Laudas Críticas

Archive for the ‘Saúde’ Category

A mídia e o conflito de interesses na pesquisa científica

with 10 comments

O jornal O Estado de S. Paulo abordou ontem (sexta-feira, 19/11) um tema muito negligenciado pela imprensa brasileira, que é o conflito de interesses em pesquisas médicas. A reportagem “Pesquisa sobre males do amianto tem verba do setor”, do jornalista Emilio Sant’Anna, informa que três universidades públicas paulistas — USP, Unicamp e Unifesp — investigam denúncia de conflito de interesses em um estudo sobre os efeitos do amianto sobre a saúde humana.

Segundo a reportagem, as três universidades não foram informadas que a pesquisa teve suporte financeiro de R$ 1 milhão do Instituto Brasileiro do Crisotila (IBC), entidade de empresas e associações de trabalhadores ligados à mineração do amianto e à fabricação de produtos com esse material. O projeto recebeu também R$ 1 milhão do CNPq e recursos do Governo do Estado de Goiás, cujo valor não é mencionado na reportagem.

No site do projeto Asbesto Ambiental não é mencionado o suporte financeiro do IBC. Os coordenadores da pesquisa são os pneumologistas Mário Terra Filho, da USP, e Ericson Bagatin, da Unicamp, e o fisiologista Luiz Eduardo Nery, da Unifesp. A matéria do Estadão registra a declaração de Bagatin de que não foi criticada a metodologia do estudo, que, segundo ele, dá continuidade a 15 anos de trabalhos para “obter dados científicos brasileiros para dar condições de discutir se é possível ou não usar o material de forma segura”.

Padrões internacionais

O fato de uma pesquisa receber apoio financeiro de entidade que tem interesse direto no tema a ser estudado não implica necessariamente que as conclusões dos pesquisadores sejam enviesadas. Mas toda vinculação desse tipo, tanto do estudo como de seus participantes, deve ser formalmente informada às instituições que dão suporte ao trabalho e também à revista científica que o publica. Essa situação é definida como de potencial conflito de interesse segundo os preceitos da chamada ética da pesquisa. No caso da medicina, sobre isso existem padrões internacionais, como os do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (ICMJE).

As normas do ICMJE não se aplicam apenas a autores de estudos médicos, mas também a editores, revisores e demais membros do staff editorial. Uma síntese dessas normas é mostrada no estudo “Conflito de interesses em pesquisa clínica”, dos cirurgiões Elaine Maria de Oliveira Alves e Paulo Tubino, da Universidade de Brasília (Acta Cirúrgica Brasileira. Vol 22 (5) 2007). Nesse trabalho, é apresentada a seguinte definição.

O conflito de interesses surge, em pesquisa clínica, quando um ou mais de um dos participantes do processo — sejam os pesquisadores ou até mesmo o editor e/ou o revisor do periódico no qual, eventualmente, o trabalho será publicado — têm ligações com instituições ou interesses que possam prejudicar a lisura da investigação ou restringir a competência e a imparcialidade para avaliação da mesma.

A conclusão de Alves e Tubino é a de que

(…) os conflitos de interesses são generalizados e inevitáveis na vida acadêmica. O desafio não é erradicá-los, mas reconhecê-los e manejá-los adequadamente. A única prática aceitável é que sejam expostos claramente e que todas as pesquisas em seres humanos passem pelo crivo dos comitês de ética em pesquisa.

Dinheiro de laboratórios

Esse tema já trouxe grandes constrangimentos para a medicina. Um dos episódios mais marcantes foi a revelação de que 70 estudos sobre uma determinada droga anti-hipertensiva, publicados de março de 1995 a setembro de 1996, foram direta ou indiretamente financiados pelos mesmos laboratórios que os fabricam. Segundo a pesquisa “Conflict of interest in the debate over calcium-channel antagonists” (The New England Journal of Medicine, v. 338(2), janeiro de 1998, pp. 101-106), coordenada por Henry Thomas Stelfox, da Universidade de Toronto, no Canadá, os autores desses estudos estavam envolvidos com os laboratórios por meio de serviços de consultoria, pagamento de conferências, custeios de viagens, apoio a pesquisas e suporte educacional

Muitas publicações médicas brasileiras exigem declaração de conflito de interesses. Algumas chegam a exigir até mesmo declaração de que não há conflitos de interesses, como é o caso, por exemplo, da Arquivos de Gastroenterologia. Ou seja, algumas publicações simplesmente exigem que as situações de conflito de interesses sejam apontadas, enquanto outras exigem que todos os autores declarem formalmente se têm ou não qualquer vinculação desse tipo.

No Brasil, a imprensa raramente se interessa pelo conflito de interesses em pesquisas científicas. Uma grande reportagem sobre esse tema foi feita há oito anos pelos jornalistas Eliane Brum, Bruno Weis e Raphael Falavigna para a revista Época (“A maldição do amianto”, 16/04/2001). Na ocasião, uma outra pesquisa sobre amianto, também realizada por Bagatin, havia recebido financiamento privado não informado à sua agência pública fomentadora, a Fapesp.

Jornalistas devem ser atentos ao aspecto de conflitos de interesse sempre que divulgarem pesquisas científicas científicas em geral, e não só as da área de saúde. Vale a pena conferir, nas publicações científicas, se suas instruções para autores incluem normas sobre isso. A lista de periódicos nacionais da Scientific Electronic Library Online — Scielo facilita essa verificação. Ainda há revistas que não exigem declaração nenhuma

Recentemente, o New York Times noticiou uma pesquisa que mostrou conflitos de interesses na área médica também entre jornalistas (“Conflicts of Interest May Ensnare Journalists, Too”, 21/11/2008). Mas isso será assunto para outra conversa.

* * * * * * *

PS de 26/12 — Além da reportagem acima citada de Época, essa revista publicou outra, também de capa, em abril de 2005, feita por Eliane Brum, Patrícia Cançado e André Barrocal, de abril de 2005 (“Vida e morte pelo amianto”). A matéria mostrou vítimas desse produto, lobbistas, a bancada do amianto no Congresso, recursos envolvidos e vários outros aspectos relevantes sobre esse assunto. Em comentário enviado à reprodução do texto acima no Observatório da Imprensa, o leitor Márcio Gaspar, de São Paulo, chamou minha atenção para as reportagens da jornalista Conceição Lemes acerca das relações entre médicos, vítimas desse produto, empresas que o usam. Essas matérias foram publicadas no blog Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha.

<<< Página Principal

Written by Mauricio Tuffani

sábado, 20/12/2008 at 11:56

Música alta faz as pessoas beberem mais?

leave a comment »

Apesar do grande interesse público e da repercussão em torno da chamada “Lei Seca”, que está em vigor em todo o país há exatamente um mês, não teve a devida atenção da imprensa a notícia sobre uma recente pesquisa francesa que estabelece uma relação entre músicas em alto volume em bares e o aumento de consumo de bebidas alcóolicas. Nos grandes veículos de comunicação — e não só no Brasil —, o que houve foi apenas a republicação das mesmas notas que foram enviadas por agências internacionais de notícias.

“Pesquisas anteriores mostraram que a música com um ritmo mais rápido pode fazer com que se beba mais rápido, e que a presença de música pode levar a pessoa a passar mais tempo no bar”, disse o psicólogo francês Nicolas Guéguen, coordenador do estudo, segundo o texto “Música de batida forte nos bares faz as pessoas beberem mais”, publicado na sexta-feira (18/07) pelo UOL, G1 e Último segundo (do IG), mas produzido originalmente pela Agence France Presse. “Esta é a primeira vez que um enfoque experimental em um contexto real descobriu os efeitos da música forte sobre o consumo de álcool”, acrescentou o pesquisador, que é professor da Universidade do Sul da Bretanha, campus de Lorient.

A pesquisa não explica por que o aumento de consumo de bebida é diretamente proporcional ao volume do som ambiente. Sua conclusão é uma correlação estatística: “Quando a música estava mais baixa, cada cliente pedia em média 2,6 cervejas. Com a música alta, pediam 3,4. O tempo para tomar cada bebida caía de 14min51 para 11min45″, afirma a nota “Música alta faz cliente beber mais, diz estudo”, da Agência Reuters, publicada pelo Globo Online e pela Agência Estado, além do UOL e do G1, que divulgaram também o texto da Agence France Presse.

Os pesquisadores chegaram a essa conclusão com base em dados obtidos em dois bares em três noites de sábado. Foram observados 40 homens de 18 a 25 anos, consumidores de cerveja. Intitulada “Sound Level of Environmental Music and Drinking Behavior: A Field Experiment with Beer Drinkers”, a pesquisa será publicada na edição de outubro da revista Alcoholism: Clinical & Experimental Research.

Nos jornais e portais que consultei, inclusive em alguns estrangeiros, essa notícia não teve o investimento de reportagem que merecia. As duas agências internacionais divulgaram a informação na sexta-feira, mas ela estava disponível antes, para jornalistas credenciados, na nota nota “Loud music can make you drink more, in less time, in a bar”, do serviço de notícias Eurekalert, da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). O e-mail e o telefone de Guéguen estavam disponíveis nessa nota.

Teria sido interessante, por exemplo, perguntar ao coordenador desse estudo qual é a opinião dele sobre os níveis de alcoólicos tolerados na França para motoristas e, se ele souber, em outros países da Europa. O pesquisador tem muita familiaridade com dados numéricos, pois é autor de um livro que trata justamente disso: Manual de Estatística para Psicólogos, publicado em 2000 em Portugal.

E também teria sido interessante entrevistar gerentes e donos de bares, para perguntar a eles se eles já não conheciam, por experiência, a conclusão dessa pesquisa, pois os autores do estudo não descartam a hipótese de que o que leva as pessoas a beber mais é a dificuldade para conversar em meio à barulheira. E, para os que gostam de fazer perguntas em tom de brincadeira, daria até para indagar a especialistas e legisladores se não seria interessante estabelecer em nosso Código Nacional de Trânsito um nível mínimo de dosagem alcoólica permitido para motoristas e baixar uma lei que obrigue os bares a diminuir o volume do som ambiente.

PS — Eu já havia comentado a respeito da homogeneização do noticiário de ciência em meu artigo “A clonagem das notícias de ciência”, publicado em fevereiro de 2006 na revista ComCiência, do Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo Científico, da Unicamp.

<<< Página Principal

Written by Mauricio Tuffani

domingo, 20/07/2008 at 12:40

Publicado em Ciência, Saúde

Cigarro: fracasso na mídia, sucesso nos negócios

with one comment

A edição desta semana da revista britânica The Economist traz uma interessante resenha do livro The Cigarette Century: The Rise, Fall, and Deadly Persistence of the Product that Defined America (O Século do Cigarro: A ascensão, a queda e a persistência mortal do produto que definiu a América).

Escrito por Alan Brandt, professor de história da ciência e de história da medicina na Universidade Harvard, o livro foi lançado em 12 de março pela Basic Books. Segundo a resenha, a obra traz em suas 600 páginas um percurso histórico que vai desde 1881, com o patenteamento, por James Bonsack, de sua máquina de enrolamento automático do fumo em cigarros, ao recuo do governo de George W. Bush, no ano passado, em seu propósito de fazer a indústria do tabaco assumir a despesa total do governo norte-americano com o tratamento de doenças relacionadas ao vício de fumar. Segundo Brandt, o acordo firmado pela indústria em 1998 com governos estaduais no valor de US$ 245 bilhões a serem pagos em 25 anos.

Ao descrever em detalhe o funcionamento do lobby do tabaco junto ao governo e ao Congresso dos Estados Unidos, o livro, diz a Economist, mostra como essa indústria continua a prosperar apesar não só de todas as restrições ao uso de cigarros nas últimas décadas, de toda a comprovação científica da relação de causalidade do fumo com cânceres e outras doenças e também de todos os fracassos na área de comunicação. E apesar também do vazamento de diversos documentos sobre assuntos incômodos, como o aumento dos teores de nicotina para garantir aos fumantes “satisfação suficiente”.

OK, nada que não se soubesse. Mas, tendo em vista todo o bombardeio midiático sobre os males do tabagismo, pode ser que, ao explicitar no papel os bastidores dos últimos 40 anos do lobby do tabaco e o seu sucesso, a obra de Brandt seja útil para a imprensa avaliar o seu papel nesse processo. Indo direto ao ponto: adianta termos tanta informação “científica” sobre o problema sem um jornalismo que desvele a ação todo o tráfico de influência fumageiro?

No caso do Brasil, a situação é pior. No cômputo geral do trabalho da imprensa, vamos muito mal até mesmo em relação à qualidade da divulgação científica no grosso do material publicado pela imprensa. Esse mau desempenho já tinha sido demonstrado em um trabalho de fôlego concluído em 2000 pelo jornalista e doutor em ciências humanas Sérgio Luís Boeira, da Universidade Federal de Santa Catarina, em sua tese de doutoramento “Atrás da Cortina de Fumaça. Tabaco, Tabagismo e Meio Ambiente: Estratégias da Indústria e Dilemas da Crítica”, publicada em 2003 pela Editora da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Desde 2001, Boeira vem alertando também para o fato de que que se evita mencionar, na imprensa, o artigo 278 do Código Penal, que prevê detenção de até 3 anos para quem fabricar ou vender produto nocivo à saúde. Trabalho investigativo, principalmente sobre o lobby fumageiro, nada. E somos o segundo maior produtor mundial de fumo e o maior exportador, abastecendo não só praticamente todo o nosso mercado interno, mas também cerca de 100 países, segundo dados do Sindicato das Indústrias do Fumo (Sindifumo).

<<< Página Principal

Written by Mauricio Tuffani

sexta-feira, 16/03/2007 at 11:43

Publicado em Ciência, Saúde

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.