Laudas Críticas

Dubitandum coisa nenhuma

with 3 comments

Eu estava decidido a manter este blog inativo por mais tempo. Mesmo tendo publicado artigos em jornais, não me dispus a apresentá-los neste espaço, nem mesmo por sugestão de amigos e leitores. Porém, há poucos dias, já em férias, acabei acidentalmente topando com um dos mais colossais amontoados de asneiras dos últimos tempos. E foi cometido por um blogueiro que parece ter um alto índice de visitação. Hoje, ao ler novamente esse texto, constatei que apesar de todas as críticas que lhe foram dirigidas, seu autor não fez nenhum reparo às bobagens que perpetrou. Não vou dizer o nome dele; não me agrada a idéia de citar nominalmente alguém que consegue escrever tanta besteira de uma só vez e permanecer impávido. Mas é preciso, pelo menos, já que me dou ao trabalho de comentar esse lamentável caso, apontar o texto ao qual me refiro: “Errar é humanas”.

Trata-se de um post que se contrapõe à obrigatoriedade das disciplinas de filosofia e de sociologia no ensino médio, conforme estabelece a Lei nº 11.684, de 2 de junho de 2008, sancionada pelo vice-presidente em exercício José de Alencar, que alterou o texto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996. Tenho algumas dúvidas sobre a conveniência, neste momento, de instituir essa obrigatoriedade. É um assunto que vale uma boa discussão, coisa que não acontecerá de modo nenhum se depender de pessoas como o indigitado blogueiro, que absurdamente se intitula especialista em educação e cuja argumentação pode ser resumida ao seu último parágrafo, transcrito a seguir.

No primeiro semestre da faculdade, li um texto muito bom de Paulo Freire, em que ele dizia que era preciso read the word to read the world (ler a palavra para ler o mundo). Não sei se ele o escreveu em inglês ou se a tradução foi especialmente fortuita, mas o enunciado é verdadeiro: é impossível entender a complexidade do mundo se você não sabe ler. É impossível estudar filosofia se você não sabe ler. Essas aulas serão apenas uma maneira mais escancarada de se praticar o doutrinamento do marxismo rastaquera que impera em nossas escolas. Eu particularmente ficaria muito contente se os nossos alunos saíssem do ensino médio ignorantes de filosofia e sociologia, mas conseguindo ler um texto e entendendo-o, para que tomassem suas próprias conclusões filosóficas ao lerem seus próprios livros. E se fosse para incluir uma nova disciplina em nosso currículo, adoraria que fosse estatística. A maioria dos alunos a detestaria e aprenderia muito pouco, mas talvez uma minoria conseguisse extrair daí o ferramental que lhe permitiria julgar, com a sua própria racionalidade, a veracidade das teorias com que são bombardeados na escola, nas ruas, na mídia. O que de melhor pode haver no processo educacional do que a capacidade de não apenas instigar a capacidade de questionamento dos alunos, mas também dar-lhes o instrumental que lhes permitirá solucionar esses próprios questionamentos sozinhos?

Em primeiro lugar, reconheço que o marxismo vulgar no âmbito das humanidades é um fator que não pode ser desconsiderado não só no tema em pauta, mas até mesmo no que se refere às questões do ensino superior. No entanto, se o baixo nível em uma disciplina fosse motivo para ela não ser lecionada nas escolas, esse mesmo argumento poderia ser aplicado às várias outras outras matérias. O próprio blogueiro, aliás, relata no mesmo post o mau desempenho dos estudantes brasileiros em matemática. Como justificar então a inclusão da estatística como disciplina nas escolas? Não haveria outra questão de fundo a ser tratada previamente?

Um dos pressupostos do texto expelido pelo blogueiro está na sua simplória visão das diversas áreas do conhecimento, em que pese sua tentativa de fazer considerações de ordem filosófica e epistemológica. Ele, que afirma que só descobriu no mestrado que “não entendia nada de matemática”, exalta a superioridade dessa disciplina sobre as demais ciências dizendo uma enorme asneira: “Sem uma comprovação empírica, qualquer pensamento é apenas uma tese”. Ora, se isso fosse verdadeiro, a matemática, a estatística, a computação e a própria lógica seriam ciências sem possibilidade nenhuma de comprovação de seus teoremas, pois nenhuma delas tem conteúdo empírico; seus procedimentos são inteiramente dedutivos. Em outras palavras, a julgar pelas próprias palavras do auto-intitulado especialista em educação, ele continua sem entender nada de matemática.

Não bastassem em um único texto essa e outras demonstrações de ignorância, que não valem a pena ser repisadas, dou-me apenas ao trabalho de ressaltar a incapacidade de compreensão textual do soi-disent especialista em educação, registrada no trecho a seguir, que antecede o outro, acima transcrito. Não sou estudioso de Paulo Freire, nem tenho muita paciência com o endeusamento que fazem desse grande educador e seus ensinamentos. (E, pelo que conheço sobre o homem que ele foi, creio que nem ele mesmo toleraria isso.) Mas é revoltante ver tamanha besteira ser afirmada com tanta segurança a respeito dele, que em diversas ocasiões disse justamente o contrário:

A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançado por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado – e até gostosamente – a “reler” momentos fundamentais de minha prática, guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão crítica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo. Ao ir escrevendo este texto, ia “tomando distância” dos diferentes momentos em que o ato de ler se veio dando na minha experiência existencial. Primeiro, a “leitura” do mundo, do pequeno mundo em que me movia; depois, a leitura da palavra que nem sempre, ao longo de minha escolarização, foi a leitura da “palavra mundo”.

(FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. São Paulo: Cortez & Moraes, 1986, p. 113.)

Um aspecto importante é que o indigitado blogueiro tem razão ao mencionar o “marxismo rastaquera que impera em nossas escolas”. No entanto, em vez de contextualizar o tema em pauta, essa menção nada mais faz que cumprir com um objetivo estratégico que já está se tornando um padrão na disputa por atenção de internautas: emitir juízos de valores para nichos específicos. Em outras palavras, trata-se de uma estratégia discursiva amplamente usada por “críticos” à direita e à esquerda, baseada em dizer justamente aquilo que suas platéias querem que seja dito, não só para servir a elas como espelho de suas convicções, mas também para abastecer seus repertórios de argumentos, dando-lhes a impressão de uma atualização constante de conhecimentos, mas que não passa de uma repetição, travestida como novidade, da mesmice a que se condenam.

Não vale a pena prosseguir em considerações sobre asneiras proferidas com tamanha empáfia, o que só pode ser possível quando se chega às raias da ignorância e sem um mínimo de espírito crítico. No final das contas, toda a impermeabilidade às críticas recebidas e sua assertividade desenfreada mostram que o título Dubitandum, desse blog, não passa de um ornamento esvaziado de sentido real.

<<< Página Principal

Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 07/07/2008 às 16:13

Publicado em Ciência, Educação, Filosofia

3 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Dei uma passada de olhos no texto do ignorante.
    Se o rapaz entende de alguma coisa, é de retórica.
    Veja a resposta dele às críticas no site da Veja.

    Igor Zolnerkevic

    sábado, 12/07/2008 at 16:18

  2. […] desse blog, não passa de um ornamento esvaziado de sentido real. … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]

  3. Creio que você não entendeu o ponto de vista dele

    Carlos

    segunda-feira, 30/03/2009 at 19:21


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: