Laudas Críticas

Armadilhas na busca do rigor do jornalismo científico

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Não foram poucas as mesas-redondas e debates dos quais participei em que uma pergunta relevante acabou sendo feita após o encerramento do evento. Foi o que aconteceu na tarde de anteontem, em Bauru, logo após a mesa-redonda “Comunicação científica em instituições de pesquisa”, que fez parte da programação do 1º Seminário de Comunicação Científica (Lecomciencia) do Laboratório de Estudos em Comunicação, Tecnologia e Educação Cidadã (Lecotec), da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da Universidade Estadual Paulista, câmpus de Bauru.

A pergunta foi feita por uma estudante, provavelmente da FAAC, que gostaria de saber se era possível as redações de jornais e revistas terem cientistas como consultores independentes para assegurar o rigor dos textos jornalísticos na cobertura de ciência. Respondi apressadamente, já no clima de retorno para São Paulo, que a maior dificuldade para pôr uma consultoria desse tipo em prática está na diferença de ritmos de trabalho entre jornalistas e cientistas. Sem falar na grande variedade de especialidades, que implicaria, além da necessidade de ter um quadro muito amplo de consultores, situações de potencial conflito de interesse. E me despedi da estudante dizendo a ela que, além de todas essas dificuldades, cientistas também podem errar, principalmente se forem submetidos a ritmos de trabalho diferentes daqueles a que estão acostumados.

A jovem pareceu ter sido surpreendida por essa resposta. Mas ela é verdadeira. Já trabalhei como editor de revistas científicas da área médica, algumas delas indexadas, e não foram poucas as ocasiões em que tive à minha frente um artigo com erros conceituais grosseiros que haviam sido produzidos pelo autor e passado incólumes durante o peer review, como é chamado o processo de revisão pelos pares. Ressalte-se que não dá para comparar os prazos de cientistas com os dos jornalistas.

Cientistas também erram

A esse respeito, foi muito interessante a apresentação “Erros cometidos por cientistas”, feita pelo jornalista Cássio Leite Vieira, da revista Ciência Hoje, em novembro de 2002 durante a Terceira Conferência Mundial de Jornalistas de Ciência, em São José dos Campos. Nessa exposição, foram mostrados em detalhes erros em textos especializados e também em publicações de divulgação cometidos por Albert Einstein, Stephen Hawking e vários outros pesquisadores de renome.

Vieira já havia comentado esse assunto em seu artigo “Jornalismo sobre ciência — a linguagem, a formação e o erro”, publicado na revista Ciência & Ambiente (nº 23, julho-dezembro de 2002), no qual ele afirmou:

Porém, só os jornalistas erram? Sabemos que não. Para mim, isso ficou mais evidente depois que passei a trabalhar como editor de textos de ciências exatas para a revista Ciência Hoje. Nesse cargo, que exerço até hoje, tenho acesso aos pareceres dos pares científicos, isto é, comentários de consultores sobre os artigos apresentados para publicação na revista. Muito comumente, esses consultores indicam erros de conteúdo, apontam trechos que deveriam ser cortados, pedem para alterar dados desatualizados, corrigem erros de cálculos ou equívocos quanto a passagens históricas. Algumas vezes, é a própria edição que se incumbe de fazer isso.
O que tento mostrar é que, caso o texto fosse publicado em seu formato original, ele também traria vários erros — erros são bem comuns nos artigos escritos por cientistas, sendo que a exceção é mesmo o texto em que os consultores não pedem para que informações ou trechos sejam modificados pela edição. Exceção também são os textos negados para publicação por sua baixa qualidade de conteúdo e alta quantidade de erros. Esses últimos são, como disse, minoria, mas o fato é que eles existem.

Um assunto recorrente nas discussões sobre a necessidade de eliminar ou reduzir erros em reportagens sobre ciência é a submissão do texto final à fonte para aprovação. E esse recurso já foi sistematicamente adotado em algumas publicações, como a revista Superinteressante em seus primórdios, nos anos 80 do século passado. A aceitação desse recurso implica dar às fontes das reportagens um status diferenciado daquelas das outras áreas do jornalismo, como política, economia e polícia, por exemplo. No entanto, nenhum repórter que preza a profissão submeteria seu texto à anuência prévia do parlamentar, ministro ou delegado de polícia que teria entrevistado. E mesmo que o fizesse, só conseguiria concluir um texto se tivesse consultado uma única fonte ou várias fontes com a mesma visão sobre o tema da reportagem, o que também fere os princípios do bom jornalismo.

Censura médica

A tentativa mais esdrúxula de oficializar a submissão de textos jornalísticos à aprovação prévia das fontes foi feita pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) por meio de sua Resolução nº 1.701, de 25/09/2003, cujo artigo 7º estabelecia: “Nas entrevistas, o médico deverá exigir a revisão do texto antes da publicação.”

Além de demonstrar total desconhecimento do fato de que a revisão prévia pelo entrevistado pode comprometer os prazos editoriais, essa Resolução tinha implicações de ordem jurídica no plano dos direitos e garantias fundamentais assegurados pela Constituição, como mostrou o então presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), jornalista Marcelo Beraba, em seu ofício ao CFM, de 27/10/2003, no qual pediu a reconsideração dessa norma:

O entrevistado, seja ele um médico, um especialista de uma outra área do conhecimento, uma autoridade pública ou quem quer que seja, é uma fonte de informação, que terá suas declarações confrontadas com as de outras fontes, exceto em reportagens exclusivamente descritivas e sobre assuntos de complexidade quase nula.
Conseqüentemente, ao submeter um texto de reportagem escrita ou de matéria de radiojornalismo ou de telejornalismo a prévia apreciação de uma das fontes, o jornalista compromete a isenção de seu trabalho, na medida em que abrirá espaço para prevalecer o ponto de vista da fonte que teve o privilégio de acesso. Por outro lado, se houver submissão prévia às diferentes fontes de uma matéria, o resultado final será um texto insípido e esvaziado de sua dimensão crítica se houver anuência de todos os entrevistados, ou a reportagem será abortada pelo impasse.

Além desse argumento, o ofício da Abraji ressaltou também que o dispositivo do CFM era inconstitucional, na medida em que o inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal estabelece: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. Graças a essa iniciativa da Abraji, ao apoio de outras entidades e a manifestações de diversos juristas em artigos e reportagens, o CFM alterou esse artigo de sua resolução em 22/12/2003 (ver nota da Abraji “Conselho Federal de Medicina modifica ‘lei da mordaça'”).

Há muito a ser feito para aprimorar o jornalismo na área de ciência. No que diz respeito às fontes, é crescente o interesse de pesquisadores em cursos e em treinamentos para melhorar seu relacionamento com a imprensa. Do lado dos jornalistas, já se avançou significativamente no Brasil em termos de capacitação para a cobertura de ciência, mas o essencial continua sendo o grande interesse do jornalista pela ciência, por sua história e pelos seus métodos.

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Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 13/08/2008 às 1:56

Uma resposta

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  1. O que me deixa triste nesse meio é a falta de espaço para jornalistas que gostam e estudam a ciência para não cometer esses erros – claro que ninguém está imune.

    Isis Nóbile Diniz

    terça-feira, 07/10/2008 at 12:46


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