Laudas Críticas

O aniversário do “inventor” do cristianismo

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Está aí um assunto do qual parece que os meios de comunicação não se deram conta, ironicamente nem os paulistanos e paulistas em geral: a datação aproximada de 2008 como aniversário de dois milênios do apóstolo Paulo. Esse é o gancho do interessante artigo de Dom Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo, publicado hoje no Estadão (“São Paulo, 2 mil anos”, pág. A2), que trata do Ano Jubilar Especial aberto pelo Papa Bento XVI a partir de 28 de junho.

No quinto parágrafo desse texto, o primaz da Igreja Católica paulistana trata de um tema espinhoso, que é o tema da exata localização do limite entre o judaísmo e o início do cristianismo, ao mencionar o teólogo luterano alemão William Wrede (1859-1906):

Mesmo sem endossar a afirmação de Wrede, um estudioso do início do século 20, segundo o qual é Paulo o verdadeiro fundador do cristianismo, é inegável a importância do grande apóstolo para a Igreja. Mais que os outros apóstolos e discípulos de Jesus Cristo, ele difundiu o Evangelho entre os povos e fez uma primeira aproximação da mensagem cristã com as culturas da época, dando um cunho universalista ao “caminho” vivido pelos cristãos. Isso foi fundamental para que, ao longo dos séculos, os povos – sem deixarem de lado a sua identidade cultural – pudessem conviver na mesma grande comunidade de fé.

Autor de duas obras de referência sobre as origens do cristianismo — Das Messiasgeheimniss in den Evangelien (O Mistério do Messias nos Evangelhos), de 1901, e Paulus, de 1904 —, Wrede foi um dos primeiros estudiosos a analisar com profundidade a atuação de Paulo na construção, a partir do ideário da cultura grega, de um mito da redenção que não teria existido na pregação original de Jesus e de seus seguidores imediatos.

No final das contas, revirar a pregação e a história de Paulo implica cutucar no tema do Jesus histórico. E é impressionante o enorme abismo que existe em relação a esse tema entre a visão oficial das igrejas cristãs e os resultados de pesquisas científicas, inclusive realizadas por sacerdotes. Embora eu já tivesse uma noção disso, só percebi o tamanho do vespeiro com as reclamações à reportagem que escrevi em 2001, quando era redator-chefe da revista Galileu, a reportagem “A invenção do Cristianismo”. Irônicas, raivosas ou virulentas, essas contestações, inclusive por parte de alguns professores universitários, tinham todas uma característica comum: nenhuma delas entrou no mérito das pesquisas citadas.

Voltando às palavras acima destacadas do artigo, é importante observar como elas, cuidadosamente, não comprometem o currículo do seu autor — ex-professor de filosofia e teologia e mestre e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma — em relação ao conhecimento atual da história do pensamento cristão: o cardeal não diz discordar de Wrede; apenas afirma não endossá-lo. Se discordasse, ou seja, se rejeitasse a idéia da relação entre as concepções gregas e a pregação paulina, passaria por ingênuo ante reiterados estudos que mostram a importância das palavras não só de Paulo, mas também do evangelista João, para o arcabouço conceitual que serviu de base para os malabarismos teóricos dos Doutores da Igreja nos primeiros séculos do cristianismo.

Um desses primeiros Doutores, Justino de Cesaréia (100-165 d.C.), venerado como santo não só no catolicismo e por ortodoxos gregos e orientais, mas também por anglicanos e luteranos, se consagrou como apologista justamente por compatibilizar a fé cristã, da forma pregada por Paulo, com o platonismo. Sobre isso, vale ressaltar as palavras de Étienne Gilson (1884-1978):

Para ele [Justino], Heráclito e os estóicos não são estranhos ao pensamento cristão; Sócrates conheceu “parcialmente” Cristo: de fato, ele descobriu certas verdades pelo esforço da razão, que ela própria é uma participação no Verbo, e o Verbo é Cristo; Sócrates pertence, pois, aos discípulos de Cristo. Em resumo, pode-se dizer a mesma coisa de todos os filósofos pagãos que, tendo pensado o verdadeiro, tiveram os germes dessa verdade plena que a revelação cristã nos oferece no estado perfeito.1

Para São Justino e os outros apologistas do cristianismo, como Taciano (c. 120-180 d.C.), Atenágoras (133-190 d.C.), Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) e Orígenes de Alexandria (185-253 d.C.), tratava-se, sobretudo, de justificar a fé cristã diante da filosofia grega, estratégia já delineada pelo apóstolo cerca de cem anos antes deles. “Paulo enxergava a direção que tomava o mundo e agiu para fazer o cristianismo crescer no futuro”, disse o padre católico e teólogo Hermínio Andrés Torices, da PUC de Campinas e do Instituto Teológico de São Paulo, em minha reportagem de 2001 acima citada.

Vale lembrar que, antes de Wrede, Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Para Além do Bem e do Mal (1885) qualificou o cristianismo como uma vulgarização da metafísica platônica,2 e, em Aurora: Pensamentos sobre os preconceitos morais (1881), afirmou: “Este [Paulo] é o primeiro cristão, o inventor do cristianismo! Até então havia apenas alguns sectários judeus.”3

Enfim, dado o gancho trazido por Dom Odilo, bem que a imprensa poderia produzir matérias frias interessantes sobre o apóstolo Paulo, que foi certamente um dos mais geniais personagens de toda a História.

Em tempo — Para os interessados na vida e obra de Paulo, vale a pena ler Paulo: Uma biografia crítica, do padre e teólogo irlandês Jerome-Murphy O’Connor, lançado no Brasil em 2000 pela Edições Loyola.

Referências

  1. Étienne Gilson. A Filosofia na Idade Média. Tradução de Eduardo Brandão. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 6.

  2. “(…) pois o cristianismo é o platonismo para o povo”. Friedrich Nietzsche. Mas allá del Bien y del Mal: Preludio de una filosofía del futuro. Tradução de Andrés Sánchez Pascual. Madrid: Alianza Editorial, 1977, p. 18.

  3. Friedrich Nietzsche. Obras Incompletas. Seleção de textos de Gérard Lebrun. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1974 [coleção Os Pensadores], vol. XXXII, p. 174.

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 12/07/2008 às 11:02

Publicado em Filosofia, Religião

4 Respostas

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  1. Tuffani! Muito interessante o seu texto… É interessante ler sobre assuntos que interferem diretamente na nossa sociedade. Bem como, é importante conhecer o que grandes pensadores escreveram sobre a história desta religão que mudou a configuração de alguns continentes.

    Sucesso.

    Abraços

    Efraim Neto

    domingo, 13/07/2008 at 12:33

  2. Tuffani, sou teu fã. Com tua permissão, e os devidos créditos, claro, usei uma escrita tua no meu blog… abç

    everton

    Blog do Capeta

    segunda-feira, 14/07/2008 at 13:15

  3. Capeta, que susto! Pensei que você estava aprontado alguma diabrura com minhas palavras sobre o texto do cardeal. Visitei seu blog e vi que o assunto é sobre a maligna obrigatoriedade do diploma em jornalismo. Ufa! Já estava com medo de as beatas caírem de pau em cima de mim. Obrigado pelo interesse.
    Abraço,
    Tuffani

    Maurício Tuffani

    segunda-feira, 14/07/2008 at 13:31

  4. O fictício Paulo simboliza o esforço de resgate dos gregos do judaísmo. Mas a questão é a quem interessava o cristianismo? Um movimento de tal porte que varou os séculos firmemente não pode ter surgido do acaso e nem do esforço de um homem só. Tentar entender o surgimento do cristianismo por intermédio do Novo Testamento é perda de tempo. Por quê? Porque o NT é uma obra literária e autobiográfica e nada tem a ver com a realidade. O cristianismo não surgiu na Palestina, Jesus nunca existiu e nem os judeus têm nada com isso. Dois links esclarecem a esse respeito.
    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/a-antiga-dec-ncia-crist
    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/e-o-mundo-ocidental-quase-foi-judeu

    Ivani Medina

    terça-feira, 23/07/2013 at 10:28


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