Laudas Críticas

Archive for the ‘Ambiente’ Category

‘Ibama’ de Obama será mais científico, promete a nova chefe

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lisa-jackson1A imprensa brasileira não deu importância à notícia da confirmação pelo Senado dos EUA da engenheira química Lisa Jackson para chefiar a EPA (Agência de Proteção Ambiental). A escolha dela pelo presidente eleito dos EUA, Barack Obama, já havia sido anunciada em meados de dezembro. Porém, mais importante que a aprovação de seu nome para o cargo que assume na próxima terça-feira (20/01) foi a declaração dela sobre sua primeira tarefa — “resgatar a integridade científica e legal” do órgão, segundo a reportagem “EPA pick vows to put science first” (The New York Times, 14/01).

“A ciência precisa ser o esqueleto do que a EPA faz”, afirmou Lisa no início de sua explanação ao comitê de meio ambiente do Senado. O sentido da afirmação da nova administradora é que a agência teve muitas ingerências políticas durante as gestões de Christine Todd Whitman (2001-2003), Michael O. Leavitt (2003-2005) e Stephen L. Johnson (2005-2009), todas da administração de George W. Bush.

Criada em julho de 1970, a EPA é diretamente subordinada à Casa Branca. Possui cerca de 17 mil funcionários em todo o país, trabalha com um orçamento anual de aproximadamente US$ 7 bilhões e possui também uma grande estrutura de laboratórios de pesquisa científica.

‘Música para os ouvidos’

De ascendência afro-americana, a nova administradora da EPA chefiou o Departamento de Proteção Ambiental do Estado de New Jersey durante quase dois anos, até assumir em 1º de dezembro a chefia do gabinete do governador do estado. Ela, que completa 47 anos em 8 de fevereiro, é funcionária do departamento há 15 anos.

Lisa Jackson teve a aprovação de seu nome pelo Senado comemorada por ambientalistas como Josh Dorner, secretário-adjunto de imprensa da ONG Sierra Club. Ele disse que fazia também suas as palavras “música para meus ouvidos” da senadora californiana Barbara Boxer (Partido Democrata), referindo-se às respostas de Lisa durante sua sabatina pelo comitê.

É interessante notar que ao se referir aos aspectos científico e legal da EPA, ela não usou o bordão “resgatar a credibilidade”, tão comum no Brasil, mas resgatar a integridade. Não fosse pelo enfoque muito mais científico do que ambientalista de seus posicionamentos, essas circunstâncias da definição da nova administradora da EPA poderiam ser comparadas com a da indicação de Marina Silva (PT-AC) para o Ministério do Meio Ambiente (MMA) em 2003, no início da gestão de Lula.

Mesmo assim, ainda é uma boa oportunidade para a imprensa brasileira lembrar que tivemos aqui no Brasil  um filme com início mais ou menos parecido. O bom é torcer para que daqui a algum tempo Lisa Jackson não seja também obrigada a dizer “perco o pescoço, mas não perco o juízo”.

PS — Só para lembrar: enquanto isso, aqui no Brasil, continua “em obras” o site do Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecav), conforme este blog havia informado em sua postagem de 14/11/2008.

PS 2 (segunda-feira, 19/01) Lisa Jackson não foi mencionada nem mesmo por Marina Silva em seu texto de hoje, “A hora de Obama”, em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo (p. A2). Muito menos sua promessa de “resgatar a integridade científica e legal” da EPA.

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 18/01/2009 at 17:58

Publicado em Ambiente, Ciência, Política

Números da Amazônia derrotaram a imprensa em 2008

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2008 passará para a história da Amazônia como o ano em que os números derrotaram a imprensa. Ofuscada por estatísticas mensais da degradação florestal, a cobertura jornalística mal se deu conta da área total desmatada de 706,9 mil quilômetros quadrados, que já equivale a quase metade (45,1%) do Estado do Amazonas e corresponde a pouquíssimo menos que as superfícies terrestres da França, da Holanda e da Bélgica somadas. Também passou despercebido que a devastação praticamente dobrou — cresceu 97% — desde o fim de 1988, quando ela atingira 358,7 mil quilômetros quadrados.

Essa tendência da imprensa de ver as árvores sem enxergar a floresta foi predominante também nas duas últimas décadas, desde o desastroso início da elaboração de taxas anuais de desmatamento pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 1989 (“Enquanto a floresta queima, os números dançam”, Nova Ciência, São Paulo, ano II, nº 7, 1990, agosto/setembro/outubro, págs. 32-36). Os índices anuais foram se acumulando, mas raramente os jornalistas os totalizaram.

Taxas anuais de desmatamento da Amazônia Legal de 1988 a 2008 (km2)

Além de não se dar conta da expansão total da degradação da Floresta Amazônica, a cobertura jornalística chegou muitas vezes a comemorar a redução de taxas anuais de desmatamentos sem perceber que caía o ritmo dessa diminuição. Ou seja, houve anos em que a área total anual desmatada diminuiu, mas a imprensa não percebeu que a diminuição também diminuiu. Repetindo esse mesmo engano do passado em relação aos dados de 1990, 1991, 1997, tivemos várias manchetes que comemoraram os números de 2006 e 2007, que, comparados a 2005, já projetavam más notícias.

Variação anual das taxas de desmatamento de 2000 a 2008 (%)

Prodes/INPE

Confusão de dados

Essa distração midiática, que era antes anual, baseada nos anúncios do sistema Prodes (Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), intensificou-se como um repetitivo e desgastado exercício mensal neste ano. Foi quando teve início a divulgação de índices mensais do sistema Deter (Desmatamento em Tempo Real), cuja finalidade não é obter dados precisos como o do Prodes, mas apoiar ações de fiscalização e controle de desmatamentos.

Num primeiro momento, houve a positiva iniciativa do governo de não liberar os dados do Deter enquanto não elaborava uma boa desculpa para eles (“Governo decide parar de segurar dados de desmatamentos”, 10/07/2008). No entanto, o que aconteceu foi a banalização desses índices. Ela começou com a estratégia de comunicação do próprio Ministério do Meio Ambiente, dado o estilo excessivamente midiático do ministro Carlos Minc, com suas sucessivas entrevistas coletivas.

A imprensa em geral, em busca de novos títulos e lides, fez o arremate. Ela não só reproduziu de modo acrítico os pronunciamentos oficiais, como também tratou os números parciais do sistema Deter como se eles tivessem a mesma finalidade do Prodes, passando uma imagem otimista que não corresponde à realidade da extensão da devastação (“Amazônia: imprensa se deixa pautar pelo governo”, 30/08/2008).

Ofuscamento

Também quase nada foi dito sobre os dados do relatório de 2008 do Prodes que mostram o crescimento da degradação, em áreas não completamente desmatadas, de 14,9 mil para 24,9 mil quilômetros quadrados de 2007 para 2008. Em outras palavras, salvo pelas exceções, “passou batido” que tivemos em um só ano um aumento de 61,1% de áreas degradadas sem desmate completo na Floresta Amazônica. Todos esses dados são acessíveis a qualquer cidadãocom acesso à internet. Desse modo, a banalização da transparência se transformou em um mecanismo de ofuscamento.

Não bastasse esse ilusionismo numerológico, poucos foram os esforços significativos de reportagem para uma cobertura da Amazônia fora do rotineiro enfoque turístico ou exótico, mostrando-a não só em sua riqueza social e ambiental, mas também na dimensão do desastre da herança das políticas públicas para a região.

“Eu costumo dizer que a gente não sabe o que tem na Amazônia porque a gente não pesquisa adequadamente. Nós estamos destruindo uma biblioteca cheia de livros que nós não lemos”, disse o cientista político Sérgio Abranches, diretor e colunista do site de notícias ambientais O Eco, no programa de televisão do Observatório da Imprensa exibido em 02/12“Amazônia na mídia: muita estatística, pouca reflexão”).

Bons exemplos

Entre as raras exceções a essa tendência, destacou-se a reportagem de Leonencio Nossa e Celso Júnior “Eldorados da Exploração Infantil”, de 07/09 n’O Estado de S. Paulo. (Uma síntese de suas quatro páginas está em “Cidades amazônicas viram eldorados da prostituição infantil”.) Eles mostraram a realidade da exploração de menores e das péssimas condições de vida em Coari (Amazonas), Juriti (Amapá) e Paraupebas (Pará), consideradas como localidades para novas iniciativas de negócios na região.

A própria imprensa da Região Norte não cobre os problemas locais, como bem explicou Chico Araújo, diretor da Agência Amazônia de Notícias. No já citado programa do OI de 02/12, ele afirmou que “quando trabalhava para o Estado de S.Paulo, jornais de Manaus e outras cidades da Amazônia esperavam a Agência Estado distribuir o boletim informativo com notícias sobre a região para elaborar a manchete dos jornais”.

Enquanto isso permanece, os veículos dos outros estados mal investem em equipes permanentes de reportagem nessa região. Mas existem ali algumas iniciativas de bom jornalismo na internet, além da agência dirigida por Araújo. Por exemplos, o site Amazônia, da ONG Amigos da Terra, o blog do jornalista Altino Machado, sediado em Rio Branco (AC), e o Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, que após 21 combativos anos de artesanal circulação quinzenal impressa em Belém (PA), sem venda de espaço publicitário, ganhou neste ano seu próprio espaço na internet. Talvez seja essa a única boa notícia sobre a imprensa em relação à Amazônia neste ano.

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Written by Mauricio Tuffani

segunda-feira, 29/12/2008 at 6:32

Publicado em Amazônia, Ambiente

Site do Centro de Cavernas do MMA está ‘em obras’

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Já faz alguns dias que está “fora do ar” o site de Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecav), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). Isso é ruim nestes dias, na seqüência da assinatura pelo presidente da República do Decreto nº 6.640, de 07/11/2008. Aquele, comentado há três dias neste blog (“Sai decreto das cavernas, e Minc não deu entrevista coletiva”), de alteração do Decreto 99.556, de 01/10/1990, que “Dispõe sobre a proteção das cavidades naturais subterrâneas existentes no território nacional, e dá outras providências”.

O referido site tinha registros de situações importantes, como a do encaminhamento para a Casa Civil da proposta de alteração do decreto de 1990 em 13/02/2007 pelo grupo de trabalho constituído pelo Ibama em 18/04/2006 (Portaria Ibama nº 34), e da reunião que houve sobre essa sugestão:

Na reunião realizada na Casa Civil, em 06 março de 2007, foram apresentadas a proposta do MMA/IBAMA e uma contra proposta do MME, opinando sobre todos os assuntos, incluindo os não afetos a esse Ministério. Vale lembrar, que apesar de não estarem presentes, esse assunto engloba ações dos ministérios da Cultura, da Agricultura, dos Transportes e do Turismo, entre outros.
No momento, aguardamos uma nova reunião com a Casa Civil que nos dará um posicionamento sobre o assunto.

Mas o resultado final foi a decisão por um dispositivo que vem sendo duramente criticado por especialistas como ameaçador de grande parte do patrimônio espeleológico brasileiro, conforme registrou este blog em “Quase nenhuma notícia sobre o decreto das cavernas”. Felizmente, a íntegra do decreto que Lula não assinou ainda está acessível pelo link acima indicado e também aqui.

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Mais informações sobre o assunto:

“Decreto do governo autoriza destruição de cavernas” (Notícias Socioambientais, 13/11/2008)

“Governo ignora a sociedade e libera a destruição de cavernas” (SBE N0tícias, 11/11/2008)

“Minc anuncia plano de proteção às cavernas” (Notícias do MMA, 31/10/2008).

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sexta-feira, 14/11/2008 at 17:12

Publicado em Ambiente, Ciência, Política

Sai o decreto das cavernas, e Minc não dá entrevista coletiva

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Parem as máquinas! O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que tanto faz uso de entrevistas coletivas, desta vez não deu o ar da graça. Se não fosse a reportagem “Decreto autoriza destruição de cavernas”, da Folha de hoje, a novidade só ficaria por conta do Diário Oficial. Já é fato consumado o que este blog avisou há duas semanas (“Quase nenhuma notícia sobre o decreto das cavernas”, 28/10/2008).

Praticamente toda a imprensa brasileira ignorou o que estava prestes a ser assinado pelo presidente da República. O novo ato presidencial é o Decreto nº 6.640, de 07/11/2008. Não há nenhuma notícia sobre ele nos sites da Agência Brasil e do Ministério do Meio Ambiente. Talvez o órgão tenha iniciado uma fase no estilo low profile, isto é, mais discreta, sem chamar muito a atenção.

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terça-feira, 11/11/2008 at 11:40

Publicado em Ambiente, Ciência, Política

Quase nenhuma notícia sobre o decreto das cavernas

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Gruta Lago Azul, localizada em Bonito, MS (Imagem: Clayton Ferreira Lino ©)

Se depender de quase toda a imprensa brasileira, a mudança da legislação sobre as cavernas brasileiras só será conhecida pela sociedade como fato consumado. Já existem 31 entidades que apóiam o manifesto da Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE), contrário à intenção governamental de alterar o Decreto 99.556, de 01/10/1990, que “Dispõe sobre a proteção das cavidades naturais subterrâneas existentes no território nacional, e dá outras providências”.

Entre as exceções a essa omissão midiática, destacam-se as reportagens “Projeto ameaça 70% das grutas do país”, da Folha de S. Paulo, reproduzida na Folha Online (25/10/2008), e “De volta ao tempo das cavernas”, do portal O Eco (17/10/2008), que retomou o assunto uma semana depois com a nota “Contra o decreto cavernoso” (24/10/2008).

De acordo com a primeira reportagem de O Eco, há dois anos o Ministério de Minas e Energia (MME) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA) vinham negociando a alteração do decreto ainda vigente, que “tem sido uma pedra no sapato de empreendimentos como a usina hidrelétrica de Tijuco Alto, no sul de São Paulo, e à exploração de minério de ferro em Carajás, no Pará”. Na semana retrasada, segundo a matéria, “tudo desandou”:

A negociação foi interrompida pela Casa Civil, que jogou a área ambiental para escanteio e, basicamente, só quer considerar as cavernas intocáveis se elas forem monumentais, isto é, se tiverem características excepcionais, como a maior do país, ou características biológicas únicas, por exemplo. As outras passam a ser vistas como passíveis de sofrerem impactos, claro, devidamente compensados com dinheiro dos empreendimentos como reza a cartilha do licenciamento. Avaliações iniciais indicam que esse “resto” equivale a nada menos que 80% das cavernas brasileiras, estimadas em cem mil pelo governo. Apenas sete mil estão relativamente mapeadas.

Grutas ‘inúteis’

Caverna Casa de Pedra, no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, sul de SP (Imagem: Clayton Ferreira Lino ©)

Paulo Camillo, presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), entidade que representa empresas que atuam no setor, declarou à Folha que o novo decreto trará avanços: “Essa indefinição, que dura anos, afastou investimentos estrangeiros do país”, afirma o presidente do instituto”. O jornal destaca declaração de Rinaldo Mancin, diretor de assuntos ambientais do órgão, de que

“Há cavernas belíssimas que, claro, precisam ser preservadas. Mas é preciso criar um sistema para valorar o grau de importância dessas cavernas, porque muitas são inúteis”.

De acordo com a Folha, há restrições à iniciativa governamental dentro do próprio governo. O jornal afirma que o Centro Nacional de Estudo, Proteção e Manejo de Cavernas (Cecav), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, vinculado ao MMA, “participou dos estudos com os ministérios do Meio Ambiente e Minas e Energia nos últimos dois anos, mas suas sugestões foram ignoradas no projeto final”. Segundo declaração de Rita de Cássia Surrage, do Cecav,

Eles querem algo fácil de fazer. Dizem que nossas sugestões eram complexas. Mas não dá para entrar em uma caverna, sair e avaliar na hora. Estudos são necessários. Vai acabar na mão dos Estados a decisão de definir quais vão poder ser impactadas, sem critério algum.

Uma proposta de alteração do decreto de 1990 já havia sido apresentada em 13/02/2007 pelo grupo de trabalho constituído pelo Ibama em 18/04/2006 (Portaria Ibama nº 34). No site do Cecav consta o registro, provavelmente desatualizado, de que:

Na reunião realizada na Casa Civil, em 06 março de 2007, foram apresentadas a proposta do MMA/IBAMA e uma contra proposta do MME, opinando sobre todos os assuntos, incluindo os não afetos a esse Ministério. Vale lembrar, que apesar de não estarem presentes, esse assunto engloba ações dos ministérios da Cultura, da Agricultura, dos Transportes e do Turismo, entre outros.
No momento, aguardamos uma nova reunião com a Casa Civil que nos dará um posicionamento sobre o assunto.

No entendimento da cúpula ambiental do governo, no entanto, o assunto parece estar resolvido, segundo a Folha, que atribui a Maria Cecília Wey de Brito, titular da Secretaria Nacional de Biodiversidades e Florestas, do MMA, a declaração de que “Tudo está sendo discutido. Essa nova norma não significa que tudo será destruído”. Com seu largo conhecimento e experiência na área ambiental, a secretária certamente deve ter muito mais a dizer acerca da questão. Inclusive porque do modo que consta essa declaração, permanece a dúvida sobre o que será destruído.

Enquanto quase toda a imprensa deixa de informar sobre esse assunto e ninguém busca explicações de outros órgãos do governo, circula na internet um abaixo-assinado contra a mudança do decreto.

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terça-feira, 28/10/2008 at 12:26

Publicado em Ambiente, Ciência, Política

Mais sobre Green, Inc. (não confundir com Green Ink)

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A edição desta semana da revista Época traz uma boa matéria da repórter Juliana Arini que toma como gancho o livro Green, Inc., de Christine Macdonald, sobre o este blog tratou com a postagem “Livro acusa ONGs de fazerem ‘lavagem verde’”, de quinta-feira (16/10/2008).

A reportagem “Os verdes se venderam?” apresenta também a posição da Conservation International e de outras ONGs sobre o assunto e traz mais informações relacionadas ao Brasil. Na sexta-feira, dia 17, o site da revista já havia veiculado uma entrevista feita pela correspondente Andréa Leal, em Washington, com a autora do livro (“Christine MacDonald — ‘Como uma boa causa vai mal’”).

Se eu tivesse prestado atenção no dia 15 ao blog Novo em Folha, da Editoria de Treinamento da Folha de S. Paulo, teria alertado sobre o cuidado necessário ao se referir a esse livro. Está previsto para 4 de novembro o lançamento de outra obra: Green Ink — Uma introdução ao jornalismo ambiental, publicado há 12 anos nos Estados Unidos por Michael Frome (Curitiba: Fundação O Boticário e Editora da Universidade Federal do Paraná). A tradução desse livro para o português já vinha sendo pedida há algum tempo, como ressaltou Marcos Sá Correia em novembro de 2005 em seu artigo “O bê-á-bá do jornalismo ambiental”, no site O Eco.

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domingo, 19/10/2008 at 14:50

Publicado em Ambiente, Jornalismo

MMA terá de esclarecer lista de flora ameaçada de extinção

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Araucária (Foto de Felipe Micaroni Lalli)

A assessoria de imprensa do deputado federal Ricardo Trípoli (PSDB-SP) informou por e-mail a este blog que o parlamentar tomou conhecimento por meio do Observatório da Imprensa da postagem “As espécies ameaçadas e as notícias que não de cruzam”, de 14/10/2008, e, com base nela, elaborou o requerimento de informações nº 3.385/2008.

O documento, que foi referendado no dia seguinte pela mesa diretora da Câmara dos Deputados, “Solicita esclarecimentos ao Ministério do Meio Ambiente sobre as razões da não inclusão de determinadas espécies na Lista Oficial das Espécies da Flora Brasileira Ameaçadas de Extinção”.

O artigo nº 50 da Constituição Federal estabelece que as mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal podem encaminhar requerimentos de informações a ministros de Estado ou a titulares de órgãos diretamente subordinados à Presidência da República, “importando em crime de responsabilidade a recusa, ou o não-atendimento, no prazo de trinta dias, bem como a prestação de informações falsas”. O prazo começa a contar na data de recebimento do requerimento. Já solicitamos ao deputado que nos informe sobre a reposta.

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domingo, 19/10/2008 at 7:02

Publicado em Ambiente, Ciência, Política

Livro acusa ONGs de fazerem ‘lavagem verde’

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Capa do livro, lançado nos EUA

Depois de trabalhar como freelance para jornais como The Boston Globe, Los Angeles Times, Dallas Morning News e The Chicago Tribune, a jornalista Christine MacDonald ingressou em 2006 na área de comunicação da Conservation International, ONG sediada em Washington com atuação internacional, inclusive no Brasil. Em agosto deste ano, já fora da entidade, ela publicou o livro Green, Inc.: An environmental insider reveals how a good cause has gone bad, no qual ela afirma que a política de captação de recursos de muitas ONGs tem proporcionado a “lavagem verde” (greenwashing) da imagem de empresas apontadas como devastadoras do meio ambiente.

Além da Conservation International, Christine MacDonald critica também entidades que atuam em diversos países, como The Nature Conservancy (TNC), Sierra Club, Environmental Defense Fund (EDF), World Wildlife Fund (WWF) e outras. Segundo a autora de Green, Inc., a relação com grandes empresas agressoras do meio ambiente tem sido gerenciada por dirigentes dessas ONGs cujos altíssimos salários os colocam no patamar dos maiores contribuintes de impostos dos Estados Unidos, a faixa do top 1%.

O livro, cujo título em português pode ser traduzido como “Verde Ltda.: Uma fonte dentro do ambientalismo revela como uma boa causa se tornou má”, é coincidentemente homônimo do blog Green Inc., hospedado no site do jornal norte-americano The New York Times. Em sua postagem “When green becomes Inc”, de 8 de outubro, Tom Zeller Jr., editor do blog, apresenta uma entrevista com MacDonald, na qual ela declara:

Não há nada errado em grandes corporações adquirirem um ethos ambiental. Mas é importante lembrar que poluidores têm uma longa tradição de silenciar seus críticos. É um problema real. Sempre que uma corporação faz uma grande doação para um grupo ambiental, temos de nos resguardar contra a possibilidade de isso ser um suborno, de a companhia dar o dinheiro para cooptar o grupo e enfraquecer sua missão.

Em sua resenha Green, Inc., by Christine MacDonald”, na edição de 11 de outubro da revista semanal britânica New Scientist, o jornalista Fred Pearce, colaborador de diversos jornais britânicos e autor de livros sobre meio ambiente, afirma:

Green, Inc. não é, como alguns querem mostrar, uma condenação do ambientalismo como um todo, muito menos uma trombada maliciosa da direita antiambientalista. É mais propriamente um apelo para pôr um fim à transigência autovantajosa e para o retorno ao zelo com a retidão de esforços. Desse modo, ele será aplaudido por muitos dentro dos próprios grupos ambientais.

Quatro dias antes de serem publicadas essas palavras de Pearce na New Scientist, o livro de MacDonald já havia sido aplaudido por Rini Sucahyo, coordenadora de relações externas da Conservation International na Indonésia: “Tudo, sim, … tudo o que Christine escreveu em seu livro é certo.” Sucahyo publicou essa declaração no espaço de comentários da entrevista “Christine MacDonald on the corruption of the environmental movement”, concedida pela jornalista à California Literary Review, e disse também que houve casos de greenwashing de empresas patrocinadoras da entidade em seu país. “Estou aliviada porque finalmente alguém de dentro falou sobre isso. Obrigado, Christine. Quero seguir seus passos”, acrescentou.

Sojicultura no Brasil

Nessa entrevista à California Literary Review, MacDonald afirma que ações conservacionistas no Brasil, realizadas com recursos de empresas diretamente ligadas ao avanço da sojicultura sobre o Cerrado, tiveram um resultado ambiental desvantajoso na relação custo-benefício entre o que foi preservado e o que foi devastado. (Este blogueiro, que não é trouxa e vive em um país onde há juízes que se mostram ignorantes sobre o direito de expressão, se abstém de citar nomes de tais empresas em um texto opinativo. Para os interessados, basta consultar os textos aqui citados, que permanecem incólumes por terem sido publicados lá fora.)

Os websites das ONGs citadas não mostram nenhum pronunciamento sobre Green, Inc. Pessoalmente, conheço uma boa parte do trabalho realizado aqui no Brasil pela Conservação Internacional. Em minhas funções anteriores como repórter e editor, fiz várias matérias com informações importantes prestadas por essa entidade, e obtive em 2002 o terceiro lugar no Prêmio de Reportagem sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica, promovido por ela. Em 2001, participei como jurado do Prêmio Ford de Conservação Ambiental, e posso testemunhar que a instituição procedeu com total lisura junto ao júri.

Ainda não tive acesso ao conteúdo do livro de MacDonald, exceto o primeiro capítulo, disponibilizado no site da Amazon. Apesar dessa limitação, concordo com a abordagem de Pearce, na New Scientist, no que se refere a não condenar o ambientalismo como um todo nem dar razão para o conservadorismo antiambientalista.

Terceiro setor

No entanto, independentemente do que pode vir a ser confirmado ou contestado em relação às acusações feitas em Green, Inc., a imprensa, de um modo geral, precisa rever seus procedimentos em relação às ONGs, inclusive aquelas que atuam em outras áreas além da ambiental. Uma coisa é tê-las como fontes de informações, e nisso elas muitas vezes são mais bem estruturadas que governos e empresas privadas. Outra coisa é produzir reportagens com posicionamentos de ONGs partindo do pressuposto de que elas seriam instâncias independentes do Estado e do mercado. Uma avaliação crítica desse pressuposto, baseada na tese de uma perda de direito do cidadão no acesso às respostas para suas necessidades e de uma desresponsabilização do Estado, foi apresentada em 2001 por Carlos Montaño, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em seu livro Terceiro Setor e Questão Social: Crítica ao padrão emergente de intervenção social (São Paulo: Cortez Editora, 2001).

A atuação de ONGs vem sendo estudada no Brasil já há algum tempo. No que se refere à sua ligação com os setores público e privado, por exemplo, o livro A Perda da Radicalidade do Movimento Ambientalista Brasileiro: Uma contribuição à crítica do movimento (Florianópolis: Editora da UFSC, 2000), de Agripa Faria Alexandre, professor do Instituto de Ecologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina, afirma que o ambientalismo perdeu sua espontaneidade, o seu ativismo político crítico e ganhou força como bandeira oportunista para empresários, publicitários e agências ambientais de governo.

Uma interessante e rica abordagem sobre as tendências do ambientalismo brasileiro, principalmente no que diz respeito à sua atuação em meio às dificuldades para implantação de políticas públicas, foi apresentada recentemente por Leila da Costa Ferreira, da Unicamp, e Sérgio Tavolaro, da Universidade Federal de Uberlândia, no artigo “Environmental Concerns in Contemporary Brazil: An Insight into Some Theoretical and Societal Backgrounds (1970s–1990s)”, publicado na edição de junho do International Journal of Politics, Culture and Society, (2008, 19:161–177).

Enfim, longe das paranóias conspiracionistas contra as ONGs, é mais do que necessária uma reavaliação dos pressupostos dos procedimentos da imprensa em relação a essas entidades.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 16/10/2008 at 7:57

Publicado em Ambiente, Política

As espécies ameaçadas e as notícias que não se cruzam

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A BBC News parece ter sido o único veículo de toda a imprensa internacional que produziu a informação de que os governos não conseguirão cumprir a meta de reduzir a perda de espécies animais e vegetais até 2010, fixada pela Convenção da Diversidade Biológica (CDB). No Brasil, alguns portais, como Globo Online, G1 e Agência Estado, reproduziram nesta segunda-feira (13/10/2008) a matéria “Governos devem fracassar em meta de biodiversidade, dizem especialistas”, divulgada no país pela BBC Brasil.

Samambaiaçu-imperial (Dicksonia sellowiana Hook), xaxim "em perigo", espécie nativa dos estados de de MG, RJ, SP, PR, SC e RS (Foto de Filipe Jardim de Almeida e Thaís Alves Borges)

Presente em Barcelona ao Congresso Mundial da Conservação, promovido pela ONG IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza), o repórter Richard Black entrevistou dez representantes de instituições de pesquisa, ONGs e órgãos multilaterais. Segundo o jornalista, todos eles afirmaram que os governos não conseguirão cumprir a meta de

Atingir até 2010 uma redução significativa no atual índice de perda de biodiversidade a nível global, regional e nacional, como uma contribuição para a redução da pobreza e para o benefício de toda a vida na Terra.

Essa meta integra o Plano Estratégico estabelecido na 6ª Conferência das Partes da CDB, realizada em abril de 2002, em Haia, na Holanda. De acordo com a reportagem de Black,

Nem todos os especialistas questionados pela BBC quiseram tornar públicas suas opiniões e alguns dizem que há certa relutância em “envergonhar” os governos sobre seus fracassos nessa questão. Outros sugerem ainda que a meta já não era “atingível” quando o documento foi assinado, há seis anos. Ahmed Djoghlaf, secretário-executivo da CBD, disse à BBC que a meta para 2010 só seria cumprida através de ações de urgência dos governos, o que “segundo todos os indicadores, seria pouco viável”.

Resgate da notícia

Assim como a notícia da BBC News, a declaração de Djoghlaf merece ser relacionada a um fato recente do Brasil, que foi a lista das espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em 19/09/2008, com 472 espécies. A lista anterior, de 1992, tinha 108 espécies. Mas houve um desentendimento entre o MMA e a instituição que pesquisou os dados, a Fundação Biodiversitas, que contestou a relação oficial e afirmou que já havia 1.495 espécies ameaçadas na lista entregue por eles ao governo em dezembro de 2005, conforme mostraram algumas reportagens, como “Ministério lista 472 espécies de plantas ameaçadas”, da Agência Estado, e “Flora ameaçada racha governo e biólogos”, da Folha de S. Paulo, segundo a qual

O ministro [Carlos Minc, do MMA] também usou a falta de estrutura do ministério como argumento. “Eu me pergunto se temos capacidade de fiscalizar essas 472 espécies. Incluir mais mil é, aparentemente, mais defensivo, mas vulgariza e cria um número que não teremos condições de fiscalizar”, disse. A Fundação Biodiversitas contestou. “Nossa avaliação é biológica, não é política. O ministério tem uma lista política; nós, uma científica”, afirmou Gláucia Drummond, que disse lamentar a divulgação da lista e a “falta de diálogo” com o ministério.

Sediada em Belo Horizonte, a Biodiversitas teve para seu estudo a colaboração de 299 pesquisadores de diversas instituições de pesquisas brasileiras e estrangeiras. Há motivos de sobra para resgatar a notícia anterior em função da atual, da BBC News e apurar se o MMA teve ou não razão em sua decisão. Até a data desta postagem, o site da fundação mineira não apresentava nenhuma outra manifestação sobre sua discordância com o MMA.

No final das contas, são notícias que, como tantas outras, não se cruzam.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 14/10/2008 at 7:52

Publicado em Ambiente, Ciência

A biopirataria e o conflito entre a lei e a pesquisa

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Aos 80 anos de idade, completados no último dia 16, e com 55 anos de atuação na pesquisa de patologias tropicais — dos quais 32 no Instituto Pasteur, na França —, o médico brasileiro Luiz Hildebrando Pereira da Silva recebeu de funcionários do Ibama uma intimação motivada por uma denúncia anônima de “acessar indevidamente o patrimônio genético da Amazônia, coletando animais, vegetais e sangue de populações tradicionais e levando para fora do país”, segundo a edição de ontem do JC E-mail, boletim diário da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

A intimação, que foi motivo de comunicação do ministro Sérgio Rezende, da Ciência e Tecnologia, para seu colega Carlos Minc, do Meio Ambiente, foi feita também para o pesquisador Rodrigo Guerino Stabeli, diretor de pesquisa do Ipepatro (Instituto de Pesquisas em Patologias Tropicais), de Porto Velho, ligado à Universidade Federal de Rondônia, do qual Hildebrando é diretor-geral desde 2003. O Ibama já informou que desistiu de dar prosseguimento ao processo, como noticiou hoje a Folha de S. Paulo na matéria “Ibama recua em acusação de biopirataria“.

Apesar de o denunciado ser um dos mais importantes pesquisadores brasileiros (vide sua biografia resumida no site da Academia Brasileira de Ciências), e de o JC E-mail ter sido enviado ontem no início da tarde (14h29), não constatei hoje nenhuma repercussão da manifestação do  de Rezende na imprensa, além da matéria acima citada da Folha e da postagem “Hildebrando intimado pelo Ibama por biopirataria“, do blog Ciência em Dia, do jornalista Marcelo Leite.

Em sua mensagem a Minc, Rezende ressalta a importância dos trabalhos desenvolvidos pelos dois cientistas, principalmente com malária, e a finaliza com as seguintes palavras:

Ao exposto, solicito atenção especial de Vossa Excelência e dos dirigentes do Ibama a esse desagradável episódio. O Ibama tem a importante missão de proteger os nossos recursos biológicos, e estou certo que isto é reconhecido por toda comunidade científica brasileira. No entanto seria recomendável que as modalidades de relacionamento do Ibama com as instituições científicas consolidadas e de grande importância para o país sejam aperfeiçoadas, para que possamos continuar com ações que tem como meta o desenvolvimento sustentável.

Além da nota sobre a mensagem de Rezende, o JC E-mail veiculou também o artigo “Darwin processado pelo Ibama“, de outro peso-pesado da ciência brasileira, o físico Sérgio Mascarenhas, também de 80 anos, aposentado, mas ainda atuante no Institudo de Estudos Avançados de São Carlos, da USP. Nesse texto, além de afirmar que as trabalhos desenvolvidos por Hildebrando são autorizados, têm apoio do MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia) e “são realizados em difíceis condições e com muito idealismo”, Mascarenhas acrescenta:

Assuntos de mérito científico são julgados por juizes, promotores, burocratas no mais das vezes sem qualquer preparo no conteúdo dos assuntos ou até mesmo ignorantes dos princípios da metodologia em CT&I [Ciência, Tecnologia & Inovação] que prosseguem vertiginosamente neste século do conhecimento e que, aparentemente no Brasil, está sendo rejeitado!
Não serve alegar conhecimento apenas jurídico, pois conhecimento exige axiologia, isto é, valores com os quais aplicar as leis. Faltam nas nossas escolas de direito especializações para CT&I. Enchem seus egos com conhecimentos especializados de direito penal, cível e até outros que se intitulam especialistas em direito constitucional (sic), mas onde estão os especialistas em CT&I?

A manifestação do físico acrescentou um outro tom para a questão levantada por Rezende, levando-a para além da retratação já feita pelo Ibama. Segundo esse artigo, não se trata apenas de aperfeiçoar “as modalidades de relacionamento do Ibama com as instituições científicas consolidadas e de grande importância para o país”, como disse o ministro. O que Mascarenhas ressalta é o conflito de ordem jurídico-institucional entre a a pesquisa baseada no acesso aos recursos genéticos e a legislação em vigor (Medida Provisória 2.186-16, de 23/08/2001).

O assunto é complexo. Envolve, por um lado, concepções de direito relacionadas ao controle do acesso aos recursos genéticos da biodiversidade brasileira e também conhecimentos tradicionais e, por outro, dificuldades enfrentadas por pesquisadores e suas instituições diante de exigências legais. E, como não poderia deixar de ser, o conflito é potencializado tanto por algumas atuações extremamente burocratizadas de órgãos controladores como por certas prospecções sem a menor preocupação legal e ambiental por parte de alguns pesquisadores.

Ao final da postagem acima citada em seu blog, Marcelo Leite ressalta com sua frase “Com a palavra, o ministro Minc”. No entanto, em vista das palavras de Mascarenhas e do fato seu artigo ter sido veiculado com a mensagem do titular do MCT na mesma edição do boletim da SBPC, o desafio está posto também para juristas e para o Ministério Público.

* * * * * * *

Para saber mais:

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Written by Mauricio Tuffani

sábado, 27/09/2008 at 12:00

Uma boa reportagem sobre o outro lado da devastação

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Em meu post anterior (“Amazônia: Imprensa se deixa pautar pelo governo”, 30/09), eu afirmei que estamos próximos do total de 700 mil km2 de área total desmatada na Amazônia brasileira, e que isso equivale a quase meio Estado do Amazonas completamente devastado, ou seja, algo maior que as superfícies da França e Holanda somadas.

Pensei em retomar o tema da Amazônia em um comentário sobre a boa reportagem “Eldorados da Exploração Infantil”, dos jornalistas Leonencio Nossa e Celso Júnior, publicada ontem (07/09) n’O Estado de S. Paulo (págs. C1, C3, C4 e C5). Uma síntese dos dados apresentados nessas quatro páginas está na matéria “Cidades amazônicas viram eldorados da prostituição infantil”, no portal Estado.com.br. Mas todo esse rico material pode ser visto na edição digital do jornal, aquela que tem o recurso de virar as páginas na tela do computador.

Absorvido ontem em meu tempo de folga pela elaboração de um comentário que apresentarei aqui amanhã, acabei demorando muito para escrever a respeito dessa reportagem. Agora há pouco, dando uma olhada no Observatório da Imprensa, vi que o jornalista Luciano Martins Costa já fez isso hoje, de manhã, no programa do OI na Rádio Cultura FM e também no artigo “O que mostra uma boa reportagem”.

Transcrevo aqui apenas um parágrafo desse texto, que resume exatamente o sentido daquilo que eu pretendia escrever:

A reportagem deixa claro que, 34 anos depois da abertura da Transamazônica e 25 anos depois do auge do garimpo em Serra Pelada e da construção da hidrelétrica de Tucuruí, o Brasil ainda não foi capaz de produzir uma estratégia de desenvolvimento para a Amazônia que não seja simplesmente mais uma porta para a miséria e a exploração de seus habitantes e de seu patrimônio natural.

E acrescento apenas o que eu disse no espaço de comentários desse artigo:

Essa é uma boa matéria para esfregar na cara dos defensores dessa visão distorcida de progresso. Estamos perto do total de 700 mil km2 de devastação total da Amazônia Legal, e a contrapartida social para as populações locais, principalmente as tradicionais, é essa miséria. Infelizmente a realidade apresentada por esse bom trabalho de reportagem é apenas uma parte da desgraça toda.

Desse modo, em vez de tomar mais tempo de meus leitores, recomendo a leitura da reportagem de Leonencio Nossa e Celso Júnior e do artigo de Luciano.

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segunda-feira, 08/09/2008 at 14:00

Publicado em Amazônia, Ambiente, Política

Amazônia: imprensa se deixa pautar pelo governo

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Mesmo sem esconder dados sobre o desmatamento da Amazônia, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem conseguido obter manchetes menos constrangedoras e, em muitos casos, até mesmo confortáveis para o governo. Em busca de fatos novos para os títulos e lides (primeiros parágrafos) de suas reportagens, grande parte da imprensa têm passado uma imagem otimista e que não corresponde à realidade da extensão da devastação. Várias matérias publicadas repetem o mesmo engano que vem sendo cometido há meses, que consiste em se basear nos dados mensais do sistema de detecção de desmatamentos em tempo real por satélites, que são úteis para orientar ações de fiscalização, mas não mostram a extensão total da devastação, que só é possível por meio da análise de períodos mais amplos.

Neste sábado, poucos veículos escaparam dessa interpretação mais confortável para o governo. Felizmente, entre eles estão jornais de grande alcance, como a Folha de S. Paulo, com a chamada de capa “Desmatamento na Amazônia cresce após 3 anos de queda” e a reportagem “Desmate na Amazônia subiu 64% em um ano, avalia Inpe”, de Marta Salomon, e O Estado de S. Paulo, com a chamada “Devastação da Amazônia cresce 64% em um ano” e a matéria “Desmatamento cresce 64% em 1 ano”, de Herton Escobar.

Por outro lado, não foram poucas as chamadas, títulos e lides (primeiros parágrafos de reportagens) que enfatizaram outro dado, que foi o da redução de 62% do desmatamento de julho deste ano em relação a junho, repetindo o enfoque da matéria “Desmatamento da Amazônia tem queda de 62% em julho”, publicada ontem no portal do MMA.

Manchetes otimistas

No mês passado foi a mesma coisa. A maior parte dos veículos de comunicação titulou suas chamadas de capa e suas reportagens em função dos índices de desmatamento de junho, que acusou redução da taxa de 20% em relação ao mês anterior e de 38% em relação a junho de 2007, na mesma linha da matéria “Ações do MMA pressionam queda da taxa de desmatamento na Amazônia”, publicada em 29/07/2008 no mesmo portal.

Desde o final de 2007, quando foi constatada a tendência de grande aumento da taxa anual de desmatamento da Floresta Amazônica brasileira para o período de 2007 a 2008, a atenção da imprensa e de ONGs passou a se concentrar nos índices mensais do sistema Deter (Desmatamento em Tempo Real). Esse processo teve um efeito inegavelmente positivo, pois levou o Governo Federal a melhorar e a intensificar as ações de fiscalização. No entanto, esses dados não são adequados para determinar a extensão total da devastação, pois muitas das imagens de satélites são prejudicadas por nuvens. As avaliações mais precisas se baseiam em períodos anuais e são feitas pelo sistema Prodes (Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite). Os dois projetos são desenvolvidos pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de São José dos Campos (SP), que é vinculado ao MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia).

Embora o próprio MMA tenha reiteradamente esclarecido o caráter parcial dos dados, as informações de seus comunicados são hierarquizadas de modo a enfatizar as reduções nas taxas de desmatamento apresentados mensalmente pelo Deter. Em outras, palavras, ninguém pode acusar o ministro Carlos Minc de estar escondendo dados, principalmente em suas entrevistas coletivas. Quem está bobeando é grande parte da imprensa, que tem avançado sem discernimento sobre a isca que lhe é oferecida.

Histórico de manipulações

Essa isca, felizmente, não pode ser comparada com exemplos anteriores, como o da maquiagem dos dados ocorrida em 1989, durante o governo Sarney, quando o índice de 251,4 mil km2 para 1987-1988 teve de ser corrigido para 358,7 mil km2, ou seja, 42,7% de diferença (ver Dossiê neste blog). Sem chegar a esse nível de manipulação, o governo FHC fez também sua manobra em 1998, ao segurar a taxa de 17,4 mil km2/ano para 1997-1998, deixando para apresentá-la somente no ano seguinte, quando o índice caiu para 17,3 mil km2/ano, anunciando a pífia redução de menos de 1% como boa notícia. E, pior, grande parte da imprensa vendeu esse peixe do mesmo modo como o governo o vendeu.

Não se trata aqui de desconsiderar as significativas quedas de taxas anuais de desmatamento da Amazônia nem os esforços governamentais feitos para conter o ritmo de seu avanço. Basta ver as estimativas anuais desde 1988 do Prodes para constatar isso. No entanto, o histórico dessas mesmas estimativas mostra sucessivos altos e baixos desde que elas começaram a ser elaboradas nos últimos 20 anos. Em outras palavras, não dá para comemorar nenhuma redução de índice.

Sem falar no resultado acumulado ao longo desse período. Elaborado sob pesada pressão internacional, o dado maquiado de 251,4 mil km2 divulgado em abril de 1989 correspondia à áreas do Estado de São Paulo ou à do Japão. Sua correção oito meses depois para 358,7 mil km2 mostrou uma realidade igual à extensão total de Mato Grosso do Sul ou à da Alemanha. Hoje, mesmo com as reduções das taxas anuais nos períodos 1988-1991 e 2005-2007, estamos próximos do total de 700 mil km2 de área total desmatada na Amazônia, o que equivale a quase meio Amazonas completamente devastado, que é maior que as superfícies da França e Holanda somadas.

Enfim, é uma imprensa que, em sua maioria, vê as árvores mas não enxerga a floresta.

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Postagens anteriores sobre o mesmo assunto:

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sábado, 30/08/2008 at 14:14

Publicado em Amazônia, Ambiente, Política

Você é contra ou a favor?

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Já que estão na moda as enquetes pela internet, aproveito o gancho da notícia da licença ambiental prévia do Ibama para a construção da usina nuclear de Angra 3 e pergunto: você é contra ou a favor da energia nuclear? Ou melhor, você é contra ou a favor da construção dessa obra? Calma, não precisa responder.

Para ter sua própria opinião sobre essas questões ou qualquer outro tema polêmico, parece que existe uma receita eficaz: considerar primeiramente “os prós e os contras” e depois decidir se é “a favor, contra ou muito pelo contrário”. No plano da opinião pública, parece haver a crença de que essa fórmula serve para desvendar os temas mais relevantes, principalmente os que são polêmicos e têm implicações para a sociedade.

Para a imprensa, é obrigação apresentar o contraditório de qualquer posição sobre um assunto. Mas nem sempre o fiel cumprimento desse dever basta para que o leitor possa se considerar minimamente bem informado para formar sua própria opinião. Em outras palavras, o imperativo ético de ouvir o outro lado é necessário, mas nem sempre é suficiente.

Vale observar que até mesmo a obrigação do contraditório tem sido cada vez desrespeitada, e isso foi apontado como uma tendência crescente no relatório de 2005 do projeto The State of the News Media, da Universidade Columbia. Baseado em uma extensa e periódica pesquisa de campo realizada em parceria com outras universidades norte-americanas, esse estudo apontou o crescimento do que chamou de “filosofia afirmativa” da mídia de “publicar qualquer coisa, especialmente pontos de vista, ficando a checagem e a verificação para os blogs dos pares”.

Mas a questão aqui não é o fato de o contraditório ser cada vez mais desrespeitado, e sim o de que ele nem sempre é suficiente. Se examinarmos com profundidade os temas polêmicos recentes de grande repercussão, principalmente os que envolvem a ciência e o meio ambiente — como uso de células-tronco embrionárias humanas em pesquisas, alimentos transgênicos, as hidrelétricas de grande porte na Amazônia, transposição de águas do Rio São Francisco e energia nuclear —, veremos que as argumentações das partes antagônicas em relação a eles não são exatamente as duas metades do conjunto de informações relevantes a serem consideradas. Ou seja, juntando tudo que dizem os lados opostos, há muitos fatores importantes que não aparecem, inclusive porque muitas vezes existem aspectos cuja divulgação não interessa a nenhum dos dois contrários.

Um dos principais focos da discórdia em todos os temas polêmicos ligados ao meio ambiente é o chamado princípio de precaução. É principalmente em função dele que têm sido levantados argumentos contrários e favoráveis não só para obras de grande porte e para a implantação de novas tecnologias que trazem implicações para a saúde e o meio ambiente, mas também para aquelas que podem ter implicações éticas, como no caso das células-tronco.

Esse princípio tem diversas formulações, entre elas as duas transcritas a seguir.

A ausência de certeza científica devida à insuficiência das informações e dos conhecimentos científicos relevantes sobre a dimensão dos efeitos adversos potenciais de um organismo vivo modificado na conservação e no uso sustentável da diversidade biológica na Parte importadora, levando também em conta os riscos para a saúde humana, não impedirá esta Parte, a fim de evitar ou minimizar esses efeitos adversos potenciais, de tomar uma decisão, conforme o caso, sobre a importação do organismo vivo modificado destinado ao uso direto como alimento humano ou animal ou ao beneficiamento.
(Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança da Convenção da Diversidade Biológica, Artigo 11, inciso 8)

Quando atividades podem conduzir a dano moralmente inaceitável, que seja cientificamente plausível, ainda que incerto, devem ser empreendidas ações para evitar ou diminuir aquele dano. “Dano moralmente inaceitável” refere-se a dano para os seres humanos ou para o ambiente, que seja uma ameaça à vida ou à saúde humanas, ou que seja sério e efetivamente irreversível, ou injusto com as gerações presentes e futuras, ou imposto sem a adequada consideração dos direitos humanos daqueles afetados. O juízo de plausibilidade deve estar fundado em análise científica. As análises devem ser contínuas, de modo que as ações escolhidas sejam submetidas a revisão. “Incerteza” pode aplicar-se, mas não necessita limitar-se, à causalidade ou aos limites do dano possível. “Ações” são intervenções empreendidas antes que o dano ocorra que buscam evitar ou diminuir esse dano. Deve-se escolher ações que sejam proporcionais à seriedade do dano potencial, com consideração de suas conseqüências positivas e negativas, e com uma avaliação tanto da ação como da inação. A escolha da ação deve ser o resultado de um processo participativo.
(Comest – World Commission on the Ethics of Science and Technology. The precautionary principle. Paris: UNESCO, 2005, p. 13)

Em outras palavras, respeitar o princípio de precaução não implica buscar a plena certeza nem a negação absoluta da segurança de novas tecnologias ou de grandes obras, mas o esclarecimento de parâmetros sobre riscos potenciais e benefícios previstos a serem ponderados nas instâncias de decisão. E esses parâmetros devem levar em conta não apenas os aspectos técnico-científicos, mas também os de ordem econômica e social e de longo prazo. Isso não tem nada a ver com a guerra de desinformação que é travada na opinião pública pelos antagonistas dessas disputas polarizadas.

Dependendo da forma como se relaciona com o “poder” e como balanceia os prós e os contras nessas questões polêmicas, a imprensa acaba fazendo o papel de refém ou de cúmplice desse tiroteio desinformativo. Mesmo que se consiga trabalhar com um nível razoável de independência editorial, para sair dessa situação é preciso um sério esforço investigativo, e não a consideração rigorosa dos contraditórios. E isso não exige necessariamente descobrir fontes que revelem segredos guardados a sete chaves ou coisas do gênero. O trabalho jornalístico investigativo também pode ser interpretativo, por meio da contextualização, análise e reflexão sobre dados divulgados, revelando conexões relevantes entre fatos ou dados considerados de menor importância. É preciso, portanto, sem perder a visão do conjunto, mergulhar nos meandros dessas questões. Ou entregar de vez a rapadura, ouvir as partes envolvidas e fingir que presta um serviço para o leitor chamando-o para uma enquete pela internet: você é contra ou a favor?

Em tempo 1 — No plano das relações internacionais, o antagonismo entre conservação ambiental e crescimento econômico está na ordem do dia em relação à adoção de biocombustíveis, trazendo complicações inéditas para quem está acostumado a ver esses problemas sob a óptica simplista dos mocinhos versus bandidos. Uma abordagem interessante sobre esse tema foi feita pelo pesquisador britânico Paul Kennedy, professor de História e assuntos internacionais da Universidade Yale, no artigo ““La ecología, otra gran víctima de la crisis”, publicado na terça-feira (22/07) no jornal espanhol El País. Agradeço ao Blog do Alon, do jornalista Alon Feuerwerker, editor de Política do jornal Correio Braziliense, por ter sugerido esse texto.

Em tempo 2 — Se tudo correr bem, estarei nas próximas horas na estrada e, portanto, devidamente afastado dos teclados até o início da próxima semana, tentando aproveitar o fim de minhas férias.

* Tradução de Pablo Rubén Mariconda do original em inglês do artigo de Hugh Lacey, “O princípio de precaução e a autonomia da ciência”, para a revista Scientiae Studia, São Paulo, v. 4, n. 3, jul-set 2006, p. 374.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 24/07/2008 at 20:00

A Operação Satiagraha e o ‘meio ambiente’

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Localização da Floresta Nacional Itacaiunas, no Pará, indevidamente citada no relatório da Operação Satiagraha

Volto ao tema do relatório da Operação Satiagraha (a grafia usada no documento é “Sathiagraha”), da Polícia Federal, mas desta vez o assunto, que acho que vale a pena ser considerado pela imprensa, é ambiental. Ou melhor, mais ou menos ambiental.

O ponto a que me refiro está nas páginas 49 e 50 do relatório da operação, disponibilizado desde anteontem à noite (segunda-feira, 14/07) na reportagem “Operação Grampo”, do jormalista Cláudio Júlio Tognolli, publicada pela revista Consultor Jurídico. Segundo o documento, no dia 11 de março deste ano, Daniel Dantas teria autorizado a liberação de R$ 10 milhões para ser dada entrada na compra de uma propriedade chamada Fazenda Itacaiunas, no valor total de R$ 27 milhões (R$ 15 mil por alqueire), com prazo de carência de 5 anos e meio, devendo os R$ 12 milhões restantes serem pagos em 10 anos.

Na seqüência, o documento da Polícia Federal afirma:

No áudio acima, aparentemente se trata da aquisição de 1.800 alqueires da “Floresta Nacional de Itacaiunas”. A organização apresenta a estratégia de aquisição de imóveis rurais com carência de pagamento; ao mesmo tempo, mantém contato com políticos da região para através de tráfico de influência conseguir aprovação de futuro projeto de construção de um porto no estado do Pará. Aparentemente pretendem vender o projeto de construção do porto para empreendimentos estrangeiros (que ficariam encarregados da construção e pagamento dos imóveis adquiridos), auferindo lucro ilegítimo com a tráfico de influência.

A menção à Floresta Nacional Itacaiunas é um equívoco. Essa unidade de conservação é situada no município de Marabá, no sudeste do Pará. Sua área total é de 141,4 mil hectares, conforme estabelece seu ato de criação, o Decreto nº 2.480, de 2 de fevereiro de 1998. Toda Floresta Nacional (Flona) tem de ser de domínio público, como estabelece o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc) por meio de sua lei de criação:

Art. 17. A Floresta Nacional é uma área com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas e tem como objetivo básico o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica, com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nativas.
§ 1º A Floresta Nacional é de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas de acordo com o que dispõe a lei. (Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000).

Daniel Dantas não teria comprado uma área submetida a todas essas restrições. Na verdade, trata-se de uma fazenda em plena atividade agropecuária, como se pode concluir da coluna de Hiroshi Bogéia, publicada no Diário do Pará em 23 de maio, onde consta que o Grupo Opportunity comprou essa propriedade, mas por um valor maior, R$ 34 milhões”:

Mais um se vai
Mais um grande fazendeiro conta a grana e passa a propriedade para o grupo Opportunity. Desta vez foi Maurício Assunção. Há vários anos investidor em Marabá, temendo investidas cada vez mais virulentas de alguns movimentos sociais, registrou em cartório de imóvel a venda da fazenda Itacaiúnas, situada a 40 quilômetros da sede do município, com porteira fechada. Daniel Dantas assume 12 mil cabeças de gado e uma área de dois mil hectares. A grana não é das piores: R$ 34 milhões.

Céu como limite
O avanço de Daniel Dantas sobre terras paraenses não deixa de ser preocupante, devido à rapidez com que o Complexo Santa Bárbara (denominação da empresa agropecuária do Opportunity) arrebanha propriedades, rumo a múltiplos-latifúndios. Com a mais recente aquisição nas imediações do vale do Rio Vermelho, estima-se em 100 mil hectares o total de terras adquiridas para dar pastagem a algo já em torno de 520 mil cabeças de gado, número bem superior ao até então império dos irmãos Quagliato. O maior rebanho individual existente no mundo é de 600 mil cabeças, da empresa Australian Agricultural Company, conhecida como AA. Ou seja, em breve, Dantas e Cia. serão os maiores criadores do planeta.

Caminho das pedras
Daniel Dantas e Carlos Rodenburg, seu sócio, começaram a comprar terras no Sul do Pará quando a arroba do boi era de R$ 46,00. Com o tempo, demonstraram que o movimento deles era correto. Num crescente contínuo, a arroba, no final da tarde de quarta-feira, 21, foi cotada em R$ 81,00 no Estado de São Paulo. O formato de pagamento da fazenda Itacaiúnas segue linha anterior de outras aquisições: 20% à vista e o restante em oito anos, dinheiro, segundo consta, originário dos fundos do Opportunity e de grandes investidores internacionais. A fazenda Cedro foi negociada nessa configuração.

Curiosamente, uma propriedade também denominada Fazenda Itacaiunas, situada no mesmo município de Marabá, foi declarada de interesse social, para fins de reforma agrária, por meio do Decreto (sem número) de 14 de julho de 1999. Isso merece uma verificação.

Uma hipótese a ser considerada é a conexão desses dados com a transcrição, citada nas páginas 82 e 83 do relatório, de uma conversa telefônica em que um dos interlocutores afirma que uma consultaria a ser realizada seria paga “50% já e 50% na hora em que for aprovado lá no meio ambiente”. Curiosamente, essa conversa teria acontecido em 21 de maio, dois dias antes da nota no Diário do Pará sobre a compra da fazenda por Daniel Dantas. Pode não ter nada a ver uma coisa com a outra. Mas vale pena a imprensa conferir.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 15/07/2008 at 12:51

Publicado em Amazônia, Ambiente, Política

Governo decide parar de segurar dados de desmatamentos

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Parece que o Governo vai pôr fim à sua surrada prática de segurar dados de desmatamentos da Amazônia enquanto não tira da manga uma boa desculpa para eles. Por meio de boletim enviado por e-mail pela Assessoria de Comunicação do MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia), fui informado que essa pasta e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) decidiram divulgar esses índices “assim que forem calculados, deixando para apresentar sua qualificação, quando for feita, em data posterior”.

O boletim, que consiste na “Nota sobre os índices de desmatamento sobre a Floresta Amazônica”, informa também que os dados mais recentes de desmatamento da Amazônia “estão em fase de conclusão e serão divulgados pelo INPE na próxima terça-feira, 15 de julho”.

Curiosamente, anteontem (08/07), o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente (MMA) disse que os novos números de desmatamento levantados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e que estão em poder da Casa Civil, não são ruins, segundo consta na matéria da repórter Ana Paula Scinocca, da Agência Estado. A reportagem disse também que “Na semana passada, Minc disse que a chefia da Casa Civil havia pedido para ‘segurar’ a divulgação dos números”.

Sobre a decisão informada pela nota oficial de ontem, vejo que na chamada grande imprensa, salvo engano, a notícia foi dada somente pela Folha Online, e isso por conta do blog Ciência em Dia, do jornalista Marcelo Leite, que é um dos poucos que não deixam escapar informações relevantes sobre o assunto. OK, o boletim foi enviado perto do horário de fechamento (18h45), mas dava para ele ter sido noticiado. Já que não foi, vamos ver se pelo menos alguém tenta explorá-lo em relação às declarações anteriores do ministro do Meio Ambiente. Afinal de contas, os dados estão ou não estão prontos?

Sejam quais forem os dados a serem apresentados no próximo dia 15, é preciso sempre cautela com esse tipo de índice. Aliás, salvo engano, talvez tenha sido este blog a voz mais enfática em outubro de 2006, com o post “Amazônia: ainda é cedo para comemorar”, e em março de 2007, com ONG engole retórica de queda de desmatamento”.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 10/07/2008 at 10:05

Publicado em Amazônia, Ambiente, Política

Impacto ambiental, colunismo e anacronismo

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Pela primeira vez, entrei no blog da colunista Tereza Cruvinel, de O Globo. Tive essa curiosidade porque, ao acessar a versão online do jornal, deparei-me com o link do blog dela, e lembrei que há poucas semanas ela engrossou o coro dos afoitos pelo rápido licenciamento ambiental da construção das usinas do Rio Madeira.

O brado da colunista pela liberação das obras sob a retórica da necessidade de investimentos urgentes em infra-estrutura — entenda-se resolver tudo com megaconstruções — talvez não tenha sido um mero desdobramento da Operação Madeira, como bem explicou o jornalista Carlos Tautz. Vejam a performance de Cruvinel, abrindo o coração em seu post:

Não é fácil amar Brasília, a fria, a distante, num país que não se orgulha de tê-la plantado aqui, onde só os lobos uivavam, para que a civilização dos caranguejos, o Brasil que vivia agarrado à costa, pudesse apossar-se de sua vastidão esquecida, empurrando a civilização costeira até a Amazônia.

Longe de mim dar uma de ecochato com o apelo ao chavão da “cumplicidade com o modelo vigente” e coisas do gênero. Mas é preciso estar muito por fora do que o mundo aprendeu nas últimas décadas para dizer uma bobagem como essa, que nem mesmo as grandes corporações se atrevem a propalar.

O problema não está na menção à “civilização dos caranguejos”, inspirada nas palavras do primeiro historiador brasileiro, Frei Vicente de Salvador (1564-c.1635), em sua História do Brasil, mas no apelo ao bordão do avanço sobre a “vastidão esquecida, empurrando a civilização costeira até a Amazônia”.

Tamanho é o anacronismo dessa retórica, que ela se enquadra perfeitamente no espírito predatório brilhantemente caracterizado por Sérgio Buarque de Holanda em sua obra Raízes do Brasil e por Warren Dean em seu livro A Ferro e Fogo: A história da devastação da Mata Atlântica.

Vale lembrar como o tema das usinas do Madeira tem sido tratado por grande parte do jornalismo opinativo. Por exemplo, no Globo, na edição de 26/04, o editorial “Risco ambiental” (pág. 6) afirmou que excesso de burocracia somado com a ação de “grupos ambientalistas radicais” paralisa inúmeros projetos do PAC, e citando o caso do Madeira como exemplo, afirmou: “o Ibama já avisou que não há sequer prazo para decidir sobre a licença”.

Por outro lado, nessa mesma edição, a coluna de Míriam Leitão “Conflito das usinas” pôs os pingos nos is:

Pelos próprios cálculos de vida útil das usinas do Rio Madeira, ao final de dez anos, os sedimentos seriam 10% do lago, ou seja, metade estaria assoreada. E quem disse isso não foi o Ibama, mas o estudo de impacto ambiental feito pelas empresas que querem construir as hidrelétricas. Por todas as dúvidas, o Ministério do meio Ambiente ainda não tem prazo para conceder a licença prévia das usinas.

No dia seguinte (27/04), a coluna de Tereza Cruvinel (“Usinas: cruz e caldeirinha”, pág. 3), sem fazer as contas com os números apresentados por sua colega, fez o que nem o editorial do dia anterior se dispôs a fazer, embarcando na chantagem da retórica do apagão energético. Disse que sem as usinas do Madeira será preciso apelar para Angra 3 e mais térmelétricas a carvão, impedindo o Brasil de honrar os compromissos de redução de emissão de gases-estufa.

Mas, nessa mesma edição, pelo segundo dia consecutivo, Míriam Leitão bateu novamente como se deve nessa retórica chantagista em sua coluna “MMA x MME”, descaracterizando as usinas do Madeira como alternativa viável e, de quebra, lembrando o caso do estudo de impacto ambiental da Usina Hidrelétrica de Barra Grande, no vale do Rio Pelotas, na divisa entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que começou a operar em 5 de julho de 2005:

Num país normal, os autores de um estudo tão mentiroso seriam responsabilizados criminalmente. No Brasil, valeu a lei do fato consumado. Quando se descobriu a mentira, a barragem estava pronta e a mata levou a pior: foi alagada.

E é assim que nosso país tem avançado sobre sua “vastidão esquecida”.

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Written by Mauricio Tuffani

terça-feira, 15/05/2007 at 9:03

Publicado em Ambiente, Jornalismo

Mídia omite decisões judiciais sobre transgênicos

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Apesar do gancho oferecido pelo confronto entre a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) e o Greenpeace Brasil, a chamada grande imprensa brasileira não fez, ao longo dos últimos dez dias, nenhuma referência a uma importante reportagem veiculada pela revista norte-americana Science em sua edição de 23 de fevereiro: três tribunais federais dos Estados Unidos exigiram estudos de impacto ambiental para plantios experimentais de sementes transgênicas.

Não é o caso de desconhecimento geral da reportagem “U.S. Courts Say Transgenic Crops Need Tighter Scrutiny” (Cortes dos EUA afirmam que sementes transgênicas precisam de exame mais rigoroso).1 Editada pela AAAS (American Association for the Advancemente of Science), a revista, que é semanal e se dedica especialmente à publicação de artigos de cientistas, mantém a seção de reportagens “News of the week”, cujos textos são compreensíveis pelo público não especializado. Jornalistas que fazem cobertura regular de ciência e são inscritos junto ao serviço de divulgação da revista têm acesso ao conteúdo integral.

Além do website semanal da Science, a reportagem foi divulgada no Brasil, no dia 28, quarta-feira — dessa vez com o texto integral — para jornalistas, ambientalistas e especialistas em meio ambiente por e-mail do atento David Hathaway, da ONG AS-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa), ferrenha opositora dos transgênicos. Eu, também, enviei e-mails no dia seguinte para cinco listas de discussão de jornalistas, perguntando se sabiam de alguma divulgação da notícia. Nem assim teve repercussão.

Assinada pelo jornalista Dan Charles, a matéria comenta as decisões de cortes federais distritais em San Francisco, na Califórnia (12/02/2007), na capital Washington (05/02) e no Havaí (agosto de 2006), todas elas referentes a ações propostas pela organização não governamental Center for Fod Safety contra aprovações de plantios experimentais de sementes transgênicas pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o ministério da agricultura do país).

A primeira sentença suspendeu a aprovação pelo USDA do plantio da alfafa Roundup Ready, desenvolvida pela Monsanto e pela Forage Genetics International, destinada a dar resistência ao herbicida glifosato. Em sua sentença, o juiz federal distrital Charles Breyer afirmou, segundo a reportagem, que o USDA violou o (National Environmental Protection Act (Lei Nacional de Proteção Ambiental) por não ter exigido previamente estudo de impacto ambiental e que essa missão se agravara pelo fato de já existirem plantios de soja e de milho transgênicos resistentes ao glifosato.

Will Rostov, procurador da ONG e autor das três ações, qualificou a decisão como “mais um prego no caixão” da abordagem omissa do USDA em relação à regulamentação. O advogado Stanley Abramson, que trabalha para diversas empresas de biotecnologia, anunciou que vai recorrer das três decisões em cortes superiores.

O segundo veredito, diz a matéria, anulou a aprovação do USDA de plantios em uma área de 163 hectares em Madras, no Oregon, de sementes para gramados (“turf grass”), e a terceira sentença referiu-se ao licenciamento pelo ministério de plantios, também experimentais, de variedades de cana-de-açúcar e de milho desenvolvidas para produzir fármacos “sem considerar as numerosas espécies ameaçadas do estado”.

Para quem vem acompanhando a questão dos alimentos transgênicos na mídia, não é estranha a omissão a essa reportagem, pois o tema se tornou uma guerra de desinformação. Com o perdão pela auto-citação e pelo comodismo de não querer escrever a mesma coisa com outras palavras, quase nada mudou desde que eu disse há quatro anos, em outro artigo:

Dependendo da fonte, o leitor, telespectador ou ouvinte estará convencido de que já está provado que os produtos transgênicos são inofensivos à saúde e ao meio ambiente, ou justamente do contrário; também estará convencido de que o Brasil pode “perder o bonde da História” para impulsionar sua agricultura e ganhar mercados se não cultivar esses alimentos, ou de que o país poderá se beneficiar da preferência de consumidores europeus que rejeitam essa inovação da genética.

Diversas metáforas e comparações têm sido usadas por ambos os lados: os contrários aos transgênicos sendo mostrados em pé de igualdade àqueles que em 1904 promoveram a grande revolta contra a vacina da varíola no Rio de Janeiro; e os favoráveis a esses alimentos comparados como os pesquisadores otimistas que apoiaram o uso do inseticida DDT, hoje proibido em vários países por seus efeitos danosos à saúde e ao meio ambiente. (“Os transgênicos e a guerra da desinformação”, Boletim Galileu, 13/abr/2003)

Raros têm sido na mídia os apelos ao bom senso e ao equilíbrio nesse tema. Raramente são publicadas reportagens ou artigos elaborados com consciência da complexidade que ele envolve, em seus aspectos científicos, ambientais, econômicos, sociais e até geopolíticos. Na contramão dessa tendência, a Folha publicou neste domingo (04/03), no caderno Mais!, duas ótimas resenhas do seu colunista Marcelo Leite, que estão disponíveis na web no post “Transgênicos na estante”, em seu blog Ciência em Dia.

Uma importante contribuição para um verdadeiro debate sobre os alimentos transgênicos no Brasil está disponível desde junho do ano passado. Trata-se do artigo “Transgênicos e percepção pública da ciência no Brasil”,2 de Julia S. Guivant, professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina e coordenadora do Núcleo em Sustentabilidade e Redes Agroalimentares (NISRA).

Em seu artigo, a pesquisadora da UFSC analisa diversas pesquisas sobre percepções de consumidores, produtores, cidadãos em relação ao uso de alimentos transgênicos, estabelecendo comparações entre as desenvolvidas no Brasil, na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. Segundo ela, “a falta de pesquisas, o seu número limitadíssimo é aqui considerado uma evidência para caracterizar a trajetória da polêmica no Brasil, com uma significativa ausência de participação pública nos debates sobre transgênicos”.

O artigo da professora Julia S. Guivant poderia pelo menos servir para arejar as cabeças dos chamados formadores de opinião.

Referências

  1. Science 23 February 2007: Vol. 315. no. 5815, p. 1069
  2. Ambiente & Sociedade vol.9 no.1 Campinas Jan./June 2006

Correção (05/03, 13h45): Cometi um erro na versão original deste post em dois trechos:

1) No segundo parágrafo, após “público não especializado” os dois períodos seguintes, que foram suprimidos: “O sumário de cada edição é divulgado por meio de boletins distribuídos por e-mails para jornalistas de vários países. Praticamente todos os grandes veículos de comunicação possuem profissionais que recebem esses boletins.”

2) No início do terceiro parágrafo, na primeira linha, substituí “boletim semanal” por “website”. Essas alterações foram feitas porque a reportagem em questão não constou no boletim semanal da revista. Mas minha crítica à atitude da mídia em geral não se altera, pois a reportagem esteve disponível no site da Science desde o dia 23/02, e seu conteúdo integral circulou por e-mail entre centenas de jornalistas de todo o país desde o dia 28/02. Desse modo, houve omissão da mídia, seja por dificuldades operacionais (como sobrecarga de trabalho), despreparo (jornalistas que nem têm acesso próprio ao assunto), negligência (por não terem conferido o site da Science desde o dia 23/02 nem os e-mails de David Hathaway ou o meu, ambos com identificador de assunto bem explícito desde o dia 28/02), partidarismo ou até mesmo por terem avaliado que havia notícias mais importantes para se divulgar. De um jeito ou de outro, o leitor saiu perdendo.

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Written by Mauricio Tuffani

domingo, 04/03/2007 at 17:48

ONG engole retórica da queda do desmatamento

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Só mesmo a convicção de que há problemas seriamente encobertos para me provocar a perpetrar mais um post nest blog devezenquandário.

O jornal francês Le Monde, em sua edição de ontem (28/02), ressaltou a reação do presidente Lula à proposta de criação da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente, feita pelo presidente francês Jacques Chirac no começo de fevereiro. A matéria “Le Brésil redoute l’instauration de critères écologiques internationaux”, assinada por Annie Gasnier, correspondente no Rio de Janeiro, destaca que Lula desencadeou uma campanha para “exigir dos países ricos” a redução da poluição provocada por eles.

O que me chamou a atenção na matéria foi o comentário, atribuído pela reportagem ao Greenpeace Brasil, sobre a evolução dos dados de desmatamento da Amazônia. O governo, segundo a matéria, “não aceita as críticas internacionais contra a degradação da floresta tropical no Brasil. Ele opõe a elas estatísticas recentes, que mostram, entre 2003 e 2006, uma redução de 52% do desmatamento.”

Diz o texto do Le Monde que o Greenpeace Brasil reconhece essa queda, atribuída principalmente às ações governamentais contra a exploração ilegal da madeira, mas que a entidade se preocupa com o fato de as queimadas na Amazônia e seus “enormes focos de fumaça” representarem 75% da poluição no Brasil e colocarem o país no quarto lugar no ranking mundial dos emissores de dióxido de carbono.

O comentário atribuído ao Greenpeace Brasil está correto e é pertinente, tanto no que se refere a reconhecer o esforço do governo federal, quanto no que diz respeito à gravidade da contribuição das queimadas para o aquecimento global. Mas o que me preocupa é o que a entidade ambientalista não disse ou, se disse, a matéria não registrou – o fato de que, mais uma vez, estamos diante de estatísticas que não devem ser comemoradas de imediato.

A explicação de minha atitude antiotimista com relação ao governo e de “pegar no pé” do Greenpeace Brasil está disponível, para os que estiverem com paciência de conferi-la, no post anterior (“Amazônia: ainda é cedo para comemorar”), escrito há algum tempo — e bota tempo nisso.

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Written by Mauricio Tuffani

quinta-feira, 01/03/2007 at 7:57

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