Laudas Críticas

‘Físico da alma’ quer unir darwinismo e criacionismo

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Já pensei em colocar na coluna de links deste blog um item chamado Antibibliografia. Nele certamente entrariam todos os livros do midiático físico indiano Amit Goswami. Por dever de ofício, tive de ler quase todas as suas obras. Na mais recente, Deus Não Está Morto: Evidências científicas da existência divina (Tradução de Marcello Borges. São Paulo: Editora Aleph, 2008, 304 pp., R$ 46), a estratégia retórica é a mesma dos livros anteriores: dizer a leitores ávidos por uma prova de existência divina exatamente aquilo que eles esperam, fugir da confrontação com aspectos polêmicos e dar um ar de erudição às suas considerações com o apelo a superficialidades e até a equívocos típicos da cultura de almanaque.

O aparato de divulgação de Goswami costuma apresentá-lo ora como “um dos principais físicos da atualidade”, ora como um “revolucionário em um corpo crescente de cientistas renegados” (ver seu site oficial). Ele é, de fato, um dos físicos mais conhecidos da atualidade, não por causa de sua atuação na física, mas devido ao sucesso com vendas de seus livros, com suas palestras organizadas em vários países pelos editores de seus livros e também por sua participação nos filmes Quem Somos Nós?, em 2004, e O Segredo, em 2006. Em outras palavras, seu sucesso se deve somente à mídia.

Uma coisa é tentar promover a discussão entre partidários de teses contrárias. Certamente isso não levará nunca a um consenso. Nem deve se esperar por esse resultado, mas o processo é sempre enriquecedor para aqueles que se esforçam para compreender argumentos contrários. Porém, outra coisa é a pretensão de Goswami de ter formulado um novo paradigma científico no qual coexistiriam os princípios do evolucionismo e do criacionismo. Essa formulação, que dependeria de muita pesquisa e reflexão científica e filosófica, cresce à vontade em muitos nichos midiáticos.

Conclusões forçadas

Nesse livro, o físico indiano repete, sem dar novos argumentos, a mesma tese, apresentada em publicações anteriores, de que o universo é matematicamente inconsistente sem a hipótese da existência de Deus.

O primeiro tipo de evidência científica para a existência de Deus é o que chamo “as assinaturas quânticas do divino”. A física quântica nos oferece novos aspectos da realidade — as assinaturas quânticas — e, para compreendê-las, explicá-las e apreciá-las, somos obrigados a introduzir a hipótese de Deus. Um exemplo é a não-localidade quântica, a comunicação sem sinal. A comunicação normal é uma comunicação local, realizada por meio de sinais que transportam energia. Mas, em 1982, Alain Aspect e seus colaboradores confirmaram em laboratório a existência de comunicações que não exigem esses sinais. [pág. 5]

Goswami se refere nesse trecho a um dos mais importantes experimentos da física do século XX. Seus resultados foram publicados em 20/12/1982 no mais conceituado periódico especializado em física, o Physical Review Letters. O estudo, apresentado no artigo “Experimental Test of Bell’s Inequalities Using Time-Varying Analyzers” pelo francês Alan Aspect e seus colaboradores do Instituto de Óptica, de Paris, contrariou a previsão da Teoria da Relatividade para velocidades maiores que a da luz e provocou muitas questões não só na física, mas também na filosofia [ver Sílvio Seno Chibeni, “Implicações filosóficas da microfísica”, Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Série 3, 2 (2): 141-164, 1992].

No entanto, todas as implicações do trabalho de Aspect, assim como as de outros, trazem muito mais interrogações do que conclusões forçadas como a de Goswami. Por mais que dela se discorde, seria perfeitamente compreensível a atitude daqueles que crêem na existência divina de responder a essas questões com base em sua crença. No entanto, para aqueles que não são crentes — como o físico indiano até antes de refletir sobre esses problemas, segundo ele afirma — não faz sentido se apegar a essa hipótese.

Argumento da ignorância

Feita por parte de alguém que se diz ter sido ateu e que se defrontou com essas questões da microfísica, a opção de Goswami incorre naquilo que em lógica é chamado de falácia do argumento da ignorância, como mostram os trechos a seguir.

(…) recentemente, tem surgido muita controvérsia sobre teorias criacionistas/desígnio inteligente versus evolucionismo. Por que toda essa polêmica? Porque, mesmo depois de 150 anos de darwinismo, os evolucionistas ainda não têm uma teoria à prova de falhas. Não podem sequer explicar os dados fósseis, especialmente as lacunas fósseis, e também não podem dar explicações satisfatórias sobre como e porque a vida parece ter sido projetada de forma tão inteligente. [p. 5]

E, pouco mais adiante, ele acrescenta:

A chave, neste sentido, seria perguntar: “Haverá uma alternativa para ambas essas abordagens que concorde com todos os dados?” Minha resposta é sim, e vou demonstrá-la nesta obra. Porém, a resposta exige a existência de um Deus com poderes causais e de um corpo sutil que atua como gabarito da forma biológica; o materialismo não permite nenhuma dessas duas entidades. E, assim, problemas impossíveis requerem soluções impossíveis! [p. 6]

Em outras palavras, em face do desconhecimento de explicações no âmbito das teorias que são alvos de suas críticas, ele conclui que não há explicações possíveis, uma vez que postula a existência divina como única alternativa.

Precariedade filosófica

Não bastassem essas e outras saídas forçadas, o físico indiano mostrou nessa obra com mais clareza sua precariedade no plano filosófico. Sua forma de lidar com a idéia de um princípio finalista revela sua confusão entre essa noção e a de criação, que até para alguns pensadores medievais teve de ser objeto de demonstração.  Muitos séculos antes deles, o  próprio Aristóteles, que formulou a causa final (télos) exterior aos processos por ela guiados, em seu livro Sobre o Céu (Livro B, Capítulo 1, 283b26-29) afirmou que

(…) o mundo certamente não foi gerado nem pode ser destruído, como alguns alegam, é único e eterno, não tem começo nem fim em sua extensão e contém o tempo infinito.
[On the Heavens. Texto grego estabelecido por Immanuel Bekker. Introdução, tradução para o inglês e notas de William Guthrie. Cambridge: Harvard University Press (Loeb Classical Library, Aristotle, vol. VI), 1934, pp. 130-131.]

Outra interpretação precária de Goswami é a do pensamento de Friedrich Nietzsche (1844-1900), apontado simploriamente por ele como o niilista que proclamou “Deus está morto” (págs. 53 e 60). O pensador alemão, foi, no entanto, um crítico do niilismo, este entendido como a incapacidade de o Ocidente construir valores para nortear a civilização, que se encontra cada vez mais, desde o início da modernidade, diante da falência de todos os valores supremos:

Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e o mais sagrado que o mundo até então  possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais — quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos teremos de inventar?
[A Gaia Ciência, § 125. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 148]

Longe de discussões

Apesar de ter sido lançado pouco antes das recentes discussões no Brasil sobre o evolucionismo e o criacionismo (ver neste blog “A torre de marfim e o risco de macaquear o evolucionismo”, de 15/12), Deus Não Está Morto escapou desse confronto. É bem possível que o subtítulo dado ao livro pelos editores brasileiros tenha ajudado a não evidenciar seu conteúdo relativo a esse antagonismo. A versão original é God is Dead: What quantum physics tells us about our origins and how we should live (Deus Não Está Morto: O que a física quântica nos diz sobre nossas origens e como deveríamos viver).

Na verdade, não existe a tal polêmica na ciência em torno das obras de Goswami, como pregam os divulgadores de seus livros. Eu mesmo afirmei isso pessoalmente a ele durante sua entrevista ao programa Roda Viva exibido em 11/02/2008 pela TV Cultura, de São Paulo.

Durante a gravação desse programa, que se realizou 27/08/2007, eu apresentei  os registros dele na base de dados Web of Science, que mostravam, naquela data, nove trabalhos publicados por ele após janeiro de 1986, quando deixou a “ciência materialista”. Esses nove artigos tiveram, até aquela ocasião, apenas 46 citações em pesquisas indexadas nessa base de dados em todo o mundo, quase todas feitas por ele próprio ou por pesquisadores ligados a ele. Em outras palavras, não havia, como até hoje não há, nenhuma repercussão significativa da atuação dele na ciência, muito menos uma polêmica científica em torno de suas idéias.

Eu disse a ele também que seus livros não discutem verdadeiramente as idéias científicas que aborda, pois ele apenas as cita em seus aspectos que lhe interessam, diferentemente do que costuma ser feito por cientistas, por mais parciais que eles sejam. Goswami, que tanto alega se basear na mecânica quântica, fez em seus livros várias considerações en passant sobre Albert Einstein (1879-1955) sem deixar claro que esse cientista durante as três últimas décadas de sua vida se posicionou contrariamente a essa teoria. À minha pergunta sobre esse procedimento que nada tem a ver com a forma de se resolver dúvidas na ciência, ele respondeu:

Infelizmente, o confronto não é o estilo recomendado pela visão de mundo que tenho… e a visão de mundo que explica a física quântica e que agora parece explicar muitos fenômenos inexplicáveis e que nem mesmo podem ser abordados pela visão de mundo materialista. Essa é uma abordagem muito amigável, inclusiva. Eu não acho que bater de frente em debates com cientistas específicos fará alguma coisa a favor da nossa causa de mudança de paradigma. O paradigma será mudado a partir do peso de evidências em favor dele. Atualmente, o que nos ajuda muito é que temos aplicações práticas na área da medicina, da psicologia… Infelizmente, eu acho que você não consultou quantas vezes a minha obra é citada em trabalhos de psicólogos, de profissionais da saúde e de outros, ainda, não-pertencentes às ciências puras. Sim, é verdade que aqueles das ciências puras, os físicos, os químicos e até mesmo os biólogos, preferem oferecer a chamada “negligência benigna”. Eles não se envolvem com essa questão, pois fazendo isso acabarão dando maior publicidade para mim, algo considerado por eles prejudicial à sua causa. Então, deixá-los viver do modo deles e nós do nosso é agora a melhor abordagem.

Em outras palavras, a explicação de Goswami é que não existe discussão na comunidade científica em torno das idéias dele porque existe uma conspiração para evitar de lhe dar maior publicidade. Por mais que ele mereça ter seus livros incluídos em antibibliografias, como eu disse acima em tom de brincadeira, o melhor mesmo é forçá-lo ao confronto de idéias. No entanto, até mesmo para isso teremos dificuldade, dada a crescente apatia da comunidade científica em geral para tratar de temas polêmicos. Enquanto isso, os espaços midiáticos vão sendo ocupados.

Em meio à sua decadência e à ascensão da burguesia mercantil, a Igreja Católica foi duramente abalada com a revolução gutenberguiana. Não sei se o capitalismo está em decadência, mas um de seus principais suportes ideológicos, o pensamento laico, vem sendo desprestigiado há algum tempo. Nesse contexto, em que algumas questões científicas já chegaram aos tribunais sem serem discutidas em outras instâncias, há bons motivos para pensar na possibilidade de a revolução da internet trazer surpresas. Já pensaram em mudanças científicas baseadas na preferência popular?

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 27/12/2008 às 16:28

21 Respostas

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  1. Olá Maurício,

    Excelente seu texto sobre Goswami. Nunca li seus livros e, depois desse seu post, acho que vou continuar sem lê-los.

    É impressionante como a desonestidade intelectual tem espaço na ciência. Há “pesquisadores” que escolhem a dedo uma meia dúzia de informações e, conferindo-lhes um envelope eruditóide, sustentam sua mensagem, muitas vezes de cunho religioso. E não é só na Física não.

    Os criacionistas fazem isso aos borbotões, como você bem o sabe.

    Na arqueologia, Israel Finkelstein denunciou em seu “Bible Unearthed” (traduzido no Brasil como “A Bíblia não tinha razão) como arqueólogos biblistas pinçam elementos isolados para “corroborar” suas idéias.

    Eu, que lido com neurociências, também vejo a área sendo assaltada por charlatões que querem ganhar dinheiro com métodos pseudo neurocientíficos para se ter “mais memória” ou para “melhorar a capacidade de comunicação”, e por aí vai.

    Enfim: há momentos que tenho vontade de largar tudo e ir cuidar das galinhas de meu pai, lá no interior de Minas.

    Grande abraço,

    Leonardo

    Leonardo Cruz

    segunda-feira, 29/12/2008 at 7:22

  2. É amedrontador o caminho que estamos traçando. As meias verdades, as opiniões sem base lógica, a passiva aceitação de teorias e opiniões sem o devido debate prévio imperam em todos os campos do conhecimento e, também, nos assuntos mundanos. O objetivo é mais valorizado que o caminho traçado para alcançá-lo. Pinçar deste contexto quem queira promover a vital e salutar troca de idéias sem o objetivo pífio de fazer valer seu ponto de vista ou de encontrar consensos impostos é raro. Por isso, caro Tuffani, admiro seus artigos.

    Victor Barone

    terça-feira, 30/12/2008 at 9:56

  3. Temos uma tendência de nos aferrar a versões reconfortantes da realidade. Por isso essas charlatanices têm tanta penetração. Esse Goswami foi o “cientista” pr trás do Quem somos nós. Que mais podemos dizer. O cara é venerado, inclusive, como o Mauricio bem sabe, dentro de universidades. A ciência não tem verdades reconfortantes, por isso perde de lavada. Acho mesmo que os adultos não tem mais jeito. Se pudermos fazer algo com a criançada já seria alguma coisa.
    Lembro que o Fritjof Capra foi um dos físicos mais famosos na tentativa de unir física e “espiritualidade”. No Tao da Física lançava umas tesis pseudocientíficas, que depois (ele mesmo reconheceu) não se confirmaram. Quando entrevistado no Roda Viva, fugiu como o Diabo da cruz sobre esses assuntos místicos (o Tuffani não estava lá para dar uma apertada) preferindo se dedicar a sua nova paixão: assuntos ambientais. Pelo menos foi um físico mais coerente. Como as evidências não corroboraram suas teorias, partiu para outra.
    Feliz 2009!

    roelf

    quarta-feira, 31/12/2008 at 12:55

  4. […] Leia mais deste post no blog de origem: Clique aqui e prestigie o autor […]

  5. O que me chamou a atenção no texto, e que não foi objeto de comentários, é a proposta do autor, no sentido de testar o conhecimento de quem se debruça sobre temas afeitos a determinada área – no caso, a Física -, especialmente quando se propõe a contestar o que se tem como cientificamente comprovado. Com efeito, trazer o tema ao debate, nestes termos, não é fácil, dado que já existe uma polarização, no sentido de “quem crê no quê”, “quem chama quem de charlatão”, “quem chama quem de sábio”, “quem diz que A ou B é ciência”, ao invés de discutir, efetivamente – como é a proposta do texto ora glosado – como se verifica se está realmente sendo discutido o conhecimento até hoje produzido ou se, pelo contrário, o que se tem é mera manipulação de conclusões. Não pretendo, é claro, tomar posição no que tange à obra de Goswami, justamente porque a ausência de conhecimento específico na área não me permitiria, nela, separar o joio do trigo. Por outra banda, salvo melhor juízo, neste texto o autor complementa o outro sobre A torre de marfim. Tratar como desmerecedoras de exame as proposições que, de um modo ou de outro, encontram receptividade dentre os leigos, é estratégia que em absolutamente nada contribui para as descaracterizar como merecedoras de credibilidade. Bom que se tenha presente – para que se evitem mal-entendidos – que não imputo ao Sr. Maurício Tuffani o tratamento das proposições do físico em questão como desmerecedoras de exame, mas sim trago à balha a critica que no texto dele se contém a respeito justamente da ausência de uma submissão das proposições do físico em questão a um debate por parte de quem teria condições de separar, ali, o joio do trigo – se é que há trigo ou se é que há joio -. Quando a Academia trata como inexistentes as proposições, ainda que pareçam evidentes tolices, abre espaço justamente para que, quando elas tenham apelo popular, venham elas a lograr aceitabilidade.

    Ricardo Antônio Lucas Camargo

    domingo, 04/01/2009 at 19:49

  6. Caro Ricardo Camargo,

    Não se trata de testar conhecimentos de Goswami, muito menos de procurar deslizes que seriam irrelevantes para seu tema central. O que fiz foi mostrar como a incapacidade dele para tratar de determinados temas prejudica suas conclusões e o leva a argumentações baseadas no argumento da ignorância. Por exemplo, isso não teria acontecido se ele, que se propõe a discutir científica e filosoficamente a oposição entre evolucionismo e criacionismo, conhecesse pelo menos rudimentos do conceito de finalidade no pensamento filosófico: ele não consegue desvincular a causa finalis (télos) do preceito judaico-cristão da criação. Melhor dizendo, não teria acontecido se, além disso, ele também não se pautasse por essa estratégia retórico-marqueteira de dizer o que seu target quer ouvir.

    Fora isso, é importante ressaltar que eu não disse que a academia trata as idéias de Goswami como inexistentes. O que eu afirmei e provei na presença dele é que “não há, nenhuma repercussão significativa da atuação dele na ciência, muito menos uma polêmica científica em torno de suas idéias”. Por exemplo, há muitos bons trabalhos científicos que não tiveram citação nenhuma de outros autores, mas nem por isso são desconhecidos ou considerados inexistentes. Não sou infalível, mas tento sempre pesar cuidadosamente os termos que emprego.

    No que diz respeito à necessidade de cientistas se posicionarem a respeito desse assunto — não em papers, mas em fóruns públicos —, creio que os dois últimos parágrafos de meu texto deixaram isso claro.

    Espero ter compreendido e respondido às suas indagações.

    Saudações.

    Mauricio Tuffani

    domingo, 04/01/2009 at 22:24

  7. Prof. Maurício Tuffani, agradeço o esclarecimento, e aproveito para indicar qual teria sido a direção do meu comentário, sem a necessidade de debates à margem com alguns comentadores que vêm, antes, a lançar mão da polarização “com Isto x com Anti-Isto”, razão por que prefiro expor aqui, no seu blog, as minhas razões. A questão que coloquei não foi nem mesmo de versar a suposta seriedade ou não do que diz o Sr. Goswami, porém, algo que me parece muito mais grave: quando disse que a Academia tratou como inexistentes as proposições, não foi no sentido de que ele mereceria ser mais citado ou de que o mérito das proposições teria sido tratado como inexistente, mas sim no sentido de que a Academia, no caso, estaria a subestimar o poder de fogo justamente de quem passa a utilizar o “argumentum ad ignorantiam” para tentar demonstrar o indemonstrável, e isto com o apoio dos meios de comunicação, que trabalham com a idéia do instantâneo, com o oposto à reflexão, e paradoxalmente no terreno em que esta deveria ser a rainha. Todo o meu comentário, em realidade, gravita em torno dos seus dois últimos parágrafos, porque eles dialogam com o texto concernente à “torre de marfim”, ao encastelamento em que, muitas vezes, vêm a se colocar pesquisadores sérios, fechando-se em si mesmos (não me interessa, no caso, indagar os motivos: excesso de modéstia, medo de que se apropriem das suas descobertas e tantos outros que não tenhamos condição de imaginar), abrindo espaços, inclusive, a quem não tem a capacidade de demonstrar onde foi buscar as proposições que entrega ao conhecimento do vulgo.

    Ricardo Antônio Lucas Camargo

    segunda-feira, 05/01/2009 at 7:40

  8. Maurício,

    “Por dever de ofício, tive de ler quase todas as suas obras.”

    É lendo coisas como essas que me regozijo com meus afazares atuais…! Se os livros dele foram da mesma qualidade do “Quem somos nós?” deve ter sido uma árdua tarefa…

    Nesse quesito de uso “ad nauseam” do ‘argumento da ignorância’ veja a entrevista abaixo linkada que o Márcio Campos fez com um biólogo criacionista:
    http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/tubodeensaio/?id=842618

    Lampedusa

    segunda-feira, 05/01/2009 at 16:54

  9. Ok, dois assuntos aparte da sua abordagem, mas tem que ser dito: 1-o filme “What the bleep do we know?” eh bom, muito bom, e 2-Goswamit tem ideias excelentes tambem.

    (Eu nao tinha ideia que seu blog eh bom assim, M.!!!!)

    Ivan Moraes

    quarta-feira, 07/01/2009 at 2:17

  10. Oi Ricardo. Apenas para acrescentar (não para discordar), os motivos de encastelamento, torre de marfim, etc., às vezes são bem mais mundanos e imediatistas. Simplesmente, na análise de mérito que se faz dentro das universidades e que te permite avançar na carreira, as atividades de extensão como esta de compreensão pública da ciência, valem muito, muito pouco! Acho que é um tiro no pé, mas é isso ai.
    Sei por experiência própria. Humildemente mantenho uma coluna no jornal com esse propósito. Dá um trabalho danado, mas é bem gratificante. Mas suspeito muito que na hora de prestar meus concursos (só me falta um!!!), não vai contar muito. Vamos ver e torcer para que as coisas mudem.
    Sobre o quem somos nós, recomendo estas ótimas sacadas do youtube http://www.youtube.com/watch?v=kQOIuibXn0Q,
    Lá no blog Dragão na Garagem, do meu amigo Widson (http://dragaodagaragem.blogspot.com/), tem alguns com legenda em português. É muito engraçado.

    roelf

    quinta-feira, 08/01/2009 at 0:27

  11. Ivan

    Também gostei do “What the bleep do we know?” (ao menos se é, de fato, o filme que estou pensando que é). Fiquei, no entanto, com a impressão de que ele pode dar a entender para um determinado público (talvez a uma grande parte dele) que certas possibilidades meramente teóricas (mundos paralelos, p. ex.) são algo já consensado como real no mundo científico. E nesse sentido – se minha impressão for correta – pode ser um desserviço à popularização da sã ciência.

    Lampedusa

    quinta-feira, 08/01/2009 at 11:55

  12. Do Blog http://petroleo1961.spaces.live.com/Blog/cns!7C400FA4789CE339!1617.entry

    Também, agradecendo aos nossos colegas Marcos&Camila, da comunidade Filosofia & Ciência, pela colaboração, publicamos aqui o texto abaixo de Roelf Cruz Rizzolo. Nesse artigo temos, novamente, uma crítica científica ao filme “Quem Somos Nós”; entretanto, tal abordagem está mais ligada ao campo da biologia (Artigo publicado originalmente no jornal Folha da Região, Araçatuba, terça-feira, 7 de novembro de 2006).

    Um tempo atrás, alguns amigos me recomendaram assistir ao filme “Quem somos nós?”. Afirmaram terem ficado extremamente impressionados com a beleza, mensagem, e com a facilidade com que assuntos complexos sobre neurociência e mecânica quântica eram abordados.

    Como sou fã da divulgação científica fiquei curioso, embora a afirmação de um deles que o filme mostrava como a mecânica quântica dava suporte a algumas teorias místicas, me deixou desconfiado. Mas em nome da curiosidade científica fui atrás, do filme e da opinião dos cientistas sobre ele. Pesquisei demoradamente. Visitei sites sérios na área de neurociência e física. Li a opinião de vários pesquisadores e professores.

    O resultado? Bem, confesso que raras vezes observei uma unanimidade tão grande sobre um assunto. Na melhor das hipóteses, o filme está cheio de erros.

    Mas para a maioria dos cientistas das áreas envolvidas trata-se de uma deliberada tentativa de falsear e distorcer dados científicos para nos convencer sobre as opiniões místico-religiosas defendidas (e comercializadas!) pelos produtores do filme.

    Ante a possibilidade de ser lançada uma versão ampliada desse “documentário”, achei que seria importante mostrar estas informações aos leitores.

    Para ser objetivo, tentarei listar os erros e distorções que o filme comporta. (…) Entre os erros menos graves podemos citar:

    – O filme menciona que nosso corpo contém 90% de água. Errado. O recém-nascido tem aproximadamente 78%, homem adulto 60% e mulher 55%. Há variações individuais (obesos têm menor porcentagem que magros, etc).

    O filme menciona que nosso corpo produz 20 aminoácidos. Errado. Produzimos 12. Os 8 restantes são aminoácidos essenciais e devem ser incorporados por meio da dieta.

    – A animação que mostra a comunicação entre os neurônios está errada. Os neurônios não se comunicam por meio de correntes elétricas e sim através de neurotransmissores químicos liberados nas sinapses. Essa diferença é fundamental. É do equilíbrio desses neurotransmissores que depende o funcionamento cerebral e nosso comportamento.

    A lista de “pequenos” erros é bem maior. Porém, vamos agora aos disparates.

    – O filme menciona que os primeiros nativos americanos não seriam capazes de ver as caravelas de Colombo porque a caravela estaria fora do “paradigma” cerebral. Isto é uma besteira. E é um engodo já que distorce conceitos cuidadosamente definidos pela neurociência como sensação e percepção para defender o indefensável. Os nativos já tinham canoas. Acreditar que colocar uma vela sobre a canoa a tornaria invisível é de dar risada. A informação é inventada. Não consta nos diários de Colombo e informações detalhadas sobre essas tribos (Arawaks ou Aruaques) desapareceram até da tradição oral.

    – O filme quer nos fazer acreditar por meio de um dos seus “cientistas”, Masaru Emoto, que a formação de cristais de gelo é influenciada por palavras específicas escritas em papel e fixadas no recipiente. Por exemplo, ao escrever “amor” formam-se cristais com belas formas. Ao escrever “eu quero matar você” a delicada estrutura cristalina se desarranja.

    Para os cientistas, um absurdo total. Argumentam que Emoto conhecia previamente as palavras e procurou intencionalmente os cristais apropriados entre os milhões que são formados.

    O experimento nunca pôde ser repetido em nenhum laboratório do mundo. O Ph.D. de Emoto foi concedido por uma universidade não credenciada nos Estados Unidos. James Randi, aquele que desafiou nosso homem do “ra”, Thomaz Green Morton, a reproduzir frente às câmeras seus fenômenos paranormais, ofereceu um milhão de dólares para que Emoto repetisse o experimento sob controle científico. Emoto não apareceu até agora (nem Morton).

    Tenho que truncar a lista por aqui. Não posso falar do “efeito Maharishi”, onde através da meditação transcendental coletiva os índices de violência teriam diminuído em Washington.

    Apenas comento que o autor desse “experimento”, John Hagelin (que aparece no filme), foi honrado pela comunidade científica pelo prêmio Ig-Nobel em 1994. Assim, seu estudo está ao nível dos prêmios concedidos este ano, como por exemplo, “Porque pica-paus não têm enxaqueca?”.

    Finalmente, chama a atenção que boa parte dessas informações “científicas” são comentadas por uma senhora loira com acento estranho. Ela parece possuir conhecimentos infindáveis sobre mecânica quântica e neurociência. Ao final do “documentário” descobrimos que essa “cientista” é, na realidade, Ramtha, o espírito de um guerreiro de Atlântida morto há 35.000 anos, “canalizado” pela dona de casa americana J. Z. Knight, que na realidade nasceu Judith Darlene Hampton em uma cidadezinha de Novo México, que hoje abriu uma lucrativa escola mediúnica (Ramtha School of Enlightenment), na qual boa parte dos “cientistas” consultados neste filme trabalha. Coincidência, não?

    Enfim, leitor, não perca seu tempo. Gastar 90 minutos ouvindo Ramtha e seus amigos irá deixar você com muito tédio, muito mal informado e, pelo menos, R$ 5 mais pobre.

    Roelf Cruz Rizzolo é professor de Anatomia Humana da Unesp, câmpus de Araçatuba, e escreve neste espaço quinzenalmente.

    roelf

    quinta-feira, 08/01/2009 at 15:45

  13. “- A animação que mostra a comunicação entre os neurônios está errada. Os neurônios não se comunicam por meio de correntes elétricas e sim através de neurotransmissores químicos liberados nas sinapses. Essa diferença é fundamental. É do equilíbrio desses neurotransmissores que depende o funcionamento cerebral e nosso comportamento.”

    O mito cientifico da existencia de comunicacao eletrica OU quimica intraneuronios para **toda** a comunicacao intraneuronial esta permanentemente derrubado por um tipo especifico de mediunidade, a empatia. Nao ha como explicar pra quem nao eh medium, mas acredite me, o autor esta errado.

    “(…)Porém, vamos agora aos disparates.

    – O filme menciona que os primeiros nativos americanos não seriam capazes de ver as caravelas de Colombo porque a caravela estaria fora do “paradigma” cerebral. Isto é uma besteira. E é um engodo já que distorce conceitos cuidadosamente definidos pela neurociência como sensação e percepção para defender o indefensável. Os nativos já tinham canoas. Acreditar que colocar uma vela sobre a canoa a tornaria invisível é de dar risada.”

    Como eh que eu consigo apontar, em filmagens da NASA, coisas obvias a mediuns, que sao visiveis a olho nu ha mais de uma decada (porque foram filmadas) que gente normal nao consegue ver ate alguem lhes apontar? O ponto de dizer isso nao eh que a vela sobre a canoa a tornaria invisivel, obvio; tampouco estou fazendo uma defesa do filme se esta exagerando nessiss ou naquilo. O objetivo eh deixar claro que o que eh incomprehensivel, nao traduzivel em palavras, a certas pessoas nao o eh a outras. E que voce mesmo, Roelf, pode assistir ate cansar os olhos e ainda nao vai ver o que eu aponto sem qualquer dificuldade nesse video, por exemplo: http://www.youtube.com/watch?v=As-wYmFYb3I

    Reafirmo: nao eh invisivel pra mediums mas eh invisivel pra voce ate a fracao de segundo que eu te disser o que eh, e eh assim porque eh baseado em linguagem mediunica: voce simplesmente nao a possui.

    Ivan Moraes

    segunda-feira, 12/01/2009 at 16:58

  14. Ivan Obrigado pela atenção.
    Sobre empatia são bem interessantes as recentes descobertas dos neurônios espelhos. Vale a pena dar uma olhada. Sobre o “permanentemente derrubado por um tipo especifico de mediunidade”, o permanentemente derrubado deve ser para quem quer acreditar. Não sou filósofo, mas acho que o permanetemente não existe em ciência. No easpiritismo sim, claro. Falamos de coisas diferentes.
    Sobre o que vemos ou não vemos ou acreditamos ver, não prtecisamos recorrer à mediunidade (que é a mesma coisa que acreditar na esclarecida Ramtha ). É só estudar sensação Vs percepção. Lamentavelmente a neurociência está devendo uma posição mais ativa na popularização das novas descobertas. Ainda não tem teorias sólidas para explicar a consciência (quem sabe nunca explique, vai lá a saber), mas alguns dos mecanismos de sensação e percepção já são bem conhecidos e permitiriam desfazer essas confusões.

    roelf

    terça-feira, 13/01/2009 at 23:07

  15. […] venham elas a lograr aceitabilidade. Ricardo Antônio Lucas Camargo … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]

  16. interessante o debate. mas eu apenas vim dar a sugestao acerca do significado da morte de Deus em Nietzsche: se eu e Glauber tivermos razao na nossa analise, quando afirmamos que Deus que Nietzsche se refere nao é um tanto que Deus metafisico, mas um Deus, se preferirmos, fisico, ou seja, o deus de que Nietzsche se referia é a superestrutura. leiam mais este artigo [Nietzsche e Marx: algo em comum?] em http://nietzschedaslepidoptero.blogspot.com/2009/05/seria-possivel-encontrar-algum-ponto-em.html

    Miller

    terça-feira, 02/06/2009 at 7:31

  17. Se tivermos razao nessa analise, entao DEUS AINDA NAO ESTA MORTO.

    Miller

    terça-feira, 02/06/2009 at 7:33

  18. O cientista indiano Amiti Goswami não é um criacionista, não evolucionista como parece ser nesta matéria. Ele é Evolucionista, mas que crê em um Criador para que haja essa evolução. Portanto, não é materialista, mas sim, espiritualista evolucionista.

    Paulo Cesar

    quarta-feira, 01/07/2009 at 22:16

  19. É bom deixar claro que o cientista indiano Emiti Goswami não é um criacionista religioso, não evolucionista, fundamentalista (protestante cristão), não!
    Ele é Espiritualista Evolucionista, portanto, crê em um criador Universal, mas que esse criador está coerente com às leis da Evolução, nos milhões de anos de seu processamento, para chegar a situação atual.
    Portanto, é muito diferente dos religiosos fundamentalistas americanos, “cristãos”

    Paulo Cesar

    quarta-feira, 01/07/2009 at 22:28

  20. Vejo a questão do Físico Amit Goswami como um físico-filosófo (tal qual David Bohm) que tem realizado extrapolações e de uma forma que somente daqui há algum tempo a comunidade científica terá “base” para compreender suas ideias. Devo lembrá-los que suas ideias não são novas. Há mais de 150 anos que a Doutrina Espírita divulga, inicialmente através do professor Kardec ou Rivail uma tese Evolucionista-espiritualista e, posteriormente, aqui no Brasil vimos “supostos seres transdimensionais” como André Luiz comunicarem-se através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier trazendo informações de uma realidade além da nossa realidade dos sentidos físicos. (Ressalte-se além do mais que suas comunicações têm grande relevância e merecem estudo sério porque o volume de sua obra e de seu trabalho estão além do gênio humano)

    ANGELO

    terça-feira, 16/11/2010 at 22:38

  21. Mauricio Tuffani.
    Não escrevo para defender o trabalho de Amit Gwani. Não disponho de preparo acadêmico para isso. Sou formado na área jurídica e pouco me lembro dos conteúdos ministrados nas aulas de física na escola secundaria.
    Porém, admiro o senso critico. Peça importante no desenvolvimento da razão humana. Claro! Desde que embasado por conhecimento profundo do objeto a ser analisando.
    Li pacientemnte seu texto, diga-se de passagem, bem escrito, fato que adicionou certo grau de curiosidade a minha mente. Portanto, gostaria de saber qual seu grau de instrução superior? Alguma especialização na área das ciências, física, astrofísica, mateemática, com especialização em alguma universidade conceituada? Digo, fora do país, é claro?
    Coloco desta forma, pois é prudente apreciar sua formaçao intelectual para criticar o trabalho de um senhor, muito simpático por sinal, formado numa matéria tão complexa como a física de partículas. Homem que parece buscar respostas a questões como à existência de um princípio organizador, ou Deus, como queira. Ou mesmo, a relaçao nao local entre consciencias. “Coisinhas deste tipo”, se me permite a brincadeira.
    Pelo pouco que apreciei do trabalho de Amit, acredito que se trata ainda de uma ciência em construção deixada para gerações futuras fixar seus alicerces no montante riquíssimo do intelecto humano.
    Sem mais, me reservo a não dar muito credito ao sua critica no momento. Afinal, adotando mais uma vez uma linguagem coloquial: “cada macaco em seu galho”, não é mesmo?
    Tenha ótimo dia.

    Rodnei Oliveira

    terça-feira, 27/12/2011 at 8:46


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