Laudas Críticas

O Ambientalista Cético, Parte 2: A missão

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O livro foi lançado em 18/09 na França

O livro O Ambientalista Cético, lançado em 2001 pelo estatístico dinamarquês Bjørn Lomborg, parece ter um novo aliado. Acaba de ser lançado na França Les scientifiques ont perdu le nord: Réflexions sur le réchauffement climatique (Os cientistas perderam o norte: Reflexões sobre o aquecimento climático), do físico Serge Galam, diretor de pesquisa do CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas) e professor do Centro de Pesquisas em Epistemologia Aplicada da Escola Politécnica, situada na região metropolitana de Paris.

A notícia desse novo livro chegou a este blog por meio da resenha de Stéphane Foucart, publicada ontem no jornal francês Le Monde. De início, logo após aproveitar o ensejo para dizer que Galam corrigiu nesse livro sua atribuição a Galileu Galilei (1564-1642) da descoberta de que a Terra é redonda — Erastótenes de Cirene calculou o raio do planeta no século III a.C. —, o jornalista afirma que, para o autor, a idéia de que o aquecimento global tem como causa a ação humana se deve à concomitância dos aumentos das emissões de gases-estufa e de aumentos de temperatura.

Na sua página de apresentação da obra de Galam, o site da editora Plon dá as seguintes informações:

Existe uma grande diferença entre uma prova e uma teoria científica. Assim se passa com este aquecimento do planeta do qual nenhum cientista honesto pode provar que o homem seja o único responsável. A possibilidade de uma causa natural aos desregramentos constatados é muito mais angustiante, pois no estado atual das observações não dispomos de nenhum elemento determinante de sua origem, e não há garantias de que possamos enfrentá-la. Nesse assunto, os cientistas se tornaram gurus. Suas opiniões se tornaram uma verdade absoluta. Daí em diante a ciência se torna decretada e não provada, não cabendo a nós nada mais que nos calar, tremer, nos arrepender e pagar por nossa salvação. Pagar no sentido primeiro do termo. O verdadeiro perigo do aquecimento anunciado é social. Efetivamente, é urgente agir.

No entanto, apesar dessas ponderações, o jornalista francês tem outros olhos para a abordagem do novo livro. Para Foucart,

Ele [Galam] não se entrega apenas a uma grosseira caricatura das ciências do clima. Ele as traveste sem rodeios, silenciando-se comodamente sobre quase dois séculos de trabalhos a respeito das propriedades radioativas dos gases após Joseph Fourier (1768-1830) e, mais tarde, Svante Arrhenius (1859-1927).
Tais faltas denunciam uma ignorância quase completa do assunto. Aliás, o autor não se reporta em nenhum momento às fontes da ciência, isto é, às publicações. nenhuma referência científica precisa é citada. A despeito de seu título, a obra nunca aborda a questão da ciência e, no limite, nem o exame de longas e discutidas digressões sobre a noção de prova.

Essas palavras do jornalista francês lembram em parte as conclusões sobre o livro de Lomborg que foram apresentadas no Relatório Anual de 2003 — publicado somente em dezembro de 2004 — do Comitê Dinamarquês sobre Desonestidade Ciêntifica, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação da Dinamarca. O documento enfatizou que Lomborg atacou posições atribuídas pela mídia aos cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), mas que não levou em conta as afirmações deles publicadas em revistas científicas especializadas.

Este blog ainda não pôde conferir os próprios argumentos de Galam. Por isso e por ser ainda cedo, é difícil saber se essa obra do físico francês terá repercussão significativa como teve a de Lomborg. Do outro lado do Atlântico, os recentes pronunciamentos, recheados de imponente e garboso antiintelectualismo, de Sarah Palim, governadora do Alaska e candidata a vice na chapa republicana encabeçada por John McCain, sinalizam que ainda há solo fértil na política para investidas contra o IPCC. Nada contra, por parte deste blog, contestar os cientistas. Mas é no mínimo muito suspeito agregar a essa contestação argumentos contrários a medidas de cunho ambiental que devem ser tomadas independentemente da possibilidade do aquecimento global.

Mas é quase certo que, lamentavelmente, o termo “cético” voltará a ser aplicado como rótulo a quem não tem nada a ver com o ceticismo, exceto no sentido rasteiro que o termo adquiriu. No sentido filosófico original da Σκέψις (sképsis), que é o de investigação permanente em busca da verdade, não há ceticismo nenhum em aderir a um dos pólos de uma disputa relacionada ao conhecimento.

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Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 08/10/2008 às 6:41

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