Laudas Críticas

Cigarro: fracasso na mídia, sucesso nos negócios

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A edição desta semana da revista britânica The Economist traz uma interessante resenha do livro The Cigarette Century: The Rise, Fall, and Deadly Persistence of the Product that Defined America (O Século do Cigarro: A ascensão, a queda e a persistência mortal do produto que definiu a América).

Escrito por Alan Brandt, professor de história da ciência e de história da medicina na Universidade Harvard, o livro foi lançado em 12 de março pela Basic Books. Segundo a resenha, a obra traz em suas 600 páginas um percurso histórico que vai desde 1881, com o patenteamento, por James Bonsack, de sua máquina de enrolamento automático do fumo em cigarros, ao recuo do governo de George W. Bush, no ano passado, em seu propósito de fazer a indústria do tabaco assumir a despesa total do governo norte-americano com o tratamento de doenças relacionadas ao vício de fumar. Segundo Brandt, o acordo firmado pela indústria em 1998 com governos estaduais no valor de US$ 245 bilhões a serem pagos em 25 anos.

Ao descrever em detalhe o funcionamento do lobby do tabaco junto ao governo e ao Congresso dos Estados Unidos, o livro, diz a Economist, mostra como essa indústria continua a prosperar apesar não só de todas as restrições ao uso de cigarros nas últimas décadas, de toda a comprovação científica da relação de causalidade do fumo com cânceres e outras doenças e também de todos os fracassos na área de comunicação. E apesar também do vazamento de diversos documentos sobre assuntos incômodos, como o aumento dos teores de nicotina para garantir aos fumantes “satisfação suficiente”.

OK, nada que não se soubesse. Mas, tendo em vista todo o bombardeio midiático sobre os males do tabagismo, pode ser que, ao explicitar no papel os bastidores dos últimos 40 anos do lobby do tabaco e o seu sucesso, a obra de Brandt seja útil para a imprensa avaliar o seu papel nesse processo. Indo direto ao ponto: adianta termos tanta informação “científica” sobre o problema sem um jornalismo que desvele a ação todo o tráfico de influência fumageiro?

No caso do Brasil, a situação é pior. No cômputo geral do trabalho da imprensa, vamos muito mal até mesmo em relação à qualidade da divulgação científica no grosso do material publicado pela imprensa. Esse mau desempenho já tinha sido demonstrado em um trabalho de fôlego concluído em 2000 pelo jornalista e doutor em ciências humanas Sérgio Luís Boeira, da Universidade Federal de Santa Catarina, em sua tese de doutoramento “Atrás da Cortina de Fumaça. Tabaco, Tabagismo e Meio Ambiente: Estratégias da Indústria e Dilemas da Crítica”, publicada em 2003 pela Editora da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Desde 2001, Boeira vem alertando também para o fato de que que se evita mencionar, na imprensa, o artigo 278 do Código Penal, que prevê detenção de até 3 anos para quem fabricar ou vender produto nocivo à saúde. Trabalho investigativo, principalmente sobre o lobby fumageiro, nada. E somos o segundo maior produtor mundial de fumo e o maior exportador, abastecendo não só praticamente todo o nosso mercado interno, mas também cerca de 100 países, segundo dados do Sindicato das Indústrias do Fumo (Sindifumo).

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Written by Mauricio Tuffani

sexta-feira, 16/03/2007 às 11:43

Publicado em Ciência, Saúde

Uma resposta

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  1. O tabagismo é a maior causa isolada evitável de doença e morte. Apesar dos malefícios do fumo, o governo continua ignorando as estatísticas mórbidas do problema! Enquanto aumenta os impostos e cria a CPMF para enfrentar as doenças, e entre elas o álcool e o fumo são os grande agentes mórbidos geradores de doenças, o governo incentiva as indústrias destes tóxicos em produzir cada vez mais!

    A área cultivada passou para 420 mil hectares e a produção ampliou-se para 775 mil toneladas distribuídas em 697 municípios da Região Sul. Portanto, não é uma relação de liberdade que existe entre o fumante e o fabricante. É uma relação de lucro para o governo que estimula a indústria a crescer e vender mais para aumentar os impostos arrecadados! Por isto que a indústria não sofre restrições e juizes não exigem da mesma a responsabilidade das relações de consumo como de outros setores, por exemplo, os hospitalares e indústria de medicamentos!

    Paulo Bento Bandarra

    quarta-feira, 28/03/2007 at 8:42


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