Laudas Críticas

Impacto ambiental, colunismo e anacronismo

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Pela primeira vez, entrei no blog da colunista Tereza Cruvinel, de O Globo. Tive essa curiosidade porque, ao acessar a versão online do jornal, deparei-me com o link do blog dela, e lembrei que há poucas semanas ela engrossou o coro dos afoitos pelo rápido licenciamento ambiental da construção das usinas do Rio Madeira.

O brado da colunista pela liberação das obras sob a retórica da necessidade de investimentos urgentes em infra-estrutura — entenda-se resolver tudo com megaconstruções — talvez não tenha sido um mero desdobramento da Operação Madeira, como bem explicou o jornalista Carlos Tautz. Vejam a performance de Cruvinel, abrindo o coração em seu post:

Não é fácil amar Brasília, a fria, a distante, num país que não se orgulha de tê-la plantado aqui, onde só os lobos uivavam, para que a civilização dos caranguejos, o Brasil que vivia agarrado à costa, pudesse apossar-se de sua vastidão esquecida, empurrando a civilização costeira até a Amazônia.

Longe de mim dar uma de ecochato com o apelo ao chavão da “cumplicidade com o modelo vigente” e coisas do gênero. Mas é preciso estar muito por fora do que o mundo aprendeu nas últimas décadas para dizer uma bobagem como essa, que nem mesmo as grandes corporações se atrevem a propalar.

O problema não está na menção à “civilização dos caranguejos”, inspirada nas palavras do primeiro historiador brasileiro, Frei Vicente de Salvador (1564-c.1635), em sua História do Brasil, mas no apelo ao bordão do avanço sobre a “vastidão esquecida, empurrando a civilização costeira até a Amazônia”.

Tamanho é o anacronismo dessa retórica, que ela se enquadra perfeitamente no espírito predatório brilhantemente caracterizado por Sérgio Buarque de Holanda em sua obra Raízes do Brasil e por Warren Dean em seu livro A Ferro e Fogo: A história da devastação da Mata Atlântica.

Vale lembrar como o tema das usinas do Madeira tem sido tratado por grande parte do jornalismo opinativo. Por exemplo, no Globo, na edição de 26/04, o editorial “Risco ambiental” (pág. 6) afirmou que excesso de burocracia somado com a ação de “grupos ambientalistas radicais” paralisa inúmeros projetos do PAC, e citando o caso do Madeira como exemplo, afirmou: “o Ibama já avisou que não há sequer prazo para decidir sobre a licença”.

Por outro lado, nessa mesma edição, a coluna de Míriam Leitão “Conflito das usinas” pôs os pingos nos is:

Pelos próprios cálculos de vida útil das usinas do Rio Madeira, ao final de dez anos, os sedimentos seriam 10% do lago, ou seja, metade estaria assoreada. E quem disse isso não foi o Ibama, mas o estudo de impacto ambiental feito pelas empresas que querem construir as hidrelétricas. Por todas as dúvidas, o Ministério do meio Ambiente ainda não tem prazo para conceder a licença prévia das usinas.

No dia seguinte (27/04), a coluna de Tereza Cruvinel (“Usinas: cruz e caldeirinha”, pág. 3), sem fazer as contas com os números apresentados por sua colega, fez o que nem o editorial do dia anterior se dispôs a fazer, embarcando na chantagem da retórica do apagão energético. Disse que sem as usinas do Madeira será preciso apelar para Angra 3 e mais térmelétricas a carvão, impedindo o Brasil de honrar os compromissos de redução de emissão de gases-estufa.

Mas, nessa mesma edição, pelo segundo dia consecutivo, Míriam Leitão bateu novamente como se deve nessa retórica chantagista em sua coluna “MMA x MME”, descaracterizando as usinas do Madeira como alternativa viável e, de quebra, lembrando o caso do estudo de impacto ambiental da Usina Hidrelétrica de Barra Grande, no vale do Rio Pelotas, na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que começou a operar em 5 de julho de 2005:

Num país normal, os autores de um estudo tão mentiroso seriam responsabilizados criminalmente. No Brasil, valeu a lei do fato consumado. Quando se descobriu a mentira, a barragem estava pronta e a mata levou a pior: foi alagada.

E é assim que nosso país tem avançado sobre sua “vastidão esquecida”.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 15/05/2007 às 9:03

Publicado em Ambiente, Jornalismo

2 Respostas

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  1. Estou quase apostando que não foi coincidência isso e o fato dela ter sido indicada para a TV Pública…

    []s,

    Roberto Takata

    Anonymous

    quarta-feira, 17/10/2007 at 4:02

  2. O trecho sobre Brasília é realmente de matar. Por sinal, sou da opinião de que a construção da nossa capital atrasou em pelo menos 20 anos o desenvolvimento do Centro-Oeste (e da Amazônia, enfim). O que se enterrou de dinheiro naquele esconderijo de parlamentares poderia ter sido usado para um enorme programa de irrigação / logística que faria do Brasil um dos países mais eficientes do mundo.

    Enfim, tarde demais. Só nos resta afogar a floresta.

    osrevni

    terça-feira, 15/01/2008 at 11:52


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