Laudas Críticas

‘Editores resistem a aceitar o novo’, diz Ciro Marcondes Filho sobre o caso Homer

with 2 comments

Inaugurando o uso deste espaço para dar destaque às manifestações de nossos leitores que se ressaltaram em conteúdo analítico ou informativo, Laudas Críticas tem a satisfação de apresentar o seguinte comentário do professor Ciro Marcondes Filho, da Escola de Comunicações e Artes da USP, ao post anterior deste blog, “O que podemos aprender com Homer Simpson”.

(Maurício Tuffani)

*******

O debate Bonner-Lalo revela alguns aspectos interessantes sobre o jornalismo de televisão que detém o monopólio na informação nacional. Primeiro, que o editor-chefe decide, por conta própria, o que o espectador médio vai ou não vai entender. Seu método, ao que parece, baseia-se no puro “achismo”, construído a partir de preconceitos transmitidos por outros na formação específica dele como jornalista.Apesar dos tempos hiper-sofisticados da informatização geral da sociedade, a cabeça dos jornalistas que detêm algum tipo de controle do noticiário ainda se forma com base na tradição e nas velhas e desgastadas idéias sobre quem é virtualmente aquele que vê e qual é seu alcance de compreensão. Segundo, o comentário do debate realça que ninguém discute os parâmetros para a elaboração de pautas, que ninguém fala dos critérios de seleção

Mas, em realidade, nada disso é fixado oficialmente. O que o editor-chefe acha bom, ele o acha por mero senso comum. Ele próprio não passa de um Homer Simpson a avaliar o que os demais Homers Simpson vão achar. Ou seja, a questão é muito mais funda do que parece. Isso porque os jornalistas não partem para o mundo para conhecê-lo mas já têm seus modelos na cabeça e saem pelo mundo para reconhecê-los e reforçá-los. E assim se dá também com os entrevistados: são escolhidos exatamente aqueles que melhor “representam” os assuntos. Por isso, o conservadorismo dos jornalistas não é nada que tenha a ver com a política ou a ideologia, isso é coisa ultrapassada. O conservadorismo vem do fato de eles reconstruírem todos os dias o mundo refazendo os conceitos que estão em suas próprias cabeças. Por isso eles obtêm atenção e ibope, porque eles tranqüilizam todo mundo, tanto os Homers que estão em casa quanto os Homers que produzem o próprio telejornal.

Não há programa mais saboroso do que um telejornal, onde tudo se diz e, graças a ele, tudo fica exatamente como está. Quer dizer, tudo é tratado de forma a corresponder às idéias pré-concebidas que os jornalistas já têm das coisas.

Em suma, a pergunta pelos “critérios da seleção de notícias” sugere que a gente vá, ao pesquisá-los, poder chegar “à verdade”, ao desvendamento do grande segredo. Não há segredo algum. Há, isso sim, a resistência (que não é só de jornalistas, vamos deixar isso claro) de aceitar o novo, o fora do clichê, o estranho; todos temem isso. Como diz o Daniel Bougnoux, nosso organismo só tolera um pouquinho muito pequenino de novidade, além da qual ele se fecha como uma ostra. (Ciro Marcondes Filho)

Ciro Marcondes Filho é professor titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP e doutor em sociologia da comunicação pela Universidade Johann Wolfgang Goethe, de Frankfurt.

<<< Página Principal

Anúncios

Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 15/12/2005 às 11:18

Publicado em Comunicação, Jornalismo

2 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Há incompreensão dos dois lados, quando ambos poderiam se beneficiar de um verdadeiro diálogo. Um problema muito sério nas ciências humanas no Brasil é que se começa uma pesquisa pela conclusão.

    O artigo do professor Laurindo mostra um pouco isso. De tudo que se podia analisar nas rotinas de produção do jornal, ele se aferrou a uma metáfora usada pelo editor (feliz ou infeliz, fica a critério de quem lê). Sim, a produção de TV no Brasil é rasa. Mas onde não é? Pode melhorar, óbvio. Em muitos pontos.

    Em 2004, um pequeno grupo da Abraji participou de um encontro com ONGs para conversar sobre o papel da imprensa. Lá pelas tantas, um guri de uma ONG perguntou ao pessoal por que a imprensa não publica notícias boas, do “Brasil que dá certo”. O Claudio Weber Abramo, com sua verve característica, respondeu: “Para ser franco, esse negócio de agenda positiva é muito chato”. Desenvolveu explicando que todo tipo de instituição tem sua agenda positiva, teoricamente todo tipo de instituição tem seu direito a aparecer e que assim como se acha suspeito, por exemplo, ler sobre as agendas positivas da Microsoft, deve-se sempre olhar com cautela outras agendas positivas.

    Os ongueiros vieram abaixo, aferrados ao “muito chato” dito pelo Abramo. “Mas coooomo se pode pensar algo assim”, perguntavam eles. “Essa visão de notícia é ultrapassaaaaada”, protestavam. Porque o negócio deles era saber como passar a agenda positiva deles na imprensa.

    O Marcelo Beraba, sempre muito ponderado, fez um esforço de ouvir os dois lados e traduzir um para o outro: “Vocês são muito engraçados, viu? Se fossem jornalistas, estaríamos vivendo algo parecido com o que vejo todos os dias. Amanhã, leitores procurariam o ombudsman reclamando da maneira como vocês noticiaram as coisas que a gente disse aqui, por causa de apenas uma frase do nosso Claudio Provocador Abramo. Todo dia recebo leitores dizendo assim: ‘Poxa, a Folha é fogo, hem? O Lula falou uma frase e há três dias vocês só repetem aquela aspa que o Lula falou. E o conteúdo, e o que está por trás, e o contexto?’ “

    Esse debate sobre se o espectador é ou não é um Homer me parece muito com os ongueiros brigando sobre se agenda positiva é ou não é chato. Pra mim, é um empobrecimento de um debate que podia ser produtivo pra todos.

    Marcelo Soares

    quinta-feira, 15/12/2005 at 15:16

  2. Greetings from the USA.

    Gary Freedman

    terça-feira, 20/12/2005 at 17:07


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: