Laudas Críticas

O ano da astronomia e os quatro séculos da ciência moderna

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Nos próximos dias 15 e 16 (quinta e sexta-feira) acontece em Paris, na sede da Unesco, a cerimônia de abertura do Ano Internacional da Astronomia, com uma programação de eventos em 129 países em 2009. Mas não foi apenas a astronomia que “nasceu” há exatos quatro séculos, com a observação do céu por Galileu Galilei (1564-1642) ao telescópio. Foi também o nascimento da ciência moderna.

A comemoração se deve às primeiras observações astronômicas de Galileu em 1609 com um instrumento aperfeiçoado por ele. Com essa modificação de um dispositivo óptico que aproximava a observação de objetos, construído no ano anterior por holandeses, nasceu o telescópio, que teve esse nome a partir de 1611. Seu uso permitiu refutar a concepção geocêntrica do mundo e a da imutabilidade e perfeição dos corpos celestes, que eram formados por éter, segundo Aristóteles (384-322 a.C.), em Sobre o Mundo e Sobre o Céu, e Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), no Almagesto e no Tetrabiblos.

Em 4 de março de 1610, Galileu concluiu seu opúsculo Siderius Nuncius (Mensageiro Sideral). Nesse livro ele afirmou pela primeira vez que a Terra e os demais planetas realizam “grandes revoluções em torno do centro do mundo, isto é, em torno do próprio Sol”. (Galileo Galilei, Gaceta Sideral; Johannes Kepler, Conversación con el Mensajero Sideral. Tradução, introdução e notas de Carlos Solís Santos. Madrid: Alianza Editorial, 1984, p. 45.). A partir dessas observações,

… o que [Galileu] viu transformou para sempre nossa concepção do cosmo. A Lua estava longe de ser perfeita, coberta que era por crateras e montanhas. Portanto, não podia ser feita de éter. Júpitar tinha quatro “estrelas” (suas quatro maiores luas) girando à sua volta. (…) A cada nova descoberta astronômica as idéias de Aristóteles faziam menos sentido.
(Pablo Rubén Mariconda & Júlio Vasconcelos, Galileu e a Nova Física. São Paulo: Odysseus Editora, 2006 [Coleção Imortais da Ciência], pp. 9-10.)

Revolução copernicana

No plano da astronomia, além de refutar o modelo aristotélico-ptolemaico do universo, Galileu também corroborou o sistema proposto em 1609 na obra Astronomia Nova, de Johannes Kepler (1571-1630). Este propunha que as órbitas dos planetas eram elípticas, e não circulares, e que elas tinham como centro o Sol, e não a Terra, como havia postulado o polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) em As Revoluções das Orbes Celestes, de 1543.

A iniciativa de Galileu ultrapassou o âmbito da astronomia. Ao compreender que a principal dificuldade do modelo de Kepler era a falta de evidências empíricas, ele começou a articular uma nova etapa na história do conhecimento, com a rejeição da autoridade da religião nas ciências naturais e a afirmação da autonomia do uso da observação, da experimentação e da superioridade do raciocínio demonstrativo matemático na busca da verdade sobre os fenômenos da natureza. Em suas obras, essa nova concepção da ciência tem como uma de suas expressões máximas a seguinte fala de seu fictício personagem Salviatti:

… afirmo que temos no nosso século acontecimentos e observações novas e de tal alcance que não tenho dúvidas de que se Aristóteles vivesse em nossa época, mudaria de opinião.
(Galileu Galilei, Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo — ptolemaico & copernicano. Tradução, introdução e notas de Pablo Rubén Mariconda. São Paulo: Discurso Editorial/Fapesp, 2006, p. 131.)

O trabalho de Galileu foi o ponto culminante de um longo processo não só para superar a antiga cosmologia ptolemaica, mas também a concepção teológica judaico-cristã que com ela se mesclava, segundo a qual o conhecimento era imutável — o que era conflitante com o pensamento aristotélico original — e tudo o que existe e acontece já havia sido previsto por Deus no Gênesis. Nada seria novo, pois tudo o que se acrescentasse ao conhecimento somente confirmaria — e jamais modificaria — as eternas verdades bíblicas. Em outras palavras, haja o que houver, “não há nada de novo debaixo do sol” (Eclesiastes, 1,9).

Esse é o sentido, em O Nome da Rosa, do sermão de advertência do sacerdote quase cego, Jorge de Burgos, ao final da condenação à morte na fogueira dos suspeitos pelos assassinatos em uma abadia no norte da Itália no final do século XIV:

Não há progresso, não há revolução de períodos na história do saber, mas, no máximo, sublime e contínua recapitulação. (…) Eu sou Aquele que é, disse o Deus dos hebreus. Eu sou o caminho, a verdade e a vida, disse Nosso Senhor. Bem, o saber não é outra coisa senão o atônito comentário dessas duas verdades. Tudo quanto foi dito a mais, foi proferido pelos profetas, pelos padres e pelos doutores para tornar mais claras essas duas sentenças.
(Umberto Eco, O Nome da Rosa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, p. 452)

Pensamento moderno

Levada a cabo por Kepler e Galileu, a revolução copernicana teve implicações na história do pensamento que foram muito além da própria ciência. Em 1917, Sygmund Freud (1856-1939) afirmou que a primeira grande ofensa à auto-imagem da civilização humana foi justamente a substituição da cosmologia geocêntrica pelo heliocentrismo, tirando definitivamente dos homens a idéia de que eles ocupavam um lugar privilegiado no universo.

A segunda grande ferida no narcisismo da humanidade, segundo o fundador da psicanálise, foi desferido por Charles Darwin (1809-1892), que colocou nossa espécie diante da constatação de que ela não é tão diferente dos outros animais, como até então se imaginava. (Sygmund Freud, “Una dificultad del psicoanálisis”. Obras Completas. Tradução de Luís López Ballesteros y de Torres. Madrid: Biblioteca Nueva, 1972, p. 2434.) Por falar nisso, em 2009 se comemoram também não só o bicentenário do nascimento de Darwin, mas também os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies.

Decididamente, 2009 merece ser comemorado como o ano da ciência moderna e até mesmo do pensamento moderno. Ainda há tempo.

Written by Mauricio Tuffani

sábado, 10/01/2009 às 14:37

12 Respostas

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  1. Convém destacar que trazer Galileu Galilei como sendo “o nascimento da ciência moderna” é que Galileu (não praticante da ciência normal) e, na verdade a vitória de um indivíduo racional que se opôs à Nomenklatura científica de sua época (praticantes da ciência normal) que era aristotélica.

    Vide: Reconstruindo Galileu
    http://pos-darwinista.blogspot.com/2008/08/reconstruindo-galileu-galilei.html

    Enézio E. de Almeida Filho

    sábado, 10/01/2009 at 16:59

  2. Ou seja Sr. Enézio, como coloca o Tuffani, Galileu foi um dos primeiros a fazer ciência moderna.

    roelf

    sábado, 10/01/2009 at 20:59

  3. […] Leia mais deste post no blog de origem: Clique aqui e prestigie o autor […]

  4. Olá Maurício,

    Muito obrigado por esse ótimo texto.

    Algo que aprecio bastante na sua escrita é a maneira como você articula textos de conteúdo científico com outros oriundos da literatura. Aqui, você faz Galileu dialogar com Umberto Eco. É sensacional.

    Parabéns!

    E longa vida a Galileu, Freud, Darwin… E a você também, Maurício!

    Abraço,

    Leonardo

    Leonardo Cruz

    domingo, 11/01/2009 at 7:03

  5. Leonardo, Freud?? Junto com Galileu e Darwin? A turma da neurociência cognitiva vai chiar (rsrs)!

    roelf

    domingo, 11/01/2009 at 12:39

  6. As Nomenklaturas científicas sofrem de uma maladie terrible: são cegas dos seus erros, e são antropofágicas e destruidoras de carreiras.

    Que Galileu Galilei é um dos primeiros a fazer scientia qua scientia não se discute, o que se discute é uso icônico de sua luta (razão) versus religião (irracionalidade).

    Assim como a Nomenklatura científica da época de Galileu estava errada, mais errado está quem usa o exemplo dele como sendo um da luta da razão versus irracionalidade.

    Enézio E. de Almeida Filho

    segunda-feira, 12/01/2009 at 8:37

  7. Mauricio

    Seu texto tem, certamente, o mérito e a correção de apresentar que o geocentrismo não é, propriamente, uma concepção advinda da teologia judaico-cristã, mas, antes, era a concepção científica de uma época e que foi “adotada” por ser compatível com essa teologia (como o é com a astronomia atual e a evolução).

    Desse modo, fica claro que Umberto Eco apenas faz uso das legítimas “liberdades literárias” ao considerar essa concepção e a correspondente reação do “stablishment” intelectual (seja religioso ou científico) da época como parte da própria religião (ou do conhecimento científico).

    O que se vê é que a visão de mundo que tinha “vigência” (no sentido que a esse termo dá Julián Marías) à época era fruto do conhecimento científico até então obtido (e que encontrava corroboração na interpretação bíblica) e não do judaísmo ou do cristianismo. Assim, quando a evolução desse conhecimento científico abalou as concepções vigentes coube às religiões (e antes aos fautores da ciência) interpretar se suas crenças eram ou não compatíveis com as novas descobertas. Portanto, procurar nesse processo uma situação de incompatibilidade ou “guerra” foge do razoável.

    Lampedusa

    segunda-feira, 12/01/2009 at 11:49

  8. […] no ótimo texto de Maurício Tuffani no Laudas Críticas: O ano da astronomia e os quatro séculos da ciência moderna. Tags: ano internacional da astronomia, […]

    O Universo para você descobrir | 100nexos

    segunda-feira, 12/01/2009 at 13:25

  9. […] (384-322 a.C.), em Sobre o Céu, e Cláudio Ptolomeu (87-151 d.C.), … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]

  10. Prezados visitantes,

    Devido a dificuldades de ordem pessoal que se somaram a circunstâncias específicas de meu trabalho (encerramento de uma gestão da Reitoria da Unesp, onde sou assessor-chefe de comunicação da atual equipe e também da próxima), tenho estado nos últimos dias sem tempo para participar dos debates.

    Devo voltar às nossas discussões em breve.

    Agradeço a participação de todos.

    Saudações,

    Maurício Tuffani

    Mauricio Tuffani

    terça-feira, 13/01/2009 at 22:46

  11. […] as atividades no Brasil do Ano Internacional da Astronomia, uma celebração dos 400 anos do nascimento da astronomia e da ciência modernas, organizada pela União Astronômica Internacional, com apoio da Unesco. Uma série de programas em […]

  12. […] segundo Aristóteles (384-322 a.C.), em Sobre o Mundo e Sobre o Céu, … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]


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