísica de Aristóteles.

    Essa reflexão heideggeriana pode certamente ser questionada e até mesmo refutada. Eu não li O Mundo desde o Fim, de Antonio Cicero. Se nesse livro ele fez a crítica dessa problematização, estou desde já interessado e faço meus protestos por ele não ter pelo menos dito, em seus dois artigos, que cumpriu esse percurso filosófico, ainda por cima com todo o espaço que ele tem – mais de 45% maior que o meu (4.360 caracteres contra 3.000). Mas o que ele apresentou hoje em seu próprio blog em resposta à sua pergunta é apenas uma recusa, e não uma análise que possa ter a pretensão de refutação. Em outras palavras, ele não pode estabelecer a coisa por decreto, nem fazer a pregação “No Princípio era o Cogito”.

    No segundo trecho destacado por você eu disse que Heidegger se antecipou a esse tipo de reclamação. Mais exatamente, ele disse que isso seria uma “má relativização”, como lembrou Antonio Cicero, e eu também me lembro bem do modo como isso consta no §6, p. 23 22, de Sein und Zeit (hat nichts zu tun mit einer schlechten Relativierung ontologischer Standpunkte), apesar de eu não estar com o original aqui, à mão.

    Em outras palavras, não se pode confundir a negação do absoluto que é condição de possibilidade para a própria reflexão filosófica com a mera negação do absoluto no sentido daquilo que em filosofia se convencionou chamar nos dias de hoje de relativismo e que tem sido o mote de Antonio Cicero em vários de seus artigos. E nunca reclamei antes de ele fazê-lo até por concordar com as objeções que ele habitualmente faz à tara relativista pós-moderna. Mas não dá para aplicar o tertium non datur sem discernir essas duas formas de negação do absoluto, dizendo que é isso ou aquilo.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    PS – Menos importante que isso, mas curioso: não faz sentido o texto que Antonio Cicero em seu blog aponta como transcrição de seu próprio livro: “Negando que tenha a pretensão de efetuar uma ‘má relativização’ (schlechte Relativierung) de pontos de vista ontológicos, Heidegger explica (…)”. Isso é estranho. Ou ele transcreveu errado ou escreveu um disparate em seu livro. Heidegger negou que tenha feito uma “má relativização”, e não que pretendia fazê-la.

    Mauricio Tuffani

    quinta-feira, 10/06/2010 at 13:24

  16. Prezado Paulo de Tarso,

    Em primeiro lugar, farei uma transcrição mais ampla do trecho em que se encontra essa frase de Heidegger citada por Delacampagne e mencionada por você.

    Talvez reconheçamos então que nem as perspectivas políticas, nem as económicas, nem as sociológicas, nem as técnicas e científicas, que nem sequer as perspectivas metafísicas e religiosas bastam para pensar aquilo que acontece nesta era mundial. Aquilo que ela dá a pensar ao pensar não é um qualquer sentido metafísico escondido nas profundezas, mas algo que está próximo: o que está mais próximo, aquilo que, porque é só isso, por isso constantemente omitimos. (…)
    (…) O pensar só começará quando tivermos experimentado que a razão, venerada desde há séculos, é a mais obstinada opositora do pensar.
    (Martin Heidegger, “A palavra de Nietzsche “Deus Morreu'”. Tradução de Alexandre Franco de Sá. in Caminhos de Floresta. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. 304-305.)

    Para Heidegger, o pensamento guiado pela razão é incapaz de proceder à meditação. Ele nos permite avançar formidavelmente no conhecimento quantificável da natureza e das relações que os homens estabelecem entre si. Não faz sentido, diz ele, nos voltarmos contra os avanços proporcionados pela ciência e pela técnica guiadas pela razão. No entanto, o pensamento que calcula limita nossa compreensão do sentido, da destinação de nossas ações. Essa limitação se daria na ciência por meio da subordinação prioritária às necessidades da técnica e na filosofia por meio da redução crescente de nossa disponibilidade para o espanto não só diante de nossa rotina, diante do ordinário, mas também em face da própria ciência. Além disso, essa mesma razão estabelece que o conhecimento elaborado com base nela é o único conhecimento. Desse modo, seja por nos tornar próximos demais dos entes em geral, inclusive os objetos técnicos, impedindo nossa meditação sobre eles e sobre nossa relação com eles, seja por excluir do âmbito do conhecimento tudo o que não pode ser elaborado com base nela, a razão é opositora do pensamento em sua plenitude.

    Preciso melhorar essa formulação acima, mas acho que ela, com a transcrição de trechos anteriores ao citado, ajuda a fazer perceber que a interpretação de Delacampagne (cuja obra infelizmente desconheço), da forma como a compreendi isoladamente, parece ser um sintoma dessa limitação apontada pela própria citação interpretada.

    Minha interpretação dessa concepção heideggeriana é que ela deve levar o homem a um posicionamento em face da situação histórica em que ele se encontra, e de um modo que não comporta o vale-tudo relativista. Heidegger, por exemplo, fez uma interpretação do surgimento do nazismo conveniente para suas intenções de intervenção histórica, e depois quebrou a cara por sua ter se permitido, devido a essa empreitada megalomaníaca, o ofuscamento da verdadeira destinação desse movimento histórico, para ironia de quem falava justamente do excesso de proximidade que limita “o pensar”. Depois de deixar o cargo de reitor de Freiburg menos de um anos após tê-lo assumido em 1933 e de se distanciar do partido, ele mudou o tom de suas considerações sobre o “destino da Alemanha” e, após a guerra, fez silêncio sobre as implicações de seu pensamento no plano político. E os pós-modernos deitaram e rolaram ao largo dessa omissão.

    A respeito dessa atitude, gosto de vincular as seguintes considerações do professor de filosofia Ernildo Stein, que foi aluno de Heidegger.

    Há uma certa sobranceria que lhe vem da consciência de ser “o pastor do ser” que o torna vulnerável quando se trata de fazer juízos históricos que têm a ver com o aqui e agora. Move-se no plano do ser e, a quem se move apenas neste plano, a astúcia da razão mostra muito cedo que lhe faltará o senso da proporção para as coisas humanas, senso que só poderá advir de um conhecimento científico das diversas regiões dos entes. A tentação de apresentar-se como profeta, enquanto se é filósofo, além de absurda é ridícula. E Heidegger nem sempre consegue fugir a essa tentação.
    (“Nota introdutória” a Martin Heidegger, Conferências e escritos filosóficos. Tradução, introdução e notas de Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 4).

    Espero ter ajudado de alguma forma, e peço sua compreensão por eu ter demorado para comentar sua intervenção.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    sexta-feira, 11/06/2010 at 8:22

  17. Caro Maurício Tuffani, a “pobre anônima” aqui, como disse o nobre pensador e poeta António Cícero, conseguiu chegar mais cedo ontem na faculdade para pegar na biblioteca o livro “O silêncio dos intelectuais” para ler o artigo “A sedução relativa” desse “grande pensador” basileiro, e verificou que apesar de ele ter citado a parte do sexto parágrafo de “Ser e Tempo” que fala de “relativização”, não disse o que Heiddeger disse que não era “relativizaão”, ou seja, ELE REALMENTE VARREU DEBAIXO DO TAPETE A ESTÓRIA DO HEIDEGGER DE QUE DESCARTES DEPENDE DOS MEDIEVAIS nesse mesmo parágrafo sexto. E no artigo dele “A sedução relativa” ele disse na p. 198 que esse parágrafo sexto é “crucial”. Ou seja, ANTÓNIO CÍCERO MANDRAKEOU SIM, SENHOR, ele que fala em má fé de quem contrária ele, em fraqueza ética, etc.. Ele que publicou uma mensagem de um amigo dele que acusa os outros de fazerem PRESTIDIGITAÇÃO. E se esse parágrafo 6 é assim “crucial” como ele disse que acha, como ele pode na resposta a você na Folha de São Paulo não ter percebido o que você por engano disse que estava no parágrafo 24 umas frases desse mesmo parágrafo 6? E tem mais: ele escreveu sim do jeito esquisito que você chamou de “disparate” na resposta ao Caetano. Não foi engano como você tentou dar chance para ele. Saudações.

    Anônima

    sexta-feira, 11/06/2010 at 10:10

  18. Prezado Maurício Tuffani.
    Obrigado por sua resposta ao meu comentário. Quem me dera que as minhas leituras sobre Heidegger fossem como o seu texto: claro e bem articulado. Filosofia em altíssima voltagem. Gostei bastante do texto de Ernildo Stein. Chistian Delacampagne era um filósofo francês já falecido que escreveu a “História da Filosofia no Século XX”, um livro de divulgação, editado pela Zahar Editores. Delacampagne era ferozmente anti-heideggeriano, o que explica a interpretação da frase que o senhor contextualizou. Gostaria muito de ler um texto seu sobre a relação de Heidegger com o Romantismo Alemão. Mas entendo que o seu tempo é escasso e deve ser administrado com parcimônia. Novamente agradeço seus esclarecimentos.
    Abraço,
    PT.

    Paulo de Tarso

    sábado, 12/06/2010 at 21:16

  19. Tuffani, obrigado por me atender e apresentar as citações. O Cicero respondeu a esse artigo (http://antoniocicero.blogspot.com/2010/06/resposta-mauricio-tuffani.html/) e continua insistindo na interpretação pejorativa de decadência. O que você diz? Abraços, Alexis Tavares

    Alexis

    segunda-feira, 14/06/2010 at 14:14

  20. Tuffani, o Antonio Cicero postou no blog dele a resposta ao seu artigo. Você não vai responder?
    Está em http://antoniocicero.blogspot.com/2010/06/resposta-mauricio-tuffani.html
    Abraço,

    sergisapo

    segunda-feira, 14/06/2010 at 15:09

  21. Essa polêmica está parecendo aquele conto do Borges: “Os Teólogos”. Parta para outra. Existe “toneladas” de coisas mais interessantes para se fazer do que “polemizar” com o o Antônio Cícero.
    Grande abraço!

    José Duarte Motta

    segunda-feira, 14/06/2010 at 19:50

  22. Caros Alexis e Sergisapo,

    Já preparei uma resposta no domingo, mas prefiro rever alguns trechos para moderar o tom, o que não parece ser preocupação de meu interlocutor. O problema é que ele pisa em cascas de banana que ele mesmo joga à sua frente. E eu não quero fazer com que o confronto fique com o jeito de um pugilato filosófico.

    Se eu tiver tempo, talvez eu publique minha resposta amanhã.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    terça-feira, 15/06/2010 at 9:58

  23. Estimado Maurício,

    Desculpe a brincadeira, mas essa sobranceria que o Ernildo Stein atribuiu ao Heidegger, parece que te contaminou (Rsss). Você disse que já tem uma resposta pronta, mas prefere moderar o tom dela, enquanto a torcida do letrista-poeta-filósofo acha ele o máximo.

    Abraços.

    ana carolina fernandes

    terça-feira, 15/06/2010 at 23:55

  24. Prezada Ana Carolina,

    Não tive tempo para revisar o texto, que está muito grande. Tem muitas referências, e eu preciso verificar se estão todas em ordem. E não quero deixar passar provocações, como as dele, que só servem para estimular a participação fútil.

    Amanhã, no máximo, ele estará publicado.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    quarta-feira, 16/06/2010 at 8:35

  25. Tuffani, um leitor do Antonio Cicero postou a seguinte dúvida sobre a edição brasileira de “Ser e tempo”, baseada na citação abaixo:
    “Essa comprovação da proveniência dos conceitos ontológicos fundamentais mediante uma exposição investigadora de suas respectivas “certidões de nascimento” nada tem a ver com uma relativização das perspectivas ontológicas.” (HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tradução de Márcia de Sá Cavalcante. 11 ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 51 p.)
    Você mesmo e o Antonio Cicero já haviam dito que o original alemão faz constar o adjetivo schlechter (má):
    “Dieser Nachweis der Herkunft der ontologischen Grundbegriffe, als untersuchende Ausstellung ihres »Geburtsbriefes« für sie, hat nichts zu tun mit einer schlechten Relativierung ontologischer Standpunkte.”
    E ele pergunta:
    “Ficou-me a dúvida – será que a edição original da tradução brasileira realmente omite o adjetivo “schlecht”? Ou será lapso da edição brasileira? Alguém poderia dirimir essa dúvida? Grato por auxílio.”
    Parece que é isso mesmo, não?
    Abraço.

    sergisapo

    quarta-feira, 16/06/2010 at 11:56

  26. A Ana Carolina diz que a torcida do Cícero acha que ele é o máximo. Eu acho vocês dois o máximo: duas pessoas sérias e cultas, que talvez pudessem ter sido até bons amigos, discutindo por causa de bobagens fúteis. Essa discussão daria, no máximo, para entreter uma tertúlia de fim de tarde com chá e bolinhos. No triste mundo real, a crise financeira de 2008 dá um outro rugido que pode engolir toda a Europa, destruindo o Euro e com ele a União Européia. (“Prefiro uma década de Europa a uma era de Catai”). Neste caso, ninguém ficará imune. Até onde sei – e sei muito pouco – o único filósofo que tratou deste tipo de problema (crises cíclicas do capitalismo) foi o infame e pestilento Karl Marx. Heidegger, quando muito, considerava tudo isso hepifenômeno, uma marolinha diante da profundidade abissal do Ser. Se Kaváfis escrevesse seu célebre poema hoje, teria que escolher outro final, já que os bárbaros estão bem a vista no horizonte: “Bárbaros as portas da Babilônia, escuridão por toda parte”.

    Patrícia Fernandes

    quarta-feira, 16/06/2010 at 12:34

  27. Prezado Sergisapo,

    De fato, é um lapso. Pode não ser uma relativização no sentido estrito do relativismo como visão de mundo, mas é, certamente, pelo fato de não tomar a coisa como um absoluto. E essa é a segunda edição da tradução da Vozes.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    quarta-feira, 16/06/2010 at 13:21

  28. Prezada Patrícia,

    Apesar de ter levado de você “uma no cravo e outra na ferradura”, agradeço por sua atenção e seu elogio.

    Heidegger realmente se colocou em uma posição que justifica plenamente o que você disse dele, assim como a crítica feita a ele por seu ex-aluno Ernildo Stein, transcrita em minha última resposta a Paulo de Tarso, em que eu comento esse alheamento dele ao aqui e agora. Aliás, prefiro me referir ao “aqui e agora” do que a esse tal de “mundo real”, que, apesar da unicidade do seu plano físico e da força dessa expressão, não só aceita como luvas todos os múltiplos significados com que lhe revestem, como também não é compreendido como uma possibilidade que foi sobreposta a outras. E quando digo “foi sobreposta” é porque existem agentes dessa ação, conscientes ou não. E é justamente por causa do “aqui e agora” que responderei a Antonio Cicero, mas sem me limitar ao plano da mera refutação, como ele fez, e deixar de lado o essencial nessa discussão.

    De minha parte, eu trabalho há 32 anos no ritmo de dar respostas rápidas aos acontecimentos diários. E procuro sempre fazer o possível para não me permitir as reações fúteis da multidão que justifica suas escolhas sob a alegação do “óbvio” e, como diz o compositor amigo de Antonio Cicero, “aprende depressa a chamar [a esse ‘óbvio’] de realidade”. No final das contas, seja no nível dos tomadores de decisão, seja no plano dos que delas não podem participar, a exterioridade do “mundo real” é o álibi para os homens reagirem como autômatos, confundindo-se com os objetos “reais”.

    A humanidade não está diante das figuras ilusórias projetadas na escuridão caverna de Platão. Ela está com a visão ofuscada pelo excesso de luminosidade. Mesmo que não tenha nunca mais à frente nenhum tsunami, a humanidade poderá vir a sofrer muito até mesmo com uma marolinha.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    quarta-feira, 16/06/2010 at 14:06

  29. […] Minha tréplica “Uma ameaça maior que o dogma” foi publicada na seção “Tendências/Debates” no dia 8 de […]

  30. Depois do verdadeiro juggernaut crítico e hermenêutico com que o Sr. atropelou o pobre Antonio Cícero, sinto-me temerosa em lhe contraditar! Mas apelo para o seu cavalheirismo… Não sei se consegui entender bem o que o Sr. disse sobre o “excesso de luminosidade”… Aqui intervêm a famosa questão de gênero. Para as mulheres a luz nunca é excessiva. E a maioria de nós é bastante refratária a pseudo-utopias passadistas onde o Ser era menos tímido e havia uma comunhão com a natureza. A ciência e sua filha dileta, a tecnologia, nos deu a maquina de lavar, a pílula anticoncepcional, a anestesia peridural, bem, o Sr. já entendeu onde quero chegar. Gosto muito daquela história sobre a iluminação da cabana (Hutter) de Heidegger. A universidade pagaria o trabalho como agradecimento ao pensador. Inicialmente, Heidegger recusou o benefício, depois aceitou, desde que a fiação corresse pelo subsolo! Vejo neste compromisso o dedo de Elfrid, já que era ela quem fazia a cabana funcionar para que o pensador pastoreasse o Ser. Acho que a maioria dos neo-romanticos de cepa heideggeriana agem do mesmo modo. A ciência e a tecnologia são duas garotas de programa que devem aparecer em certas horas e desaparecer em outras. É melhor que eu pare, já que fui eu quem pregou a concórdia e o Sr não está para brincadeiras.
    Um abraço carinhoso.

    Patrícia Fernandes

    sexta-feira, 18/06/2010 at 8:42

  31. Cara Patrícia,

    Sua mensagem me fez ganhar o dia. Poderia/deveria ter prosseguido. A fiação por baixo do chão e as duas garotas de programa são impagáveis. Não só não me incomoda, como também me estimula a discórdia como a sua de hoje, que, diferentemente da anterior, respeitou nossa diferença. Hoje você mergulhou no essencial, e, nesse plano, como disse o marido de Elfrid, toda refutação é insensata. Ao se produzir tal humor interpretativo não há o que temer. Diante dele, cavalheirismos chegam até a ser toscos, pois a única alternativa sábia de resposta é dele se beneficiar ao compreender sorrindo.

    Abraço,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    sexta-feira, 18/06/2010 at 9:26


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