Laudas Críticas

Música alta faz as pessoas beberem mais?

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Apesar do grande interesse público e da repercussão em torno da chamada “Lei Seca”, que está em vigor em todo o país há exatamente um mês, não teve a devida atenção da imprensa a notícia sobre uma recente pesquisa francesa que estabelece uma relação entre músicas em alto volume em bares e o aumento de consumo de bebidas alcóolicas. Nos grandes veículos de comunicação — e não só no Brasil —, o que houve foi apenas a republicação das mesmas notas que foram enviadas por agências internacionais de notícias.

“Pesquisas anteriores mostraram que a música com um ritmo mais rápido pode fazer com que se beba mais rápido, e que a presença de música pode levar a pessoa a passar mais tempo no bar”, disse o psicólogo francês Nicolas Guéguen, coordenador do estudo, segundo o texto “Música de batida forte nos bares faz as pessoas beberem mais”, publicado na sexta-feira (18/07) pelo UOL, G1 e Último segundo (do IG), mas produzido originalmente pela Agence France Presse. “Esta é a primeira vez que um enfoque experimental em um contexto real descobriu os efeitos da música forte sobre o consumo de álcool”, acrescentou o pesquisador, que é professor da Universidade do Sul da Bretanha, campus de Lorient.

A pesquisa não explica por que o aumento de consumo de bebida é diretamente proporcional ao volume do som ambiente. Sua conclusão é uma correlação estatística: “Quando a música estava mais baixa, cada cliente pedia em média 2,6 cervejas. Com a música alta, pediam 3,4. O tempo para tomar cada bebida caía de 14min51 para 11min45”, afirma a nota “Música alta faz cliente beber mais, diz estudo”, da Agência Reuters, publicada pelo Globo Online e pela Agência Estado, além do UOL e do G1, que divulgaram também o texto da Agence France Presse.

Os pesquisadores chegaram a essa conclusão com base em dados obtidos em dois bares em três noites de sábado. Foram observados 40 homens de 18 a 25 anos, consumidores de cerveja. Intitulada “Sound Level of Environmental Music and Drinking Behavior: A Field Experiment with Beer Drinkers”, a pesquisa será publicada na edição de outubro da revista Alcoholism: Clinical & Experimental Research.

Nos jornais e portais que consultei, inclusive em alguns estrangeiros, essa notícia não teve o investimento de reportagem que merecia. As duas agências internacionais divulgaram a informação na sexta-feira, mas ela estava disponível antes, para jornalistas credenciados, na nota nota “Loud music can make you drink more, in less time, in a bar”, do serviço de notícias Eurekalert, da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). O e-mail e o telefone de Guéguen estavam disponíveis nessa nota.

Teria sido interessante, por exemplo, perguntar ao coordenador desse estudo qual é a opinião dele sobre os níveis de alcoólicos tolerados na França para motoristas e, se ele souber, em outros países da Europa. O pesquisador tem muita familiaridade com dados numéricos, pois é autor de um livro que trata justamente disso: Manual de Estatística para Psicólogos, publicado em 2000 em Portugal.

E também teria sido interessante entrevistar gerentes e donos de bares, para perguntar a eles se eles já não conheciam, por experiência, a conclusão dessa pesquisa, pois os autores do estudo não descartam a hipótese de que o que leva as pessoas a beber mais é a dificuldade para conversar em meio à barulheira. E, para os que gostam de fazer perguntas em tom de brincadeira, daria até para indagar a especialistas e legisladores se não seria interessante estabelecer em nosso Código Nacional de Trânsito um nível mínimo de dosagem alcoólica permitido para motoristas e baixar uma lei que obrigue os bares a diminuir o volume do som ambiente.

PS — Eu já havia comentado a respeito da homogeneização do noticiário de ciência em meu artigo “A clonagem das notícias de ciência”, publicado em fevereiro de 2006 na revista ComCiência, do Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo Científico, da Unicamp.

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 20/07/2008 às 12:40

Publicado em Ciência, Saúde

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