Laudas Críticas

Philip Roth e o rico diálogo entre escritores

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No livro Entre Nós: Um escritor e seus colegas falam de trabalho, do premiado romancista norte-americano Philip Roth, o diálogo com outros autores tem como tema aquilo que na amizade entre escritores quase nunca é abordado, segundo ele: suas próprias obras (p. 30). Mas essas conversas não são acadêmicas, não giram em torno da literatura nem tratam de métodos para escrever. A riqueza desse trabalho, lançado recentemente no Brasil (tradução de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 176 págs., R$ 36), está na sensibilidade de Roth para tratar de forma essencial o que é crucial nas vidas, nas escolhas e nas convicções de seus companheiros de diálogo.

Nessas conversas, seus interlocutores são romancistas como o italiano Primo Levi (1919-1987), o romeno Aharon Appelfeld, os tchecos Ivan Klíma e Milan Kundera, o polonês Isaac Bashevis Singer (1904-1991) e a irlandesa Edna O’Brien. Roth apresenta também uma correspondência com e a romancista Mary McCarthy (1912-1989), um perfil crítico do novelista Bernard Malamud (1914-1986), um artigo sobre os desenhos de Philip Guston (1913-1980) e uma releitura do escritor Saul Below (1915-2005), todos norte-americanos.

Considerado um dos principais escritores norte-americanos das últimas décadas, Roth é autor de cerca de trinta obras — entre elas O Complexo de Portnoy (1969), O Avesso da Vida (1986), A Pastoral Americana (1997) e Complô contra a América (2004) —, foi professor de literatura comparada na Universidade da Pensilvânia até 1992 e é também crítico literário. Nascido em 1933 em Newark, Nova Jersey, neto de imigrantes judeus, a tradição de pertencer a duas culturas, própria da condição judaica, mas não só dela, é um de seus principais temas, inclusive em Entre Nós, onde, dos dez capítulos, sete são dedicados a autores dessa mesma origem.

Semelhanças e diferenças

Embora seja um escritor que prima pela densidade e pela complexidade, suas conversas com outros autores nesse livro não são diálogos intrincados. Nas apresentações que faz de seus interlocutores, assim como nas perguntas que lhes dirige, é surpreendente a capacidade de Roth de facilitar ao leitor o acesso ao âmago dos pontos em questão. No entanto, longe de incorrer em um dos pecados mais graves da simplificação, que é facilitar a ponto de obstruir reflexões de fundo, essas introduções são aberturas cuidadosas no espaço e no tempo.

Entre os interlocutores de Roth, quatro são inevitavelmente comparados em duas duplas: Levi/Appelfeld e Klíma/Kundera. A primeira, entre dois judeus que, ainda jovens, saíram de campos de concentração e cumpriram um longo percurso por um mundo caótico e destroçado para chegarem onde vivem hoje; o primeiro deles retornou à sua mesma casa, em Turim, e o outro se tornou cidadão israelense. A segunda dupla, entre dois tchecos que passaram pelo stalinismo em sua terra natal e pela Primavera de Praga, em 1968, com o primeiro tendo permanecido no país até hoje, ao passo que o outro se exilou em Paris.

Essa comparação é mais intensa no capítulo sobre Klíma. Ao apresentar esse autor, que teve obras foram publicadas, durante a ocupação soviética na Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, na forma de samizdáts — livros cuja impressão era feita um a um, datilografados —, Roth já traça um paralelo com Kundera, que nesse mesmo período fez sucesso como escritor em Paris:

Lendo Amor e Lixo, por vezes eu tinha a sensação de estar lendo A Insustentável Leveza do Ser virado do avesso. O contraste entre os dois títulos indica como podem ser discordantes, até mesmo opostos, os pontos de vista de imaginações que abordam de modo semelhante temas semelhantes — no caso, o que o protagonista de Klíma considera “o mais importante de todos os temas… o sofrimento que resulta de uma vida privada de liberdade”. (p. 53)

Exuberância e universalidade

Para aqueles que, como eu, selecionam e marcam trechos à medida que lêem um livro, Entre Nós se mostra, muitas vezes, um desafio com tantas longas passagens imperdíveis. Sem falar no próprio entrevistador, com sua sensibilidade para penetrar no espírito das obras do entrevistado. Como, por exemplo, em relação a Levi:

O que é surpreendente em A Trégua, uma obra que poderia perfeitamente ser caracterizada por um clima de luto e desespero inconsolável, é a exuberância. A sua reconciliação com a vida tem lugar num mundo que às vezes lhe parecia o caos primordial. No entanto, você se envolve com todos, se diverte tanto quanto se instrui, a tal ponto que eu me pergunto se, apesar da fome, do frio e dos medos, até mesmo apesar das lembranças, o melhor período da sua vida não teria sido aqueles meses a que você se refere como “um parêntese de disponibilidade ilimitada, uma dádiva do destino, providencial porém irrepetível”. (p. 19)

Ao mergulhar no plano individual dos autores em face de suas circunstâncias, os diálogos de Entre Nós se conduzem por reflexões que ultrapassam as situações particulares inspiradoras de diferentes obras. Não são raras nesse livro considerações transcendentes e universais. É o caso das seguintes palavras de Kundera:

Todo o período de terror stalinista foi uma época de delírio lírico coletivo. Tudo isso agora caiu no esquecimento, mas aí é que está o xis do problema. As pessoas gostam de dizer: a revolução é bela; é só o terror que decorre dela é que é mau. Mas isso não é verdade. O mal já está presente na beleza, o inferno já está contido no sonho do paraíso, e se queremos compreender a essência do inferno, é necessário examinar a essência do paraíso em que ele tem origem. (p. 106)

Lançado nos Estados Unidos em 2001, com o título Shop Talk: A Writer and His Colleagues and Their Work, o livro merecia já nessa publicação original uma apresentação, uma vez que é uma coletânea de textos publicados anteriormente. Sem falar nos trechos que já em 2001 deveriam, pelo menos, ter recebido notas explicativas, como a passagem em que Roth se refere ao apartamento em que Primo Levi — morto em 1987, no ano seguinte à entrevista — “vive com sua esposa”.

Mesmo assim, Entre Nós é certamente um dos melhores lançamentos dos últimos anos sobre a relação entre escritores e suas obras. Para os que quiserem fazer uma degustação do livro, o site da Companhia das Letras apresenta na íntegra o primeiro capítulo, sobre Primo Levi, que fala também de sua relação com sua profissão de químico.

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 04/01/2009 às 10:59

Publicado em Literatura

9 Respostas

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  2. […] Leia mais deste post no blog de origem: Clique aqui e prestigie o autor […]

  3. Muito bom, Tuffani.
    Sempre achei seu blog um oásis nesse deserto de reflexão que cresce na internet. Curti muito o seu retorno no ano passado. E agora você traz essa ótima notícia, que é a inclusão da literatura na sua pauta.
    Hoje à tarde, no shopping, me lembrei de seu post quando passei em uma livraria. Lá mesmo comecei a ler “Entre nós”. Comprei. Valeu a dica.
    Abraço.

    Beatriz Sampaio

    domingo, 04/01/2009 at 20:33

  4. Ótima resenha, Maurício. Muito melhor do que tudo o que já li a respeito desse livro, que li há algumas semanas. Ontem mesmo, na Folha, escreveram um artigo que foi mais um resumo do que uma avaliação crítica. (Inclusive erraram a grafia de Appelfeld.)
    Gostei de sua contraposição entre o individual/particular e o transcendente/universal. E acho que você tem razão: Roth deveria ter feito uma apresentação do livro.
    Bom 2009!
    Abraços.

    Daniela Morgado

    domingo, 04/01/2009 at 23:51

  5. Realmente, o capítulo sobre Primo Levi foi uma degustação saborosa. Sobretudo porque ali vêm subentendidas questões recorrentes, como a refutação de estereótipos acerca de a obra refletir necessariamente a biografia do escritor ou a deste necessariamente precisar desistir de viver como o homem comum para produzir literatura. Aliás, venho-me insurgindo contra este tipo de análise reducionista da literatura há muito tempo, menos preocupada com o texto e mais preocupada com a fofoca, menos preocupada com os fatores que, eventualmente, possam ter influenciado a formação do escritor e mais preocupada com o anedotário sobre ele. Análise que, paradoxalmente, em nada contribui para a percepção do lado humano do escritor, convertendo-o em mero objeto de diversão, em simples personagem de uma pantomima. O texto de Roth, pelo capítulo a que tive acesso, escapa destas armadilhas fáceis, de forte apelo popular, mas que empobrecem em muito tanto a consideração do aspecto humano do escritor – enquanto alguém dotado de dignidade, enquanto alguém cujo trabalho efetivamente cria um mundo, como um verdadeiro construtor, a partir de determinadas condicionantes – quanto a própria perscrutação da mensagem que pretende ele passar (ou mesmo a que se desprende do texto para além de sua própria intenção). Por outra banda, foi bem flagrada a questão da escolha de autores pertencentes a uma nação que, durante um largo período, foi considerada sem lugar no mundo e, pois, como destinatária natural de todo arbítrio e, por outro lado, autores que viveram a experiência do terror stalinista como efeito colateral da revolução.

    Ricardo Antônio Lucas Camargo

    terça-feira, 06/01/2009 at 12:50

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  9. Maurício,

    No ano passado, um membro da Academia Sueca disse (não me lembro exatamente das palavras) que os escritores norte-americanos se desconectaram do mundo e vivem em uma espécie de bolha auto-suficiente, sem dialogar com o “resto do mundo” e seus dramas. Isso justificaria o fato de escritores norte-americanos não terem sido premiados com o Nobel há alguns anos, em detrimento de europeus.

    Talvez a Academia Sueca deva ler esse livro de Roth e vislumbrar o quão universal é esse grande escritor.

    Excelente a notícia de que seu blog abordará também literatura. Aguardo ansiosamente outros textos…

    Abraço,

    Leonardo

    Leonardo Cruz

    domingo, 11/01/2009 at 8:17


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