Laudas Críticas

Mídia omite decisões judiciais sobre transgênicos

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Apesar do gancho oferecido pelo confronto entre a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) e o Greenpeace Brasil, a chamada grande imprensa brasileira não fez, ao longo dos últimos dez dias, nenhuma referência a uma importante reportagem veiculada pela revista norte-americana Science em sua edição de 23 de fevereiro: três tribunais federais dos Estados Unidos exigiram estudos de impacto ambiental para plantios experimentais de sementes transgênicas.

Não é o caso de desconhecimento geral da reportagem “U.S. Courts Say Transgenic Crops Need Tighter Scrutiny” (Cortes dos EUA afirmam que sementes transgênicas precisam de exame mais rigoroso).1 Editada pela AAAS (American Association for the Advancemente of Science), a revista, que é semanal e se dedica especialmente à publicação de artigos de cientistas, mantém a seção de reportagens “News of the week”, cujos textos são compreensíveis pelo público não especializado. Jornalistas que fazem cobertura regular de ciência e são inscritos junto ao serviço de divulgação da revista têm acesso ao conteúdo integral.

Além do website semanal da Science, a reportagem foi divulgada no Brasil, no dia 28, quarta-feira — dessa vez com o texto integral — para jornalistas, ambientalistas e especialistas em meio ambiente por e-mail do atento David Hathaway, da ONG AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa), ferrenha opositora dos transgênicos. Eu, também, enviei e-mails no dia seguinte para cinco listas de discussão de jornalistas, perguntando se sabiam de alguma divulgação da notícia. Nem assim teve repercussão.

Assinada pelo jornalista Dan Charles, a matéria comenta as decisões de cortes federais distritais em San Francisco, na Califórnia (12/02/2007), na capital Washington (05/02) e no Havaí (agosto de 2006), todas elas referentes a ações propostas pela organização não governamental Center for Fod Safety contra aprovações de plantios experimentais de sementes transgênicas pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o ministério da agricultura do país).

A primeira sentença suspendeu a aprovação pelo USDA do plantio da alfafa Roundup Ready, desenvolvida pela Monsanto e pela Forage Genetics International, destinada a dar resistência ao herbicida glifosato. Em sua sentença, o juiz federal distrital Charles Breyer afirmou, segundo a reportagem, que o USDA violou o (National Environmental Protection Act (Lei Nacional de Proteção Ambiental) por não ter exigido previamente estudo de impacto ambiental e que essa missão se agravara pelo fato de já existirem plantios de soja e de milho transgênicos resistentes ao glifosato.

Will Rostov, procurador da ONG e autor das três ações, qualificou a decisão como “mais um prego no caixão” da abordagem omissa do USDA em relação à regulamentação. O advogado Stanley Abramson, que trabalha para diversas empresas de biotecnologia, anunciou que vai recorrer das três decisões em cortes superiores.

O segundo veredito, diz a matéria, anulou a aprovação do USDA de plantios em uma área de 163 hectares em Madras, no Oregon, de sementes para gramados (“turf grass”), e a terceira sentença referiu-se ao licenciamento pelo ministério de plantios, também experimentais, de variedades de cana-de-açúcar e de milho desenvolvidas para produzir fármacos “sem considerar as numerosas espécies ameaçadas do estado”.

Para quem vem acompanhando a questão dos alimentos transgênicos na mídia, não é estranha a omissão a essa reportagem, pois o tema se tornou uma guerra de desinformação. Com o perdão pela auto-citação e pelo comodismo de não querer escrever a mesma coisa com outras palavras, quase nada mudou desde que eu disse há quatro anos, em outro artigo:

Dependendo da fonte, o leitor, telespectador ou ouvinte estará convencido de que já está provado que os produtos transgênicos são inofensivos à saúde e ao meio ambiente, ou justamente do contrário; também estará convencido de que o Brasil pode “perder o bonde da História” para impulsionar sua agricultura e ganhar mercados se não cultivar esses alimentos, ou de que o país poderá se beneficiar da preferência de consumidores europeus que rejeitam essa inovação da genética.

Diversas metáforas e comparações têm sido usadas por ambos os lados: os contrários aos transgênicos sendo mostrados em pé de igualdade àqueles que em 1904 promoveram a grande revolta contra a vacina da varíola no Rio de Janeiro; e os favoráveis a esses alimentos comparados como os pesquisadores otimistas que apoiaram o uso do inseticida DDT, hoje proibido em vários países por seus efeitos danosos à saúde e ao meio ambiente. (“Os transgênicos e a guerra da desinformação”, Boletim Galileu, 13/abr/2003)

Raros têm sido na mídia os apelos ao bom senso e ao equilíbrio nesse tema. Raramente são publicadas reportagens ou artigos elaborados com consciência da complexidade que ele envolve, em seus aspectos científicos, ambientais, econômicos, sociais e até geopolíticos. Na contramão dessa tendência, a Folha publicou neste domingo (04/03), no caderno Mais!, duas ótimas resenhas do seu colunista Marcelo Leite, que estão disponíveis na web no post “Transgênicos na estante”, em seu blog Ciência em Dia.

Uma importante contribuição para um verdadeiro debate sobre os alimentos transgênicos no Brasil está disponível desde junho do ano passado. Trata-se do artigo “Transgênicos e percepção pública da ciência no Brasil”,2 de Julia S. Guivant, professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina e coordenadora do Núcleo em Sustentabilidade e Redes Agroalimentares (NISRA).

Em seu artigo, a pesquisadora da UFSC analisa diversas pesquisas sobre percepções de consumidores, produtores, cidadãos em relação ao uso de alimentos transgênicos, estabelecendo comparações entre as desenvolvidas no Brasil, na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. Segundo ela, “a falta de pesquisas, o seu número limitadíssimo é aqui considerado uma evidência para caracterizar a trajetória da polêmica no Brasil, com uma significativa ausência de participação pública nos debates sobre transgênicos”.

O artigo da professora Julia S. Guivant poderia pelo menos servir para arejar as cabeças dos chamados formadores de opinião.

Referências

  1. Science 23 February 2007: Vol. 315. no. 5815, p. 1069
  2. Ambiente & Sociedade vol.9 no.1 Campinas Jan./June 2006

Correção (05/03, 13h45): Cometi um erro na versão original deste post em dois trechos:

1) No segundo parágrafo, após “público não especializado” os dois períodos seguintes, que foram suprimidos: “O sumário de cada edição é divulgado por meio de boletins distribuídos por e-mails para jornalistas de vários países. Praticamente todos os grandes veículos de comunicação possuem profissionais que recebem esses boletins.”

2) No início do terceiro parágrafo, na primeira linha, substituí “boletim semanal” por “website”. Essas alterações foram feitas porque a reportagem em questão não constou no boletim semanal da revista. Mas minha crítica à atitude da mídia em geral não se altera, pois a reportagem esteve disponível no site da Science desde o dia 23/02, e seu conteúdo integral circulou por e-mail entre centenas de jornalistas de todo o país desde o dia 28/02. Desse modo, houve omissão da mídia, seja por dificuldades operacionais (como sobrecarga de trabalho), despreparo (jornalistas que nem têm acesso próprio ao assunto), negligência (por não terem conferido o site da Science desde o dia 23/02 nem os e-mails de David Hathaway ou o meu, ambos com identificador de assunto bem explícito desde o dia 28/02), partidarismo ou até mesmo por terem avaliado que havia notícias mais importantes para se divulgar. De um jeito ou de outro, o leitor saiu perdendo.

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 04/03/2007 às 17:48

3 Respostas

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  1. Meu caro Tuffani, não me surpreende em nada a imprensa não ter dado uma linha sequer sobre o assunto, já que compram com mais facilidade a historia vendida pelas empresas de biotecnologia de que o país está perdendo tempo em levantar tantas suspeitas aos transgenicos. O Estadão por exemplo fez essa escolha deliberadamente com seu editorial do dia 26 de fevereiro, em que ataca o Greenpeace e todas as ONGs que tentam barrar os transgenicos na CTNBio por considera-los inseguros e descontrolados. E ainda publicou uma carta de uma cientista (Luciana Di Ciero) que esconde ser ativistas justamente de um conselho patrocinado pela indústria de biotecnologia (a CIB).

    ver http://www.escriba.org/blog/2007/03/03/luciana-di-ciero-e-sonsa/

    um abraço
    jorge cordeiro

    Jorge Cordeiro

    segunda-feira, 05/03/2007 at 17:17

  2. Para os EUA é bem assim, não é? Enquanto o problema provocado por empresas norte-americanas atinge os países em desenvolvimento, tudo bem. Mas no território deles a coisa deve ser muito bem pensada e planejada, para prevenir futuras intempéries. Por aqui, que sirvamos de cobaias!

    Quanto à mídia não ter publicado isso, não é de causar surpresa. Como disse o amigo acima, engolir as “histórias das empresas de biotecnologia” é muito mais prático (e rentável!) do que pesquisar e pensar sobre as consequências dessa prática vendida como a salvação da futura fome de toda a humanidade.

    Aliás, pensa-se em como resolver o problema amanhã. Enquanto hoje investe-se trilhões na indústria bélica e milhões na melhoria da qualidade de vida.

    Fazia tempo que não passava por aqui, mas como sempre vale a pena.

    Abraços!

    Bruno

    segunda-feira, 05/03/2007 at 20:21

  3. Bruno, basta dizer que 100% dos pedidos de liberação comercial para transgênicos referem-se à produção de grãos para ração animal, não para consumo humano…

    jorge

    terça-feira, 06/03/2007 at 13:22


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