Laudas Críticas

A crise da imprensa não é só empresarial

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Na semana passada (03/07), em seu blog Código Aberto, hospedado no Observatório da Imprensa, o jornalista e meu amigo Carlos Castilho fez importantes considerações sobre os rumos do jornalismo. Para situar o gancho de seu post “A semana da ‘grande degola’ na imprensa norte-americana”, nada melhor que suas palavras de abertura: “A última semana de junho vai entrar para a história dos Estados Unidos como o período do pior massacre de empregos desde que Benjamin Harris publicou o Publick Ocurrences, o primeiro jornal norte-americano, em 1690″. Para quem ainda não o leu, recomendo sua leitura.

Faço, porém, algumas objeções a uma afirmação relevante desse texto de Castilho, que está no seguinte trecho:

A intensificação da incerteza no meio jornalístico tornam necessárias duas iniciativas inadiáveis:

1. Esclarecer que a crise é das empresas jornalísticas e não do jornalismo como atividade;

2. Acabar de uma vez por todas com a ingênua atitude de achar que a transparência na imprensa é uma ameaça à sobrevivência dos jornais.

Concordo com o item 2) e em parte com o item 1), mais precisamente com a idéia de que existem alternativas para o jornalismo sobreviver como atividade empresarial. No entanto, o empresarial é apenas um dos aspectos do jornalismo “como atividade”. Paralelamente às transformações empresariais, estão ocorrendo também outras, como a tecnológica, a das relações funcionais e, acima de tudo, do ethos profissional.

Na verdade, as transformações desses aspectos nunca aconteceram isoladamente ao longo da história do jornalismo. Logo após a Revolução Francesa, o que era antes uma atividade artesanal de economia elementar e realizada por empreendedores isolados, passou a ser um negócio cada vez menos deficitário, desempenhado por intelectuais em geral, já com uma nítida divisão de funções (diretor, editor, redator) e determinado a pregar os ideais do Iluminismo, com valores e objetivos pedagógicos e políticos predominantes voltados para a destruição do Absolutismo e do poder eclesiático, como bem destacou Ciro Marcondes Filho, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, em seu livro Comunicação e Jornalismo: A saga dos cães perdidos (São Paulo: Hacker Editores. 2000). Com o avanço da Revolução Industrial, e já com a consolidação da burguesia, o jornalismo passou a ser um empreendimento executado principalmente por jornalistas profissionais, lucrativo e norteado pelos ideais de neutralidade e imparcialidade, uma vez que passou a noticiar a sua própria classe de origem. Como bem destaca Marcondes, a informação, que antes era capital, passou a ser mercadoria.

Várias transformações ocorreram durante o século XX nos aspectos funcionais, tecnológicos, de modelo de propriedade e, inclusive, dos valores jornalísticos determinantes, mas não cabe aqui tratar disso em detalhe. O que importa é que a mercadoria do jornalismo, a informação, teve recentemente uma significativa transformação, na medida em que passou a ser confundida cada vez mais com o entretenimento. E essa é uma tendência que se mostra crescente, na medida em que a ela são solidárias as tranformações em curso dos outros aspectos da atividade. No modelo de propriedade, com as conglomerações e fusões com empresas de outros ramos de atividade. No aspecto funcional, temos o crescente contingente de jornalistas prestadores de serviços e isolados das redações, os editores cada vez mais confundidos com executivos de negócios e a erosão da imagem e do papel do gatekeeper, pois rompeu-se de vez para o bem e para o mal, o fluxo unilateral da informação.

Não se trata de olhar com saudades para um paraíso perdido, nem para um passado glorioso, o que, na verdade, nunca existiu. A imprensa sempre dançou de acordo com a música de seu tempo. Seus grandes feitos sempre se deram por meio da exploração de brechas, pois o famigerado “sistema” nunca foi capaz de impedi-las.

O que importa é termos clareza de que a importância da mercadoria informação não é mais a mesma. Ela era clara, por exemplo, no século passado, nos anos 70, até mesmo para uma socialite de Washington como Katharine Graham (1917-2001), que teve de assumir o Washington Post após a morte de seu marido. Quando explodiu em suas mãos o caso Watergate, e seus amigos da Casa Branca telefonaram pedindo interferência, ela soube muito bem dizer não. Mas esse foi o começo do fim de uma longa fase da imprensa como negócio conduzido por empresários que praticamente lidavam só com essa mercadoria, a informação, e que sabiam que, sensacionalista ou sóbria, ela exigia não a tal da neutralidade ou imparcialidade, mas a independência.

A confusão da informação com o entretenimento, a homogeneização temática do noticiário, a influência de empresas e governos nas pautas, a decadência do interesse público e outras tranformações de valores jornalísticos foram enfaticamente mostradas como tendências crescentes nos três primeiros relatórios anuais (2004, 2005 e 2006) do projeto The State of the News Media. Nos dois anos seguintes, seus relatórios destacaram muito mais as estratégias para sobreviver à crise nos negócios, mas não apontaram nenhuma alternativa para reverter as tendências apontadas anteriormente. No final das contas, apesar de haver luz no final do túnel para os negócios, tudo leva e crer que a crise é também do jornalismo como atividade, e que ele, para sobreviver, está se transformando também no que diz respeito aos seus valores.

EM TEMPO (acrescentado em 12/07):

O jornalista free-lancer Luís Eblak enviou ontem (11/07) importantes observações críticas a este post, que podem ser lidas no espaço de comentários. Em função das considerações desse profissional, com o qual já tive o prazer de trabalhar junto na Folha, acho importante ressaltar que o meu texto acima não foi suficientemente claro no que diz respeito ao período em que a informação, no jornalismo, deixou de ser capital e passou a ser mercadoria. Eblak, que também é mestre em História pela USP, observou com razão que isso se deu na primeira metade do século XIX. Eu fiz uma menção ao “avanço da Revolução Industrial” que foi muito vaga, embora não seja errada. A fim de esclarecer essa periodização, deixo disponível um quadro que é uma reelaboração a partir de outro — que consta no livro acima citado de Ciro Marcondes Filho —, feita por mim para uma apresentação minha em 2005 e para um artigo que estou escrevendo. O quadro reelaborado, que mostra o que consta original e destaca o que acrescentei, pode ser visto clicando aqui. Agradeço ao Eblak por suas observações.

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Written by Mauricio Tuffani

quarta-feira, 09/07/2008 às 10:28

Publicado em Comunicação, Jornalismo

3 Respostas

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  1. Oi, Tuffani,
    O objetivo do seu blog foi atingido… Vc me fez pensar sobre a questão… Permita-me um comentário, ousando discordar um pouquinho de duas das transformações apresentadas no seu raciocínio:
    1) tendo a interpretar que o jornalismo é (ou pelo menos flerta com o) entretenimento desde o início do século XIX nos EUA e em alguns países da Europa. Isso porque desde então, o fenômeno da penny press soube se aproveitar de uma época sem outros meios de entretenimento. Tanto é que nesse período o jornalismo que surgiu descambou para o sensacionalismo (principalmente nos EUA de Pulitzer e Hearst)…
    2) Até por ter a visão que apresentei acima, tendo a achar também que a informação se transformou em mercadoria desde a primeira metade do século XIX, com esse mesmo episódio do penny press… Não é mesmo?
    abçs
    Eblak

    Anonymous

    sexta-feira, 11/07/2008 at 15:03

  2. Olá Eblak,
    Suas afirmações são corretas, mas não creio que elas conflitem com as minhas. Mas reconheço que eu deveria ter sido menos vago.
    1) De fato, o jornalismo flerta com o entretenimento desde seus primórdios (na verdade, desde os antigos impressos gutemberguianos sobre monstruosidades e coisas do gênero). Mas meu ponto é o da CONFUSÃO cada vez maior da informação com o entretenimento.
    2) No que se refere à transformação da informação em mercadoria, sua interpretação também está correta, mas foi exatamente o que eu disse, pois me referi ao “avanço da Revolução Industrial”. Eu deveria ter sido mais preciso, pois o livro que cito de Ciro Marcondes Filho, por exemplo, situa essa fase a partir de 1830, ou seja, no período ao qual você se refere. Além do aspecto da penny press, a conversão em mercadoria se caracteriza também pelo fato de que a informação jornalística deixou de ser um bem “bancado” pela burguesia ascendente em sua luta contra o Absolutismo. Passada essa fase, surgiu a necessidade de lucro, ou seja, o jornalismo teve de ser auto-sustentável.
    Obrigado por suas observações.
    Abraço,
    Maurício Tuffani

    Maurício Tuffani

    sexta-feira, 11/07/2008 at 15:44

  3. […] já destacamos em 09/07/2007 no post “A crise da imprensa não e só empresarial“, a confusão da informação com o entretenimento, a homogeneização temática do […]

    Observatório da Mídia

    sexta-feira, 03/04/2009 at 14:52


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