Laudas Críticas

Sindicalistas desqualificam jornalista assassinado

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Não bastasse o fato de ter sido assassinado em circunstâncias associadas às suas reportagens contra abusos sexuais de políticos de Porto Ferreira (SP), que culminaram na condenação em primeira instância de 10 acusados em 2004, o jornalista Luiz Carlos Barbon Filho, agora, mesmo estando morto, está sendo perseguido pela Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) e pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo.

Justamente no momento em que jornalistas brasileiros e entidades como a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) unem seus esforços para manter a atenção da opinião pública sobre o caso, conseguindo o apoio rápido de outras entidades nacionais, como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), e também internacionais, como a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) e o CPJ (Comitê de Proteção de Jornalistas), a Fenaj e o sindicato paulista preferiram desqualificar Barbon como jornalista em uma nota oficial conjunta divulgada ontem (segunda-feira, 07/05). Vejam os termos dessa manifestação:

Luiz Carlos Barbom [sic] Filho, apesar de se auto-intitular jornalista, não o era de fato e de direito. O jornal Realidade, de sua propriedade, foi fechado pois nunca esteve regularizado e Barbom Filho não possuía o registro de jornalista, tendo sido, inclusive, processado por exercício ilegal da profissão. No entanto, esses fatos não justificam nenhum ato de violência contra sua pessoa e tampouco desabonam as denúncias que eventualmente tenha feito contra desmandos de autoridades ou grupos.
(“Nota oficial sobre o assassinato de Luiz Carlos Barbon Filho” e “Colunista é assassinado em SP. Sindicato e FENAJ protestam”)

Este deveria ser um momento de união de esforços. Mas, não. Essas duas entidades sindicais preferem erguer suas bandeiras sectárias e propalar o ranço de sua visão cartorial do que é jornalismo exatamente no momento em que é necessário o apoio de jornalistas e de veículos de comunicação de vários países.

Não foi à toa que o documento “Attacks on the Press — 2001”, do CPJ, relacionou a absurda forma de regulamentação profissional da profissão de jornalista vigente no Brasil ao lado dos processos, prisões, assassinatos e outras agressões à liberdade de imprensa.

Ao ler a nota conjunta das duas entidades sindicais, a impressão que dá é que seus autores devem ter cabulado aulas em seu curso de jornalismo. Parecem que não conseguiram até hoje entender que a imprensa tem justamente a função de “watchdog” diante da omissão do poder público naquilo que é de sua competência. Vejam outro trecho dessa manifestação infeliz:

Para a realização plena dessas condições básicas de liberdade, os jornalistas têm um papel fundamental a cumprir. Isso é óbvio. Mas é doentio pensar que todo cidadão, para poder exercer esses direitos, deva se arvorar à condição de jornalista.

O que os autores dessa nota não conseguem entender é que — exceto no Brasil, na África do Sul, Arábia Saudita, Síria, Equador, Ucrânia, Tunísia, Congo, Croácia, Costa do Marfim e em outros poucos países — a liberdade de expressão entendida também como liberdade de informar, e não apenas como a liberdade de opinião, deve ser desembaraçada de exigências que impeçam qualquer cidadão de exercê-la plenamente.

Vale lembrar o que dizem Bill Kovach e Tom Rosenstiel em Os Elementos do Jornalismo:

A pergunta que as pessoas deviam fazer não é por que alguém se diz jornalista. O ponto importante é se esse alguém está de fato fazendo jornalismo. Será o trabalho o respeito aos princípios da verdade, à lealdade aos cidadãos e à comunidade de modo geral, a informação no lugar da manipulação – conceitos que fazem o jornalismo diferentes das outras formas de comunicação? A implicação importante disso tudo é esta: o significado de liberdade de expressão e de liberdade de imprensa é que eles pertencem a todos. Mas comunicação e jornalismo não são termos mutáveis. Qualquer um pode ser jornalista, mas nem todos o são. O fator decisivo não é que tenham um passe para entrar e sair dos lugares; o importante está na natureza do trabalho.

[Bill KOVACH & Tom ROSENSTIEL – Os Elementos do Jornalismo: O que os jornalistas devem saber e o que o público deve exigir (Tradução de Wladir Dupont). São Paulo: Geração Editorial, 2003, pág. 151.]

Nessa mesma linha, o professor do Instituto Francês de Imprensa, da Universidade de Paris II, Claude-Jean Bertrand, em A Deontologia das Mídias, de 1997, afirma:

A excepcionalidade de que goza o jornalismo, dentre as instituições democráticas, consiste em que seu poder não repousa num contrato social, numa delegação do povo por eleição ou por nomeação com diploma ou por voto de uma lei impondo normas. Para manter seu prestígio, e sua independência, a mídia precisa compenetrar-se de sua responsabilidade primordial: servir bem à população.
[Claude-Jean BERTRAND – A Deontologia das Mídias (Tradução de Maria Leonor Loureiro). Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1999, págs. 22-23.]

Daria para mostrar ao autores dessa espúria nota oficial dezenas de ensinamentos de consagrados pesquisadores e mestres do jornalismo, mas seria perda de tempo, pois a ética deles em relação ao debate de idéias é a da evasão, sempre sob o argumento de que tudo isso só serve para defender os “interesses dos patrões”.

Mas, para aqueles que vêm claramente o desvio de finalidade que assola nosso sindicalismo, fica a pergunta: por que o jornal Realidade, de Luiz Carlos Barbon Filho, foi fechado justamente no final de 2004? Por que isso ocorreu nesse ano, em que, por causa de suas reportagens, foram condenados os seis vereadores, três empresários e um funcionário público municipal a penas que variam entre 4 e 45 anos de reclusão por corrupção de menores, favorecimento da prostituição e formação de quadrilha ou bando? (“Justiça condena 10 em Porto Ferreira por corrupção de menores”, Consultor Jurídico, 21/4/2004)

Não foram acusações sem fundamento. Apenas oito dos dez condenados foram absolvidos em segunda instância, em outubro de 2005. Poucas das penas aplicadas foram reduzidas, e outras, de até 45 anos de prisão, foram mantidas. (Fernando Porfírio, “Tribunal reduz penas de vereadores de Porto Ferreira”, Consultor Jurídico, 3/10/2005)

Por que, em vez de perseguirem jornalistas como Luiz Carlos Barbon Filho, essas duas entidades sindicais, que dispõem de departamento jurídico e infra-estrutura administrativa, não denunciam a prática descarada de publicação de matérias pagas por parte de centenas de jornalecos vagabundos que existem no Estado de São Paulo? Só porque quase todos eles têm a chancela de um “jornalista responsável” que aluga seu registro profissional, o “MTb”?

“Doentio”, em vez do que afirma essa nota oficial repugnante, é o corporativismo que pisa cegamente sobre o preceito ético profissional de estar sempre ao lado do interesse público. “Doentio”, na verdade, é o desrespeito ao preceito jornalístico de jamais frustrar o debate de idéias. “Doentio” é o limitado horizonte da visão de mundo predominante em nosso sindicalismo, que ignora o que é o jornalismo fora do ridículo círculo das regulamentações profissionais nos países apontados acima. “Doentio”, portanto, é o desvio deontológico que revela outras prioridades neste momento em que deveria prevalecer a união de esforços para esclarecer o assassinato de Luiz Carlos Barbon Filho.

A nota oficial da Fenaj e do sindicato de São Paulo merece repúdio.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 08/05/2007 às 10:20

5 Respostas

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  1. Prezado senhor Maurício.
    Li a dita nota oficial e também fiquei revoltado.
    Não é possível que a insanidade dessa gente chegue a tanto.Desumano é o mínimo para a malfadada intervenção sindicaleira.
    Cumprimentos pela sua aula.Isto sim deveria fazer parte de alguma grade curricular desses cursinhos que formam “jornalistas” por todo o país.

    Rui Carlos

    terça-feira, 08/05/2007 at 11:52

  2. Concordo q a manifestação da Fenaj e do sindicato paulista foi tosca e intempestiva. Concordo q o foco deveria ser a investigação do homicídio do *jornalista* Luiz Carlos Barbon.

    Mas tem uma coisa estranha: “Apenas oito dos dez condenados foram absolvidos em segunda instância” – como assim *apenas* oito dos dez?

    []s,

    Roberto Takata

    Roberto Takata

    terça-feira, 08/05/2007 at 14:34

  3. Caro Takata, “apenas” significa que não houve exagero na acusação feita pelo jornalista. É um prazer ter seu comentário em meu blog. Abraço.

    Maurício Tuffani

    terça-feira, 08/05/2007 at 14:39

  4. Maurício, ese pessoal da Fenaj e do sindicato de São Paulo não conhece os elementos básicos do jornalismo porque ou estavam no DCE, ou no Centro Acadêmico ou, como diz Reinaldo Azevedo, invadindo alguma reitoria por aí…

    Persegonha

    terça-feira, 08/05/2007 at 17:47

  5. Companheiro,

    Ontem recebi um email do grupo de Comunicação Pública do Yahoo, onde você questiona, com toda razão, a nota divulgada pela Fenaj e pelo Sindicato de Jornalistas de São Paulo. Meu sentimento foi de solidariedade e júbilo, pois encontrei em suas linhas um alento para uma luta que travo no meu dia-a-dia e que certamente ainda há de render-me alguns contratempos e algumas cólicas de gastrite a mais.
    Primeiramente, gostaria de destacar que sou jornalista (será que ainda sou?) provisionado, atuando no mercado regional desde 1982, período em que inexistiam cursos de jornalismo em nossa região e nenhum jornalista graduado se interessava em atuar em nossa cidade, especialmente pela falta de estrutura que existia em nossos órgãos de comunicação – estrutura, diga-se de passagem, no entendimento deles, não passava do quanto estaria registrado em seus contracheques.
    Durante bom período, fui atuante e um dos fundadores da delegacia regional do sindicato (desmantelada e fechada posteriormente, quando eu e outros companheiros nos retiramos da sua condução). Mesmo após o fechamento da delegacia, continuei servindo como um ponto de apoio entre o sindicato e a categoria aqui, praticamente formada por jornalistas provisionados (quando tinham o registro). Ajudei no registro de alguns companheiros, na renovação de outros, e por aí vai.
    Acontece, amigo, que há uns seis anos, quando surgiu o primeiro curso de jornalismo em nossa região, simplesmente nossa atuação e nosso trabalho passou a ser um vilão para o sindicato. Sob a égide da luta pela obrigatoriedade do famigerado diploma, eles se esqueceram daqueles que desbravaram mercados, lutaram pela organização sindical e construíram condições mais dignas para o exercício da profissão.
    De maneira alguma sou contra o diploma de jornalismo. Acredito até que a graduação possa chegar a ser uma exigência do mercado, em busca de profissionais sempre mais qualificados.
    Eu mesmo ainda sonho em cursar a faculdade, embora essa realidade esteja cada dia mais distante, pela necessidade de garantir o estudo (que não tive) a meus filhos.
    Acredito que a graduação deveria servir como uma vantagem a mais para os profisisonais diplomados, não como uma reserva de mercado. Ora, por que até alguns anos atrás eu tinha papel importante para o sindicato em nossa região e hoje não posso mais sequer exercer minha profissão (pelo menos no entendimento do sindicato)?
    Sou jornalista, sim, com muito orgulho. Tenho em meu currículo projetos idealizados e liderados por mim que mereceram reconhecimento internacional. Foram apresentados em Harvard e em vários países das Américas e da Europa. Estudei muito, pesquisei – embora longe de uma sala de aula – para chegar onde estou e agora algumas pessoas, armadas até os dentes com um diploma que acabaram de conquistar, chegam e dizem que não posso continuar exercendo minha profissão?
    Esse distanciamento do sindicato de suas bases é que fazem com que aconteçam atitudes tão estúpidas e desnecessárias. A realidade do jornalismo do Brasil está longe de ser aquelas apregoadas nas capitais e faculdades.
    É muito fácil fazer uma assembléia dentro de um congresso de jornalistas, onde 99,99 por cento dos participantes são universitários e propor uma resolução de impedir a renovação de provisionamentos. Mas e a realidade? Os milhares de profissionais que, embora não tenham a oportunidade de se graduar, tentam fazer jornalismo neste país? É claro que, nem todos, profissionalmente. Mas e os grandes órgãos de comunicação do país, também não o fazem? Ou todos são puritanos apenas porque arregimentam apenas jornalistas formados? Ou todos os jornalistas graduados estão isentos de se corromperem, de escreverem sob as orientações de seus contratantes?
    Desculpe, foi apenas um desabacho, de alguém que também se vê injustiçado, embora ainda vivo. De alguém que vê o sindicato que o representa ser o primeiro a atirar-lhe pedras.
    Querem conter o provisionamento, que o façam. Mas que tenham, pelo menos, a dignidade de reconhecerem o trabalho daqueles que há muitos e muitos anos se dedicam ao exercício da profissão.

    Um abraço,

    Lúcio Reis
    Ipatinga.MG

    Anonymous

    quarta-feira, 09/05/2007 at 14:11


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