Laudas Críticas

Amazônia: ainda é cedo para comemorar

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Só o tempo dirá se merece ser comemorada a redução de 30% da taxa anual de desmatamento da Amazônia, anunciada ontem pelo presidente da República e pela ministra do Meio Ambiente (quinta-feira, 26/10/2006). Sem querer desmerecer o trabalho do Governo Federal que levou a esse resultado, para quem acompanha o caso há anos a impressão de um déjà vu enganador é inevitável. Melhor deixar o champagne para daqui a alguns anos.

Vamos à sinopse de filme já visto. Em 1996 foi anunciada a redução de 37,5% correspondente à taxa de desmatamento de 29,1 mil km2/ano em 1994/1995 para 18,2 mil km2/ano em 1995/1996 (a medida é fechada anualmente no mês de agosto em função do regime das chuvas na Amazônia). No ano seguinte, a taxa foi de 13,2 mil km2/ano, correspondendo a uma redução de 27,5%.

Essas duas boas notícias de 1996 e 1997 não tiveram uma boa seqüência, pois nos quatro anos seguintes a taxa de desmatamento manteve-se acima dos 17 mil a 18 mil km2/ano e saltou muito acima dos 20 mil km2/ano nos três anos consecutivos posteriores. Enfim, o que parecia ser uma tendência de queda não passou de uma redução passageira seguida de um aumento para patamares maiores. (Ver gráfico a seguir.)

Vale lembrar aqui que em 1998 o Governo Federal, na gestão FHC, não divulgou a taxa de 17,4 mil km2/ano para 1997/1998, deixando para fazê-lo somente no ano seguinte, quando o índice caiu para 17,3 mil km2/ano, anunciando a pífia redução de menos de 1% como boa notícia. E, pior, a imprensa em geral vendeu esse peixe do mesmo modo como comprou do governo, rendendo até manchetes. Na gestão Lula não tivemos manobras desse tipo, mas, em compensação, já caíram no esquecimento os 27,2 mil km2/ano de desmatamentos em 2003/2004, que foi o segundo maior índice desde 1988.

Mesmo assim, felizmente não houve nada comparável, por parte das gestões presidenciais tucana e petista, ao vigoroso esforço de desinformação levado a cabo pelo governo Sarney, em 1989. Em abril daquele ano, foi anunciada a estimativa de 251,4 mil quilômetros quadrados para o total de cobertura vegetal da Amazônia desmatada até 1988; dez meses depois, foi necessário reconhecer um “errinho” de 42,6%, fazendo o dado inicial ser corrigido para 358,7 mil quilômetros quadrados (Mais informações).

Voltando ao presente, vemos que desde o ano passado o filme das notícias de 1996 e de 1997 se repete. Um ano após divulgar a redução da taxa anual de 27,2 mil km2 (2003/2004) para 18,7 mil km2 (2004/2005), correspondente a 31,3% a menos, o Governo Federal agora anuncia a estimativa de 13,1 mil km2 para 2005/2006, projetando uma diminuição de 30% para a totalização a ser fechada em dezembro. Esse dado preliminar foi anunciado agora, poucos dias antes da COP-12 (12ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), em Nairóbi, no Quênia, para ser apresentado oficialmente no evento. Coincidentemente — e não há ironia em dizer isto —, a três dias do segundo turno das eleições presidenciais.

O Ministério do Meio Ambiente credita esses resultados à implantação do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia, lançado em 2004. Em outras palavras, o governo afirma que essa redução é fruto de políticas públicas (ver nota do MMA). De fato, esse é o melhor caminho, e é pelo sucesso de iniciativas desse tipo que temos de trabalhar.

Temos de ser otimistas em nossos esforços, mas, ao discernir sobre o que comemorar, prefiro ficar com as sábias palavras de Nicola Chiaromonte, citadas por Norberto Bobbio em De Senectute: “(…) acredito que, hoje mais do que nunca, o pior inimigo da humanidade é o otimismo, qualquer que seja sua forma. Ele, de fato, equivale pura e simplesmente à recusa de pensar, por medo das conclusões a que poderíamos chegar.”

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Written by Mauricio Tuffani

sexta-feira, 27/10/2006 às 15:22

Publicado em Amazônia, Política

2 Respostas

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  1. Oi, Maurício. Acho que você tem absoluta razão em exigir cautela aos que afoitamente se dispõem a bater palmas. O desmatamento continua elevado e esse índice de devastação, se projetado para um período mediano, nos conduzirá a uma catástrofe.
    Na prática, o desmatamento será zero um dia ou muito pequeno…quando nada houver mais para desmatar.
    Algumas atitudes, a médio e longo prazos (vide Protocolo de Kyoto), têm uma função meramente cosmética. Está na hora de botar o dedo na ferida. Câncer não se cura com methiolate.
    Redução de porcentagem de desmatamento não salvará a Amazônia, infelizmente. Só a fará agonizar por mais tempo.
    Wilson Bueno

    Wilson da Costa Bueno

    domingo, 29/10/2006 at 11:41

  2. […] Brasil está disponível, para os que estiverem com paciência de conferi-la, no post anterior (“Amazônia: ainda é cedo para comemorar”), escrito há algum tempo — e bota tempo […]


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