Laudas Críticas

Os limites da linguagem, do mundo e da imprensa

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A imprensa não se interessou ou, em alguns casos, nem sequer conseguiu identificar na edição de 10 de janeiro da revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) uma pauta relacionada a um dos temas mais importantes do pensamento do século 20: a nossa linguagem afeta nossa percepção do mundo?

O assunto foi profundamente investigado no âmbito da filosofia da linguagem pelo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) na primeira metade do século 20. Sua abordagem inicial sobre esse tema foi apresentada em seu livro Tractatus Logico-Philosophicus, de 1922, no qual ele apresentou sua instigante proposição 5.6: “Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo”.

No âmbito prático da ciência, mais especificamente na lingüística, em conexão com a psicologia e a etnologia, esse mesmo tema tem sido abordado por meio da chamada hipótese de Whorf, também conhecida como hipótese de Sapir-Whorf. Apresentada inicialmente em 1921 por Edward Sapir (1884-1939) e reformulada por Benjamin Lee Whorf (1897-1941), ela afirma que cada uma das diferentes culturas humanas tem seu próprio universo mental, o qual, por sua vez é expresso e, portanto, condicionado por sua língua. A idéia dessa íntima relação entre, de um lado, os planos da cultura e do pensamento e, de outro lado, o plano da linguagem — para muitos, uma determinação — consiste no chamado relativismo lingüístico.

A novidade sobre esse assunto é um reforço parcial da hipótese de Sapir-Whorf: a conclusão de que ela é válida para o nosso campo visual direito. Essa avaliação é resultado de um estudo que, segundo seus autores, seria o primeiro a verificar a validade da proposição dos dois célebres lingüistas com base na organização das funções das regiões do cérebro.

A pesquisa foi coordenada por Aubrey Gilbert, pós-graduanda do Instituto de Neurociência Hellen Wills, ligado aos departamentos de psicologia e de linguística da Universidade da Califórnia em Berkeley. A caloura, idealizadora do empreendimento, trabalhou com o apoio de pesquisadores sênior: Terry Regier, professora do Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago; Paul Kay, do Instituto Internacional de Ciência da Computação, em Berkeley, um veterano peso-pesado da pesquisa lingüística; e Richard Ivry, professor do Departamento de Psicologia de Berkeley e diretor do Instituto de Ciências Cognitivas e do Cérebro, na mesma universidade.

A idéia-chave de Gilbert foi a existência em muitos idiomas, como o inglês, de palavras palavras distintas para denotar cores diferentes, como o azul e o verde, em comparação com idiomas que têm um único termo relativo a todas as variações de tonalidade dessas duas cores, como a língua indígena mexicana tarahumara. Dispositivos especialmente preparados com variações de cores em imagens foram usados para estabelecer relações entre percepção visual e interferências do idioma nativo (ver imagem acima).

Jornalistas que cobrem ciência não podem reclamar que a divulgação dessa pesquisa tenha sido restrita ou hermética. O press-release “Words help determine what we see“, preparado por William Harms, da Universidade de Chicago, com e-mails e telefone de contato, foi distribuído pela rede Eurekalert!, da American Association for the Advancement of the Science (AAAS). O texto integral do paper, com indicação de e-mails de Gilbert e de Regier, está disponível na web.1

O que com certeza mais prejudicou para emplacar na mídia esse estudo, que diz respeito a uma das questões mais importantes da filosofia no século 20, foi principalmente a falta de algum clichê em que ele pudesse ser enquadrado. Se isso fosse possível, daria para conseguir — ou pelo menos se atrever — vendê-lo como pauta às instâncias de decisão editorial. Afinal, como rezam cada vez mais as balizas decisórias da indústria cultural, o público-alvo precisa fazer um esforço de compreensão homérico. E “homérico” aqui pode se referir tanto ao historiador grego Homero como ao personagem Homer Simpson.

Acrescente-se a isso o efeito da corda na casa de enforcado: trata-se de uma profissão que tem uma auto-imagem de guardiã do interesse público, mas que tem impulsionado a simplificação e o enxugamento crescente da linguagem, construindo uma versão light da Novilíngua (Newspeak) de George Orwell (1903-1950) em seu 1984, inspirado, por sua vez, no livro Nós, do dissidente soviético Yevgeny Zamyatin (1884-1937), que sentiu na pele os rumos de uma versão mais tosca desse empreendimento destinado a reduzir o universo da linguagem, da qual dependem a reflexão e a crítica.

E nada teria a ver com essa auto-imagem uma pauta com base na hipótese de Sapir-Whorf ou na proposição wittggensteiniana “Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo” (“Die Grenzen meiner Sprache bedeuten die Grenzen meiner Welt.”)2

Notas

  1. Gilbert, A.L., Regier, T., Kay, P. & Ivry, R.B. (2006) Whorf hypothesis is supported in the right visual field but not the left, Proceedings of the National Academy of Sciences, USA, 103, 489-494.
  2. Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus (edição bilíngüe traduzida para o espanhol por Enrique Tierno Galván). Alianza Editorial. Madrid. 1985, pág. 162.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 02/02/2006 às 8:56

Publicado em Ciência, Filosofia

3 Respostas

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  1. Feliz retorno, Tuffani.

    E voltaste com tudo!.

    O material que apontas dá não para uma, mas para uma série de reportagens.

    Abs., Tambosi

    Tambosi

    quinta-feira, 02/02/2006 at 21:09

  2. Muito bom, Tuffani. Ocorre que é mesmo difícil convencer nossos editores de que o assunto é relevante quando não se encaixa em nenhum clichê, como você bem notou. Os critérios de avaliação de pautas nas nossas redações estão cada vez mais pobres, uma tristeza.
    abs

    ph

    sexta-feira, 03/02/2006 at 22:46

  3. Ótima lembrança…Wittegeinstein é sempre bom!
    Àbs,
    R2C

    Otavio Pelegrini

    quarta-feira, 12/04/2006 at 19:10


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