Laudas Críticas

Lições da fraude dos clones

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No dia de Natal deste ano, o repórter Nicholas Wade afirmou no jornal The New York Times que a comunidade científica passou a ficar na defensiva com a confirmação de fraude no estudo que mais esperanças trouxe em 2005 para os pesquisadores da área de biotecnologia. No entanto, a divulgação da falsa clonagem de células-tronco embrionárias humanas pelo sul-coreano Hwang Woo-suk, da Universidade Nacional de Seul, precisa também ser motivo de reflexão e de preocupação por parte da imprensa que cobre a área de ciência.

A repercussão mundial do relatório divulgado por Hwang na revista científica norte-americana Science havia estimulado o Ministério da Ciência e Tecnologia sul-coreano a investir US$ 65 milhões no laboratório do pesquisador, guindado à posição de herói nacional e de celebridade internacional. Para 2006, já haviam sido prometidos mais US$ 15 milhões pelo Ministério da Saúde e do Bem-Estar Social para a criação do Centro Mundial de Célula-Tronco, no qual técnicos de Hwang clonariam células humanas para clientes científicos no exterior, como destacou Wade na reportagem “Clone Scientist Relied on Peers and Korean Pride” (The New York Times, 25/dez/2005).

As importantes revistas científicas que estavam em disputa pela publicação dos trabalhos de Hwang estão agora reexaminando seus procedimentos de avaliação, afirmou Wade. Mas, no que se refere à imprensa, outros procedimentos vinham sendo adotados por líderes da pesquisa nessa área, como bem mostrou na véspera de Natal em seu comentário Células de decepção em massa, na Folha, e em seu blog Ciência em Dia o jornalista Marcelo Leite:

Nos mesmos dias em que pipocava o escândalo, um grupo de bambambãs da biotecnologia publicou uma carta no sítio www. sciencexpress.org defendendo, com palavras escolhidas a dedo, o afastamento da imprensa leiga.

“Acusações feitas pela imprensa sobre a validade dos experimentos publicados na Coréia do Sul são, em nossa opinião, mais bem-resolvidos na comunidade científica”, escreveram os oito autores da correspondência. Entre eles estão Ian Wilmut e Alan Colman, dois dos “pais” da ovelha Dolly.

Essa aplicação da Lei de Ricúpero (“o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”) no plano da divulgação científica, como bem destacou Leite, mostra mais uma vez a necessidade de os profissionais do chamado jornalismo científico refletirem sobre a ênfase que geralmente dão ao papel de tradução que atribuem à sua atividade.

A comparação com personagens do noticiário de outras áreas do jornalismo pode, para muitos pesquisadores, parecer injusta e até ofensiva, principalmente aqui no Brasil, onde são muitas as atividades de pesquisa que só têm continuado graças à persistência e à abnegação de suas equipes. Mas não há como deixar de lado o fato de que há conflitos e disputas acirradas entre os diversos grupos de pesquisa, principalmente quando estão envolvidos recursos financeiros.

Reflexões sobre esse tema já haviam sido propostas há algum tempo aqui no Brasil por Mônica Teixeira [“Pressupostos do Jornalismo de Ciência no Brasil”. in MASSARANI, L. ET AL (orgs.) Ciência e Público: Caminhos da divulgação científica no Brasil. Casa da Ciência, UFRJ. Rio de Janeiro. 2002. pp. 133-141] e por mim (O fogo cruzado no jornalismo de ciência, ComCiência, 10/jul/2003). Recentemente, o assunto foi muito bem colocado por Martha San Juan França em seu artigo “Divulgação ou jornalismo?” [in VILAS BOAS, S. (org.) Formação e informação científica: Jornalismo para iniciados e leigos. Summus Editorial. São Paulo. 2005. pp. 31-47]:

Enquanto repórteres de política e economia freqüentemente vão além dos releases oficiais para comprovar a veracidade das notícias, os colegas de ciência se contentam com a informação autorizada, os papers (relatórios científicos), entrevistas coletivas e revistas especializadas. Enquanto as notícias de outras áreas são normalmente objeto de crítica, a ciência e a tecnologia são poupadas – até que ocorram acidentes trágicos. Se bons jornalistas são reconhecidos – e temidos – por suas análises críticas, no caso de ciência, a investigação e a crítica costumam passar longe.

Em grande parte das notícias de ciência não existe o contraditório. Ao se divulgar um trabalho científico sem citar outras conclusões ou visões sobre o mesmo assunto dá-se a impressão ao leitor de que aquele constitui uma verdade absoluta. O papel do jornalista acaba não sendo muito diferente daquele que seria de um assessor de imprensa do pesquisador que deu a entrevista. E o resultado confunde e lança dúvidas na própria pesquisa. Café faz bem ou faz mal? A dieta A é melhor do que a dieta B? O mundo está ficando mais quente? Cada pesquisa diz uma coisa diferente, mas todas são divulgadas como respostas absolutas para a questão.

A questão está colocada novamente. E, desta vez, de forma muito preocupante.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 27/12/2005 às 7:39

2 Respostas

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  1. Obrigado pela visita, Tuffani.

    Tocas aqui num ponto essencial: a diferença entre jornalismo e divulgação científica. É importante insistir nisto.

    Quanto às desculpas esfarrapadas dos cientistas, são absolutamente injustificáveis. Questões éticas são públicas, não podem ficar restritas, por conveniência, aos “pares”.

    Abs.,
    Tambosi

    Orlando Tambosi

    quarta-feira, 28/12/2005 at 12:14

  2. Tuffani, feliz 2006! “Laudas Críticas” está cada dia melhor e se tornando em fonte para quem quiser acompanhá-lo a enxergar além do aparente do aparente. No jornalismo científico permanece aquela tendência que às vezes atinge certos repórteres de polícia que substituem o carro pela viatura, o cidadão por elemento etc. Não “encarnar” cegamente a fonte continua sendo um desafio, sobretudo no jornalismo científico. Suas opiniões a respeito são atualíssimas e ncessárias. Saudações acreanas.

    Altino Machado

    sábado, 31/12/2005 at 14:54


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