Laudas Críticas

Periódico é acusado de pseudociência e favorecimento

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O físico e engenheiro egípcio Mohamed Saladin El Naschie está no centro de uma crise que ameaça a credibilidade dos sistemas de avaliação de publicações e de carreiras científicas. Na semana passada, a matéria “Self-publishing editor set to retire”, da Nature News, informou que ele deixará o cargo de editor da revista Chaos, Solitons & Fractals (CS&F). Nos últimos dez anos, ele publicou 322 artigos de sua autoria e obteve milhares de citações, quase todas feitas por ele mesmo aos seus próprios trabalhos.

Essa crise foi desencadeada por várias acusações de autofavorecimento e de publicação de trabalhos pseudocientíficos, feitas em blogs de especialistas nas últimas semanas a El Naschie e à CS&F. Mas essas críticas não se restrigem ao físico egípcio e ao seu periódico. Elas atingem também o centenário e mundialmente consagrado grupo editorial Elsevier, sediado em Amsterdam, que publica a CS&F. Mas ainda não puseram na linha de tiro a seletíssima base de dados onde ela está registrada, o Science Citation Index.

Numerologia indisciplinada

A crise começou em 03/11 no blog comunitário The n-Category Café, com um comentário do físico teórico croata Zoran Škoda a uma postagem de seu colega físico-matemático John Baez, da Universidade da Califórnia em Riverside. Radicado nos EUA na Univesidade de Wisconsin, Škoda disse, em meio à discussão sobre outro assunto, que “um certo Naschie” publicava trabalhos com graves inconsistências, e que o fazia por meio de um número elevados de papers de sua autoria na própria revista que edita.

Em 06/11, Baez apresentou no blog suas investigações sobre o assunto trazido pelo colega croata. Na postagem “The case of M. S. El Naschie”, ele disse ter notado a previsão da publicação na edição de dezembro — agora consumada — de cinco artigos de autoria exclusiva de Naschie na CS&F. Um deles lhe chamou a atenção pelo exotismo do título: “Anomalies free E-infinity from von Neumann’s continuous geometry”:

Esse paper consiste em uma numerologia indisciplinada engrossada com frases de efeito. Ele começa com uma referência às geometrias contínuas de Von Neumann e ao trabalho de Alain Connes, mas não faz nenhum uso dessas idéias. “E-infinity” é aparentemente o nome da “teoria” de Naschie, mas ele não a descreve. Em outras palavras, o título e o resumo têm muito pouco a ver com o conteúdo do paper. (…) O fato de que a Elsevier teria deixado Naschie editar essa revista e publicar um grande número de artigos como esse mostra que o sistema de monitoramento de seus jornais está falho [is broken]. O fato de essa revista custar US$ 4.520 por ano seria hilário se ela não fosse realmente comprada por bibliotecas — a uma taxa reduzida, em um pacote com outras publicações da Elsevier, mas até agora! (…) Por que a Elsevier deixou El Naschie se tornar editor-chefe dessa revista?

Também referindo-se à CS&F, o matemático Richard Elwes, pós-doutorando na Universidade de Freiburg (Alemanha), especialista em lógica e teoria dos modelos, disse em seu blog pessoal:

Talvez o editor-chefe dessa revista, Mohammed El Naschie, deva começar a prestar atenção. A Elsevier é a maior editora do mundo de periódicos científicas, e eles não são de modo nenhum universalmente amados por isso. Essa revista tem aspectos pseudocientíficos.

Autocitações

Em relação aos artigos publicados por El Naschie, ao todo 322, os dados sobre eles impressionam mesmo quando obtidos somente na base de dados Web of Knowledge, da qual faz parte o Science Citation Index. Nesse sistema mais restrito ele aparece com 268 trabalhos, dos quais 246 publicados na própria CS&F. Outros 19 foram publicados na International Journal of Nonlinear Sciences and Numerical Simulation. Acontece que essa publicação, como observou Baez, é editada por Ji-Huan He, da Universidade Donghua, em Xangai. Ele, que também integra o comitê editorial da CS&F como editor regional na China, apontou El Naschie como “um dos maiores cientistas deste século, desde Newton e Einstein”.

Sem considerar os registros de outras bases de dados, o físico egípcio tem no Web of Science o total de 3.050 citações. Na relação obtida por ordem decrescente de citações, o primeiro artigo que aparece é “A review of E infinity theory and the mass spectrum of high energy particle physics”, com o total de 236. As citações a vários desses artigos, quando não são dele próprio, são feitas em artigos publicados na revista editada por ele ou na de Ji-Huan He.

Escolhi, entre os artigos mais citados de Naschie, um que não tivesse quase todas as citações feitas por ele mesmo; “Elementary prerequisites for E-infinity (Recommended background readings in nonlinear dynamics, geometry and topology)”, com 74 menções, das quais 39 (52,7%) foram feitas por ele mesmo. Mas 62 delas (83,8%) foram feitas em artigos publicados na CS&F; outras 10 foram feitas na revista de Ji-Huan He. Apenas duas citações foram feitas em outras publicações, sendo uma delas desse mesmo editor chinês, que fez outras três das 74 citações.

‘Picaretagem’

Enquanto a Elsevier e a Web of Knowledge não fazem um pronunciamento público sobre o caso El Naschie e a CS&F, físicos blogueiros investigam os registros na internet sobre ele e a revista. Baez, por exemplo, já ressaltou que o nome do colega egípcio foi retirado de dois papers postados na rede arXiv.org. Škoda afirmou ter obtido a confirmação de que ele não tem mais vínculo com instituições que aponta como referência, como a Universidade Johann Wolfgang von Goethe, em Frankfurt.

Na galeria de imagens de seu website e também em um vídeo no Youtube, El Naschie mostra fotos em que ele aparece ao lado de alguns dos ganhadores do Nobel de Física. Mas o blog de Baez já tem comentários que sugerem que esses físicos premiados não mantêm relações com o editor da CS&F.

No Brasil, essa corrente já aconteceu pelo menos no blog Física, do Instituto de Física da Universidade Federal Fluminense, com a postagem “Picaretagem em periódico da Elsevier”, de 17/11, onde o doutorando Rodrigo M. Pereira destacou um “Detalhe pitoresco: no blog do Baez apareceram alguns defensores do El Naschie, todos com nomes anglo-saxões, inglês meio macarrônico e IPs situados no Cairo….”.

Para muitos intelectuais pós-modernos e seus seguidores, essa crise pode ser interpretada como uma contrapartida involuntária do escândalo provocado em 1996 pelo físico Alan Sokal, usado até hoje como argumento contra a credibilidade de consagrados pesquisadores franceses e da esquerda norte-americana. O estrago involuntário na imagem das hard sciences pode ser muito maior do que aquele propositalmente provocado contra algumas correntes das humanidades por Sokal com seu artigo-armadilha que ele mesmo revelou ser uma farsa logo após ser publicado na revista Social Text. Uma coisa é mostrar que um periódico pode aceitar um texto carregado de equívocos conceituais. Outra coisa é uma revista científica da Elsevier indexada na Web of Knowledge ter seu editor incólume durante dez anos fazendo o que fez El Naschie.

* * * * * * *

Outras postagens sobre o mesmo assunto:

“Saída de editor não esfria caso de pseudociência e favorecimento”, 02/12/2008

“Canadense revela conexão chinesa no escândalo de revista científica”, 09/12/2008

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 01/12/2008 às 4:51

8 Respostas

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  1. Caro Maurício,

    Oh! Absurdo: alguém burlando um sistema infalível! Ou será que o sistema de “peer-review” não é tão infalível assim? É óbvio que não importando qual a moeda de troca num sistema, sempre haverá alguém criando meios ilícitos de conseguir essa moeda (parece que algo assim aconteceu na Física da USP – ou são só boatos e inverdades?)… O que me assusta é os cientistas acreditarem que existe um sistema ideal de determinar quem ou o que é “bom” na ciência: eu não acredito – o que existe é apenas uma lista de critérios tão arbitrária quanto qualquer outra que possa ser proposta, que beneficia uns e prejudica outros – e que vai ser defendida por quem se beneficia dela… Ser bastante citado significa que você fez algo que por alguma razão caiu num gosto popular, e não diz nada mesmo sobre a qualidade do seu trabalho, mas não é isso que o “mainstream” gosta de divulgar…

    Um abraço!

    Stephen Dedalus

    segunda-feira, 01/12/2008 at 11:03

  2. Boa, Tuffani,

    estou chamando lá em casa.

    Tambosi

    segunda-feira, 01/12/2008 at 21:49

  3. Bah!! e no Brasil? Não acontece coisa muito pior no nosso quintal? As universidades e os sistemas de publicação daqui são ainda mais medonhos…

    Everton Maciel

    terça-feira, 02/12/2008 at 9:16

  4. Eu acho que o sistema como um todo funciona. Tanto é que o caso foi descoberto e provavelmente os trabalhos do autor serão descartados da revista. O importante é que sempre seja livre a possibilidade de fazer críticas sobre outros trabalhos. Assim trabalhos irreais não se sustentam muito tempo.

    Ed

    quarta-feira, 03/12/2008 at 14:53

  5. As publicacões dessa revista são tão sem sentido (veja você mesmo) que eu aposto que qualquer um capaz de escrever um texto no mesmo estilo (i.e., pura enrolacão + algumas fórmulas + a tal teoria do editor) poderia ter seu artigo publicado lá. Claro, não é fácil escrever bobagens quando não se é um mentiroao profissional como o cara.

    Para complementar, a revista é “Qualis A” para a CAPES em quase todas as áreas (exceto química, felizes químicos…). Acho que isso desmoraliza completamente o sistema de avaliacão da CAPES. Fico assustado quando imagino que pesquisadores são contratados ou não com base nessas classificacões…

    Fernando

    quinta-feira, 04/12/2008 at 7:57

  6. […] aponta um fato que eu já havia ressaltado em “Periódico é acusado de pseudociência e favorecimento” (01/12): dos 268 trabalhos de El Naschie registrados no Science Citation Index (SCI), 246 foram […]

  7. […] demais? Provavelmente sim. O astrofísico é Mohamed El Naschie, figura central em uma série de práticas duvidosas denunciadas recentemente, incluindo publicar artigos pseudocientíficos. Encontrar El Naschie por […]


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