Laudas Críticas

Autora de artigo sobre vandalismo em escolas responde ao blog

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A pedagoga Dagmar Maria Leopoldi Zibas, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, mestre em psicologia da educação pela PUC-SP e doutora em educação pela USP, enviou ontem (quarta-feira, 26/11) mensagem de resposta ao questionamento deste blog por meio da postagem “Faltou esclarecer a ‘politização’ do vandalismo nas escolas”. Agradeço por essa atenção à questão levantada, que se referiu ao artigo “Como interpretar o vandalismo nas escolas?”, de autoria dessa pesquisadora, publicado ontem na seção Tendências/Debates da Folha de S. Paulo. Transcrevo a seguir na íntegra, sem nenhuma alteração, o texto da mensagem por ela enviada.

Prezado Senhor:
Agradeço sua atenção ao meu texto de hoje na Folha. Fiquei preocupada pelo fato de não ter sido absolutamente clara em meus argumentos. Tomo, então, a liberdade de tentar explicar novamente. Sob minha avaliação (e de outros especialistas), o vandalismo contra as instalações e a violência contra os professores é um claro indício da falência do sistema. Demonstram que os estudantes não dão qualquer valor à escola e ao processo educacional como levado a efeito na instituição. Caso tivessem algum benefício, com certeza não usariam de tamanha violência. Ora, todas as avaliações sistêmicas (prova Brasil, SARESP, etc.) têm mostrado que, de fato, os níveis de aprendizagem de todo o Ensino Básico estão muito abaixo do mínimo desejado. Por exemplo, os resultados do SARESP (publicados no ano passado) mostram que, em Matemática, mais de 80% dos alunos paulistas do Ensino Fundamental e Médio têm índices de aprendizagem abaixo do mínimo adequado. Em Português, 78% dos estudantes do Ensino Médio estão abaixo desse mínimo desejado. Esses números (e diversas outras avaliações e pesquisas) demonstram que a escola está sendo inútil para a maioria dos alunos. Além disso, conhecemos todas as mazelas da escola pública: instalações precárias, falta de recursos didáticos apropriados, professores descontentes e estafados, métodos ultrapassados, etc., etc. Diante de tudo isso, torna-se inevitável explosões de violência. Não quer dizer que os alunos tenham qualquer consciência contra o que estão protestando, porque não têm consciência de seus direitos. Estão apenas expressando de forma caótica – não elaborada – suas frustrações, seu tédio e aborrecimento no cumprimento de obrigações nas quais não vêem qualquer sentido, pois não aprendem nada, não desenvolvem seu potencial e não se preparam para o futuro. Esse panorama é completamente oposto ao que acontece no Chile, onde os alunos têm consciência de seus direitos e os reivindicam de forma organizada e politicamente coerente. Mas lá, os indicadores educacionais são muito melhores do que os nossos. Se nossa escola fosse outra – como descrevo minimamente em meu artigo – a violência e o vandalismo deixariam de existir. Espero ter esclarecido as omissões de meu texto e, mais uma vez, agradeço sua atenção. Cordialmente, Dagmar Zibas

É louvável a iniciativa da pesquisadora de responder ao meu comentário. Sua resposta trouxe novos e interessantes elementos relacionados aos atos que foram amplamente noticiados, e isso proporciona maior esclarecimento sobre o tema. No entanto, sem querer polemizar com a pedagoga — inclusive por eu ser um leigo em uma área na qual ela é especialista —, observo que sua atenciosa resposta não apresentou a explicação que em minha postagem anterior considerei faltante no artigo dela. Transcrevo novamente, desta vez com negritos meus, o mesmo trecho do artigo dela destacado por mim em meu comentário.

O vandalismo praticado é uma forma caótica de chamar a atenção para os repetidos erros e omissões das políticas educacionais. É um grito de revolta pela precariedade das instalações e dos recursos didáticos, pela debilidade da formação do magistério e pelas sofríveis condições do trabalho docente. É um protesto difuso, explosivo e não elaborado, mas claramente voltado contra a implacável deterioração institucional, a inutilidade da freqüência às aulas e a completa desesperança de encontrar na escola a chave para um futuro melhor.

A frase destacada no parágrafo acima atribui aos praticantes dos atos considerados de vandalismo uma intenção. Mais que isso, refere-se a uma intenção relacionada a chamar a atenção. Seria de um modo “difuso, explosivo, e não elaborado”, mas seria para “chamar a atenção”. A palavra “politização” entre aspas aqui e no título da postagem tem um alto grau de licença, pois, segundo a pesquisadora, o objeto da suposta intenção seria chamar a atenção “para os repetidos erros e omissões das políticas educacionais”, e não para essas políticas. Mas o que importa é a afirmação que os atos, segundo a pedagoga, teriam a intenção de chamar a atenção, ou seja, não se limitariam ao propósito de destruir tudo aquilo que os alunos veriam como algo que para eles não tem serventia nenhuma. Porém, destruir o que se considera não servir para nada não é a mesma coisa que fazê-lo para chamar a atenção. É isso o que eu disse, em meu comentário, com as seguintes palavras:

Se assumirmos que todas as premissas da autora em seu artigo são verdadeiras — e não me proponho a questioná-las nem a afirmá-las neste meu curto texto —, é possível admitir sem risco de falácia a veracidade da afirmação da autora do artigo que “nossos jovens não possuem instrumentos para construir canais mais produtivos para expressar suas frustrações”. Mas a pedagoga fica devendo para seus leitores um nexo entre essas frustrações dos praticantes de tais atos de vandalismo e a suposta intenção de protestar.

É justamente esse nexo o que a resposta da pedagoga não apresentou. Uma coisa é a conclusão de que os alunos estão insatisfeitos, frustrados e não têm “canais mais produtivos para expressar suas frustrações”. Mas disso não se infere necessariamente outra conclusão, a de que os alunos que praticaram os atos de violência o fizeram com a intenção de chamar a atenção para ações ou omissões governamentais. Usando os termos da lógica, a segunda conclusão não se infere da primeira sem um termo médio, que seria o nexo por mim reclamado. No entanto, a resposta enviada com o objetivo de esclarecer sobre isso trouxe elementos que, em princípio, seriam conflitantes com a possibilidade desse nexo. É o caso da afirmação a seguir.

Não quer dizer que os alunos tenham qualquer consciência contra o que estão protestando, porque não têm consciência de seus direitos. Estão apenas expressando de forma caótica – não elaborada – suas frustrações, seu tédio e aborrecimento no cumprimento de obrigações nas quais não vêem qualquer sentido, pois não aprendem nada, não desenvolvem seu potencial e não se preparam para o futuro. Esse panorama é completamente oposto ao que acontece no Chile, onde os alunos têm consciência de seus direitos e os reivindicam de forma organizada e politicamente coerente.

O objetivo central do artigo da pesquisadora foi correlacionar esses fatos a políticas educacioais e buscar soluções. É essa a discussão que o texto dela se propôs a fomentar. Mas ao atribuir um caráter de protesto aos atos praticados, surge a possibilidade de derivações nem sempre produtivas do pretendido debate. Melhor teria sido aprofundá-lo no plano das condições objetivas e de suas origens, que sempre têm implicações políticas, mas tem sua compreensão prejudicada quando se passa para a esfera da caracterização de intenções. Essa tem sido a eterna e nada pedagógica receita da sabotagem de debates

* * * * * * *

Atualização de 28/11/2008  — A pedagoga Dagmar Maria Leopoldi Zibas enviou ontem (quinta-feira) novo e-mail para explicar sua tese. Publico-o a seguir na íntegra, sem qualquer alteração, mas mantenho minhas objeções e agradeço à pesquisadora por seu empenho didático e sua atenção.

Prezado Senhor:

Agradeço muito seu comentário sobre minha tentativa de esclarecimento, pois só a crítica construtiva pode clarear idéias e refinar argumentos.  Neste ponto, preciso recorrer a uma analogia para, mais uma vez, explicar o texto.

Em diversas famílias, crianças injustiçadas, mal tratadas –  ou submetidas a rotinas rígidas, tediosas ou abusivas –  reagem de diferentes maneiras. Adolescentes mais articulados e maduros, que têm noção de seus direitos e dos limites legais do poder paterno, podem tentar dialogar, usando argumentos racionais, plausíveis ou, em casos extremos, organizar uma resistência articulada, exigindo respeito às suas prerrogativas de adolescente e questionando (talvez até em instâncias jurídicas) o poder exercido arbitrariamente pelos pais, ou “os erros da política familiar”.

Usando de uma licença retórica, comparo essa situação ao que acontece com os estudantes chilenos.  Eles compreendem os equívocos da política educacional e a contestam de forma politicamente coerente.  Por outro lado, em outras famílias cujos pais também cometem injustiças ou abusos, mas nas quais os filhos são imaturos, a reação das crianças ou adolescentes pode ser de apatia ou de explosão de violência, quando agridem os pais e quebram objetos.  Essas crianças não compreendem racionalmente que seus pais não têm direito de maltratá-las, mas, mesmo assim, se revoltam.  É um comportamento não pensado, é instintivo, de autodefesa.  Muitas vezes nem correlacionam seus atos violentos ao descaso dos pais, pois podem julgar que o que acontece na família é natural ou irreversível ou que os pais têm todo o direito de maltratá-las.  Entretanto, podem ter arroubos destrutivos, pois a vida familiar pode estar insuportável.  Nesses casos, inconscientemente, de forma primitiva e não elaborada, as crianças estão, sim, “chamando atenção” para seu infortúnio e se opondo à “política familiar”.  Ainda exercendo a liberdade retórica, afirmo que este é o caso dos adolescentes que vandalizam nossas escolas. Ao contrário dos estudantes chilenos que se organizam politicamente e perseguem objetivos claros, nossos jovens, infelizmente, não têm idéia de seus direitos ou da possibilidade de mudar a escola.  Apenas não suportam mais a inutilidade e a pobreza da rotina escolar.  Essa é, sim, uma forma rústica, alienada e “apolítica” de”chamar a atenção” para a precariedade do processo educativo.  Nesse sentido, é, sem dúvida, um protesto inconsciente contra os erros da política educacional.  O fato de que os alunos sejam  incapazes de relacionar o desprezo que sentem pela escola com o fracasso da política educacional não pode impedir que analistas estabeleçam essa dedução lógica.  Não pode impedir que – munidos de melhores instrumentos – nós façamos a leitura adequada dessas explosões de violência. Aliás, fazer ao contrário seria minimizar a catastrófica decadência institucional; seria tripudiar sobre a falta de formação dessa juventude e reduzir sua desesperança à necessidade de “maior punição”, como, aliás, alguns arautos do conservadorismo e do apartheid social já vêm fazendo. Nesse sentido, politizar a questão não significa, absolutamente, sabotar o debate.  Ao contrário, apenas desvelando a dimensão política subjacente ao vandalismo podemos equacionar corretamente o problema e avançar na busca de soluções.

Cordialmente,

Dagmar Zibas.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 27/11/2008 às 6:45

Publicado em Educação, Política

Uma resposta

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  1. Essa história de atribuir a “formas de protesto”, “reinvidicação de direitos não respeitados”, etc. e tal já está desgastado e mostra, quando muito, falta de vontade de meter o dedo na ferida.
    Vandalismo é vandalismo, e não há desculpa que justifique tais ações.
    Na mesma linha vai a agressão a professores, cada vez mais repetido por toda parte.
    É uma pena ainda lermos tais respostas fáceis.

    Lourenço

    quinta-feira, 27/11/2008 at 7:20


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